Férias

Mixtape! | O melhor de dezembro

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A mixtape de dezembro não é a mais coesa. Não é a mais tocante. Não é aquela que você vai levar para uma ilha deserta. Não é aquela que vai te levar ao espaço sideral. Não soa como um álbum (com todas as faixas amarradinhas umas nas outras). Mas tem um conceito muito forte e absolutamente original, que é: don’t worry, be happy.

Tá, é mentira.

Ou quase mentira. Meia verdade. Vocês sabem! Não consigo ficar contente 24 horas por dia! Não sou assim. Sou um sujeito mais blue do que o céu de Brasília em dia claro de verão, daí que este disquinho vai se tornando nublado até encerrar com uma canção que provavelmente vai fazer você chorar. Acontece.

A boa nova (e o que diferencia esta seleção daquela que você ouviu em novembro) é que toda a primeira metade da mixtape é bem risonha, quase abobalhada, com musiquinhas que me fazem sorrir. A abertura, com o Fujiya e Miyagi, é um achado. O Twin Shadow fala de um fantasminha que o persegue, mas é uma faixa pra dançar até o chão.

E tem até Kings of Leon. E aí vocês me perguntarão: mas Tiago, por que incluir uma música de uma banda de que você nem gosta? E eu explico de antemão: é que a faixa, além de simpática, resume todo o espírito da mixtape, que começa muito urbana e termina pra lá da roça (prestem atenção à letra da música, sobre um sujeito que quer levar uma mina de New York para o Tennessee). Mas tudo bem se você decidir deletá-la e seguir em frente.

Então sim, é a mixtape mais pop do ano. Muito agradável de ouvir. Muito oferecida. Muito dada. Você vai gravar e levar para curtir as férias sob o sol escaldante. E depois, em meados de janeiro, vai me agradecer. Anote aí.

Como não poderia faltar, tem Everybody needs love, do Drive-by Truckers. Que é autoexplicativa. E Fuck you, do Cee-lo Green. Que também é autoexplicativa, mas nada tem a ver com vocês, ó leitores tão simpáticos e educados.

O moço aí da foto é o Dan Bejar, que gravou meu disco preferido de dezembro (mas que só sai em 2011): Kaputt, do Destroyer.

O que mais posso dizer sobre esta coletânea? Talvez ela sirva de espelho para os meus dias (todas as outras serviram, por que não esta?). Talvez ela mostre que estou superando dramas e seguindo em frente. Talvez tenha algo a ver com o espírito natalino ou com o fato de que 2010 está finalmente evaporando (foi o pior ano da minha vida). Talvez seja apenas um disquinho com 10 músicas muito aconchegantes.

Enquanto vocês ouvem, tento me tornar um sujeito mais simples.

Antes do ano-novo, ainda devo aparecer aqui no blog com uma lista dos 10 discos brasileiros favoritos de 2010. Sejam pacientes, ok?

Vamos lá que só falta esta: faça o download da mixtape de dezembro aqui (a lista de músicas está logo ali na caixa de comentários).

E, se possível, depois de ouvir o CDzinho, invista cinco minutos do seu tempo para avaliar nossos serviços com um comentário gentil. Obrigado.

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Guys eyes | Animal Collective

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Talvez seja o clipe mais simples do Animal Collective: um velho filme caseiro reeditado por um sujeito com febre. O tipo de vídeo que, se ainda estivessemos nos anos 90, encontraríamos nas madrugadas da MTV. A direção é de Joey Gallagher, que entendeu direitinho o espírito de uma das faixas mais espaçosas de Merriweather Post Pavilion. Transes de uma tarde de verão.

Por falar em tardes de verão, vale lembrar que a curvilínea, sedutora e delicada mixtape de junho (relativamente ensolarada, também) já está vestida para matar. Ela chega ao blog amanhã, quarta-feira, às 21h. Então fiquem atentos, e depois não digam que não avisei.

Superoito e o fio da tragédia

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Sim, eu estava em Angra dos Reis entre os dias 30 de dezembro de 2009, quando pancadas insistentes de chuva começaram a descamar o balneário, e 3 de janeiro de 2010, o domingo em que conseguimos finalmente tirar os carros da garagem e, num passeio melancólico de não mais que 15 minutos, desviamos dos morrinhos de lama, das pedras pontiagudas cuspidas no asfalto e das vias bloqueadas (eram três, todas estreitas) para abandonar apressadamente uma cidade que…

…uma cidade que, naquela manhã, vinha para cima das pessoas, de todas as pessoas, atacava-nos com o muque de um terrível paradoxo: o céu brilhante de tanto azul (sem nuvens, lindo), o mar quase vermelho (de tanto barro), os turistas nas lanchas, as crianças de bicicleta, gente apreensiva gesticulando nas varandas de casas que se equilibravam perigosamente nas encostas, postes tortos, fios soltos nas calçadas, crateras nas curvas, jet skis e piscinas lá longe, uma menina com um balde vermelho na cabeça, cerveja gelada no boteco, futebol no campinho e o vulto de um trator. É pegar ou largar, a cidade dizia. Permaneça ou fuja, que sou estranha e incompreensível e contraditória e você não me entenderá.

Decidimos fugir. Essa paisagem em scope ficou para trás quando tomamos a rodovia e seguimos ao atalho que dava para a Via Dutra.

Você quer o relato objetivo da aventura? Então tome: eu e cinco pessoas muito queridas estávamos hospedados numa casa a poucos quilômetros do centro. Como quase todas as casas da região, ela foi construída a poucos passos da encosta. Uma bela encosta, por sinal: árvores altas e exóticas, de todo tipo, uma vegetação robusta que sempre associei ao cheiro úmido que antecipa as chuvas. O cheiro lembrava a minha infância. Algumas pessoas ergueram casas elegantes e chamativas sobre o morro – não para copiar os miseráveis que se empilhavam nas favelas próximas, mas talvez para que a paisagem da Praia do Retiro enchesse as janelas todas as manhãs, com os jet skis, as lanchas e todos os outros acessórios da boa vida. Não sei explicar: há pessoas que curtem viver perigosamente, nas encostas, em meio às árvores, ali num poleiro privilegiado, e prefiro parar esse raciocínio por aqui e voltar ao relato objetivo dos fatos.

Chegamos à casa na noite do dia 28, uma segunda-feira. No dia seguinte, tomei banho de mar e fiquei queimado de sol. Tudo muito comum e desinteressante. Minhas costas ainda ardiam quando, na quarta-feira, começamos a sentir uma chuva fina, fria. O céu fechou em camadas infinitas de cinza e os turistas guardaram os jet skis para jogar baralho, tirar sonecas, ler livros e fazer os planos para o réveillon. “Que pena. Essa chuva…”, lamentavam. Mas ninguém parecia preocupado com ela, a chuva, que não caía com a potência de um tsunami. Era uma chuvazinha de nada. Está certo que, de vez em quando, o chuvisco engrossava e virava um chuvão. Mas depois voltava ao normal, àquela aguazinha sem graça, que precisaria comer muito feijão para botar alguém pra correr.

Na manhã do dia 31, estranhei a persistência da chuva. Ela simplesmente continuava. Continuava. Fraca, tímida, mas firme na labuta. Sugeri (juro que sugeri!) que fizéssemos um filme de horror sobre a chuva que nunca para. Um filme chamado A chuva que nunca para. Ninguém achou muita graça. Mas estávamos certos de que o sol voltaria a brilhar e de que (quem sabe?) a noite de ano-novo seria luminosa. Por volta das 19h, acabou a energia elétrica. Às 21h, recebíamos os primeiros telefonemas: “Parece que o caso aí de emergência, tome cuidado” (era minha mãe). “As estradas estão fechadas, parece que caiu uma encosta na rodovia” (era outra pessoa, não lembro quem). “Parece que parece que parece que parece que a coisa está feia, mas parece que parece que talvez pareça que” (tudo parecia, nada era).

Jantamos à moda medieval, iluminados por um santo lampião e nos embalos de uma trilha sonora orquestrada por grilos e ondas do mar. Os encantos selvagens da natureza, sem óculos 3D. Os vizinhos trouxeram um som portátil que espantou um pouco o clima de frustração. À meia-noite, vimos a queima de fogos mais sombria da história: explosões coloridas engolidas pela neblina, pipocos amarelados numa ilha perdida, cores meio mudas, já que a chuva (cada vez mais feroz) minimizava o impacto dos sons. As pessoas, coitadas, deixaram de lado até um ritual dos mais sagrados: pular três ondinhas do mar. Esquecemos de brindar. Trocamos champanhe por água-com-açúcar. No início da madrugada, fomos todos dormir, fulos da vida com a vida.

Antes de deitar, ouvi um barulho que em nada soava assustador. Era um baque abafado. Depois do baque, um sopro gordo de vento atravessou a janela (como se produzido por um dragão de desenho animado).

Logo descobrimos que uma árvore havia desabado no quintal da casa onde estávamos hospedados. Os galhos grossos (de quase 10 metros de largura) desceram a encosta, deitaram sobre a fiação elétrica, entortaram dois postes e foram parar exatamente à frente do nosso portão, bloqueando a passagem. Para nosso azar, não havia como sair de casa (e, com o estrago na fiação, ficaríamos sem luz por mais um tempo). Para nossa sorte, as duas outras árvores que quase cederam continuavam se equilibrando no barro de uma encosta que havia (também para nossa sorte) descolado só um pouquinho.

Todos estávamos tensos quando fomos dormir. “Com essa chuva, e as outras árvores? E a encosta? E se?” Ainda assim, deitamos. Não havia o que fazer. Tínhamos medo, mas não contávamos com possibilidades terríveis. Pouco antes de tudo isso, na manhã daquele 31, saímos de carro para o centro da cidade e, numa ladeira íngreme, quase fomos levados por uma carreta velha que, pouco antes de se chocar contra o nosso carro, fez um desvio acelerado e colidiu numa parede. Seria muita tragédia para um dia só, eu pensei. E já havíamos passado muito tempo dançando no fio da tragédia. Deveria haver uma lógica nisso tudo, na nossa vida, e essa lógica possivelmente permitiria um pouco de sorte a quem havia vivido duas quase-catástrofes em menos de 24 horas. Isso sim faria algum sentido!

Passamos o primeiro dia do ano olhando para um portão trancado, preso dentro da barriga de uma árvore morta. Não parecia muito engraçado.

Mas, de uma perspectiva menos pessimista, era sim muito engraçado. Era! Sem energia elétrica (e impedidos de sair até para comprar o jornal), não sabíamos nada sobre a dimensão de uma tragédia que era narrada a conta-gotas, com tons de exagero e nonsense. “Parece que morreram 200 pessoas numa pousada”, comentou um sujeito que havia seguido de lancha até a cidade. “Parece que fecharam a rodovia, e pra não abrir tão cedo, talvez semana que vem”, arriscou o outro. “Dizem que os homens da Defesa Civil estão chegando pra tirar a árvore e abrir o portão, mas só semana que vem”, prometiam. Enquanto ninguém aparecia para resolver o problema, tomávamos banho de piscina e tostávamos ao sol, mais ou menos felizes, mas nunca completamente felizes, com o momento de descanso (era nossa folga e éramos filhos de deus). Vi até uma cena que era puro surrealismo: uma mulher de biquíni verde, tristíssima, concentradíssima, de pé sobre uma prancha de surfe, flutuando lentamente sobre o mar plácido e marrom. Era um sonho. Era um pesadelo. Era algo inexplicável.

Abreviando o caso: a luz não voltou, os homens da Defesa Civil não chegaram, o jornal não veio e ficamos completamente alienados por 24 horas. As informações faziam eco por telefone, e truncadas. “Não vi o noticiário, meu filho.” “Mas por que, mãe?”, eu perguntava. “É que me assusto.” “Mas mãe…” E o cabo-sem-fio continuava a dissolver notícias que pareciam falsas de tão mirabolantes. 500 mortos numa pousada? Que pousada grande.

Na manhã de sábado, alguém decidiu fazer um passeio de bicicleta no fundo do apocalipse. Das cinzas do armagedom, a boa alma trouxe o jornal.

E que notícias! Era tudo tão horrível que parecia não ter acontecido. Aquela chuva boba havia criado avalanches de terra que, na noite em que a árvore caiu no quintal, aniquilou cerca de 50 pessoas. Todos corríamos risco: os da favela e os da beira-mar, os que estavam em pousadas e os que moravam perto de pousadas. A Defesa Civil pedia para que os turistas deixassem a cidade, mas não parecia ter nenhum conselho para os turistas que queriam deixar a cidade, mas estavam impedidos de sair de casa. Que Buñuel morresse de raiva: ainda havia macarrão e molho de tomate – de fome e sede nós não morreríamos.

Diante das páginas do jornal, me assustei com a ideia de que, sem o registro oficial, eu provavelmente não teria sentido a tragédia de que – em alguma medida – eu fazia parte. Depois de ter assistido às notícias da tevê, minha mãe parecia outra pessoa: estava transtornada, chorando e soluçando e gemendo ao telefone.

– Tiago, vocês foram se meter no meio de uma notícia! – minha mãe estava assombrada com aquilo tudo.

– Mas mãe, eu não sinto como se estivesse no meio de uma notícia.

– É que você não tem a noção.

– Não tenho, mãe.

– As pessoas morreram.

– Elas morreram.

– E você quase morreu.

– Não sei se foi isso o que aconteceu. Nunca se sabe.

– Um moço de 30 anos desapareceu.

– Eu estou bem aqui.

À tarde, quando os homens da Defesa Civil chegaram (com tratores e serras a diesel), começamos a notar o que (não) havíamos vivido.

– Resgatamos cinco corpos. Muitos mortos. Vocês foram sortudos. Estão dentro de casa. Tem de tudo aí pra baixo. Árvore esmagando os carros. Árvore quebrando telhados. Pedras desse tamanhão assim. Hoje cedo, fizemos dois partos numa lancha – narrou o chefe da equipe, que usava óculos Ray Ban modelo 1978 e, com um topete generosamente branco, parecia o personagem de uma série de tevê prestes a ser criada.

Não entendi onde os partos aquáticos se encaixavam na trama, mas a narrativa contada por aquele homem, vestido num macacão alaranjado e pronto para a guerra atômica, começaram a nos tragar para a cidade. O coração da selva. Quando a Defesa Civil foi-se embora e abrimos o portão, vimos a cidade. E foi só aí que sentimos a cidade. O cheiro da cidade. Um ar de ressaca. Uma impressão de medo. Depois, a sensação de que a tragédia havia passado de raspão. E que estávamos vivos graças a uma conjunção muito delicada de fatores. E se os troncos que caíram a alguns centímetros da janela do meu quarto tivessem se aproximado um pouco mais, um pouquinho mais, alguns centímetros? E se a encosta tivesse lambido o asfalto com a força com que desabou sobre as cinco casas de lha Grande? O que faríamos? Para onde correríamos? De que janela saltaríamos? Estaríamos acordados? Daria tempo? Seríamos fortes? Quem sofreria mais? Quais traumas seriam os mais intensos? Que história contaríamos? Que relevância teria a nossa história? Em quanto tempo ela seria esquecida? Como sairíamos no jornal?

E se?

Na verdade, estávamos à margem de qualquer matéria de jornal. Talvez por isso, um pouco aliviados. Se algum jornalista nos abordasse para saber sobre a nossa experiência, diríamos simplesmente: “Mas não aconteceu nada! Estamos muito bem! Foi um feriado um pouco tenso, mas saímos dele sem arranhões. Veja: estamos respirando!” Tudo muito limpo e civilizado. Quase nada aconteceu. Não havia motivo para virarmos celebridades-relâmpago.

De volta a Brasília, narrei o caso a algumas pessoas curiosas. Dez, quinze pessoas. A mesma ladainha. A casa, a árvore, a falta de luz, a encosta, a cidade esvaziada, as rodovias fechadas, o medo de morrer. Meus amigos ficaram verdadeiramente espantados com a situação, mas tenho poucos amigos. Alguns deles fizeram piadas, o que me deixou menos preocupado com a minha própria vida: rir do quase-desastre mostrava para mim que ele, o quase-desastre, estava cada vez mais longe do meu alcance, como que perdido numa realidade inventada por softwares de efeitos visuais. E, distante dele, eu poderia cumprir as atividades do cotidiano de uma forma mais leve e despreocupada, e não prestes a correr para a sala do cafezinho com medo de que uma encosta desabasse sobre o meu computador. Eu não estava perturbado por nada daquilo. Repeti três vezes, no banheiro: eu não estou perturbado, eu não estou perturbado, eu não estou perturbado.

Quando voltávamos para São Paulo, pela estrada, um dia antes, alguém comentou que eu não tinha demonstrado nervosismo algum quando vi a árvore caída no nosso quintal.

– Você ficou tão tranquilo, Tiago. Eu mal consegui dormir. Talvez você só se desespere com as pequenas tragédias.

– Deve ser isso – eu respondi (mas menti, já que não entendia ainda nada do que havia acontecido).

A viagem de volta, de carro, durou seis horas. A pista estava menos movimentada do que esperávamos. Parecia inacreditável. Tudo conspirava para a nossa felicidade, enfim. Um desfecho razoavelmente feliz. Não perdi o avião. Quando desembarquei no aeroporto de Brasília, minha mãe chorou, me abraçou e pediu para que eu dormisse em casa. “Não quero perder meu único filho”, ela chantageou, entregue ao papel de mãe total, com aquele jeito dramático que é todo meu. Decidi ficar com eles. Minha mãe, meu padrasto, minha irmã e os cachorros.

Chegamos a tempo do noticiário da meia-noite. “Venha ver o que aconteceu com vocês”, minha mãe exigia. Preferi ler o capítulo de um livro e dormir. Chega de histórias reais, pensei. Mas tombei no segundo parágrafo. Eu estava exausto.

Sonhei com encostas azuis e vermelhas sob um céu verde. Desabando.

Diário de SP | Superoito na Mostra

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Diário da viagem de Tiago Superoito a São Paulo. Em cerca de 20 dias, ele pretende acompanhar a Mostra de SP e, entre uma sessão e outra, ouvir alguns discos. 

Os filmes vão em azul. Os discos e shows em vermelho.

police
'Polícia, adjetivo', meu favorito da Mostra de SP

5/11

Os famosos e os duendes da morte | Esmir Filho | 6 | Sei que estou em minoria, mas gostei da estreia de Esmir Filho. A ambição de fazer uma espécie de Paranoid Park para fãs de Mallu Magalhães quase nunca se resolve maravilhosamente bem, mas o diretor banca o risco de retratar (com naturalidade e lirismo) uma geração maltratada e/ou desdenhada pelo cinema brasileiro.

Ninguém sabe dos gatos persas | Bahman Ghobadi | 7 | Apesar de não ter me convencido tanto assim nas tentativas de ficção, trata-se de um ótimo, vibrante doc sobre a música underground de Teerã (acredite: no Irã, bandas de indie rock são caso de polícia) .

A ilha de Bergman | Marie Nyreröd | 6 | Documentário televisivo (com jeitão de Biography Channel), mas Bergman é Bergman.

Brilho de uma paixão | Bright star | Jane Campion | 5.5 | Este conto romântico talvez seja  o filme mais solene de Campion. Muito bem realizado (e com um elenco excelente), mas engessado por um formato de filme de época preciosista que não me impressiona (ou comove) em nada.

Lebanon | Samuel Moaz | 7 | Um action movie de guerra que me lembrou em alguns momentos The hurt locker (talvez por retratar experiências muito específicas num combate). Mas não dá para esperar complexidade deste aqui: Moaz não apenas confina os personagens dentro de uma máquina como parece simular, na narrativa, o movimento agressivo, violento de um tanque de guerra. Sem sutilezas, portanto, mas muito preciso naquilo que quer mostrar.

Meu top 5 da Mostra:

1. Polícia, adjetivo
2. Vício frenético
3. A família Wolberg
4. Ervas daninhas
5. 35 doses de rum                  

4/11

Samson & Delilah | Warwick Thornton | 5 | Os aborígines também amam (e se estrepam). Eu não me surpreenderia se recebesse uma indicação ao Oscar de filme estrangeiro. Miserê soft.

Maradona | Emir Kusturica | 5 | Um filme sobre o personagem Maradona, que Diego interpreta razoavelmente bem. Kusturica, de quatro, não consegue mais que se deslumbrar com ele. Daria um curta. A Igreja Maradoniana, no entanto, é um achado.

Todos os outros | Alle anderen | Maren Ade | 7 | Todo filme sobre as oscilações de um caso amoroso tem que soar pelo menos um pouco enervante, e este não é diferente. Sentimentos contraditórios, rompantes de ódio, momentos de felicidade e êxtase… As atores levam a ideia a ferro e fogo e resultado é um drama intenso, que exige cumplicidade do público. Demorei a digerir.

Shirin | Abbas Kiarostami | qualquer nota | Mentira, é 6. Uma experiência inclassificável, mas fiquei com a impressão de ter visto um filme tão enigmático quanto matemático (e por isso frio). O conceito é ótimo: Kiarostami filma rostos de atrizes enquanto elas assistem a um filme inspirado numa fábula persa. Essa ideia, por si só, rende inúmeras discussões sobre cinema, representação, o papel do espectador… Todas elas, aposto, mais envolventes que o filme em si.        

3/11

O amor segundo B. Schianberg | Beto Brant | 4.5 | Um filme coerente com o projeto que Brant desenvolve desde Crime delicado: a narrativa se abre ao acaso, às experiências de vida dos atores, a referências de outras obras (a peça Navalha na carne e o filme A concepção) e à sensação de improviso. Mas, ao contrário dos longas anteriores dele, esse aposta tudo numa estrutura muito frágil, que dependeria de atores extraordinários (e, mais que isso, interessantes) para se justificar. Não é o caso. 

Soul kitchen | Fatih Akin | 7 | Esta comédia não tem nada de nouvelle cousine, e melhor assim: um Akin bem-humorado vale por dezenas de diretores europeus socialmente engajados. Personagens muito vivos, gags de primeira e um herói adorável: taí a receita de um crowd-pleaser improvável. 

Making plans for Lena | Non ma Fille, tu n’iras pas Danser | Christophe Honoré | 5.5 | Nada é estável (ou verdadeiramente confortável) na família de Honoré. O francês tem bom olho para a crise doméstica, mas este drama choroso está mais para Lelouch que para Truffaut. Ajudaria se Lena não fosse uma chata de galochas – e aí não há Antony and the Johnsons que nos convença das fragilidades da protagonista.           

2/11

Ontem este blog completou dois anos de vida (curiosamente, num dia de Finados). Parabéns pra ele.

Viajo porque preciso, volto porque te amo | Marcelo Gomes e Karim Aïnouz | 6 | O documentário atropela a ficção, mas também patina em lugares-comuns (a trilha sonora brega, as cenas com prostitutas). Ainda assim, um diário de viagem com trechos muito bonitos.

London River | Rachid Bouchareb | 5 | De novo, o blablabla sobre intolerância, diferenças culturais e solidariedade numa Europa pós-11 de setembro. Brenda Blethyn imitando um jumento é um dos momentos-vergonha-alheia da Mostra.

Alga doce | Tatarak | Andrzej Wajda | 7 | Um drama clássico dentro de um filme moderno. Wajda deixa que a realidade rasgue a ficção de uma forma tão violenta que a tristeza das últimas cenas fica quase insuportável.

I love you Phillip Morris | Glenn Ficarra e John Requa | 5 | Tá na cara: os diretores se impressionaram tanto com a história real do trapaceiro gay que esqueceram de fazer cinema. Tosco, ainda que mais sacana que a média (em 2009 já é permitido fazer piada com AIDS?).       

1/11

off-Mostra

500 dias com ela | 500 days of summer | Marc Webb | 5.5 | Tem momentos simpáticos (e é bacana notar que a “moral da história” tem mais a ver com os poderes da autoestima que com a ladainha do amor eterno), mas a love story indie soa como decalque ralo de Nick Hornby.

This is it | Kenny Ortega | 5 | Celebração além-túmulo – um tanto mórbida, portanto. Mas, além de valer como registro, o trabalho de edição é primoroso: Ortega quase me fez acreditar que, pouquíssimo tempo antes de morrer, Michael Jackson se portava como um touro no palco. Poderes do cinema.

31/10

Dente canino | Kynodontas/Dogtooth | Yorgos Lanthimos | 4.5 | A ideia é interessante, mas o modo impassível como Lanthimos trata os personagens (são cobaias de uma encenação) vai fazer você repensar Anticristo.

30/10

O filho do caçador de águias | The eagle hunter’s son | René Bo Hansen | 4.5 | Exotismo pueril. Poderia estar na grade do Discovery Kids.

>> A família Wolberg | La famille Wolberg | Axelle Ropert | 8 | Provoca as emoções de um velho disco arranhado de soul music. Melancolia aveludada. Um dos melhores da Mostra (e, assim que chegam os créditos finais, já dá vontade de rever).

Quase Elvis | Almost Elvis/Karaokekungen | Petra Revenue | 4 | Humor desafinado, premissa bocó.

O fantástico Sr. Raposo | Fantastic Mr. Fox | Wes Anderson | 7 | Anderson pode até não ter encontrado uma forma de se livrar da camisa de força criativa onde está metido (o longa anterior dele já soava redundante), mas é um dos filmes mais fluentes que já dirigiu. Uma animação para crianças de muito bom gosto, digamos assim. E qualquer filme que abre com Heroes and villains merece minha consideração.  

29/10

Seguindo em frente | Still walking | Hirokazu Kore-eda | 6 | Com meia hora a menos e sem algumas das frases-de-biscoito-chinês (tipo “os amigos que morrem nunca nos abandonam verdadeiramente”), acho até que o Kore-eda conseguiria ter feito mais que uma delicada crônica familiar. 35 doses de rum é uma homenagem menos óbvia a Ozu.

O solista | The soloist | Joe Wright | 5.5 | Wright tenta dar alguma dignidade ao bromance piegas. Jamie Foxx interpreta um carro alegórico (e muito provavelmente será recompensado pela proeza com uma indicação ao Oscar).

Insolação | Felipe Hirsch e Daniela Thomas | 5 | Hirsch é um dos poucos que me tiram de casa para ir ao teatro, daí o tamanho da decepção. Um cinepoema desapaixonado sobre o amor. Era essa a intenção? Mas ok: sem a tentativa de ficção (que pelamordedeus…), daria um documentário até bem razoável sobre a arquitetura de Brasília. O próximo filme dele será melhor que este.   

28/10

Como ser Mr. Kotschie | Mensch Kotschie | Norbert Baumgarten | 5 | O cidadão-alemão-modelo, certinho, polido e bem casado, chega aos 50 anos de idade e esbarra numa crise existencial que… certeza de que não tem o dedo do Alexander Payne nisso aí? Alan Ball?

Singularidades de uma rapariga loura | Manoel de Oliveira | 7 | Um país solto no tempo, a cegueira do amor, uma bela homenagem a Eça de Queiroz. O começo é perfeito, só que… Raramente reclamo disso, mas taí um filme que me incomodou por ser curto demais.

O que resta do tempo | The time that remains | Elia Suleiman | 7.5 | Num tom ainda mais particular que o de Intervenção divina (sem a mesma verve, mas com gags tão ácidas e bizarras quanto), Suleiman olha com perplexidade para a própria história. Encontra uma vida cercada de horror por todos os lados.

Vencer | Vincere | Marco Bellocchio | 6.5 | Um melodrama febril, mas quase soterrado pelo próprio peso (eu não recomendaria uma sessão dupla com A fita branca).     

26/10 e 27/10

>> 35 doses de rum | 35 rhums | Claire Denis | 8 | Sensibilidade incomum (e uma trilha sonora de arrepiar).

À procura de Elly | Darbareye Elly | Asghar Farhadi | 5.5 | Melhora um pouco quando um personagem-surpresa entra em cena, mas este thriller iraniano (com um subtexto político, como de praxe) não escapa muito do trivial.

Abraços partidos | Los abrazos rotos | Pedro Almodóvar | 7 | Quase uma sequência de A má educação: acerto de contas com o cinema. Há cenas extraordinárias (como aquela em que o cineasta cego tenta sentir as imagens tocando o monitor da televisão) e momentos em que o diretor parece ter ativado o piloto automático (toda a sequência final, do filme-dentro-do-filme). Ainda assim, Almodóvar vai do melodrama à esculhambação com aquela naturalidade que conhecemos bem. 

Tyson | James Toback | 6 | Autorretrato franco (mas dirigido sem a menor inspiração).

Tokyo! | Michel Gondry, Leos Carax e Bong Joon-ho | 5, 7, 6.5 | Carax destoa do tom preciosista, à Amélie Poulain, dos episódios de Gondry e Joon-ho. De qualquer forma, eu não me incomodaria se o filme do Joon-ho tivesse 135 minutos de duração.

Independencia | Raya Martin | 7 | Vida e morte numa floresta impressionista.

>> Vício frenético | Bad lieutenant: port of call New Orleans | Werner Herzog | 8 | Harvey Keitel ainda reina, mas Nicolas Cage sua a camisa (e está tão bem quanto em Despedida em Las Vegas e A outra face). Mas as comparações com o filme de Abel Ferrara são inadequadas: Herzog desloca a trama para New Orleans, lima as crises religiosas, reforça o humor negro (o que são aquelas iguanas psicodélicas?) e vê a América contemporânea pela lente do absurdo. Um outro tempo, um outro filme – e tão poderoso quanto o original.  

24/10 e 25/10

Distante nós vamos | Away we go | Sam Mendes | 5 | Mendes tenta se livrar da pompa, mas tudo o que consegue é um road movie fofo e fake. A trilha sonora, que dilui Nick Drake de 1001 maneiras, soa apropriada.

>> Polícia, adjetivo | Politist, adjectiv | Corneliu Porumboiu | 8 | Porumboiu sai à procura das palavras e imagens exatas. O melhor romeno que vi.

Mother | Madeo | Bong Joon-ho | 7 | Outro que sabota elegantemente as regras do “filme policial”. Joon-ho é um talento e a cena final, belíssima. Uma ressalva, no entanto: sei que isto não vai incomodar quase ninguém, mas a estrategia que ele encontra para resolver o mistério central da trama me pareceu uma solução fácil demais.

Sedução | An education | Lone Scherfig | 4.5 | Cumpre rigorosamente as exigências do Oscar: ameno, inofensivo, agradável e, por fim, vazio.

Aconteceu em Woodstock | Taking Woodstock | Ang Lee | 5.5 | O tom sugere uma crônica, mas a aparência é de charge em tom pastel. Raso em absolutamente tudo (e não melhora o livro, que é uma bobagem). 

23/10

Ricky | François Ozon | 7.5 | Fantasia (na real).

A mulher do anarquista | Marie Noëlle e Peter Sehr | 3.5 | Uma minissérie escrita por Maria Adelaide Amaral. E dirigida por Jayme Monjardim.

>> Ervas daninhas | Alain Resnais | 8 | É uma heresia escrever apressadamente sobre este filme, mas adianto que o novo Resnais revê o tom afetuoso e elegante de longas como Medos privados em lugares públicos e Amores parisienses, mas, simultanemente, quebra nossas expectativas com uma narrativa livre, enigmática e bem-humorada, que me lembrou alguns filmes dirigidos por ele nos anos 80 (A vida é um romance, Amor à morte). Talvez não seja um grande Resnais (pode ser uma obra de transição, e espero que seja), mas é o filme mais aventureiro dele desde Quero ir pra casa

A fita branca | Michael Haneke | 6 | Rigoroso e pedante (como esperávamos de Haneke), mas me parece um retrocesso em relação a Caché. O típico “filme de arte” que enche os olhos de jurados de festivais. É um deleite visual, e um drama mais bergmaniano que qualquer Bergman (imagine aí o sueco filmando o roteiro de Dogville). Mas a parábola sobre o nascimento do nazismo soa frágil (já que toda sustentada em relações de causa-efeito e didatismo sociológico) e Haneke insiste em carregar cada cena com um peso de auto-importância que entendo como excessivo. Não é muito a minha praia, mas vai ter gente defendendo com entusiasmo. 

Sede de sangue | Park Chan-wook | 6.5 | No humor ou no horror, não tem estribeiras – o que, para um filme de vampiros, vejo como uma qualidade. Mas não sabe quando ou como acabar.  

22/10

(…)

21/10

Novidades no amor | The rebound | Bart Freundlich | 4.5 | Nenhuma novidade (mas taí: nunca vi tanta criança vomitando dentro de uma comédia romântica).

Unmap | Volcano Choir | 6.5 | Soa menos como um novo projeto de Bon Iver e mais como uma participação dele num álbum do Collection of Colonies of Bees. Dito isso, o “convidado especial” faz com que prestemos atenção à arte sutil de uma boa banda de pós-rock, do tipo raro que cria atmosferas à serviço de melodias.   

20/10

À procura de Eric | Looking for Eric | Ken Loach | 6.5 | Um Loach mais fluente que o de Ventos da liberdade (e menos efêmero que o de Apenas um beijo). Pode ser visto como uma comédia leve, um feelgood movie (e, com uma boa campanha, poderia entrar facilmente na lista dos indicados ao Oscar), mas também como um conto urbano muito coerente com antigas preocupações do cineasta, ainda um working class hero. Faz algumas jogadas ensaiadas (o roteiro de Paul Laverty é golpe baixo), mas não perde a doçura. A interpretação de Steve Evets, o carteiro que “conversa” com o ídolo de futebol, é das melhores do ano.

Quanto dura o amor? | Roberto Moreira | 4 | O filme felizmente dura 83 minutos (na maior parte da sessão, não consegui tirar da cabeça aquela canção do Blur que vai mais ou menos assim: They’re stereotypes/There must be more to life). 

O caçador | Chaser/Chugyeogja | Na Hong-jin | 6 | A trama é literatura pulp tratada a ferro e fogo (talvez isso explique as comparações, nem sempre justas, com Park Chan-wook e Bong Joon-ho). Mas o cineasta não tem pulso, pilota no automático – daí a flacidez da narrativa.

19/10

Anticristo | Lars von Trier | 7 | O pesadelo de Trier talvez seja mesmo controlado demais (qualquer delírio de David Lynch soa mais caloroso), mas não consigo desprezar um filme tão obcecado por imagens de culpa, dor e luto. Tenho que ser franco: tirando um ou outro momento mais desajeitado (o diretor trata o gênero horror com tanto estranhamento que o efeito fica até interessante), Trier conseguiu me perturbar com este pesseio na floresta. Um detalhe curioso: quase todas as resenhas que li reclamam do prólogo (slow-motion em p&b aparentemente virou crime), por isso só posso supor que quase ninguém tenha visto O espelho, do Tarkóvski. Vejam. É um dos meus favoritos. E, ainda que não do modo mais óbvio, tem muito a ver com este Anticristo.  

Bonfires on the heath | The Clientele | 7.5 | O Clientele é daquelas bandas que não fazem estardalhaço e que, por isso, sempre correm o risco de serem subestimadas. O novo disco deles é quase tão bom quanto Strange geometry (e quem conhece aquele álbum entendeu o peso do meu elogio) e prova que o grupo não vai descansar enquanto não encontrar a canção irretocável, uma criação capaz de cristalizar toda a tradição do pop barroco britânico (repare nos sopros à mariachi, discretos e precisos). A jornada do Clientele é às vezes enervante (e a polidez ainda incomoda), mas quase sempre rende melodias elegantes – e, nos melhores momentos, também emocionantes, como a faixa-título e I know I will see your face.

New moon – Original motion picture soundtrack | Vários | 6 | Daria um ótimo EP, com Thom Yorke (e Hearing damage não é lá extraordinária), Grizzly Bear (Slow life), Bon Iver & St. Vincent (Rosyln) e Death Cab for Cutie (Meet me on the Equinox). Nada muito diferente de um dos CDs do The O.C. (os indies vão aos teens), mas poderia ter sido pior.

Laura | Girls

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O vídeo novo do Girls é um passeio no praia. Sol, garotas e diversão. Ou mais ou menos assim. Sabemos que quase todas as canções ensolaradas contêm subtextos sombrios (Brian Wilson não nos deixa esquecer a lição, certo?), e esta aqui também soa um tanto melancólica quando deveria parecer alegre. O diretor se chama Brian Lee Hughes, e ele também compreende tudo isso.

Superoito e a ordem no caos

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Tenho a impressão de que meus sonhos contam uma história. Desconfio que, se fosse possível organizá-los em ordem cronológica, como quem forma um quebra-cabeça de milhares de peças, eles narrariam uma saga. Minha saga. As peripécias da minha existência. Com tintas surrealistas. E desfechos quase sempre surpreendentes.

O problema é que não lembro de todos os sonhos. Daí as lacunas entre um capítulo e outro. Espaços em branco. Buracos negros. Crateras que nunca serão preenchidas, coisa e tal (a menos que os cientistas inventem uma forma de escanear nossa consciência em busca de fragmentos de sonhos invisíveis, mas acho difícil).

Gosto quando lembro dos meus sonhos e adoro interpretá-los. Principalmente na hora do jantar. Minha mãe, que é psicóloga, costuma ajudar. Dá boas dicas. Geralmente cita Freud para interpretar as cenas mais abstratas. Duvido que ela acredite em Deus. Mas tenho quase certeza de que minha mãe tem fé em Freud.

Os sonhos recorrentes sempre me espantaram. Ainda me espanto com eles. Nesses casos, suspeito que meu cérebro esteja atuando por conta própria, sem minhas ordens. Um free-lancer. Um microcomputador que aprendeu as delícias do livre-arbítrio. Um CPU fantasma! Há duas semanas sonho com o mesmo tema. Quase todos os dias. Meu subconsciente, de vez em quando, é meio burrinho, coitado: funciona como um LP arranhado.

O sonho de ontem explica todos os outros sonhos recentes, que reprisam uma mesma aflição. Aconteceu assim: eu estava num transatlântico, em alto mar, vestido com uma camisa muito extravagante e improvável (amarela, brilhante, com coqueiros e um laguinho) e sunga preta. O sol queimava minha testa, mas eu me recusava a pular na piscina. Eu preferia ficar sentado numa mesa de rodinhas, sozinho, jogando cartas (quem me conhece sabe que odeio jogar cartas, mas sonhos são sonhos são sonhos). Meu adversário na brincadeira não estava ali. Eu esperava que ele retornasse para que continuássemos a partida.

Havia 10 ou 12 pessoas na piscina. Todas muito contentes. Estávamos de férias, aparentemente.

Meus sonhos sempre começam felizes e terminam tensos, apocalípticos. Aquele não era exceção. Minha mãe, que usava um maiô verde-escuro muitíssimo brega, parecia nervosa quando se aproximou da minha mesa. Ela bebia um drink cor-de-rosa e tinha uma notícia séria para contar. Preferiu falar baixo, talvez para não estragar o dia dos outros passageiros.

– Tiago, seu padrasto está doente – ela disse.

– Como assim? – perguntei. Minha testa ardia.

– Ele machucou os braços. Não pode comandar o navio.

– Mas ele estava comandando o navio? O nosso navio?

– Sim, obviamente. Ele era o comandante do nosso navio.

– Meu Deus.

– Você não acredita em Deus, Tiago.

– Mesmo assim. Meu Deus. Ele era o comandante do navio?

– Sim, sim. E está doente. Não consegue mover os braços. Por isso não pode mais comandar o navio.

– E não existe um copiloto no nosso navio, mãe? Sempre existe um copiloto.

– Não existe um copiloto.

– Piloto automático?

– Não.

– Talvez seria possível… Usar os pés?

– Ele tem cãibra.

– Cãibra?

– Tiago, estamos perdidos. Eu, você e as 60 ou 70 pessoas que estão se divertindo à beça neste navio.

– São 60 pessoas?

Minha mãe me olhou com ar de cansaço. Deixou a toalha na mesa, espalhou as cartas do baralho, abandonou o drink exótico e correu para a piscina. Deu um mergulho. Olhei para o horizonte e vi um clarão atômico. Acordei.

Nos outros sonhos, a situação muda superficialmente: o carro, a motocicleta, a bolsa de valores, o controle de energia elétrica da cidade – tudo no mundo subitamente passou a ser controlado por meu padrasto. Que, infelizmente, estava doente e não poderia nos ajudar naquele momento. Eram sonhos didáticos. Extremamente e estranhamente didáticos. Sonhos até triviais. Bobos mesmo. Sonhos dirigidos por cineastas amadores. Escritos por Paulo Coelho. Com roteiro do Manoel Carlos. Não havia quase nada incompreensível neles. Eles queriam dizer algo muito simples, e diziam em voz alta.

Diziam com poucas linhas: você está amedrontado, Tiago. (Ou algo assim.) Você está desesperado, Tiago. Você não sabe o que fazer da sua vida, Tiago. Você está encrencado, Tiago.

O complicado é que, com o tempo, tento me convencer de que o transatlântico está sob controle. Que tudo vai terminar relativamente bem. Que o ser humano se adapta a tudo. E que meu coração vai seguir em frente! No entanto, quando durmo, sou nocauteado pela realidade. Meus sonhos são mais duros que a minha vida. E eles dizem: Tiago, não se engane. Você não está bem. Não estamos bem. Ninguém está bem. Estamos soltos no oceano. Seu padrasto está doente. E isso não é bom nem vai melhorar. Acorde para dentro do pesadelo, Tiago.

Meus sonhos têm a sofisticação de meninos de sete anos de idade. São estupidamente honestos. Por isso confio neles. Crianças são cruéis. Lá no terreno pantanoso do meu cérebro, sei que não estou bem.

Desde que descobrimos a doença do meu padrasto, eu e minha família tentamos calcular o quanto custaria à nossa sanidade manter esperanças e viver a vida como se existisse algo parecido com luzes no fim do túnel (por enquanto, temos o túnel e o blecaute no túnel). Eu sou o mais racional e radical de todos. Não acredito em quase nada. Creio um pouco em extraterrestres, já que o espaço sideral é extraordinariamente grande e seria tolo não acreditar um pouco neles. E só. Minha mãe acredita em Freud e nos avanços da ciência. Acredita que, apesar de tudo, existe um floco de esperança em tudo. Minha irmã não fala muito.

A tragédia me transformou num sujeito descrente. E prático. Praticamente descrente. Em tudo. Quando um dos meus cachorros foi internado para uma cirurgia na orelha, procurei no Google uma forma de comprar outro cão. Tudo para evitar que minha mãe caísse em depressão profunda. O cachorrinho vai morrer, pensei. Quando os veterinários começaram a adiar a alta do beagle, que se chama Hatty, criei uma teoria da conspiração. “Eu disse, mãe. Não tem jeito. É o que é. Acabou-se o que era doce.” Encontrei um cão adorável num site e mostrei a fotografia para a minha irmã. “O Hatty vai sair dessa, Tiago”, e ela parecia confiante. Duvidei.

Há uma semana, nosso cão voltou para casa. Usa um protetor de orelhas que dá a ele a aparência de um beagle-cosmonauta, mas o acessório futurista não o impede de fazer gracinhas, assediar sexualmente o meu golden retriever e cagar no estofado. Está forte. Está atento. E, mais importante que isso, está vivo.

caocueca

Hatty, o cão-abajur (também conhecido como cão-parabólica), mordendo a minha cueca. Hoje à tarde.

A doença do meu padrasto (que é um cético) confirmou nossa hipótese de que a vida é uma canoa furada e salve-se-quem-puder. E, para esgotar as metáforas baratas e aquáticas: a onda, quando vem, é um maremoto. Não tivemos tempo para tomar fôlego. Em poucos dias, estávamos afogados em exames médicos, estatísticas, documentários chorosos, artigos científicos que ardem feito picada de abelha, conselhos imprecisos, estimativas assustadoras, estudos de caso pessimistas e uma imagem de futuro que fazíamos questão de encarar como um slide sem foco. Tínhamos medo. Temos medo.

O que devemos fazer? Acreditar em incríveis reviravoltas do destino ou manter os pés no chão? Sofreremos de uma forma ou de outra. Mas qual dessas opções é a estritamente necessária? Existe vida após o diagnóstico?

Não vejo uma resposta consistente para essas questões. Procuro, mas não a encontro. Bons acidentes acontecem. Hoje à tarde, depois de voltar do 210º médico, meu padrasto finalmente trouxe uma boa notícia. Aquilo nos perturbou. Não estávamos prontos. Ficamos até um pouco chocados, na verdade. Minha mãe telefonou para o doutor, que sublinhou a esperança. Esperança. Ela chorou. Eu permaneci estático, sem saber como reagir. “O que aconteceu, mãe?”

Ela estava sem voz.

Depois de um tempo, descobri tudo. O médico disse ter dúvidas sobre o diagnóstico do meu padrasto. A doença poderia ser outra. Poderia não ser tão grave. Os exames talvez indicassem, vá saber, um problema hormonal muito atípico e intenso. Algo raro. Mas existe a probabilidade de que algo raro aconteça, não existe?

– É um bom médico, Tiago. Os pacientes fazem uma fila imensa. E a fila costuma durar anos.

Havia uma esperança. Talvez.

– O que quer dizer essa deficiência de hormônios, mãe?

– Quer dizer que essa queda desativa os neurônios. Por isso ele está perdendo a memória aceleradamente. O médico disse que é um tipo de situação que ele nunca viu. E que outros pacientes costumam perder a consciência de que estão doentes, o que não aconteceu com seu padrasto.

– E isso pode ser bom?

– Pode ser ruim, Tiago. Mas não tão ruim quanto imaginávamos.

– E isso pode ser bom?

– Isso pode ser ótimo.

Minha mãe estava radiante. No fim da tarde, saímos para caminhar. Ela comprou croissants. E salgadinhos e sorvete napolitano. A nossa imagem sombria de futuro era, agora, um slide rabiscado com giz de cera. Meu padrasto voltou a tocar violão. Os cães, que talvez consigam mesmo sentir as boas vibrações, brincaram de pique. O Hatty foi ao meu quarto e roubou minha cueca. Ele não costuma fazer isso. Mas fez.

Por coincidência, terminei há dois dias um livro sobre o acaso, chamado O andar do bêbado. Do físico Leonard Mlodinow. Com Stephen Hawking, ele escreveu Uma nova história do tempo. O autor defende o raciocínio (estudado seriamente por cientistas de todo o mundo) de que nos deixamos enganar por falsas conexões que criamos entre fatos aleatórios. Por exemplo: quando um produtor de Hollywood assina três fracassos de bilheteria, passamos a acreditar que ele é um péssimo executivo – mas nos esquecemos repentinamente dos cinco sucessos incríveis que ele criou, e dos vinte filmes que tiveram performance digna. Julgamos pessoas e eventos a partir de uma lógica que não tem nenhum embasamento científica. E por que somos estúpidos a esse ponto?  Simplesmente queremos acreditar que o acaso faz sentido. Isso nos conforta.

É um livro bonito (principalmente porque Mlodinow demonstra uma fé tremenda num mundo governado pelo aleatório). E o engraçado é que – note o acaso puxando as nossas cordinhas! – logo depois li o tocante Extremamente alto e incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer. O protagonista, um órfão de nove anos que perdeu o pai no 11 de setembro, é um fã de… Stephen Hawking!

Bem. Estou desviando do tema. Lá pelas tantas, num emaranhado de pequenas biografias de físicos e filósofos que estudaram probabilidades e estatística, Mlodinow lembra a trajetória de Blaise Pascal. Depois de uma revelação espiritual, o francês escreveu ideias que foram publicadas num livro chamado Pensamentos. Talvez afetado por um transe, ele resolveu calcular os prós e contras de nossos deveres para com Deus (criou, assim, um conceito que ficaria conhecido com esperança matemática).

Pascal propôs o seguinte: existe uma probabilidade de 50% para que Deus exista. E uma de 50% para que não exista. Nesse contexto, devemos ou não devemos levar uma vida pia? Se agirmos piamente e Deus existir, argumentou Pascal, nosso ganho – a felicidade eterna – será infinito. Por outro lado, se Deus não existir, nossa perda, ou retorno negativo, será pequena – os sacrifícios da piedade. Desenvolvendo essa epifania, ele criou um equação matemática que, aqui, não vem ao caso. Eric Rohmer aplicou essa teoria numa obra-prima do cinema, mas que também não vem ao caso.

O que vem ao caso é que, na prática, é impossível negar minha simpatia por Pascal. Quantos são capazes de criar uma equação tão bela? Talvez não faça tanto sentido (acredito que levar uma vida de sacrifícios, sem overdoses ocasionais de chocolate ou sites pornográficos, pode sim representar um retorno bem negativo se a descobrirmos enfim que não existe felicidade eterna). Mas gosto de acreditar naqueles que acreditam numa possibilidade tão poética. Acredito na minha mãe. E hoje ela conseguiu me encher de esperança.

À tarde, cochilei no sofá e sonhei com um balão. Solto no ar. Sem dono. Sem pai ou padrasto ou mãe ou irmã. Mas, mesmo perdido, ele descrevia um voo seguro. E gracioso. Não sei explicar, mas talvez tenha sido um bom sinal.