Família

mostraSP | dias 1, 2 e 3

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Era uma vez na Mostra de São Paulo…

Pois bem, folks: aqui começa o meu já tradicional (e tradicionalmente desajeitado) diário da Mostra Internacional de Cinema de SP,  que começou sexta-feira e termina em 10 dias.

Este ano, o desafio é o mesmo de sempre: assistir a uma quantidade quase torturante de filmes sem cair no pecado de abandonar a programação para me dedicar a, digamos, jardinagem – ou a uma maratona de stand-up comedies. Os filmes ruins drenam a minha vontade de viver. Já os bons, vocês sabem

Estamos no quarto dia de Mostra. Infelizmente, este é o primeiro post sobre o assunto. Não deu tempo para começar antes. Sou um sujeito ocupado, mesmo quando de férias.

A seguir, vocês encontram resumos apressados sobre os filmes que vi até aqui. Alguns parágrafos são maiores (e mais generosos, e mais sensatos) que outros. Para facilitar o acesso a meu gosto tão peculiar, aplico aos comentários uma cotação que vai da letra D (de, digamos, doente) a A+ (de, digamos, absurdamente bom).

Para reviews instantâneas, escritas logo após as sessões, recomendo uma visita ao meu Twitter. Mas perdoe a bagunça, ok?

The day he arrives | Bukchon banghyang | Hong Sang-soo | A | Talvez num aceno para o Rohmer de Minha noite com ela (ou ao Woody Allen de Manhattan), Sang-soo usa desta vez uma fotografia em branco e preto que transforma cada cena numa espécie de postcard sentimental, de uma beleza quase falsa (veja foto acima). Uma atmosfera muito apropriada, portanto, para narrar o encontro de um homem com as memórias (boas e ruins) que associa à cidade onde viveu no passado. É melancólico e gentil como uma velha canção de Sinatra, mas também tem algumas das conversas-de-bar mais engraçadas que o diretor já filmou. Não está entre os meus preferidos dele, mas é perfeito para os iniciantes na filmografia de um cineasta que faz sempre o mesmo grande filme.

Isto não é um filme | In film nist | Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi | A | A existência deste filme já parece algo milagroso: confinado dentro de casa, em prisão domiciliar, Panahi mostra quase tudo o que precisamos saber sobre a vida no Irã. É o longa mais agressivamente político do cineasta, e, ainda assim, pode ser lido como um romance minimalista de Kafka. Também é, no entanto, um tanto enganoso: a encenação que, num primeiro momento, dá a ideia de um registro espontâneo (“é o que tem pra hoje!”), aos poucos se mostra mais autoconsciente do que imaginávamos. Daí descobrimos que estamos metidos num dia de fúria, que começa numa mesa de café da manhã e termina em chamas. Não só um filme, mas um filmaço.

Era uma vez na Anatólia | Bir zamanlar Anadolu’da | Nuri Bilge Ceylan | B+ | É um pequeno conto policial ampliado às paisagens vastas de um western e à dimensão de um livro de 600 páginas. O projeto de Ceylan é muito preciso (e nada muito singular): dilatar a trama para ressaltar a banalidade do cotidiano. O que não me convence é a forma como o diretor usa os personagens para extravasar um certo sentimento de mal estar em relação à violência, como se eles não estivessem acostumados a todos os procedimentos técnicos de uma investigação. Me parece forçado, em alguns momentos. O preciosismo dos enquadramentos (everything in its right place) já não me irritou tanto: é como se os jogos cruéis que as pessoas jogam, para Ceylan, não alterasse o curso sublime da natureza.

Pater | Alain Cavalier | B | Imagino o espanto que deve ter tomado conta dos espectadores da sessão de gala de Cannes quando este filme bateu na tela. Cavalier novamente se expõe às câmeras com a coragem de quem se candidata a um reality show, mas cria tantas camadas de encenação que a brincadeira se torna, por vezes, enervante. Uma equação talvez resuma o longa: um filme político + o ensaio para um filme político + o jantarzinho da equipe do filme político + um documentário sobre o gato de Cavalier + o blog do diretor.

O futuro | The future | Miranda July | C | Se você procura uma definição audiovisual para o termo hipster, ela está neste filme indie sobre personagens que sofrem porque são: 1. hipersensíveis, 2. especiais, 3. inteligentes, porém ineptos ao convívio social, 4. criativos, mas de um jeito louquinho, 5. conscientes em relação às questões ambientais do planeta, mas incapazes de fazer algo decisivo sobre o assunto, 6. outsiders, mas adoráveis, 7. fofos, mas também amargos (porque a vida é tristinha), 8. conectados ao mundo tecnológico, mas não muito confortáveis com o grande esquema corporativo das coisas, 9. fãs de indie rock e de música de brechó (na trilha: Beach House e Jon Brion), 10. cheios de amor pra dar, mas sempre prestes a sofrer decepções amorosas porque a vida, você sabe, é tão decepcionante.

A ilusão cômica | L’Illusion comique | Mathieu Amalric | C | Uma ideia interessante, ainda que nada singular (pergunte ao Baz Luhrmann): adaptar uma peça consagrada a um ambiente contemporâneo, preservando o texto original. Os ruídos entre diálogos/imagens são inevitáveis. Mas, no caso, também irritantes: Amalric filma como quem dá risadinhas para os entendidos; e, no desfecho, mostra que, para se aproximar de um Brian de Palma e dizer algo particular sobre as ilusões do cinema, terá que comer muitos croissants.

Um pouco mais perto | A little closer | Matthew Petock | C | Uma versão live-action para South Park, só que sem humor. Larry Clark, saudades de você.

Angèle e Tony | Alix Delaporte | C | Personagens opacos, aprisionados no formato padrão de um drama francês para sessões das 14h do Festival Varilux. Com as bordas arredondadas, daria um remake hollywoodiano com, por exemplo, Julia Roberts e Philip Seymour Hoffman.

Ways of the sea | Halaw | Sheron Dayoc | C | Denúncia social didática, com fotografia “bonita” que chama excessiva atenção para si. Nas Filipinas, também não tá fácil pra ninguém.

Artigas | Cesar Charlone | D | Telefilme aborrecido sobre herói uruguaio. Sérias restrições orçamentárias? As restrições criativas, no entanto, são mais preocupantes.

Apenas uma noite | Last night | Massy Tadjedin | D | Um editorial de moda (bonita cozinha, Keira!) habitado por gente rica/bonita – que sofre sempre de um jeito higiênico e perfumado.

Os discos da minha vida (34)

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Sem cabeça, sem pulso, sem estômago para a saga dos 100 discos que zonearam a minha vida. O mais seguro é terminarmos este post logo, antes que eu me aborreça. O pavio aqui está curto, amigos.

Antes, rapidinho, um sonho que tive ontem. Era assim: por engano, postei no Facebook os cinco primeiros colocados deste ranking. Percebi cinco minutos depois, apaguei o post, mas depois me amaldiçoei por ter arruinado a surpresa. Desliguei o computador, tomei um copo de suco de laranja, liguei de novo, voltei ao Facebook e percebi que a lista estava toda errada, muitos dos discos eu sequer havia ouvido. Aí não entendi mais nada.

Interpreto o sonho da seguinte forma: dou importância excessiva a esta série de posts, que certamente não vai dar em lugar algum e, pior, promete terminar num anticlímax tenebroso. Que deus nos proteja. Outra interpretação possível: estou dormindo pouco, escrevendo demais e comendo pouco cálcio.

Que seja. O importante é que com sonho não se brinca. Eles sempre têm alguma razão.

Os discos deste post destoam um pouco daqueles que apareceram recentemente nesta lista faraônica. Não são álbuns que costumam pintar em listas de melhores de todos os tempos e, coincidentemente, eles resumem dois períodos muito específicos da minha vida: meus 13 anos (já morando em Brasília) e meus 11 anos (ainda no Rio de Janeiro).

Preparem-se para o mais pessoal, o mais estabanado, o menos instrutivo entre todos os posts desta saga que só me traz pesadelos e ansiedade. Até semana que vem.

034 | Last splash | The Breeders | 1993 | download

Lembro que gravei o CD numa fita-cassete, dai eu podia descer do apartamento e ir ouvindo enquanto caminhava até a Cultura Inglesa (que ficava a uma quadra do prédio). Eu tentava chegar ao fim do disco, tentava sempre, mas passei algumas semanas indo e voltando entre as faixas 1 e 4 e, por uns meses, aquele me parecia o conjunto de canções mais perfeito. O maremoto caloroso de New Year, o apito de Cannonball, o sabor melado de Invisible man e, finalmente, os versinhos estilhaçados, sacanas e ao mesmo tempo tão desesperados de No aloha (a minha preferida do disco). Um dia fui assaltado. Demorei um tempinho para perceber (estava em Saints, outra joia), então entreguei meu relógio e perguntei se eles queriam o walkman. Olharam para aquele objeto arranhado, encardido, e disseram não. Me senti o menino mais fraco da cidade, os ossos quase partindo de tanta tristeza, mas capturei os fones a tempo do refrão: “O verão está pronto quando você está.” Top 3: No aloha, Saints, Invisible man.

033 | As quatro estações | Legião Urbana | 1989 | download

Lembro que as tias organizaram um amigo-oculto de fim de ano. Então obrigaram a gurizada a escrever no papel as opções de presente. Um primo meu pediu uma bermuda. Minha irmã, roupas da Barbie. E eu, que não pensava em outra coisa, tratei de anotar: boneco de Batman. Mas acabei ganhando (um tanto decepcionado, admito) a minha segunda opção: o disco As quatro estações, da Legião Urbana, que tocava nas rádios e parecia divertido. Acho que foi ali que minha relação com a música começou a mudar, sem que eu notasse. Alguns versos soavam completamente misteriosos (“lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa”), outros me pareciam non-sense, aí eu sorria toda vez que os ouvia (“quando o sol bater na janela do seu quarto, lembra e vê que o caminho é um só”), três ou quatro faixas fugiam totalmente da minha compreensão (Maurício, Sete cidades) e o sucesso da temporada, Meninos e meninas, me parecia apenas uma música sobre meninos e meninas. Ouvi tantas vezes que o vinil arranhou. Até os meus 12 anos, era o melhor disco do mundo. Depois, virou o melhor disco da minha pré-adolescência. Assim ficou. Ainda há trechos que, hoje, faço questão de não entender. Melhor desse jeito. Top 3: Há tempos, Eu era um lobisomem juvenil, Quando o sol bater na janela do teu quarto.

(sábado, no carro, 14h20)

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Minha irmã: Não. Não, mãe. É conservador pra burro, totalmente atrasado dizer um negócio desses. Chegar dizendo que a menina abandonou o colégio, namorou aquele estúpido e começou a usar crack ou sei-lá-que-bagulho só porque, olha isso, só porque a mãe dela resolveu assumir o caso com uma mulher? Ó, conheço umas três pessoas que viveram esse tipo de draminha e sei de umas duzentas que estão cagando pra isso. Imagina se vão se preocupar com quem a mãe fica ou deixa de ficar. A vida da mãe é a vida da mãe. E ponto final, meu deus! Pode acreditar: ninguém tá nem aí.

Eu: Você acha? O que eu noto hoje é que os pais se preocupam demais com esse tipo de coisa, enquanto que os filhos estão pensando em outros assuntos. Quer dizer: é claro que, se minha mãe começasse a sair com uma mulher, eu perguntaria: como assim? Mas eu tenho 30 anos, não sei o que eu pensaria se tivesse 12. Na verdade, acho que não sei mais nada sobre os meninos de 12 anos. Pra mim é meio que um outro mundo, e eles estão mil anos à frente de mim. Outro dia eu tava entrevistando um cabeleireiro totalmente afetado e daí entrou o filho dele, um rapazinho de 15 anos, enganchado numa menina de uns 18. O garoto todo marrento, aquela voz de ‘não mexe comigo que sou machinho’, foi lá e deu um beijo no pai, brincou com a cabeleira do homem, e eu fiquei pensando: caramba, alguma coisa aconteceu, alguma coisa está acontecendo, ou talvez não esteja acontecendo nada e eu seja o cara mais conversador do planeta. Ou talvez não esteja acontecendo nada e este seja um caso muito específico.

Minha irmã: Está acontecendo, Tiago. Já aconteceu.

Minha mãe: Não é tudo isso.

Eu: Aí eu fico pensando no que acontece com o garoto que é criado por duas mães, como funciona? De verdade, na real, como acontece? Sei que não é nada extraordinário, que tem família de todo tipo, boas e ruins. Que as pessoas se viram, seguem em frente do jeito como conseguem. Mas fico pensando se o menino vai tentar compensar a ausência do pai, se ele vai buscar o pai em algum lugar. Se ele vai precisar do pai em algum momento. Se ele vai tentar compensar isso de outra forma. Cê entende, né? Falo sobre pessoas como nós dois… Nós, com os nossos pais. Dois pais, e todos esses problemas. O pai ausente, o outro que passou a vida inteira meio distante. E eu senti isso, você sentiu isso. Essa falta. Então me pergunto se, quando superarmos todos os nossos preconceitos e aceitarmos todo tipo de formação familiar menos convencional, se não vamos voltar a essa velha discussão sobre a figura paterna, sobre o quão importante ou desimportante ela é para nossa vida. Esse debate vai voltar à moda? Quando? Ainda quero saber muito sobre isso, sobre esse tema, ele me persegue todos os dias, e é como se estivessem encerrando o assunto, dizendo: não é grande coisa, Tiago, é uma questão ultrapassada. Entendem?

Minha mãe: Você devia arrumar uma namorada.

Minha irmã: Não tô nem aí, sinceramente.

Drops | Mostra de São Paulo (3)

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'As quatro voltas', de Michelangelo Frammartino

Tudo vai dar certo | Alting bliver godt igen | Christoffer Boe | 1.5/5 | Numa reviravolta que só pode ser descrita como estúpida, o thriller de Boa esvazia sem piedade uma ideia mais ou menos instigante (ainda que desgastada: quantos são os filmes sobre pecados de guerra?). O estilão afetado do cineasta, com closes e cores quentes em profusão, me lembrou daquelas mobílias que encontramos em lojas caras e “sofisticadas”: design arrojado, mas pouco resistente.

A primeira coisa linda | La prima cosa bella | Paolo Virzi | 2.5/5 | Novelão italiano que soa como um contraponto melodramático (e menos imaturo) a Eu matei minha mãe, de Xavier Dolan. Tem momentos cômicos até fortes, mas por que gastar 124 minutos com o que pode ser dito em 80?

!!! As quatro voltas | Le quattro volte | Michelangelo Frammartino | 4/5 | Um dos mais elogiados na Mostra até aqui, e logo nas primeiras cenas entendemos o porquê: Frammartino compõe imagens a partir da observação de ciclos da natureza (em alguns momentos, o filme deixa a impressão de um documentário sobre os bichos e os homens de uma pequena aldeia), mas sempre com o rigor de um bom ficcionista. Uma narrativa absolutamente sob controle (e talvez polida demais, em alguns momentos): de supetão, o protagonista sai de cena; mas, na plateia, continuamos hipnotizados.

Os amores de um zumbi | The loves of a zombi | Arnold Antonin | 2/5 | Minha vontade, admito, é de elogiar qualquer fita trash haitiana que acompanhe o calvário de um zumbi romântico, perdido num país de mortos-vivos. Mas esta aqui me parece muito mais provocativa e engraçada na teoria do que na prática (imagine uma novela da TV Manchete TV Distrital de Brasília reeditada em 90 minutos; você se diverte nos primeiros trechos, se entendia logo depois). Apesar da precariedade também narrativa, não há como negar: o formato tosco (sem gore!) combina com um filme que cita Buñuel, mas parece mesmo é uma versão subdesenvolvida (e aí não vai nenhuma crítica, só uma constatação) do horror político de Romero.

PS: Comparei os zumbis haitianos às novelas da Manchete e logo depois me arrependi. Como o Rudá bem apontou na caixa de comentários, uma boa novela da Manchete editada em 90 minutos muito possivelmente renderia um filme interessante. Talvez eu tenha pensado nas novelas mais precárias da emissora, ou naquelas que são produzidas para a TV Distrital de Brasília, toscas e divertidas.

Superoito, filho

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Combinamos de nos encontrar no aeroporto às onze e meia da manhã. Cheguei mais cedo, às onze, e comprei uma revista. O avião pousou um pouco antes da hora marcada. Meu padrasto estava entre os primeiros passageiros a cruzar o portão de desembarque. Trazia uma bolsa azul retangular que parecia pesada.

Ele apertou minha mão quase furiosamente (como sempre fazia) e perguntou se eu estava bem. Eu não estava bem, mas falei que sim.

O dia em São Paulo: céu descoberto após um fim de semana noir. Uma segunda-feira agradável, quase de primavera – cenário que, portanto, não combina com esta história.

Os personagens principais – eu e meu padrasto – estavam mais para seres de inverno. Introspectivos e desiludidos, mesmo quando contavam piadas infantis.

O homem que cruzou o portão de desembarque era sério. Como de costume.

É claro, no entanto, que muita coisa havia mudado nele. Desde que começou a perder a memória, há dois anos, meu padrasto tornou-se uma outra pessoa. Um outro homem dentro do corpo e dos gestos e do cheiro daquele homem que conhecíamos. A transformação era sutil (e perversa, já que às vezes nos enganava, nos confundia) e ainda não havia chegado ao fim. 

Eu preferia preservar a imagem do meu padrasto de antigamente – o sujeito que me acompanha desde a adolescência, que sempre esteve lá -, mas começo a me acostumar com a pessoa mutante em que ele se tornou. Um homem de 55 anos de idade incapaz de conduzir a própria vida (e, mais grave, consciente de que a parte mais dolorida ainda virá).

Encontrá-lo daquele jeito no aeroporto – vestido elegantemente, de barba feita, carregando a bolsa com dezenas de exames médicos, tentando rir das minhas piadas – me comoveu.

Tomamos um táxi para a Avenida Paulista. A consulta estava marcada para o fim da tarde, por isso planejei uma pausa para o almoço e uma caminhada pela cidade. Era uma situação, para mim, totalmente incomum: nas raras viagens que fizemos, meu padrasto definia os itinerários e nos tomava pelo braço – eu, minha irmã e minha mãe. Dessa vez, eu estava no comando (e a sensação era de que me faltava um curso preparatório, um guia para guias).

Meu padrasto ainda não se conforma com as recomendações médicas. Me pergunto se eu me conformaria (acredito que não). Um senhor atlético, habituado a longas séries de exercícios físicos, não consegue mais se orientar. Precisa de um tutor, de carona. Perde-se frequentemente, e não somente nas ruas das cidades. Perde-se dentro dos filmes e dos livros. Esquece até do que comeu no café da manhã. 

Apesar do sentimento de revolta (cada vez maior), ele aceitou fazer a viagem a São Paulo para ser atendido por um médico mais experiente. É o que nos resta, já que não é possível diagnosticar a doença com exatidão. No caso, o que se pode é, no máximo, se aproximar de um resultado aceitável, mas nunca preciso. O que sabemos (e isso é uma má notícia) é que a memória do meu padrasto se vai como os grãos de areia de uma ampulheta. Num ritmo lento, porém constante.

No restaurante, um fast food muito colorido e alegre, evitamos conversar sobre o assunto. Falamos sobre a cidade e sobre o trabalho. Sobre os meus pesadelos (recorrentes) e sobre os nossos cachorros. Sobre o tempo em que ele entregava telegramas (as memórias da adolescência ainda estavam frescas) e sobre como a Avenida Paulista, para ele, soa como uma incrível novidade. “Sei que estive aqui várias e várias vezes, mas não lembro de nada”, comentou, com um sorriso de quem ironiza o próprio fracasso.

Depois caminhamos duas, três, quadro quadras. Bebemos suco de laranja. Descansamos sob o Masp, observamos o guitarrista solitário à frente do Trianon. Chegamos cedo ao consultório e logo fomos atendidos.

Antes da consulta, a secretária pediu que meu padrasto preenchesse um pequeno questionário, com nome completo, endereço, telefone e o nome da pessoa que o acompanhava naquela tarde. Nessa última lacuna, ele escreveu: Tiago, filho.

Quando notou que eu o observava, perguntou desajeitadamente se deveria ter me classificado de outra forma. “Não, filho está ótimo. É isso e sempre foi”, eu confirmei. E lembrei, num flash agressivo, que não vejo meu pai há pelo menos três anos e que eu e ele talvez devêssemos oficializar a distância infinita que nos separa. 

O médico, um gigante de jaleco com pinta de J.M. Coetzee (quase dois metros de altura, um pouco mais robusto que o escritor sul-africano), fez perguntas enviezadas para testar a memória do meu padrasto:

“Quem o levou ao aeroporto?”

“Não lembro”

“Seu filho o buscou em casa, de carro?”

“Acho que sim”

“Onde estava seu filho hoje pela manhã?” (e, nessa pergunta, o médico pediu para que eu não me manifestasse)

“Estava lá em casa, em Brasília”

“Onde você almoçou hoje?”

“Não sei”

“O que você comeu?”

“Folhas. E um peixe rosa. Não lembro o nome.”

Enquanto eu preenchia um questionário sobre o meu padrasto, observei os pacientes que esperavam para ser atendidos. Uma mulher tentava explicar à filha por que todos estamos fadados a perder a memória. “É muita preocupação (pausa), informação (pausa longa) e decepção (pausa curta) com a vida”, e a filha acenou positivamente com a cabeça.

As paredes eram todas brancas e, no canto da sala, havia uma orquídea branca.

Na despedida, após duas horas de consulta, o médico preferiu não comentar sobre a doença. Pediu mais dois exames. “Pra minha coleção”, meu padrasto brincou. Era o tipo de comentário que eu faria. O tipo de sorriso abobalhado que eu arriscaria numa situação sisuda daquelas. Os mesmos gestos, tudo. Estava tudo diferente, tudo desfigurado, tudo amargo e amarelo (um prédio em chamas), menos o fato de que meu padrasto ainda era meu pai.

Rapidamente, fizemos o exame que faltava e tomamos um táxi para o aeroporto. Eu seguiria em São Paulo por mais dois dias, mas ele precisava de alguém que o acompanhasse ao portão de embarque. Mais uma vez, chegamos cedo demais. “Teve um momento, lá no consultório, quando eu olhei para o lado e percebi que você estava ali. Me perguntei: o Tiago? O que ele está fazendo aqui?”, e disso ele lembrava.

Por volta das oito, minha mãe telefonou e perguntou se eu estava bem. Eu não estava bem, mas falei que sim. “É um bom médico. Muito atento”, resumi. “E ele fez algum teste de memória?” “Fez sim” “E então?” “O pai diz que bombou no vestibular” “Meu deus” “Mãe, é um bom médico. Eu acho até que confio nele”, eu expliquei, e ela se acalmou um pouco.

Me preocupei quando meu padrasto entrou sozinho no setor de embarque, entregue aos lapsos cerebrais, ao medo de esquecer. Acenei, tenso – como um pai acena para o filho que vai à escola pela primeira vez. O menino se afasta e está perdido para sempre.

A porta se fechou e, ali, depois daquela cena, eu deveria entrar no táxi. Já era noite. Mas me sentei diante das lanchonetes e fiquei assim por dez, vinte minutos. Quando o avião decolou, continuei naquela posição. Estava tudo bem? Fiquei sentado ainda por algum tempo, mais uns minutos, totalmente só, e então saí.

Superoito rápido e rasteiro (2)

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Like you know it all | Hong Sang-soo | 4/5

Este é o segundo filme de Hong Sang-soo que vejo (o outro foi A mulher é o futuro do homem, de 2004). Daí que não posso encontrar as semelhanças entre este Like you know it all e o passado do diretor (são muitas, dizem). E não sei se me incomodaria com elas. O longa retrata situações muito corriqueiras — em resumo: um jovem diretor de cinema frequenta festivais e conhece pessoas  -, mas taí um diretor capaz de olhar para o cotidiano com curiosidade, espanto e a franqueza de um diário. Acredite: neste filme a rotina às vezes parece tomada pelo clima siderado de uma ficção científica.

A divisão da trama em duas partes complementares acentua a impressão de que existe um subtexto misterioso que observa/provoca os personagens. Nada que se aproxime de um tipo banal de misticismo (vide Um olhar no paraíso) ou de filosofices supostamente líricas sobre destino e acaso (vide O segredo dos seus olhos). O diretor é sutil demais para cair nessas armadilhas, e parece entender muito bem os limites e as particularidades do próprio estilo. Estou quase convencido de que seja o único cineasta em atividade que faça justiça às comparações com Eric Rohmer. Próxima parada: Mulher na praia, de 2006.

Lake Tahoe | Fernando Eimbcke | 3.5/5

Por coincidência, logo depois de Like you know it all assisti a outro filme que enxerga as coisas corriqueiras da vida por uma lente torta. Mas, enquanto Sang-soo cria uma atmosfera de leveza à livro de rascunhos (ou de crônicas), o mexicano Fernando Eimbcke desorienta o espectador com uma meta muito precisa: ilustrar a confusão sentimental de um menino metido num drama familiar. O diretor vai tirando lentamente o véu da narrativa (que começa com imagens de uma cidade quase fantasmagórica, filmada em longos planos) até revelar a solução do “mistério” num tom mais carinhoso e pessoal do que poderíamos ter previsto. Muito bonito, ainda que um tanto calculado.

O segredo dos seus olhos | Juan José Campanella | 2/5

O típico candidato que o Brasil inscreveria para concorrer ao Oscar: um drama esguio e posudo (com o “requinte” de uma produção do James Ivory) que me deixou com a maior vontade de assistir a um filme com alguma fluência. Apesar do gosto por melodramas, o forte do diretor de O filho da noiva não é a sutileza (e, nesse ramo, não se aprende muito depois de 16 episódios de Law & Order). É assim, meio no tranco, que ele dá baixa num roteiro complicado (rocambolesco seria um bom adjetivo), que alterna duas tramas em diferentes períodos de tempo, esboça uma reflexão sobre o processo criativo e tenta mesclar uma investigação policial a uma história de amor e obsessão. Existe vida nas cenas finais, mas o filme mal dá conta de carregar o próprio peso.

Percy Jackson e o ladrão de raios | Chris Columbus | 2/5

Quem precisa de um novo Harry Potter? Eu é que não. Este Percy Jackson é um brinquedinho tão oportunista que poderia ter sido engraçado — na trama, que parece uma paródia do último livro da saga de J.K. Rowling, três amigos têm que encontrar pedras misteriosas para salvar o mundo —, mas o mix de mitologia grega, RPG, cosplay, X-Men, Lady Gaga e AC/DC me deixou com saudades de A bússola de ouro. Sério: desta vez, nem os jovens nerds vão (se) aguentar.

Um sonho possível | John Lee Hancock | 2/5

Se Preciosa é o “feel bad movie” da temporada, Um sonho possível usa mais ou menos o mesmo material sensacionalista (o drama de um adolescente negro, obeso, marginalizado, quase catatônico, que encontra um fio de esperança sabe-se lá como) para criar um “feel good movie” para torcidas de futebol americano. Quando Sandra Bullock (interpretando Julia Roberts) vencer o Oscar pelo papel da “mulher branca e bondosa”, você vai testemunhar a maior sandice da Academia desde a vitória de Gwyneth Paltrow por Shakespeare apaixonado. Vai ser triste. Mas já é inevitável.

Um olhar do paraíso | Peter Jackson | 1.5/5

Acusem-no de qualquer coisa (e assinarei embaixo), mas não venham me dizer que Peter Jackson é um sujeito de poucas ambições. O homem é destemido. Depois de se apropriar de Tolkien e King Kong, ele resolveu cruzar a última fronteira e, deus!, filmar o infilmável: o paraíso, o “outro lado”, o indizível, a vida eterna e tudo o mais. Um olhar do paraíso é um objetivo gigantesco disfarçado de “filme pequeno”, daí minha decepção ao notar o quão verdadeiramente pequeno este filme é. O diretor aposta tudo (e ele sempre aposta tudo) num projeto que dificilmente daria certo: encontrar certa harmonia (ou pelo menos um desequilíbrio interessante) entre um thriller PG-13 e uma meditação new age sobre a morte. Acontece que o suspense simplesmente não está lá — e não consigo ver muita diferença entre os delírios de Jackson e aqueles quadros kitsch vendidos em feiras hippie (ou entre este filme e o mortífero Amor além da vida). A menina morta vive nos anos 1970, mas essa não me parece uma justificativa convincente para a overdose de CGI flower power.

Superoito e a ordem no caos

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Tenho a impressão de que meus sonhos contam uma história. Desconfio que, se fosse possível organizá-los em ordem cronológica, como quem forma um quebra-cabeça de milhares de peças, eles narrariam uma saga. Minha saga. As peripécias da minha existência. Com tintas surrealistas. E desfechos quase sempre surpreendentes.

O problema é que não lembro de todos os sonhos. Daí as lacunas entre um capítulo e outro. Espaços em branco. Buracos negros. Crateras que nunca serão preenchidas, coisa e tal (a menos que os cientistas inventem uma forma de escanear nossa consciência em busca de fragmentos de sonhos invisíveis, mas acho difícil).

Gosto quando lembro dos meus sonhos e adoro interpretá-los. Principalmente na hora do jantar. Minha mãe, que é psicóloga, costuma ajudar. Dá boas dicas. Geralmente cita Freud para interpretar as cenas mais abstratas. Duvido que ela acredite em Deus. Mas tenho quase certeza de que minha mãe tem fé em Freud.

Os sonhos recorrentes sempre me espantaram. Ainda me espanto com eles. Nesses casos, suspeito que meu cérebro esteja atuando por conta própria, sem minhas ordens. Um free-lancer. Um microcomputador que aprendeu as delícias do livre-arbítrio. Um CPU fantasma! Há duas semanas sonho com o mesmo tema. Quase todos os dias. Meu subconsciente, de vez em quando, é meio burrinho, coitado: funciona como um LP arranhado.

O sonho de ontem explica todos os outros sonhos recentes, que reprisam uma mesma aflição. Aconteceu assim: eu estava num transatlântico, em alto mar, vestido com uma camisa muito extravagante e improvável (amarela, brilhante, com coqueiros e um laguinho) e sunga preta. O sol queimava minha testa, mas eu me recusava a pular na piscina. Eu preferia ficar sentado numa mesa de rodinhas, sozinho, jogando cartas (quem me conhece sabe que odeio jogar cartas, mas sonhos são sonhos são sonhos). Meu adversário na brincadeira não estava ali. Eu esperava que ele retornasse para que continuássemos a partida.

Havia 10 ou 12 pessoas na piscina. Todas muito contentes. Estávamos de férias, aparentemente.

Meus sonhos sempre começam felizes e terminam tensos, apocalípticos. Aquele não era exceção. Minha mãe, que usava um maiô verde-escuro muitíssimo brega, parecia nervosa quando se aproximou da minha mesa. Ela bebia um drink cor-de-rosa e tinha uma notícia séria para contar. Preferiu falar baixo, talvez para não estragar o dia dos outros passageiros.

– Tiago, seu padrasto está doente – ela disse.

– Como assim? – perguntei. Minha testa ardia.

– Ele machucou os braços. Não pode comandar o navio.

– Mas ele estava comandando o navio? O nosso navio?

– Sim, obviamente. Ele era o comandante do nosso navio.

– Meu Deus.

– Você não acredita em Deus, Tiago.

– Mesmo assim. Meu Deus. Ele era o comandante do navio?

– Sim, sim. E está doente. Não consegue mover os braços. Por isso não pode mais comandar o navio.

– E não existe um copiloto no nosso navio, mãe? Sempre existe um copiloto.

– Não existe um copiloto.

– Piloto automático?

– Não.

– Talvez seria possível… Usar os pés?

– Ele tem cãibra.

– Cãibra?

– Tiago, estamos perdidos. Eu, você e as 60 ou 70 pessoas que estão se divertindo à beça neste navio.

– São 60 pessoas?

Minha mãe me olhou com ar de cansaço. Deixou a toalha na mesa, espalhou as cartas do baralho, abandonou o drink exótico e correu para a piscina. Deu um mergulho. Olhei para o horizonte e vi um clarão atômico. Acordei.

Nos outros sonhos, a situação muda superficialmente: o carro, a motocicleta, a bolsa de valores, o controle de energia elétrica da cidade – tudo no mundo subitamente passou a ser controlado por meu padrasto. Que, infelizmente, estava doente e não poderia nos ajudar naquele momento. Eram sonhos didáticos. Extremamente e estranhamente didáticos. Sonhos até triviais. Bobos mesmo. Sonhos dirigidos por cineastas amadores. Escritos por Paulo Coelho. Com roteiro do Manoel Carlos. Não havia quase nada incompreensível neles. Eles queriam dizer algo muito simples, e diziam em voz alta.

Diziam com poucas linhas: você está amedrontado, Tiago. (Ou algo assim.) Você está desesperado, Tiago. Você não sabe o que fazer da sua vida, Tiago. Você está encrencado, Tiago.

O complicado é que, com o tempo, tento me convencer de que o transatlântico está sob controle. Que tudo vai terminar relativamente bem. Que o ser humano se adapta a tudo. E que meu coração vai seguir em frente! No entanto, quando durmo, sou nocauteado pela realidade. Meus sonhos são mais duros que a minha vida. E eles dizem: Tiago, não se engane. Você não está bem. Não estamos bem. Ninguém está bem. Estamos soltos no oceano. Seu padrasto está doente. E isso não é bom nem vai melhorar. Acorde para dentro do pesadelo, Tiago.

Meus sonhos têm a sofisticação de meninos de sete anos de idade. São estupidamente honestos. Por isso confio neles. Crianças são cruéis. Lá no terreno pantanoso do meu cérebro, sei que não estou bem.

Desde que descobrimos a doença do meu padrasto, eu e minha família tentamos calcular o quanto custaria à nossa sanidade manter esperanças e viver a vida como se existisse algo parecido com luzes no fim do túnel (por enquanto, temos o túnel e o blecaute no túnel). Eu sou o mais racional e radical de todos. Não acredito em quase nada. Creio um pouco em extraterrestres, já que o espaço sideral é extraordinariamente grande e seria tolo não acreditar um pouco neles. E só. Minha mãe acredita em Freud e nos avanços da ciência. Acredita que, apesar de tudo, existe um floco de esperança em tudo. Minha irmã não fala muito.

A tragédia me transformou num sujeito descrente. E prático. Praticamente descrente. Em tudo. Quando um dos meus cachorros foi internado para uma cirurgia na orelha, procurei no Google uma forma de comprar outro cão. Tudo para evitar que minha mãe caísse em depressão profunda. O cachorrinho vai morrer, pensei. Quando os veterinários começaram a adiar a alta do beagle, que se chama Hatty, criei uma teoria da conspiração. “Eu disse, mãe. Não tem jeito. É o que é. Acabou-se o que era doce.” Encontrei um cão adorável num site e mostrei a fotografia para a minha irmã. “O Hatty vai sair dessa, Tiago”, e ela parecia confiante. Duvidei.

Há uma semana, nosso cão voltou para casa. Usa um protetor de orelhas que dá a ele a aparência de um beagle-cosmonauta, mas o acessório futurista não o impede de fazer gracinhas, assediar sexualmente o meu golden retriever e cagar no estofado. Está forte. Está atento. E, mais importante que isso, está vivo.

caocueca

Hatty, o cão-abajur (também conhecido como cão-parabólica), mordendo a minha cueca. Hoje à tarde.

A doença do meu padrasto (que é um cético) confirmou nossa hipótese de que a vida é uma canoa furada e salve-se-quem-puder. E, para esgotar as metáforas baratas e aquáticas: a onda, quando vem, é um maremoto. Não tivemos tempo para tomar fôlego. Em poucos dias, estávamos afogados em exames médicos, estatísticas, documentários chorosos, artigos científicos que ardem feito picada de abelha, conselhos imprecisos, estimativas assustadoras, estudos de caso pessimistas e uma imagem de futuro que fazíamos questão de encarar como um slide sem foco. Tínhamos medo. Temos medo.

O que devemos fazer? Acreditar em incríveis reviravoltas do destino ou manter os pés no chão? Sofreremos de uma forma ou de outra. Mas qual dessas opções é a estritamente necessária? Existe vida após o diagnóstico?

Não vejo uma resposta consistente para essas questões. Procuro, mas não a encontro. Bons acidentes acontecem. Hoje à tarde, depois de voltar do 210º médico, meu padrasto finalmente trouxe uma boa notícia. Aquilo nos perturbou. Não estávamos prontos. Ficamos até um pouco chocados, na verdade. Minha mãe telefonou para o doutor, que sublinhou a esperança. Esperança. Ela chorou. Eu permaneci estático, sem saber como reagir. “O que aconteceu, mãe?”

Ela estava sem voz.

Depois de um tempo, descobri tudo. O médico disse ter dúvidas sobre o diagnóstico do meu padrasto. A doença poderia ser outra. Poderia não ser tão grave. Os exames talvez indicassem, vá saber, um problema hormonal muito atípico e intenso. Algo raro. Mas existe a probabilidade de que algo raro aconteça, não existe?

– É um bom médico, Tiago. Os pacientes fazem uma fila imensa. E a fila costuma durar anos.

Havia uma esperança. Talvez.

– O que quer dizer essa deficiência de hormônios, mãe?

– Quer dizer que essa queda desativa os neurônios. Por isso ele está perdendo a memória aceleradamente. O médico disse que é um tipo de situação que ele nunca viu. E que outros pacientes costumam perder a consciência de que estão doentes, o que não aconteceu com seu padrasto.

– E isso pode ser bom?

– Pode ser ruim, Tiago. Mas não tão ruim quanto imaginávamos.

– E isso pode ser bom?

– Isso pode ser ótimo.

Minha mãe estava radiante. No fim da tarde, saímos para caminhar. Ela comprou croissants. E salgadinhos e sorvete napolitano. A nossa imagem sombria de futuro era, agora, um slide rabiscado com giz de cera. Meu padrasto voltou a tocar violão. Os cães, que talvez consigam mesmo sentir as boas vibrações, brincaram de pique. O Hatty foi ao meu quarto e roubou minha cueca. Ele não costuma fazer isso. Mas fez.

Por coincidência, terminei há dois dias um livro sobre o acaso, chamado O andar do bêbado. Do físico Leonard Mlodinow. Com Stephen Hawking, ele escreveu Uma nova história do tempo. O autor defende o raciocínio (estudado seriamente por cientistas de todo o mundo) de que nos deixamos enganar por falsas conexões que criamos entre fatos aleatórios. Por exemplo: quando um produtor de Hollywood assina três fracassos de bilheteria, passamos a acreditar que ele é um péssimo executivo – mas nos esquecemos repentinamente dos cinco sucessos incríveis que ele criou, e dos vinte filmes que tiveram performance digna. Julgamos pessoas e eventos a partir de uma lógica que não tem nenhum embasamento científica. E por que somos estúpidos a esse ponto?  Simplesmente queremos acreditar que o acaso faz sentido. Isso nos conforta.

É um livro bonito (principalmente porque Mlodinow demonstra uma fé tremenda num mundo governado pelo aleatório). E o engraçado é que – note o acaso puxando as nossas cordinhas! – logo depois li o tocante Extremamente alto e incrivelmente perto, de Jonathan Safran Foer. O protagonista, um órfão de nove anos que perdeu o pai no 11 de setembro, é um fã de… Stephen Hawking!

Bem. Estou desviando do tema. Lá pelas tantas, num emaranhado de pequenas biografias de físicos e filósofos que estudaram probabilidades e estatística, Mlodinow lembra a trajetória de Blaise Pascal. Depois de uma revelação espiritual, o francês escreveu ideias que foram publicadas num livro chamado Pensamentos. Talvez afetado por um transe, ele resolveu calcular os prós e contras de nossos deveres para com Deus (criou, assim, um conceito que ficaria conhecido com esperança matemática).

Pascal propôs o seguinte: existe uma probabilidade de 50% para que Deus exista. E uma de 50% para que não exista. Nesse contexto, devemos ou não devemos levar uma vida pia? Se agirmos piamente e Deus existir, argumentou Pascal, nosso ganho – a felicidade eterna – será infinito. Por outro lado, se Deus não existir, nossa perda, ou retorno negativo, será pequena – os sacrifícios da piedade. Desenvolvendo essa epifania, ele criou um equação matemática que, aqui, não vem ao caso. Eric Rohmer aplicou essa teoria numa obra-prima do cinema, mas que também não vem ao caso.

O que vem ao caso é que, na prática, é impossível negar minha simpatia por Pascal. Quantos são capazes de criar uma equação tão bela? Talvez não faça tanto sentido (acredito que levar uma vida de sacrifícios, sem overdoses ocasionais de chocolate ou sites pornográficos, pode sim representar um retorno bem negativo se a descobrirmos enfim que não existe felicidade eterna). Mas gosto de acreditar naqueles que acreditam numa possibilidade tão poética. Acredito na minha mãe. E hoje ela conseguiu me encher de esperança.

À tarde, cochilei no sofá e sonhei com um balão. Solto no ar. Sem dono. Sem pai ou padrasto ou mãe ou irmã. Mas, mesmo perdido, ele descrevia um voo seguro. E gracioso. Não sei explicar, mas talvez tenha sido um bom sinal.