Fernando Meirelles

Ensaio sobre a cegueira

Postado em Atualizado em

Blindness, 2008. De Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga e Danny Glover. 125min. **

Cinco minutos antes de entrar na sala de cinema para assistir a esta adaptação de Ensaio sobre a cegueira, fechei o livro de José Saramago na página 172. Ou seja: eu ainda estava na metade da história, mais ou menos no momento em que os cegos malvados submetem as mulheres infectadas a uma sessão grotesca de tortura sexual.

Até então, o único cineasta que eu imaginaria ser capaz de filmar esse conflito dantesco, essa alegoria escatológica para o fim dos tempos era Pier Paolo Pasolini. Só ele. E à época de Saló.

Mas aí entrei no cinema e tudo que consegui ver foi um filme de Fernando Meirelles. Às vezes, nem isso.

Abro os jornais e está quase sempre lá: se discute o grau de fidelidade com que o diretor de Cidade de Deus traduziu o livro para as telas. As situações foram todas mantidas? Os detalhes mais violentos, preservados? Os personagens continuam mesmo sem nome? E os estupros coletivos, acabaram abandonados na sala de edição? O desfecho foi alterado? O manicômio ainda tem a aparência de um campo de concentração?

Respeito o interesse, mas confesso: não há debate que me entedie mais.

Sim, já que uma adaptação literária sempre será, no máximo, uma adaptação literária. Não é um joguinho tolo de palavras. Um filme inspirado num livro será (e me sinto meio idiota escrevendo isso, já que me parece tão óbvio) apenas uma interpretação para a obra. Nada além disso. A menos que você espere de um filme a simples narração de uma história.

Quer uma prova de como são mundos totalmente diferentes? O Ensaio sobre a cegueira de Meirelles é bastante fiel aos eventos narrados no Ensaio sobre a cegueira de Saramago. Os primeiros capítulos, em que um grupo de anônimos se descobre vítima do “mal branco”, são compilados na velocidade de um teaser. Mas está tudo lá. A narrativa abre com um sinal de trânsito, tal como o livro. Quando o primeiro homem cega, um pedestre avisa que pode ser problema “dos nervos”. São as palavras de Saramago.

Mas, ainda comparando maçãs com tomates, toda a atmosfera de desespero, de desamparo, de angústia que paira sobre o livro acaba minimizada pelo filme. Por que isso acontece? Difícil explicar. Talvez tenha a ver com o fato de que a literatura permite que acreditemos piamente num pesadelo como esse (da forma tensa como sofremos com nossos sonhos). E que as imagens o banalize, reduza seu impacto -para piorar, teremos como referência uma série de outros filmes apocalípticos, como Extermínio ou Filhos da esperança.

Pode ser. Mas digo isso apenas para ilustrar o perigo desse tipo de paralelo entre uma obra e outra. O filme de Meirelles poderia (ou melhor, deveria) andar com as próprias pernas. Não é cobrar muito.

Mesmo seguindo quase literalmente os passos do original, o filme não atinge a intensidade do livro por uma série de razões. Mas me pergunto: por que Meirelles não consegue (e isso me parece mais grave) encontrar o tom para uma trama com a estrutura de uma descida ao inferno? Por que ele não consegue bancar completamente esse premissa, explorá-la em profundidade? Por que ele parece amedrontado por ela?

Durante a produção do longa, Meirelles falou em amaciar a violência do longa para não espantar o público. A opção (não serei eu a dizer se certa ou errada) está lá, colada em cada uma das cenas. As imagens passam uma sensação de assepsia capaz de amenizar o peso até da seqüência em que cegos derrapam nas fezes espalhadas pelo corredor. A fotografia de César Charlone, que embranquece quase todo o filme, é no máximo uma boa idéia – que, além de provocar cansação durante a projeção, acaba empetecando a crueza das situações.

Nesse sentido, é um filme de Fernando Meirelles. Mas eu gostaria de ter visto algo como O jardineiro fiel, em que o diretor precisou se aventurar para além da trama original para encontrar o filme que procurava. Talvez por excesso de reverência do diretor ao escritor, não consegui encontrar o olhar de Meirelles neste Ensaio sobre a cegueira – e muito pouco do de Saramago.

Só vi de relance, nas cenas finais. No desfecho, transparecem tanto a ironia amarga do escritor quanto a esperança desconfiada do cineasta. É um momento de beleza dentro de um filme correto, que cumpre um papel quase burocrático de adaptar uma obra literária (e que, em alguns trechos, parece mesmo o piloto para um novo seriado global-chic de J.J. Abrams).

Ao sair da sessão, continuei a ler o livro de Saramago. Como se nada de extraordinário tivesse acontecido.