Festival de Brasília

top 100 | Os filmes da minha vida (10)

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Ei, amiguinhos, tudo pronto pra mais um episódio do ranking dos 100 filmes mais especiais da minha vida? Hoje serei breve porque este é um fim de semana movimentado, muita coisa está acontecendo, e não dá pra perder tempo com esse tipo de hobby.

Antes, um resuminho das regras do jogo (imaginando, por exemplo, que você tenha caído neste blog exatamente hoje, por falta de sorte): esta é uma lista com filmes que não são necessariamente os melhores, mas aqueles que, de alguma forma, marcaram a minha vida. Nos textinhos de cada post, tento explicar por que eles foram tão importantes pra mim.

Tentei achar semelhanças entre os filmes de hoje e não as encontrei. Se você quiser procurá-las, be my guest. Abraço.

082 | A Outra Face | Face/Off | John Woo | 1997

Na época da estreia, confesso que não dei muita bola pro filme: os elogios para a fase americana de John Woo me pareciam exagerados (eu havia detestado O Alvo), e eu era um menino que procurava realismo até no filme de ação mais surreal (como assim? Eles trocaram os rostos?). Alguns anos depois, quando passei a me interessar justamente pelos filmes mais delirantes, A Outra Face se tornou uma referência que usei para defender as liberdades criativas que eu identificava em fitas de gênero tidas como descartáveis. Hoje, o vejo simplesmente como um dos grandes filmes dos anos 90. As interpretações de Travolta e Cage (um imitando o outro, e com muito rigor!) são inesquecíveis.

081 | Deus e o Diabo na Terra do Sol | Glauber Rocha | 1964

Ainda me impressiono quando lembro que, apesar de ter me matriculado em quase todas as disciplinas do curso de cinema da Universidade de Brasília, nenhum professor exibiu Deus e o Diabo na Terra do Sol. Um lapso que, no fim das contas, se mostrou até muito positivo: assisti ao filme pela primeira vez numa sessão especial de encerramento do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, na tela grandalhona do Cine Brasília. Não sei se devo tratá-lo como o melhor filme de Glauber, desconfio que não seja o melhor brasileiro, mas ainda o vejo como o maior filme de aventura do diretor. E um que me parece criar o projeto de um país cinematográfico: em amarelo, verde, preto e branco. Uma sessão tão forte que, quando acenderam as luzes, eu não fazia mais a menor questão de saber os nomes dos vencedores daquele festival.

Diário | Superoito no Festival de Brasília

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Anotações sobre os filmes do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Minha semana será integralmente dedicada à mostra. Infelizmente, não terei tempo para escrever textos grandes. Se eu sobreviver, estarei dentro deste post até quinta que vem.

'Lula, o filho do Brasil': começamos mal

24/11

Premiação | Era o que se esperava do júri (formado por, entre outros, Caio Gullane e Flávio Tambellini): a consagração de um cinema de forte apelo popular. É proibido fumar levou oito prêmios do júri oficial (melhor filme, roteiro, atuações e crítica, entre os principais) e Filhos de João ficou com um prêmio especial de júri e júri popular. Evaldo Mocarzel levou o Candango de direção por Quebradeiras e A falta que me faz foi ignorado. Entre os curtas, uma surpresa: Ave Maria, de Camilo Cavalcante, levou o prêmio principal. Mas Recife frio, do Kleber Mendonça Filho, saiu com júri popular, direção, crítica e o Saruê, entregue pela equipe do Correio Braziliense ao melhor momento da edição.

23/11

A falta que me faz | Marília Rocha | 7 | A história do encontro entre uma equipe de cinema e quatro adolescentes da Serra do Espinhaço, no norte de Minas. Aparentemente simples (e plácido), mas de engenharia complexa, o doc impressiona pela relação de cumplicidade criada entre quem faz o filme e as pessoas que aparecem na tela. No fim da viagem, notamos que não há mais distância entre esses e aqueles: as incertezas das personagens são também nossas. O melhor longa exibido na edição do festival – e um que eu gostaria de ver novamente.

E os curtas Azul (5), de Eric Laurence, que me lembrou muito o lirismo calculado de Casa de areia, e o doc sobre o universo brega Faço de mim o que quero (4), de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, que é uma colagem de tipos excêntricos.

Hoje sai o resultado. Espero que Recife frio e A falta que me faz levem alguma coisa.

22/11

É proibido fumar | Anna Muylaert | 6 | Uma crônica paulistana saborosa que, subitamente, desvia para uma trilha mais sombria e menos plausível. Soa como uma versão soft de Durval discos – aqui, também prefiro o lado A ao lado B.

E os curtas Carreto (6), de Marília Hughes e Claudio Marques, que acerta no tom de delicadeza, e A noite por testemunha (4.5), de Bruno Torres, que reconstitui um caso chocante (o assassinato de um índio em Brasília por um grupo de adolescentes de classe média) com perplexidade e truques visuais de fitas de ação.

21/11

Homem mau dorme bem | Geraldo Moraes | 4 | Folhetim de beira de estrada – truncado e ingênuo demais para ser levado a sério  (mas, em matéria de humor involuntário, é nota 10).

E os curtas Verdadeiro ou falso (5), de Jimi Figueiredo, que é uma piada cínica sobre relações amorosas, e o genial Recife frio (8.5), de Kléber Mendonça Filho, um falso documentário hilariante (e assustador) que imagina um futuro friorento para a cidade pernambucana. Um dos melhores filmes que vi no Festival de Brasília desde quando acompanho a mostra, em 1992 (e o Kléber usa extamente a mesma sinfonia de Beethoven que rola em Presságio: mera coincidência?).

20/11

Quebradeiras | Evaldo Mocarzel | 5.5 | Depois de dirigir uma dezena de documentários socialmente inflamados (com muitas entrevistas, diálogos), Mocarzel tenta uma “ruptura radical” e usa tom lírico, câmeras estáticas, planos longos, cenas de natureza exuberante, silêncios e tudo o que supostamente distancia a arte do jornalismo. Esforço curioso, mas fico com a impressão de que o cineasta troca uma fórmula por outra.

E os curtas Dias de greve (5.5), de Adirley Queirós, que tem o mérito de filmar Ceilândia de dentro para fora (mas a ficção parece genérica), e Ave Maria ou Mãe dos sertanejos (6), de Camilo Cavalcante, que edita imagens do sertão num fluxo musical que deixa tudo mais interessante.

19/11

Perdão, mister Fiel | Jorge Oliveira | 5 | Uma boa reportagem sobre o caso Manoel Fiel Filho e a tortura militar no Brasil – o depoimento do Lula, por exemplo, vale mais que todo o longa do Fábio Barreto. Mas a “aula de História” mostra total desinteresse pela linguagem do cinema e, por isso, parece deslocada no festival. A cenas de dramatização dos fatos, no estilo Linha direta, são risíveis.

E os curtas Bailão (6), de Marcelo Caetano, que é um doc com ótima ideia (dar voz a uma geração que nasceu e continua à margem de tudo) e só, e Água viva (4), de Raul Maciel, projeto universitário cheio de metáforas “criativas” e “sensíveis” sobre o desabrochar da sexualidade.

18/11

Filhos de João, admirável mundo novo baiano | Henrique Dantas | 5.5 | O filme não é tão sofrível quanto o título: existe uma qualidade doméstica, afetuosa neste doc sobre os Novos Baianos que quase compensa a superficialidade do projeto. Para iniciados, é dispensável (e o excesso de trechos engraçadinhos de depoimentos me lembrou Glauber, o filme – Labirinto do Brasil). Mas é um retrato arejado, leve, apesar de tudo.

E os curtas Homem-bomba (4), de Tarcísio Lara Puiati, que falha no salto do realismo para a fantasia, e Amigos bizarros do Ricardinho (5.5), de Augusto Canani, que é divertido e tudo, mas deveria se chamar Quero ser Wes Anderson.

17/11

Lula, o filho do Brasil | Fábio Barreto | 4.5 | Acompanho o Festival de Brasília desde 1992 e esta foi a sessão de abertura mais concorrida (e desorganizada) que vi. O Teatro Nacional, que lota com cerca de 1,3 mil pessoas, recebeu 1,8 mil convidados – com área VIP de 400 lugares para o governo federal. Antes da projeção, Luiz Carlos Barreto fez um discurso apocalíptico e avisou que todos os espectadores ali entulhados corriam perigo de tragédia. Ninguém deu bola para a recomendação, muitos o vaiaram e o filme começou nesse clima de excitação e feira-do-milho típicos do festival. O curioso é que, durante o filme, a plateia não se manifestou em nenhum momento – no desfecho, os aplausos foram protocolares. O que aconteceu?

O longa tem sim potencial para blockbuster (sabemos que o público adora ir ao cinema para conhecer histórias de pessoas que ele já conhece), é produzido com a “sofisticação” de uma minissérie da Globo e carrega no melodrama (volta e meia, acaba despencando no dramalhão mesmo). Muitos compararam a 2 filhos de Francisco e, de fato, o filme de Zezé & Luciano parece ter sido tomado como molde: a trama simplifica a biografia do presidente fechando o foco na relação entre Lula e a mãe, interpretada por Glória Pires. Mas acredito que, se Breno Silveira dirigiu aquele filme com visível comprometimento (é, apesar de tudo, um esforço que soa sincero), Fábio Barreto recorta e cola trechos da trajetória de Lula como quem soma peças de uma máquina numa linha de montagem. Não é tão emocionante quanto assistir a cenas de arquivo da posse (que, aliás, são usadas no filme).

Pior: a jornada toda é narrada de forma unidimensional e, por isso, enfadonha. A família Barreto faz uma ode tão escancarada a Lula (que representa todas as qualidades mais nobres do povo brasileiro: teimosia, determinação, capacidade de superação, etc) que, ainda que não tenha sido preparado como propaganda eleitoral, este filmezinho oficioso pode muito bem ser usado como tal.

Festival de Brasília | Vencedores

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fobiavence

Melhor filme (júri oficial): Filmefobia, de Kiko Goifman

Melhor filme (júri popular): À margem do lixo, de Evaldo Mocarzel

Diretor: Geraldo Sarno, Tudo isso me parece um sonho

Ator: Jean-Claude Bernadet, Filmefobia

Atriz e atriz coadjuvante: elenco feminino de Siri-Ará

Prêmio de crítica: Filmefobia

O restante da lista de vencedores está neste link aqui.

Ou seja: os filmes não entusiasmaram, mas os jurados (de longe o destaque da mostra) foram extremamente sensatos ao não se deixar levar pelo oba-oba do público e consagrar os longas mais “difíceis” do festival: Filmefobia, mais odiado que amado, ficou com cinco prêmios (filme, montagem, direção de arte, ator e crítica) e Tudo isso me parece um sonho levou direção e roteiro.

Favoritos da platéia, À margem do lixo e O milagre de Santa Luzia ficaram com, respectivamente, júri popular (e prêmio especial de júri) e trilha sonora.

Foi como se, aos 46 do segundo tempo, o júri tivesse decidido corrigir a rota desenhada pela comissão de seleção dos longas, que privilegiou documentários acadêmicos a criações mais arriscadas. Deram a vitória ao risco, à (tentativa de) invenção.

Para mim, não poderia ter sido melhor. Aliás, até eu, um dos poucos defensores de Filmefobia por aqui, fiquei surpreso com a coragem do júri. Em outras edições do festival, o longa de Goifman talvez teria de se contentar com um prêmio especial. Este ano, a premiação caiu como um manifesto a favor de um cinema que não se deixa amarrar pela função meramente informativa. Por obras um tantinho complexas, enfim.

A equipe do jornal onde trabalho decidiu entregar o Prêmio Saruê (para o melhor momento do festival) a Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte. Também funcionou como uma alfinetada na seleção dos longas: foi a primeira vez que escolhemos premiar um filme ausente da mostra competitiva.

No mais, a insatisfação com o festival é generalizada e até Vladimir Carvalho, que participou do júri, escreveu um artigo sobre a crise do evento. Num trecho, ele protesta: “O Festival de Brasília envelheceu, esclerosou-se e precisa urgentemente de uma reforma ampla, geral e irrestrita”. No texto, o documentarista chega a criticar o excesso de documentários na competição. “O júri enfrentou sérios problemas porque não havia filmes para premiar nas categorias previstas no regulamento”, contou.

“Uma sombra escura desceu sobre este que já foi o maior e mais importante festival de cinema”, ele lamenta. Está coberto de razão.

Festival de Brasília | Encerramento e apostas

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O júri do Festival de Brasília ficou trancado durante toda a madrugada para escolher os vencedores da edição. Fiquei sabendo que o encontro não resultou em bate-boca, mas numa negociação demorada. “E o festival nem estava tão complexo assim”, ouvi de um jurado. Posso imaginar a dificuldade.

Numa mostra em que os integrantes do júri provocaram mais interesse que os cineastas em competição (e aposto que Vladimir Carvalho, Murilo Salles, Sandra Corveloni, Sérgio Machado, Carlos Reichenbach e Maria Flor prefeririam ter passado a semana diante de filmes mais fortes), a vitória de Tudo isso me parece um sonho, de Geraldo Sarno, soa bastante provável. Não que me impressione tanto assim (ainda que deva conquistar o apoio apaixonado de muita gente boa), mas é o único na competição que apresenta a assinatura de um autor.

Os prêmios de atuação devem ir para Siri-Ará (o único longa que se assume totalmente como ficção) e Evaldo Mocarzel deve ficar com um prêmio de júri ou até de direção. O sanfoneiros de O milagre de Santa Luzia devem ter mobilizado o júri popular. Por mim, o Candango de melhor filme ficaria com Tudo isso me parece um sonho, um documentário em crise que desagradou o público (mais da metade do Cine abandonou a sala no decorrer das 2h30 de projeção) e encerrou a mostra num estranho anti-clímax.

Quer dizer: estranho não, já que o desfecho foi até coerente com o clima de desânimo que pairou sobre esta edição.

Tudo isso me parece um sonho | Geraldo Sarno | ««

Antes que o classifiquem como obra-prima, vale lembrar que Geraldo Sarno desenvolve há muito tempo (na surdina) o projeto de fazer documentários que desmontam e discutem o processo de criação artística. Nada mais oportuno que iluminar a obra do diretor num momento em que a metalinguagem contamina profundamente o gênero (vide Santiago e Jogo de cena).

Neste caderno de anotações para um filme sobre o general José Ignácio Abreu e Lima (um herói pernambucano esquecido, que lutou ao lado de Simon Bolívar e participou da Revolução Praieira), Sarno filma um ensaio sobre revoluções e movimentos fracassados. Não é à toa que o próprio filme pareça inacabado, indeciso, errado.

Faz sentido. Sem acesso a imagens do general, Sarno coloca em xeque a existência do próprio filme. Isso nas primeiras cenas. Depois decide encenar os momentos derradeiros do personagem, inverter a narrativa num making of, que logo se transforma num documentário-dentro-do-documentário sobre os canaviais pernambucanos. A colagem de idéias poderia se desdobrar infinitamente.

É uma premissa que qualquer cinéfilo ou crítico de cinema compraria de olhos fechados.  Mas a experiência de assistir ao filme deixa a sensação de um passeio desgovernado por momentos de grande inspiração e declives que exigem paciência e boa vontade. Há seqüências que valem pelo festival inteiro, como aquela em que uma menina analisa em off a performance desastrosa de Sarno como cortador de cana. Só que aí esbarramos em entrevistas didáticas, intermináveis, e a coisa desanda.

O ritmo esparramado de Sarno – que leva os entrevistados para a rua e, nos melhores momentos, prefere filmar o mundo que se movimenta ao redor deles – dificulta o acesso à narrativa. Mas, num diálogo inusitado com Filmefobia, o formato do longa se constrói com o acúmulo de tentativas. Nem sempre faz justiça à ambição, mas é, antes de tudo, um filme de cinema – artigo em falta neste festival.

Festival de Brasília | À margem do lixo

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À véspera da cerimônia de premiação, o Festival de Brasília criou uma controvérsia dentro da controvérsia. Primeiro, o motivo de preocupação era o predomínio de documentários entre os longas-metragens. Agora, o que se discute é algo mais trivial: a qualidade dos filmes selecionados. Se o festival queria valorizar o bom momento do gênero documental, o tiro parece ter saído pela culatra – a precariedade dos filmes nos faz sentir saudade de uma boa ficção. 

Aliás, tudo o que quero saber neste exato momento é os nomes dos filmes de ficção que ficaram de fora da mostra competitiva. O híbrido Sagrado segredo, excluído da disputa, continua à frente da maior parte das produções exibidas nas sessões noturnas do Cine Brasília. E, por enquanto, o melhor filme do festival é disparado Se nada mais der certo, do José Eduardo Belmonte. 

Entre os curtas-metragens, a situação também não é animadora. Mas a seleção resultou menos desastrosa que a do ano passado. Por enquanto, o documentário Minami em close-up, sobre a Boca do Lixo, é o favorito tanto da crítica quanto do público. É um filme divertido, com a compilação de cenas bizarras que se espera de um projeto com esse perfil, mas que parece o prólogo para um longa-metragem (ironicamente, um curta com personagens mais interessantes que todos os apresentados nos documentários da mostra até aqui).

À margem do lixo | Evaldo Mocarzel | «

Até quem esperava pouco de Mocarzel parece ter se decepcionado com esta terceira parte da tetralogia iniciada com os bons À margem da imagem e À margem do concreto. No primeiro longa da série, Mocarzel discutia o roubo da imagem de moradores de rua. O tema foi desdobrado como um filme-guerrilha no segundo episódio (o clímax era uma invasão de sem-teto, filmada como uma seqüência de fita de ação) e, agora, serve de palanque para as reivindicações dos catadores de lixo de São Paulo.

A proposta inicial do projeto continua intacta: lançar uma luz de dignidade sobre tipos marginalizados. Mas o diretor – que parecia ainda instigado pela reflexão sobre a imagem em Jardim Ângela – dá alguns passos para trás ao fazer política de uma forma automática, como quem sai a campo para apurar mais uma reportagem de jornal diário. A estrutura do longa alterna depoimentos sobre a vida e origem dos catadores com seqüências que, inspiradas em Vertov, dão um quê abstrato ao processo mecânico de reciclagem. Nesses momentos, o diretor se liberta de um formato desgastado e faz cinema. Nos outros, frustra pela forma segura e unidimensional como encara um tema (a indústria da reciclagem) que merecia um debate mais amplo.

Festival de Brasília | Ñande Guarani

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nandeguarani

Se a seleção de longas-metragens do Festival de Brasília já provocava reações de desânimo antes da exibição dos filmes, já podemos afirmar com alguma certeza que os pessimistas não estavam errados. Faltam dois concorrentes na mostra 35mm (um Evaldo Mocarzel e um Geraldo Sarno) e, por enquanto, o clima oscila entre a mais decadente edição de Gramado e uma morna seleção do Festival Internacional de Cinema Ambiental de Goiás Velho.

Isto é: um festival nas últimas (e, para mim, não é nada engraçado ou divertido chegar a essa conclusão). A insatisfação é geral: está nas conversas de jornalistas, no bate-papo da praça de alimentação e até no júri. Aliás, atiraram uma batata quente para os jurados: como eleger a melhor atriz numa seleção que não apresentou nenhum papel feminino de destaque (e nem vai apresentar, já que os próximos filmes são documentários)? Mistério.

Tudo indica que o melhor longa da programação será mesmo Se nada mais der certo, de José Eduardo Belmonte, que passa hoje na Mostra Brasília (seleção de filmes da cidade excluídos da competição). O curioso é que, ontem, a sessão paralela exibiu o novo longa de André Luiz Oliveira, Sagrado segredo – que, ainda que irregular, provoca mais interesse que todos os filmes escolhidos como atrações principais (com exceção de Filmefobia).

O que aconteceu com o Festival de Brasília? Provavelmente um curto-circuito entre a organização da mostra, que se recusa a rever as regras do evento, e uma postura conservadora da seleção de comissão de longas, que privilegiou documentários puramente informativos que ficariam escondidos na grade da TV Sesc.

Sagrado segredo | André Luiz Oliveira | «

O projeto mais pessoal do diretor de Meteorango Kid caminha em pelo menos três direções: é um documentário sobre a via sacra da cidade de Planaltina (um espetáculo comunitário que mobiliza uma multidão todos os anos), um ensaio sobre religiosidade e a encenação da crise existencial do cineasta, que não lança um longa desde Louco por cinema (vencedor do Festival de Brasília em 1994).

Com apenas 70 minutos de duração, o filme é (perdoem o trocadilho) uma via crúcis que acumula informações de uma forma errática, mas quase sempre provocativa (é um documentário sobre a encenação da via crúcis ou sobre Jesus Cristo?). Para um longa maldito que demorou nove anos para ser concluído, o resultado não frustra as expectativas de ninguém: é caótico e bastante precário, todo manco (e escorrega na pregação de uma religiosidade introspectiva). Mas trata-se pelo menos de uma experiência cinematográfica arriscada, inclassificável, que por isso não deve ser tratada apenas como a egotrip (ainda que seja um pouco isso) de um cineasta em transe. 

Ñande Guarani (Nós Guarani) | André Luís da Cunha | «

Um documentário que cumpre um papel muito específico (foi encomendado pelo Ministério Público para registrar as condições de vida dos índios Guarani) com função exclusivamente informativa. Segue a cartilha do formato com austeridade, mas sem a fluência que se espera de uma produção que quer apenas transmitir uma série de dados e depoimentos ao espectador. A situação dos índios é mesmo grave – mas não me peçam para explicar por que a comissão de seleção decidiu incluir este relatório maçante na mostra competitiva de um festival de cinema.

Festival de Brasília | Siri-Ará

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siriara

Em 1993, um ano depois da minha chegada à capital, eu já era um freqüentador do Festival de Brasília. Na época, o cinema brasileiro ainda cambaleava das pancadas recebidas pelo governo Collor, que fechou a Embrafilme e a mostra servia de reflexo melancólico para a crise. Não havia muitas filas para as sessões e os filmes selecionados eram verdadeiras peças de resistência: precários, esqueléticos, eles pareciam celebrar a própria sobrevivência.

Foi exatamente naquele ano que assisti ao meu primeiro Rosemberg Cariry: A saga do guerreiro alumioso. Duvido que algum leitor deste blog dê alguma importância ao diretor cearense. No meu caso, um laço afetivo obriga que eu lembre do cineasta sempre que penso naquele cinema em frangalhos do início dos anos 90. Ele retornaria ao festival com Corisco e Dadá e Lua Cambará, mas foi aquela alegre alegoria do Nordeste, colorida e orgulhosamente pobre, que deve ficar na minha memória como uma espécie de marca d’agua borrada para o estilo de Cariry e para minhas primeiras experiências no festival.

Não consigo descrever muito do longa-metragem, mas tenho absoluta certeza de que ele era – apesar dos excessos visuais, e taí um diretor apegado a excessos – uma viagem espontânea, fluente, por símbolos da cultura regional. Se me perguntarem, direi que gosto do filme, mesmo correndo o risco de estar redondamente enganado (e não pensamos poucas bobagens aos 14 anos de idade).

Por que o flashback? É que retornei àquela sessão de 1993 ontem à noite, na sessão do novo filme de Cariry, Siri-Ará. Não por uma boa razão, infelizmente. Logo no início da sessão, abandonei o setor de poltronas reservado à imprensa e decidi assistir ao filme nas últimas fileiras, junto com o público que fez filas e comprou ingressos. A experiência não foi nostálgica nem nada – foi só triste.

Se o público já parecia minguado para uma noite de sexta-feira, a debandada no início da sessão deixou várias poltronas vazias e um clima de abandono que me atirou instantaneamente a 1993. O filme não ajudou: Cariry parece ter perdido o entusiasmo, a vibração desajeitada que ainda vive na minha memória (talvez como uma forma de miragem, não sei). Parecia até o fim da festa.

Otimismo é bom e a gente gosta, mas taí a realidade difícil que corre entre as poltronas: este Festival de Brasília, com exatamente esses mesmos filmes que estão na seleção, poderia ter ocorrido em 1993. Num dos piores momentos do cinema brasileiro. É verdade: estamos sim diante de um dos festivais mais sofríveis de todos os tempos.

Parece até Gramado. Sério.

Ainda faltam três documentários e podemos sim tropeçar numa obra-prima. Mas as uma simples comparação com qualquer outra edição da mostra deixará o ano de 2008 em séria desvantagem. O júri terá um trabalhão para escolher os vencedores, e por enquanto não vimos nenhum filme com perfil de ganhador (e, goste ou não de Baixio das bestas, é um longa que resolve várias questões básicas de conceito ou narrativa que faltam a cada noite da competição).

Sejamos sinceros, pelo menos uma vez (e a tradição que cerca o festival abafa esse tipo de opinião direta): dá até desânimo acompanhar as sessões. Há esperanças de surpresas, mas acompanhar uma mostra à 1993 em pleno 2008 deixa a sensação incontornável de que há algo muito errado em cena. Não com o cinema brasileiro, que vai razoavelmente bem. Mas com a organização do evento cultural mais importante da cidade. Deu tilt?

Siri-Ará | Rosemberg Cariry | «

Em Siri-Ará, Cariry dá continuidade ao resgate histórico e folclórico do sertão nordestino com um delírio que, em muitos momentos, chega a lembrar os momentos mais abstratos de Júlio Bressane. Na trama, um homem velho que retorna da Europa adentra o sertão cearense acompanhado de uma índia – e perseguido por guerreiros do reisado, banda de pífanos e alucinações que remetem a um Nordeste lírico, imaginário. Para tecer essa visagem, o diretor nega o convencional: o filme corre com a liberdade de um fluxo de consciência. 

É uma idéia que poderia ter soado fascinante, mas o que continua a incomodar em Cariry é a forma pouco imaginativa (eis a ironia da coisa), e até tosca, como ele compõe alegorias – e alegoria não é para qualquer um. Apesar da secura da fotografia, é um filme que quase nunca deslumbra (as fotos de divulgação provocam mais impacto que qualquer cena do longa) e se arrasta numa narrativa truncada, que penaliza o espectador com uma lição enfadonha de história popular brasileira desde os créditos iniciais. É superior a Lua Cambará – mas sente o peso de traduzir uma premissa delirante com os recursos limitados de uma produção de baixo orçamento.