Father son holy ghost

Father, son, holy ghost | Girls

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A adolescência é uma fase tão estranha que você (no caso, eu) consegue gostar de Elliott Smith e de Oasis simultaneamente — e dá conta de ouvi-los numa mesma tarde, um depois do outro, assim, como se nada absurdo estivesse acontecendo.

Com o passar do tempo, fui me aproximando mais de Elliott Smith e me afastando progressivamente do Oasis. Talvez menos porque me tornei um sujeito mais sensato (permaneço um crianção) e mais por uma questão de temperamento.

Quando tento entender o que me conecta aos discos que amo, uma característica sempre se apresenta. Resumindo de um jeito singelo: são álbuns que dão forma musical a sentimentos/ideias/experiências/impressões individuais (e, por isso, únicas).

Parece algo corriqueiro (e seria incrível se fosse), mas o que ouço geralmente é o contrário disso: músicos que usam fórmulas, chavões, “tendências” para lustrar discursos que não têm nada de verdadeiramente pessoal. Há inúmeras canções de amor. Não são todas as que soam singulares.

Daí as diferenças entre um Elliott Smith e um Oasis. Elliott Smith não escrevia “canções de amor”, mas músicas sobre sensações e situações específicas, que diziam respeito ao modo (um tanto romântica, um tanto desencantada) como ele notava as relacionamentos amorosos. Os arranjos, nos melhores casos, se integravam às letras de tal forma que entenderíamos Smith mesmo quando ele apenas gemia algumas harmonias vocais à la Beach Boys.

Já o Oasis escrevia “canções de amor” enormes, para espelhar as experiências de todo um planeta — mas não comunicavam nada de muito específico.

O que Noel Gallagher pensa sobre o amor? Mesmo hoje, depois de ter ouvido todos os discos do Oasis (e, alguns deles, mais de uma vez), sigo me perguntando. Existe algo singular nessas canções? Algo que só pertença ao Noel Gallagher? E nas harmonias, nos arranjos? Noel consegue criar sonoridades que se relacionem minimamente àquilo que ele canta ou compõe? Se fosse um cineasta ou um artista plástico, Noel teria feito bons quadros/filmes?

Acredito que a resposta para todas essas perguntas é não.

O que não desqualifica, de forma alguma, o status de “rockstar” que Noel exibe sempre com muito orgulho. Há tradições no rock que validam uma banda como o Oasis — que quer escrever hinos sobre sentimentos-clichê para multidões anônimas. Quando cria versos como “conte comigo, porque ninguém sabe o que vai acontecer”, a banda simula o efeito de cartões postais ou mensagens de powerpoint: slogans que falam a todos, talvez por não falar pontualmente a ninguém.

É claro que será sempre fracassada a tentativa de dividir a música pop entre os artistas (Elliott Smiths) e os populistas (Oasis), até porque as coisas são um pouco menos catalogáveis – acidentes e bizarrices e erros sublimes acontecem. Mas percebo que muitas bandas às vezes flutuam entre esses extremos — ou, em alguns casos, querem ser uma coisa (artistas, por exemplo) quando acabam resultando em outra (populistas, digamos).

Percebo isso no Girls. E é chato comentar sobre o assunto só agora, depois de ter elogiado os dois discos anteriores do grupo. Mas é neste Father, son, holy ghost que o grupo parece finalmente afirmar uma postura musical. E essa postura me parece uma tese à la Elliott Smith que, na prática, se mostra um conjunto de hinos à la Oasis.

Numa entrevista à Spin, o vocalista (e candidato a Cobain/Elliott/Buckley) Christopher Owens comentou que o título do disco foi escolhido para refletir a “qualidade espiritual” do álbum. Pois bem. É um bom começo de conversa sobre o que acontece aqui.

A intenção de Owens está clara: soar franco, rascante, um homem à flor da pele, um singer/songwriter à beira do precipício (e outros lugares-comuns herdados lá de Nick Drake). Uma das músicas, percebam, atende por Vomit. E as letras são escritas quase sempre com a simplicidade de um primeiro rascunho: “Parece que tudo, tudo, tudo acabou. Sinto que ninguém está feliz agora”, ele lamenta, em Just a song. É um post, um tweet.

Até aí, nada de muito novo para quem conhece o Girls. Mas, se compararmos a sonoridade deste disco à estreia de Owens, de 2009, algo parece diferente. É como se, com a ajuda do produtor Doug Boehm, o compositor tentasse exprimir “maturidade” apertando o spray da polidez sonora. Não vou ficar surpreso se encontrar este disco em muitas das listas de melhores do ano: ele tenta uma espécie de crossover com o público desinteressado (porém cool) que só conheceu Cat Power graças ao soul lavadinho de The greatest.

Ao ordenar e espanar algumas inclinações musicais que já apareciam nos discos anteriores (o gosto pelo pop vocal dos anos 1960, pelo pré-rock de Buddy Holly e um feijão-com-arroz sentimental que inclui algo de McCartney e Donovan), Owens acaba optando por um som anódino, vazio de sentidos, que parece existir só para envolver canções bonitas. Estamos falando de um disco que não soa como um álbum, mas como uma compilação de músicas bacanas que Owen compôs nos últimos meses.

E aí vão dizer que é “desencanado”, que é “despretensioso”, e vão usar os adjetivos que as pessoas usam para valorizar obras que miram pouca coisa e acertam menos ainda. O que me incomoda, no entanto, é outra coisa: as canções de Owens (e, se estamos falando de um “disco de canções”, é hora de irmos a elas) são coleções de frases de efeito, de sentimentos “universais” que encontramos num álbum do Coldplay, do Travis e, claro, do Oasis.

Não vou listar todos os casos de indulgência poética (são muitos), mas aí vão alguns: “Você seguraria a minha mão? Estou mais gelado que a neve. Mas quem se importa sobre o amor? Podemos fugir?” (em Alex), “Eu saí e conheci o mundo moderno, mas sinto falta da vida quando você era minha garota” (em Jamie Marie), “Você espantou meus medos, agora vou ficar com você, ninguém faz com que eu me sinta melhor” (em Magic) e a pior: “Oh, deus, estou cansado e meu coração está partido. É tão difícil se sentir sozinho e tão longe de casa” (My Ma).

Um argumento possível para versos tão humildes é que eles seriam condizentes com muitas das referências musicais de Owens, que parece sentir um tanto de nostalgia por um tempo em que o rock produzia faixas mais imediatas e ingênuas (ou falsamente ingênuas). Mas só de pensar em comparar qualquer uma dessas faixas com, vejamos, All my loving… Dá um pouco de desânimo.

E isso porque estamos falando de um disco de forte “qualidade espiritual”, segundo Owens.

Se o Girls é apenas um jogo cínico de estilo — letras molinhas que acenam para itens vintage de outra época, embaladas em coros soul, solos de guitarra, violões e “sinceridade” –, então não vejo como Owens conseguiria se conectar, ou pelo menos preencher as expectativas, do público de um Elliott Smith: que, mesmo nas gravações mais precárias, encontra uma voz, um discurso muito particular. Este Girls, por mais agradável e doce, me parece dançar no vazio.

Mas taí um candidato sério ao Grammy (se o Grammy se dispuser a ouvi-lo).

Terceiro disco do Girls. 11 faixas, com produção do Girls e de Doug Boehm. Lançamento True Panther Sounds. 52