Escuridão da alma

Mark Linkous, R.I.P.

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Todos os discos gravados por Mark Linkous soam um pouco como cartas de suicídio – até os falsamente otimistas, como o excelente It’a a wonderful life (2001). Mas, ainda assim, recebi a notícia da morte do compositor – o homem-Sparklehorse – como uma surpresa terrível. Ela chega no momento em que finalmente ficaram acertadas as negociações para o lançamento do projeto Dark Night of the Soul (com Danger Mouse), atravancado pela EMI.

Como nas canções de Elliott Smith, o desespero de Linkous nunca pareceu encenado. Pelo contrário: deixava no ouvinte uma sensação dolorida de impotência. Diante das caixas de som, éramos testemunhas, confidentes – mas não havia como ajudá-lo. Daí a dificuldade que é ouvir um disco como Good morning spider (1998), tristíssimo, ou até o próprio Dark night of the soul, todo narrado em tons de cinza, sussurrado. 

Nos álbuns mais recentes, Linkous usou da ironia para camuflar o sofrimento: It’s a wonderful life e Dreamt for light years in the belly of a mountain (2006) amenizam a tragédia com alguma tinta de fantasia. Mas, desde o início (meados de 1995), ele não conseguiu (ou não quis) esconder essa tal “escuridão da alma”. Era o que esperávamos dele, aliás. Mas existe algo de heroico na coragem dos que aceitam sofrer em público?

Não faço ideia.  

Aos mais fortes, recomendo Good morning spider, um dos meus discos preferidos dos anos 90. Mas aviso: é uma paulada.