Ewan McGregor

2 ou 3 parágrafos | O escritor fantasma

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Devo, preciso rever O escritor fantasma (3.5/5) o quanto antes, e por isso evitei escrever algo sobre ele (até agora). Mas que seja: blogs são como cadernos de anotações, e, se eles não servem para divagações inconclusas, para que servem? Me sinto obrigado a rever o filme simplesmente para prestar um pouco mais de atenção à trama noir, que me desinteressou quase que por completo. Era como se a historinha (um Fusca) transitasse numa rodovia enquanto o restante do filme (uma Ferrari), deslizasse numa estrada paralela.

E neste mundão que chamo de ‘restante do filme’ incluo o personagem principal (um ghostwriter catatônico, vítima de sabe-se-lá-quem, ótima interpretação de Ewan McGregor), a fotografia acinzentada de Pawel Edelman, mais fria que a morte, e, é claro, a sombra de Roman Polanski, que fez um thriller com um quê kafkiano, fantasmagórico. Que pode sim ser lido como o pesadelo de um homem condenado e preso. 

Nas atuais circunstâncias, é uma leitura muitíssimo óbvia (Polanski, sabemos, está confinado na casa onde vive, na Suíça, condenado por um crime que já foi perdoado até pela própria vítima). É empobrecedor vincular a interpretação de um filme à biografia de seu autor, mas não consegui evitar. Passei a sessão inteira imaginando o filme como um delírio do cineasta, lucid dream (daí que desprezei a trama, com todas aquelas paranoias políticas bobíssimas que cairiam bem numa fita entediante de Paul Greengrass). A casa em cinza-gelo, a ilha americana coberta por névoa, a sensação de que o tempo está suspenso, a impressão de claustrofobia e isolamento. Tudo isso já apareceu em vários filmes do diretor (A morte e a donzela me pareceu uma referência muito próxima), mas o sentido se renova e, por um momento, é como se ele nunca tivesse feito este filme e como se este fosse o único filme que ele poderia ter feito neste exato momento. Saldo da experiênca: saí do cinema querendo rever a filmografia de Polanski, mas sem vontade alguma de ler livros de Robert Harris.

2 ou 3 parágrafos | Anjos e demônios

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angels

Não sei se captei corretamente a lição deste thriller meio apalermado, mas acredito que ele nos ensina algo importante: toda igreja é formada por seres humanos, todos os seres humanos são falhos e alguns padres sobrevivem a extraordinárias quedas de helicóptero. É por aí?

De qualquer forma, Anjos e demônios (5/10) é um avanço tremendo se comparado ao sorumbático O código Da Vinci. Ron Howard, o faz-tudo, finalmente parece ter entendido que os livros de Dan Brown devem ser tratados unicamente como pretexto para filmes B que não valem um tostão. Com padres voadores. Bombas que contêm chaves para a origem da vida. E um simbologista preparadíssimo, mais atento e sagaz que centenas de oficiais da pateta polícia italiana (já os guias turísticos, meu bom deus, têm doutorado e o diabo a quatro).

Os personagens são divididos em dois grupos: os que pensam rápido demais e os que têm segundas intenções (e jacas no lugar dos cérebros). Ewan McGregor capta o espírito da coisa, hilariante como uma espécie de Gugu Liberato do Vaticano. Imagino que, com um diretor mais delirante (John Woo?) e tramas escritas pelos roteiristas de Lost e 24 horas, teríamos uma bela franquia (televisiva) de ação. Mas Ron Howard é carola demais para tratar a santa casa como parque de diversão. Daí o mea culpa com a Igreja (todos somos falhos, sim, mas o ponto nunca foi esse, meu irmão!) e uma reviravolta final que manda todo o resto do filme ao quinto dos infernos. Estúpida, mas não no sentido espertinho da coisa.