Festival do Rio

Drops | Festival do Rio

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'Tio Boonmee', meu favorito do Festival do Rio

Dias 5, 6 e 7

Nosso fantástico século 21 | Neowa naui 21 segi | Ryu Hyung-ki | 2/5 | O cineasta coreano fotografa a metrópole como quem testa ideias para um filme de ficção científica – mas o visual cinzento serve a uma narrativa desapaixonada, sem viço, que larga os personagens (e o espectador) à deriva. É a estreia de Hyung-ki, o que talvez explique a falta de jeito.

The Runaways – Garotas do rock | Floria Sigismondi | 2/5 | Uma banda de rock pioneira – já que formada apenas por meninas, nos anos 70 – merecia mais do que uma cinebio falsamente ousada (visual à la Boogie nights, narrativa que em nada trai o modelo de fitas sobre estrelas que sobem e desabam). De qualquer modo, Kristen Stewart e Dakota Fanning vão com sede ao pote. 

Viúvas sempre às quintas | Las viudas de los jueves | Marcelo Piñeyro | 2.5/5 | Um episódio de Desperate housewives sobre a crise econômica argentina. Não deixa de ser curioso (mas me parece o pior de Piñeyro).

Nossa vida exposta | We live in public | Ondi Timoner | 3/5 | A trajetória de Josh Harris é tão bizarra e cheia de surpresas extravagantes que me perguntei em vários momentos se este filme não seria um mockumentary: de geniozinho milionário da internet a cobaia de loucas experiências virtuais, o homem conseguiu prever a onda de exposição da intimidade via web… e foi engolido por ela. Grande história, que o filme documenta sem grandes insights.

!!! Armadillo | Janus Metz | 4/5 | Um filme de guerra espantoso (crueza e lirismo à queima-roupa, e algumas das digressões visuais mais chapantes deste festival) que acompanha soldados dinamarqueses numa missão no Afeganistão. A paranoia e a aflição se intensificam no decorrer da narrativa – como de praxe em documentários do gênero. O que me embasbaca, no entanto, é descobrir a motivação dos personagens, tipos comuns que poderiam estar em casa jogando Playstation, mas vão para o front em busca de “aventura e camaradagem”.

A solidão dos números primos | La solitudine del numeri primi | Saverio Costanzo | 1.5/5 | Dois personagens outsiders, cheios de manias esquisitas, solitários, infelizes, adoráveis. E claro: ESPECIAIS. Fofice-loser para fãs de Amélie Poulain. Sob medida para virar hit de festivais.

Quebra-cabeça | Rompecabezas | Natalia Smirnoff | 3/5 | Um filme orgulhosamente pequeno (contraponto necessário a um cinema argentino cada vez mais hipnotizado pelo “padrão de qualidade” que não ofende a Academia de Hollywood) que se concentra no que lhe parece essencial: a ótima atuação de María Onetto e um roteiro com peças que se encaixam.

Amores imaginários | Les amours imaginaires | Xavier Dolan | 2/5 | Cinema juvenil tanto no tema (amores idealizados, não correspondidos, impossíveis) quanto no formato (uma colagem de referências cool, de Tarantino a Kar-wai, passando obrigatoriamente por Godard e Truffaut do início dos anos 60). Muito glacê para pouca massa – outro canditato a hit de festivais. Pode parecer increditável, mas a cena final confirma: já podemos falar num sub-Honoré.                  

Dias 3 e 4

Dois irmãos | Dos hermanos | Daniel Burman | 2/5 | Ainda não consigo engolir a ideia de que Burman se contenta em dirigir comédias afetuosas (e inofensivas) sobre relações familiares. O público dessas cinecrônicas parece mesmo imenso (vi o filme numa sessão lotada de meio-dia, com fortes aplausos ao fim), mas, desde Direito de família, fico com a impressão de que o cineasta encontrou uma zona de conforto de onde rejeita sair. Boas atuações, no entanto.

!!! Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas | Lung Boonmee raluek chat | Apichatpong Weerasethakul | 5/5 | É, como Mal dos trópicos, um passeio numa Tailândia rural, misteriosa, onde o mundano e o transcendental dividem um mesmo espaço. Mas, se naquele filme Apichatpong dividia a narrativa em duas partes (uma mais realista, outra mais abstrata), em Tio Boonmee o cineasta derruba essa parede entre os “mundos” e cria um fluxo contínuo de delírio, crença e cenas do cotidiano. Não tem como fugir do clichê: o efeito é de transe, de alucinação mesmo. Mesmo acostumado às habilidades hipnóticas do diretor, saí do cinema transtornado – é daqueles filmes que nos abduzem.

The killer inside me | Michael Winterbottom | 2.5/5 | O olhar cínico e desapaixonado de Winterbottom para o noir (como se estivesse estudando o gênero) me lembra algo dos irmãos Coen, mas o sujeito ainda não me convenceu de que tem algo de pessoal a comentar sobre as f’órmulas cinematográficas que aplica. Quem é Winterbottom? Apesar de conhecer quase toda a filmografia do diretor, ainda não sei como responder essa pergunta.

Scott Pilgrim contra o mundo | Edgar Wright | 3.5/5 | Wright é dos poucos diretores que me fazem rir feito criancinha (e quase chorar, como na cena que usa I heard Ramona sing, do Frank Black, como tema para a venenosa Ramona Flowers). Michael Cera talvez não seja o ator certo para interpretar Scott Pilgrim, o geek bom de briga. Mas quem seria? O tilt do filme nem me parece culpa do ator ou do diretor: tal como a HQ, a primeira parte da narrativa (30 minutos de paraíso) perde a verve quando a trama vira um joguinho de luta.

Poesia | Shi | Lee Changdong | 3.5/5 | Um filme que, como os personagens principais, desvia o tempo todo do conflito principal – como quem fecha os olhos para não encarar a cena de um acidente. A catarse do desfecho compensa os muitos momentos frouxos da narrativa, que se alonga demais. Ganhou o prêmio de roteiro em Cannes, mas merecia mesmo era ter vencido o de melhor atriz.

Stones in exile | Stephen Kijak | 2/5 | Qualquer documentário sobre a gravação de Exile on Main Steet será no mínimo interessante, mas este me pareceu uma peça de divulgação “oficial” que pouco acrescenta a tudo o que conhecemos sobre o caso. E, em econômicos 60 minutos, soa superficial. 

Dia 2

Tournée | Mathieu Amalric | 3/5 | As fanfarronices das atrizes no palco são bem mais poderosas do que os dramas familiares do protagonista, e Amalric é generoso (e inteligente) o suficiente para não podá-las na montagem. Mas vocês têm certeza de que ele levou o prêmio de melhor direção em Cannes?

A vida durante a guerra | Life during wartime | Todd Solondz | 2/5 | A fúria de Solondz não cessa jamais, e este filme contém alguns dos diálogos mais cruéis que saíram da “caixinha de maldades” do diretor. Mas a continuação de Felicidade (com elenco totalmente diferente) só explicita o quanto este cinema, ainda que tenha se tornado mais áspero e inflexível, não sabe muito o que fazer além de reaproveitar preguiçosamente as próprias ideias. 

Amigo | John Sayles | w/o | Primeira desistência da Mostra: a cópia embaçada (em DVCam), somada à minha completa desatenção nos primeiros 20 e 30 minutos, me derrubaram. Mas parece curioso (Sayles filma a guerra nas Filipinas) e prometo voltar a ele. 

Ano bissexto | Año bisiexto | Michael Rowe | 1/5 | No fim da sessão, uma senhora tentou me convencer de que este é o melhor filme da Mostra: “Ele não é pra qualquer bico. Tem psicologia, psiquiatria… É uma loucura”, ela se esforçou. Me senti um cego: tudo o que consegui ver na tela foi uma personagem infeliz sendo torturada implacavelmente (pela vida, pelo namorado macabro, por ela própria e principalmente pelo diretor). Sabe-se lá por que, venceu a Câmera de Ouro em Cannes.

Contos da era dourada | Amintiri din epoca de aur | Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru | 3/5 | Um raro filme de episódios que preza por uma unidade não só temática (eles encenam as lendas urbanas da ditadura de Ceausescu) mas formal. Os capítulos são filmados com a mesma lente realista de um 4 meses, 3 semanas e 2 dias, mas com a ironia surreal de um A leste de Bucareste. Isto é: um portfólio simpático (ainda que talvez confortável demais) para o “novo cinema romeno”.         

Dia 1

!!! Somewhere | Sofia Coppola | 4/5 | É o mais arredio entre filmes de Sofia Coppola (os 15 minutos iniciais, com cenas longas que se espreguiçam infinitamente, chegam a lembrar Vincent Gallo e o Gus Van Sant de Last days e Elefante), mas também me parece uma continuação para Encontros e desencontros, com um protagonista perdido numa bolha de sucesso e tédio, quase descolado do tempo e do espaço (e as cenas da viagem a Itália rendem comparações irresistíveis com aquele outro filme) e que só consegue enxergar a própria crise quando entra em contato com outra pessoa (a filha). A descoberta é narrada com sutileza até um desfecho amarradinho que quase estraga tudo. Logo em seguida, nos crédios, entra Love like a sunset, do Phoenix – e o filme volta às nuvens.

Carancho | Pablo Trapero | 2/5 | Uma decepção. As cenas de violência ardem os olhos, mas visual do filme me parece polido e impessoal (mais para O segredo dos seus olhos, menos para Família rodante ou Leonera) e o desfecho é digno de Iñárritu.

Rubber | Quentin Dupieux | 3/5 | Uma metagozação (e, se a palavra soou grosseira, faz todo o sentido nesse contexto) que soa como um videoclipe alongado do Spike Jonze – isto é: nonsense espertinho com uma ou outra boa ideia visual. Resumindo a trama: um pneu assassino à solta no deserto americano.

La nostra vita | Daniele Luchetti | 2.5/5 | Elio Germano venceu prêmio em Cannes pelo papel do pai de família que perde a esposa e tem que cuidar dos filhos. É uma atuação muito segura (ainda que a cena principal do personagem tente ganhar o espectador literalmente no grito), mas fiquei com a impressão de já ter visto umas cinco versões melhores para este melodrama italiano – e sem a necessidade da câmera tremida.

!!! Film socialisme | Jean-Luc Godard | 4/5 | Um Godard mais criptografado do que de costume (admito que não captei nem 10% das referências políticas, literárias, filosóficas, geográficas) e ainda fascinante. A composição de cores em digital me impressionou muito. No mais, sem comentários.

Êxodo

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Alguém aí não foi pro Festival do Rio?

(Boas coberturas da mostra na Paisá, na Cinética e no blog do Filipe. Até o Guilherme Alves parece ter abandonado o estilo telegráfico por um tempinho, então é bom que aproveitemos. E, claro, tem um certo quadro de cotações que nos ensina anualmente que a vida é dura e nem tudo é festa)