Estados Unidos

Trecho | Estranho

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“Convencer Patty de que alguém se comportava ‘mal’ era um verdadeiro empreendimento. Quando lhe contaram que Seth e Merrie Paulsen iam dar uma enorme festa de Halloween para os gêmeos e tiveram o cuidado de convidar todas as crianças do quarteirão menos Connie Monaghan, Patty só comentou que era muito ‘estranho’. No seu encontro seguinte com o casal Paulsen na rua, eles explicaram que tinham passado o verão inteiro tentando fazer a mãe de Connie Monaghan, Carol, parar de jogar pontas de cigarro da janela do quarto na piscininha rasa dos gêmeos. ‘É muito estranho mesmo’, concordou Patty, balançando a cabeça, ‘mas, sabe, não é culpa da Connie.’ Mas os Paulsen não ficaram satisfeitos com ‘estranho’. Queriam sociopata, queriam passiva-agressiva, queriam . Precisavam que Patty escolhesse um desses epítetos e concordasse com eles que era aplicável a Carol Monaghan, mas Patty era incapaz de ir além de ‘estranho’, e em resposta os Paulsen se recusaram a acrescentar Connie à sua lista de convidados. Patty ficou tão irritada com essa injustiça que levou seus filhos, mais Connie e uma amiguinha da escola, a uma plantação de abóboras e um passeio de charrete na tarde da festa, mas a pior coisa que ela diria em voz alta sobre o casal Paulsen era que aquela maldade deles com uma menina de sete anos era muito estranha.”

Trecho de Liberdade, de Jonathan Franzen.

We’re new here | Gil Scott-Heron & Jamie xx

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Meu primo mais crescido – o primo que imitávamos, o primo que venerávamos, o primo que queríamos ser quando um pouco mais velhos – fazia música. Sim. Não que ele soubesse algo sobre a técnica do violão ou da guitarra (era um vexame até no pandeiro, que todo mundo pensa que sabe tocar), mas entrou para a nossa história como o sujeito das melodias fantásticas, o chapa da ginga, o bacana e o máximo.

Ok, sem rodeios: meu primo era funkeiro.

Funk carioca, manja? Início dos anos 90, ‘o que eu quero é ser feliz’, o som ingênuo e tosco que invadia as festinhas e puxava as meninas para dançar passinhos coreografados. Lembra? Lembra? Eu lembro.

E lembro porque meu primo foi um dos tantos aspirantes a Claudinho, a Buchecha, a MC Qualquer Coisa – no bairro onde morávamos, no Rio de Janeiro, era um sonho que toda uma comunidade de petizes parecia compartilhar. Mas meu primo, como acontecia muito, tombou na pista. Abandonou o batidão para cuidar das três filhas, trocou de esposa duas vezes, trabalhou para encher panelas, até fez de conta que nunca pensou em ser médico, mas tudo isso é outra história e cá estamos fugindo novamente do assunto.

Voltemos ao funk, que este é um post sobre o funk.

Para meninos como eu, o funk não era nada. Era uma brincadeira, no máximo uma boa bobagem, uma distração, uma troça. Ao mesmo tempo, era um mundo. Era uma música, sim, mas não qualquer música. Era uma música que parecia ser nossa, dos garotos da periferia, dos subúrbios, dos bairros pequenos. Parecia brotar dentro dos nossos quartos. E às vezes brotava mesmo.

Testemunhei pelo menos três músicas nascendo – e nascendo de parto normal, na varanda do meu primo. Ele sorridente, malandro, sobrepondo batidas singelas e criando versinhos tolos, depois gravando as camadas e exibindo o mix a meninos perplexos, abismados, estupefatos com a novidade: ‘diga a verdade, primo, foi você quem fez? Você? De verdade?”

Era o barulho de uma revelação. Pedíamos para que ele rodasse a música de novo. A mais ordinária. A mais vazia. A mais barata. E rodava de novo. Mais uma vez, e a danada rodando, grudando nos nossos pensamentos, se instalando para sempre.

Lembro daquela sensação febril. De querer engolir uma música. De querer papar a canção com ketchup, maionese e fritas. De querer tomá-la e não devolvê-la. Roubo. Coisa feia e suja. Um susto. Ouvir os funks ridículos do meu primo – que nem funk eram, meu primo nem sabia quem era George Clinton ou James Brown – fez de mim um devoto da arte pueril e anêmica, que nasce quase por acidente, que não tem valor algum, que nos agride inocentemente. Tudo isso, percebi naquela época, pode ser algo belo.

E (pode parecer uma heresia, mas não consigo evitar) lembro dos funks do meu primo – em frangalhos, ocos, mas, na minha infância, mais inspiradores que a sétima de Beethoven – a quando ouço discos como a estreia de James Blake (meu favorito de 2011, por enquanto) e estes remixes de Jamie xx para Gil Scott-Heron.

Não porque são discos paupérrimos, juvenis – nada mais distante da realidade. Mas porque eles provocam em mim o tipo de entusiasmo ingênuo, de criança, que aquelas aberrações domésticas provocavam. São discos que apontam para nossas fuças e dizem: eu sou um pouco como você; e você, se tivesse um pouco mais de talento, poderia ter me criado.

São álbuns que podem despertar uma intensa impressão de proximidade (ainda que falsa). Existe um quê de motivação punk nesses projetos. Do it yourself. No caso de Jamie xx, ainda mais. Temos aqui um disco incomum de remixes, que só encontra pontos de contato nos mashups de Danger Mouse, especialmente The grey album. Com a arrogância feliz de um adolescente, Jamie desmonta e reinventa o linguajar de Scott-Heron.

Um daqueles discos complicados que soam fáceis, sim. Mais do que isso, um daqueles discos atrevidos, que impõem uma identidade à prática do decalque, do “recortar e colar”. Eu admiro.

Desde a estreia do The xx, Jamie exercita um pop lacunar e sutil. É com essa palheta de cores escuras que ele cria uma atmosfera onde os versos, a fala de Scott-Heron se movimentam e respiram. Isso sem a necessidade de preencher todos os espaços, todas as crateras que marcam as canções do sujeito que, há um ano, lançou o assombrado I’m new here.

Aquele é um disco, aliás, que ainda me perturba um pouco. Não consigo escrever sobre ele, talvez por me parecer autoexplicativo. O que temos é a voz de um velho poeta americano, que viveu muito, que talvez nem esteja mais tão lúcido quanto imaginamos (hematomas expostos) – isso, a voz, as ideias, as lembranças, e quase nada mais. Mas, diante desse retrato saturado, por que cobraríamos mais? (eis a questão).  O que o inglezinho Jamie faz é se apropriar desse discurso, desse “personagem”, e inseri-lo num filme. Que poderia se chamar No silêncio da noite.

A exemplo dos álbuns de Blake e do The xx. há uma mise-en-scene noturna, fantasmagórica, ao redor dessas canções. Tal como Blake, Jamie se limita a apontar pequenas variações entre uma faixa e outra, ainda que, aqui, a eletrônica minúscula saia dos limites do dubstep para às vezes soar como a arquitetura de uma colagem do DJ Shadow: camadas de samplers sujos, mofados, colhidos de uma antiga coleção de vinis.

Os três momentos mais diretos do disco, que renderiam singles excelentes, mostram as oscilações de uma obra que, numa primeira audição, soa uniforme (às vezes irritante de tão uniforme; se você cair em tédio, eu entenderei). My cloud, o algodão-doce do parquinho, é trip hop manso, acolchoado. Já NY is killing me mergulha em paranoia, sob chuva de pedras digitais. O disco termina com, I’ll take care of U, uma faixa que leva ao pé da letra um ensinamento de Heron: “Jazz music is dance music”. E não é? Jamie dá uma risada de moleque e entra na pista.

Não dá para dizer que é um disco inventivo, que entusiasma pela originalidade. Que nos leva a recantos desconhecidos. Essas canções, no entanto, têm algo de espontâneo, de lúdico (é apenas música pop, não é nada muito importante, mas essa besteira pode acabar salvando as nossas vidas), que me leva às tardes em que meu primo reunia os meninos na varanda para apresentar a criação da semana. Silêncio total. Três minutos depois, ele deixava de ser gente – e se transformava no nosso herói.

Disco de remixes de Jamie xx, a partir do repertório de I’m new here, de Gil Scott-Heron. Produzido por Jamie xx. Lançamento XL Recordings. 8/10

Hadestown | Anaïs Mitchell

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Não sei se vocês perceberam, mas tenho um fraco por discos que miram ridiculamente alto, que apostam tudo o que possuem, que querem fincar bandeiras na lua. Em alguns casos, me esforço para não gostar deles por antecipação, antes de ouvi-los. Bons ou maus, têm a minha torcida.

Hadestown, o quarto álbum de Anaïs Mitchell, é dessa casta. Loucamente ambicioso. Talvez ambicioso demais. Você começa a ouvir e, 60 minutos depois, conclui: alguém deveria pendurá-lo numa das galerias da Pinacoteca.

Um álbum “de arte”, pois.

Em 20 canções interligadas, a cantora folk de Vermont convida amigos do metiê para interpretar uma recriação do mito de Orfeu e Eurídice, transferido para a Grande Depressão norte-americana. Mitchell é Eurídice, Justin Vernon (o Bon Iver) faz as vezes de Orfeu, Ben Knox Miller (The Low Anthem) incorpora Hermes e, por fim, Greg Brown e Ani DiFranco vivem Hades e Perséfone.

Felizmente, Cacá Diegues não foi convidado para produzir.

Quem assistiu às estripulias de Toni Garrido, aliás, sabe o que esperar da trama: paixão e tragédia, em resumo. E uma descida ao reino dos mortos. O disco oferece uma série de referências obscuras para quem se dispõe a destrinchar o mito. Mas a trabalheira não é obrigatória. Já que, como nos melhores álbuns “conceituais”, este também funciona muito bem sem referências bibliográficas ou manual de instruções.

Uma primeira audição, é claro, pode intimidar os desavisados. Mitchell usa o mote da Grande Depressão para pesquisar a música americana dos anos 1920, o que resulta num álbum que encena o mito grego com elementos de jazz, blues e country. Se fosse um filme, seria muito parecido com E aí, meu irmão, cadê você?, dos irmãos Coen. Um curto-circuito histórico-literário-mitológico.

Generosa, Mitchell (a atriz/diretora/roteirista do projeto) permite que os coadjuvantes apareçam em solos às vezes mais grandiosos do que a interpretação da moça. Os convidados cumprem uma função importante: eles ressaltam o quão elástico é o talento de Mitchell para a composição. Há faixas que soam como as peraltices de Tom Waits. Outras lembram as confissões mais pastorais de Joan Baez. Outras remetem aos “song cycles” de Van Dyke Parks.

E, se os agudos de Mitchell lembram de imediato Joanna Newsom (e a competição é dureza), as melodias e os arranjos vão numa outra direção, mais teatral. Cada música tenta capturar um momento na trama que é narrada, daí o frenesi de Papers (Hades finds out) e o bucolismo de Flowers (Eurydices song). A segunda metade do álbum é mais pesarosa que a primeira — em matéria de dramaturgia, tudo faz sentido, há começo, meio e fim.

O mais interessante do disco é que, quando esse historinha começa a evaporar (lá pela terceira audição), a maior parte das canções (não todas) vão se despregando umas das outras e soar como peças independentes, sobre sentimentos até muito comuns, ornamentadas com arranjos de cordas que caíram do céu (Michael Chorney, um gênio). Canções de amor e agonia.

E são faixas de temperamento forte — como Way down Hadestown, When the chips are down e Why we build a wall — que nos fazem retornar a este disco mesmo quando a narrativa deixa de nos deslumbrar. É por isso que o disco fica conosco: algumas cenas são mais duradouras e bonitas do que a ideia, o “conceito” da obra.

Se preferir, portanto, não tenha vergonha de encará-lo como um disco de música pop (mas admita: a depender dos esforços da curadoria e do estado de espírito do visitante, um passeio na Pinacoteca pode ser muito agradável).

Terceiro disco de Anais Mitchell. 20 faixas, com produção de Todd Sickafoose. Lançamento Righteous Babe Records. 8/10

2 ou 3 parágrafos | Capitalismo: uma história de amor

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Para aqueles que (como eu) acreditavam que a queda de George W. Bush afundaria o cinema de Michael Moore, Capitalismo: uma história de amor (3/5) mostra que estávamos errados: a eliminação do inimigo provocou um efeito interessante, muito positivo, no discurso do cineasta. Antes, ele era um homem de certezas (Bush era o vírus no intestino da América). Agora, anda cheio de dúvidas: denuncia a crise do sistema econômico capitalista, mas não encontra remédio imediato para a síndrome.

A alternativa mais óbvia ao capitalismo seria o caduco socialismo, mas, antes que critiquemos a ingenuidade de Moore, o próprio diretor sai na frente e elimina qualquer tendência ao radicalismo. O que ele tateia é a possibilidade de um estado social-democrata — gerenciado por trabalhadores — um pouco mais humano do que este que está aí. E sobre isso todos concordamos (novamente, Moore prega para os convertidos, e daí o endeusamento de Barack Obama nos trechos finais, mas que filme triste!).

Em síntese: um longa muito mais complexo (e também sóbrio, uma colcha de tragédias americanas, apesar dos truques sentimentais de sempre) do que os panfletos que ele dirigia até aqui. O escracho é que, desta vez, me parece meio deslocado, como se entrasse no filme por obrigação. Provavelmente, o próprio Moore passa por uma crise. Parece cansado das gracinhas gratuitas, mas não sabe o que fazer com a imagem de provocador incendiário que ele criou. O filme é um reflexo dessas e outras incertezas.