Épico

The Monitor | Titus Andronicus

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Confesso que eu ainda estava me recuperando de um certo projeto sobre a vida e a obra Charles Darwin quando esbarrei no segundo disco do Titus Andronicus, The Monitor. Que trata da Guerra Civil norte-americana (1861-1865). Respirei fundo. Contei até dez.

É isso aí. Vivemos uma era de grandes, incríveis, mirabolantes realizações, meu irmão.

Antes que você abandone este texto (e este disco) para sempre, repare no que o próprio vocalista da banda, Patrick Stickles, tem a dizer sobre a ambição da coisa: “Não é um disco que se passa no passado. Os personagens não viveram necessariamente aqueles eventos. Na verdade, é sobre como aqueles conflitos, que levaram nossa nação à calamidade, ainda não foram totalmente resolvidos e como essa permanente divisão provoca efeito no nosso comportamento e em relacionamentos do cotidiano.”

Entendeu? Traduzindo: o Titus Andronicus é apenas uma banda de rock mais ou menos típica que, numa espécie de transe histórico, encontrou uma forma inusitada de falar sobre o Grande Tema do Rock — o quão complexas, trágicas (talvez épicas!) são as nossas vidinhas insignificantes.

Daí que as batalhas deste The Monitor (uma referência ao navio de guerra pioneiro USS Monitor) são travadas numa Nova Jersey até muito ordinária. Os heróis da saga são tipos adolescentes que, desencantados, soam como se estivessem verdadeiramente fartos de tudo. Interpretei os discursos de guerra, que intercalam as músicas, como o desejo desses personagens de domar um país hostil, violento, dividido. Mesmo quando não entendemos muito bem os versos das canções, o sentimento de insatisfação está sempre ali, em cores berrantes.

(E vejam isto: cheguei ao sexto parágrafo sem dizer que este é um dos meus discos favoritos deste início de ano. E que ele é algo raro, provocativo, um ‘statement’ de provocar espanto até em quem já conhecia esta banda. Mas ok, perdão, voltemos ao que importa).

A habilidade de usar referências “de época” para comentar sobre os anos 00 é uma habilidade que, para o Titus Andronicus, vem de berço. Já no disco de estreia, The airing of grievances (de 2008, que eu daria um 7.5), eles criavam diálogos imaginários entre Sex Pistols e Albert Camus, Hunther Thompson e Shakespeare — e sem deixar de soar como uma bar band fissurada em punk rock de 1977. Era um álbum ruidoso (e, ouvindo agora, parece um esboço deste novo disco), com vocais abafados e canções que já tentavam distorcer algumas regrinhas do gênero. No “lado B”, as canções No future e No future part 2 é o mais perto que o hardcore chegou do rock progressivo. Juntas, esbarravam nos 15 minutos de duração.

Em The Monitor, os garotos-perdidos surpreendem por ampliar, amplificar esse “lado B”. Um disco mais aventureiro, quase suicida (que rádio vai tocar canções com mais de 6 minutos e intensas variações de climas e andamento?), de alma punk, algo de glicose pop e espírito de explorador. A atitude é firme, bonita. E as canções, depois do estranhamento das primeiras audições, não fazem com que nos sintamos frios e mortos no tiroteio.

Um filme de guerra dirigido por Richard Linklater. Conseguem imaginar?

É que a banda aprendeu, talvez com os discos do Hold Steady (que faz participação especial) e do Bruce Springsteen (homenageado em The battle of Hampton Roads), que um álbum de estrutura tão calculada pode também ser caloroso, urgente. Mais do que surpreender pela “inteligência”, o Titus Andronicus quer criar hinos à moda antiga para um mundo novo. “O inimigo está em todo canto”, berram em Titus Andronicus forever. Em No future part three, que tritura corações, olham para o espelho e desabafam mil vezes: “Você sempre será um loser”.

The Monitor é um disco imenso — e de propósito. E fascinado por fundamentos do rock “clássico” americano. Essa dupla-face poderia parecer um paradoxo, mas não. Nunca sem paixão, o Titus Andronicus entende os desafios de uma banda de rock independente: aproveitar as liberdades do mercado para brincar com as convenções do gênero um tantinho mais, seja como for, com as armas que estão à mão — nem que apenas por um tipo diferente de diversão.

Segundo disco do Titus Andronicus. 10 faixas, com produção de Kevin McMahon. Lançamento XL Recordings. 8.5/10

2 ou 3 parágrafos | Che 2: a guerrilha

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É o terceiro Soderbergh que vejo este ano e estou quase desistindo do próximo. Encheu meu saquinho.

Entendo esse cinema, sei onde ele quer chegar, mas descobri que nunca vou conseguir admirá-lo. E não adianta ficar tentando. É que o cineasta olha o mundo de uma distância tão segura, tão confortável, que é como se usasse luvas de plástico para lidar com os personagens e os assuntos dos próprios filmes. Aposto que se envolve com eles (caso contrário, não teria se metido no mato para filmar este Che, e aposto que foi uma experiência difícil e dolorida), mas não deixa que esse encontro apareça na tela. E, se o diretor parece não se importar profundamente com nada do que vê, por que eu deveria me importar?

E Che 2 (4.5/10), talvez o auge desse cinema sem sangue, merece um só parágrafo: juntando as duas partes, é impressionante como Soderbergh, em quatro horas!, não se arrisca a interpretar o personagem que dá nome ao filme. Che não tem direito a uma dimensão psicológica — é uma estampa de camiseta ambulante. Começa o filme como um herói íntegro e idealista — e termina exatamente do mesmo jeito. Pior: termina como uma espécie de Jesus Cristo latino, barbudo e sábio. Aposto que o filme segue à risca o relato dos fatos, o diário de Che, os livros de história etc: mas esse tipo de fidelidade não é o que mais me interessa no cinema. Na verdade, me interessa muito pouco. Quando revestida com esse tipo de frieza supostamente jornalística, apenas me entedia. Soderbergh: eu passo.