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Harry Potter e o enigma do Príncipe

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Harry Potter and the half-blood prince, 2009. De David Yates. Com Daniel Radcliffe, Michael Gambon, Jim Broadbent, Rupert Grint e Emma Watson. 153min.

Hoje, um domingo morto, publicaram a última crônica de uma série que escrevi para o jornal. No total, ficamos em três textos. Três, e só três. Parece pouco, eu sei. Mas, para mim, foi mais ou menos como escrever um romance. Daqueles que duram mais de 800 páginas e nascem fadados a juntar poeira em estantes de bibliotecas (se você não sabe absolutamente nada sobre essa minha aventura absolutamente insignificante, recomendo a leitura deste post e deste outro).

Talvez, naqueles posts, eu tenha sugerido que a experiência teve um quê de tortura medieval – mas peço para que desconsiderem os eventuais exageros. Por natureza, sou um sujeito dramático. Meu mundo está sempre por um fio, vocês sabem. Para ficarmos num exemplo, quando descobri o sentido de “inferno astral”, pensei assim: certo, taí uma boa, justa definição para a minha existência.

Pois bem. O processo me ensinou algumas lições. Uma delas: meus textos são longos, prolixos; preciso enxugá-los (e imaginem o que significa continuar escrevendo um blog como este depois de chegar a essa conclusão – sou um herói). Outra: quando um prazo se impõe e o tempo é curto, você encontrará ideias de crônicas em cada diálogo, em cada cruzamento, em cada cena de novela, em todos os lugares. Pensei em escrever sobre meus vizinhos, que não conheço (e talvez isso aconteça em muitos lugares, mas aqui em Brasília é normal desconhecer os vizinhos). E sobre os diálogos absurdos que ouço quando paro o carro no semáforo. E sobre a história de um menino que vi na fila de Harry Potter e o enigma do Príncipe.

Até para não perder o timing do mundo, preferi me concentrar naquele caso pueril que narrei por aqui, sobre o casal de adolescentes que se encontra no aeroporto, etc. Essa crônica sobreviveu. As outras deveriam ter morrido. Mas não. Tai outra lição, anotem: mesmo as crônicas descartadas continuarão vivas, sabe-se lá como, sabe-se lá onde, até o momento em que finalmente serão ejetadas para o planeta. E, ao chegar nessa conclusão, não tento ser poético nem nada: é apenas um fato.

O menino da sessão de Harry Potter, coitado, viveu como rascunho por dois ou três dias, até ser massacrado e abandonado no fundo da lixeira do meu laptop. Cheguei a escrever as primeiras frases de uma biografia improvisada e rasteira, mas as desprezei quando minha namorada telefonou me chamando para um jantar. Ou seja: escrever ou não escrever uma determinada crônica pode ser um golpe do acaso. Uma decisão do destino. De deus, se é que ele tem tempo para se meter nessas tramas do cotidiano. Da minha namorada, que também manda e desmanda. Um esbarrão. Uma ação involuntária. Vá saber.

Resumindo a ópera: tenho a impressão de que o menino da crônica abandonada renderia um texto mais interessante que todos os três publicados. O leite está derramado, mas creio que fiz a opção errada em privilegiar o casalzinho sem-sal do aeroporto e menosprezar a saga de um garoto que, na fila da pré-estreia de Harry Potter, vestia uma capa de cetim preta e verde costurada pela avó.

Eis a história do rapazinho, então. Ele passou uma semana insistindo para que a avó costurasse a maldita capa do Harry Potter (planejada como um uniforme de Hogwarts, uma espécie de robe elegante e démodé). A avó fez o serviço e, na pré-estréia, o menino (que tinha uns 13, 14 anos), vestiu a fantasia orgulhosamente. Isso até o momento em que ele se aproximou da fila (uma fila enorme, que ia até a praça de alimentação) e percebeu que ninguém, nenhuma criança estava fantasiada. Ninguém usava robes ou capas ou carregava varinhas de condão. Ele sentiu-se instantaneamente envergonhado, como se tivesse feito algo muito errado. “Onde eu estava com a cabeça quando pensei nessa capa?”, perguntou-se. Mas ele gostava da capa, apesar de tudo. Era uma capa até apresentável, pensava.

Discretamente, ele tirou a capa e a pendurou no braço direito. Mas aí uma repórter viu a capa e pediu para o menino posar para o fotógrafo do jornal. “Vista a capa, por favor”, ela pediu. E o garoto, envergonhadíssimo: “Não é minha”. A repórter insistiu. Os outros espectadores perceberam a situação e começaram a rir do pobre menino, naquela altura já vermelho de constrangimento. Ele acabou cedendo. Fez a foto e, logo depois, arrancou a capa violentamente. “Não era minha”, ainda disse.

Eu estava ali e procurava uma crônica. Quem mandou? Vi naquela situação um cartoon vivo para as indefinições da adolescência. Existe um período da vida em que você não sabe o que deve fazer. Não sabe o que é permitido. Não entende a linha que separa a infância da idade adulta. Há ritos de passagem que chegam num empurrão, como aquele, numa fila de cinema, provocado por uma capa de cetim. Tai uma cena (melhor: uma sensação) que não encontrei em nenhuma das aventuras de Harry Potter. A fila é melhor que o filme!

No dia seguinte, tentei assistir ao filme para criar uma crônica que criasse um paralelo imaginário entre aquele menino de Brasília e o herói da ficção. Poderia ter rendido algo engraçadinho, mas a crônica foi sepultada por um jantar e pelas filas enormes que me impediram de assistir à sessão. Escrevi outra crônica e me dei por satisfeito com ela. Não é boa, mas é o melhor que consigo neste momento. Daí decidi assistir ao filme ontem à tarde, numa sessão menos concorrida, e percebi que desperdicei uma boa ideia. Azar o meu.

O que me interessa na série Harry Potter é notar como ela acompanha o crescimento de um grupo de personagens. No primeiro episódio, Potter tem 11 anos de idade. Neste novo, deve ter uns 16, 17. Os seis filmes, por isso, retratam a puberdade do herói, seus melhores amigos e os atores que os interpretam. Admito que as tramas nunca me fisgaram (é a clássica batalha de tipos superpoderosos contra as forças do mal, plana e tola), mas entendo que o público volte à série regularmente para reencontrar personagens e atores que, com o tempo, passaram a provocar a sensação de familiaridade típica de um amigo que, apesar de não muito presente, nos visita nas férias.

Apesar disso, são filmes que subestimam aquele que talvez seja o grande tema da série: a adolescência. Cada episódio sugere uma certa angústia, uma certa falta-de-jeito, que espiamos na dificuldade como Potter assume responsabilidades de adulto, mas saio das sessões com a impressão de que a experiência daqueles atores nos bastidores foi infinitamente mais interessante que tudo o que se vê no corte final. Como os dois próximos episódios não serão dirigidos por Gus Van Sant ou pelo Richard Linklater, temo que essa oportunidade será desperdiçada novamente.

O pior é que David Yates, o diretor, sabe o que está perdendo. Tenta valorizar os trechos em que Harry e os amigos se envolvem em casinhos apaixonados, flertes desajeitados. Cirandas quase drummondianas. Nesses momentos, o filme sugere uma versão “família” de A bela Junie. Ah, teria sido bom. Mas, nas 2h30 de duração, o cineasta precisa desenvolver aquela velha trama de fantasia que se arrasta por tantos episódios, uma saga frouxa que parece não terminar nunca. Aí nos lembramos que às vezes devemos encarar a série Harry Potter da forma despreocupada como vemos aqueles seriados de tevê à antiga, que se repetem a cada capítulo. Ainda que, claro, com uma produção mais elegante e cuidadosa que a de 90% dos blockbusters (o tom sombrio é acentuado sutilmente a cada episódio, por exemplo).

Procurei em Harry Potter os traços imprevisíveis de humanidade que encontrei no menino da capa de cetim. O fã do bruxinho. O garoto morto de vergonha. O espectador anônimo. Procurei e quebrei a cara. Quase pedi meu dinheiro de volta, juro. “A fila é mais divertida, moço”. Outra lição, pois: a frustração aguarda aqueles que andam pelo mundo com uma crônica atrás da orelha.

PS: A partir de hoje, as cotações dos filmes, discos e séries deixam de vez o blog e ficam no meu log, tiagos8.sites.uol.com.br. Obrigado.

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X-Men origens: Wolverine

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X-Men origins: Wolverine, 2009. De Gavin Hood. Com Hugh Jackman. Liev Schreiber e Ryan Reynolds. 110min. 5/10

Se geralmente não me interesso por filmes de super-heróis, por que insisto tanto neles? Seria uma forma de masoquismo?

Existe uma etapa da vida em que simplesmente abandonamos tudo aquilo que não nos agrada? Que aprendemos a passar à margem do que nos deixa insatisfeitos? Que desistimos em definitivo das segundas chances?

Quando esse meu dia chegar, temo pelos filmes de super-heróis.

Por enquanto, eles resistem. É que sou um sujeito curioso. E teimoso. Por isso volto regularmente a procurar um grande filme do gênero como aqueles surfistas que buscam a onda perfeita. Admito (sem achar graça nisso): ainda não o encontrei.

Os que mais me impressionam são aqueles que integram trajetórias de cineastas que me interessariam até se filmassem adaptações de Jane Austen. Tim Burton, por exemplo. Bryan Singer, apesar das pisadas na bola. Guillermo del Toro, e provavelmente vocês já entenderam onde quero chegar.

Sem um bom cineasta disposto a transfigurá-lo, o gênero me aborrece. Nada posso fazer contra isso. Provoca um efeito entediante que é superior à média de fitas de ação e comédias românticas que assisto a cada seis meses (e são muitas). Acompanhar as “histórias de formação” de super-heróis – aquelas narrativas que nos explicam detalhadamente como o sujeito aprendeu a voar, ficar invisível e quebrar vidros com o poder do pensamento – equivale a assistir a uma longa maratona de Gossip girl e Grey’s anatomy. Um inferno, acreditem.

Sei que estou na contramão do mercado, das bilheterias, dos lucros astronômicos de estúdios poderosos e tudo o mais. Posso viver com isso. Hoje em dia, vender um filmeco qualquer como uma “história de formação de super-herói” é meio caminho andado para faturar horrores. Sei. Entendo. Estou por dentro. Não penalizo o público por cair nesse conto vagabundo. Eu, que não sou ingênuo nem nada, estarei sempre na fila para assistir a qualquer ficção-científica sobre a destruição do planeta Terra. Somos todos culpados. E estamos quites nisso, ok?

Eis que…

Qual não foi minha alegria ao descobrir que a Fox Film inaugurou uma nova franquia de “filmes sobre heróis em formação”, e ela começa com Wolverine? Se cair no gosto do público (já estou fazendo figa para que todos se entediem profundamente e se sintam miseráveis, engasguem com pipoca e drops de menta etc), seremos atacados por outros contos sobre as primeiras experiências de tipinhos extraordinários.

Eu sei. Eu deveria desistir deles. Vocês têm razão. Vocês sabem. Mas insisto. E vejam bem: com o mesmo distanciamento que aplico a filmes de Ron Howard e Michael Bay, consigo analisá-los até objetivamente, sem paixão, sem ódio, sem nada. Vejo qualidades. Coço o queixo, pensativo. Desenvolvo hipóteses, desenho diagramas. Analiso. Como quem abre um hamster. Tanto que, em vários momentos, compreendo que tenho direito a desenvolver alergia a filmes eficientes e bem-intencionados, com boas idéias e cineastas esforçados. Consigo. Respeito. Mas não é o caso de Wolverine.

O processo de filmagem do longa de Gavin Hood foi tão acidentado (DVD pirata sem efeitos especiais? E demitiram o jornalista por causa de uma resenhazinha? Pff) que provavelmente tudo o que a Fox quer neste exato momento é que a crítica trate o filme como um produto correto, simpático, que cumpre requisitos e sai-se bem no teste do olhômetro. Um legítimo nota 6. Para mim, é apenas um longa que exibe em cada cena o quão dolorosamente matemático pode ser o processo de confecção de um blockbuster.

Vamos lá, sem inocência: isto aqui é um baita de um mutante gerado em dezenas de reuniões de executivos de estúdio. Hood já declarou que não se interessa nem nunca se interessou por revistas em quadrinhos (isso significa que até eu, antigo leitor de Batman e Chico Bento, poderia ter dirigido o filme!), e a falta de paixão fica bastante clara na tela. O cineasta não leva muito a sério o que está filmando – e, se despretensão conta a favor de fitas autoirônicas do gênero (como Hancock, taí uma de que gostei), parece deslocada num action movie que parece querer ser Batman begins quando crescer. Falta pompa, carece de ambições trágicas, no mínimo.

O próprio Hugh Jackman, também produtor, interferiu no roteiro. Dizem que o filme custou algo em torno de US$ 100 milhões. Imagino que 90% disso tenha sido investido nas cenas de ação, tão mirabolantes e radicalmente tolas quanto as de Velozes e furiosos 4. O restante da produção parece ter sido penalizado por um acabamento de quinta categoria. Os cenários são galpões amarelados, laboratórios subterrâneos, castelos medievais de parque de diversão, objetos gerados em computação gráfica e uma ou outra casinha isolada numa montanha canadense. Movimentar meus olhos diante da tela exigiu esforço.

Encarado como o piloto de um episódio de tevê, o filme parece até (aí vai, Fox!) correto e eficiente. Eu o exibiria no AXN por volta das 20h, antes de uma reprise de Lost. A vantagem, no caso, é que Hood e Jackman fazem o possível para não lambuzar o belo trabalho de Singer no primeiro X-Men. A proposta de ambientar a trama 20 anos antes dos eventos do longa original é boa, já que evita comparações desnecessárias. Toda a narrativa se desenrola antes do dia em que as memórias de Wolverine perdeu a memória. Pode ter sido apenas um sonho ruim, vá saber.

Pelo que lembro, o filme de Singer resumia com bastante precisão a origem de Wolverine. Ou pelo menos o que precisávamos saber sobre ela. Aqui, boa parte das informações parecem subaproveitadas. Por exemplo: quando criança, Wolverine matou acidentalmente o próprio pai. Mais crescido, se viu obrigado a lutar violentamente contra o meio-irmão. Quando encontrou a mulher dos sonhos, ela revelou perigosas segundas intenções. É uma vida de cão ou não é? É Shakespeare, é Bíblia Sagrada ou não é? Hood toma esses traumas e faz deles uma fita de aventura para adolescentes – inofensiva, dente-de-leite.

Outro exemplo: os mutantes que cercam Wolverine (sim, já que este suposto voo solo acaba se revelando mais um filme de mutantes). Quem são eles? O que eles contam? No final da projeção, fiquei perdido entre tantos coadjuvantes que parecem existir apenas para preencher sequências de ação. Mas aí vem a necessidade de apresentar uma galeria de personagens para satisfazer os fãs que, quando não lêem gibis, assistem a episódios de Heroes e reruns de Caminhos do coração. Essa gente.

Aliás, tai outra coisa que me irrita em filmes de super-heróis. Quase todos os argumentos levam em conta os fãs, essa entidade misteriosa. Quem são eles? Não faço idéia. Ao final da sessão, hoje pela manhã, um jornalista usou essa velha cartada para defender o filme:

– Os fãs vão gostar.

– Os fãs dos quadrinhos?, perguntei, intrigado.

– Não. Os fãs dos outros três filmes.

– E os fãs dos quadrinhos?

– Esses talvez não gostem.

– E as fãs do Hugh Jackman?

– Essas vão gostar.

– E os fãs do Gavin Hood?

– Não existe.

Deixei assim. Sempre deixo. É normal. Nunca encontro respostas para esse tipo de pergunta. Repito: quem são os fãs? Como eles decidem se gostam ou não gostam de uma adaptação cinematográfica? Eles se reúnem em congressos ultrasecretos, onde assinam conclusões definitivas? Escrevem declarações e fazem cópias em três vias? Debatem via MSN e Twitter? Onde eles estão? Onde moram? São norte-americanos, na certa, mas de que estado? São sócios de algum clube? Jogam golfe? Falam três idiomas? Formam uma espécie de seita? Sinceramente, ainda não sei. Sempre que alguém justifica o apelo de um filme pelo gosto dos “fãs”, me sinto enganado. Estou certo de que alguns fãs gostarão de Wolverine. E estou certo de que outros sairão do cinema decepcionados. Mas por que deveríamos levar isso em conta quando discutimos um filme?

Wolverine me pareceu um filme capenga e desastrado. Como tantos outros. Há bons atores, Hugh Jackman é um chapa carismático (talvez demais, já que o papel exige uma angústia que ele não sabe de onde tirar) e a trama é curta o suficiente para não cansar. Nada memorável. E sim, claro, nosso angustiado Wolverine passa por uma série de testes para descobrir que a vida é feita de escolhas e que às vezes Freud não explica e que grandes poderes trazem grandes responsabilidades e que…

Os fãs entenderão.