Envelhecer

Trecho | Uncool

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“Quando falava com os filhos, Keith percebia que cool, legal, era absolutamente o único sobrevivente do léxico de sua juventude. Seus filhos usavam a palavra, suas filhas a usavam, mas a palavra tinha perdido sua conotação de graça-sob-pressão e queria dizer apenas bom. De forma coerente, ele nunca ouvia o seu antônimo: uncool.

Para alguém nascido em 1949, a palavra traz dificuldades adicionais. Envelhecer é muito uncool. Bolsas nos olhos e rugas são muito uncool. Aparelhos auditivos e andadores são muito uncool. Cemitérios são uncool demais.”

Trecho de A viúva grávida, de Martin Amis

Collapse into now | R.E.M.

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Escrevi pro jornal um textinho sobre o novo do R.E.M., Collapse into now. Quase tudo o que eu penso sobre o disco, que passou quase batido pelos meus headphones, está lá.

Para evitar que este blog perca o timing dos acontecimentos – e sem medo de soar incoerente, já que o próprio álbum é confuso, desconjuntado -, dou o “ctrl+v” na resenha para, logo em seguida, fazer alguns comentários que não couberam na página de papel. É assim:

Um estilo no automático

Ainda que não faça questão de esconder as rugas, o R.E.M. rejuvenesceu pelo menos 10 anos com Accelerate, de 2008. Aquele era um disco de rock compacto, tostado por uma iluminação dura que incidia em todas as canções. Em comparação, Collapse into now sinaliza um retrocesso: uma aventura sem tantos riscos, que provoca no fã a sensação imediata de familiaridade.

Em entrevistas, Michael Stipe comentou que o álbum espelha uma nova forma de consumir música, mais desatenta e fragmentada. Talvez faça sentido. Tal como The king of limbs, o mais recente do Radiohead, este conjunto de faixas também carece de unidade, de uma narrativa que garanta a elas um chão.

Talvez o vocalista tenha razão quando nota, que em 2011, o público se apaixona mais por canções que por discos. Esse “estado de coisas” justifica o formato despreocupado de Collapse into now, com um punhado de cenas fortes — como a vibrante All the best, que gruda na primeira audição, e as delicadas Überlin e Walk it back — que não se encaixam.

De um lado, há os herdeiros ruidosos de Accelerate. De outro, as reminiscências dos anos 1990. Ao afrouxar as ambições, o R.E.M. produz uma obra de impasse (e, quem sabe, transição), na linha de New adventures in hi-fi (1996) e Reveal (2001).

O que distancia este novo R.E.M. da obra-prima Automatic for the people é, acima de tudo, um certo desânimo com as palavras. Os versos se tornam cada vez mais singelos, sem a densidade dos tempos de Document, por exemplo.

A soma desses microcontos, apesar de flashes de inspiração (como Oh my heart e Discoverer), resulta numa obra efêmera. Ou, no melhor dos cenários, uma pausa breve no meio do caminho.

Duas ou três coisas mais:

1. Numa entrevista, Mike Mills apontou a diferença entre Accelerate e Collapse into now: aquele era um “statement”, este novo é um conjunto de canções “sem regras”. Pois percebo cada vez mais que o R.E.M. se sai melhor quando grava “statements” – discos coesos, cheios de regras, envolvidos numa atmosfera, num tom muito específico. São esses os meus preferidos: Murmur, Document, Automatic for the people, Monster (e daria para incluir Accelerate aí, mas não vejo tanta potência nas canções).

2. Já os discos “de transição” sempre têm dois ou três momentos de parar o coração (At my most beautiful, em Up!, E-bow the letter e Electrolite, em New adventures in hi-fi), mas soam como exercícios leves, que não exigem muito esforço – uma banda ganhando tempo. Collapse into now faz parte desse círculo – não tão potente quanto New adventures in hi-fi, não tão irregular quanto Reveal.

3. O mais triste é que, nos versos de Collapse into now, dá para notar um “tema” – melhor: um estado de espírito – que poderia formar um álbum menos desfocado. Os personagens de faixas como Walk it back e Oh my love são tipos que chegam à meia-idade como quem tenta reconhecer uma cidade em ruínas  (não à toa, parte do álbum foi gravada em Nova Orleans). As faixas mais alegrinhas aliviam esse disco cinzento que existe aqui dentro. Mesmo quando Stipe avisa que vai ensinar os meninos a agir do jeito certo (em All the best), fica a imagem de uma risada amarga, irônica. Desconforto.

4. Existe aí dentro um álbum sobre efeitos do tempo, reconstrução, reencontros. Mas a ideia está dissolvida; talvez ganhe corpo mais tarde.

Décimo quinto disco do R.E.M. 12 faixas, com produção de Jacknife Lee. Lançamento Warner Music. 6/10

Shadows | Teenage Fanclub

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Tony Naylor, repórter do Guardian, defende neste artigo que as bandas de música pop deveriam gravar no máximo três bons discos e, para o bem da humanidade, saltar do barco.

Concordo com ele quando lembro de Oasis, Smashing Pumpkins e Hole. Mas aí discordo: há Beatles, Rolling Stones, David Bowie. E Animal Collective, que tem oito álbuns e continua nos surpreendendo.

Esses são exceções, vocês diriam. Pode até ser verdade (para cada Animal Collective, são 10 The Vines). Mas, quando evitamos as extremidades de provocações desse tipo, as coisas se tornam muito mais complicadas. Por exemplo: como fica o Teenage Fanclub, que, já longe do ápice (de álbuns belíssimos como Bandwagonesque, de 1991, e Grand Prix, de 1995), segue gravando discos muito dignos como este Shadows, o nono da carreira?

Resumindo: não confie em artigos que tratam a música pop como um conjunto de regrinhas esotéricas.

Mas voltando ao Teenage Fanclub. Numa primeira audição, Shadows pode parecer o disco autoindulgente que se espera de uma banda anciã. Os riffs ruidosos do início dos anos 1990 são aplacados por arranjos agradáveis e delicados, quase discretos, com amenas distorções de guitarras, decorados com pianos, violões, cordas e efeitos discretos de sintetizador. Tudo muito adulto e “sofisticado”.

Para quem conheceu a banda no início dos anos 1990 e depois a abandonou, será um choque. Nada de noise pop. Nada de rispidez lo-fi. Nada de power pop (alegremente) adolescente. Mas, antes que esse fã se decepcione terrivelmente e vá revirar o catálogo da Sub Pop, sugiro paciência. Ouça o disco novamente.

E admita: os escoceses têm todo o direito de gravar um álbum diferente daquele que faziam aos 25. Norman Blake, um dos principais compositores, tem 44 anos de idade. Sinceridade (e é o que vale, não?) continua um valor que eles levam muito em conta.

No mais, Shadows dá prosseguimento à virada de Man-Made (2005), um disco mais afinado ao indie elegante e gentil de bandas americanas como The Sea and Cake e de britânicas como o The Clientele do que da euforia reluzente de um New Pornographers.

Mas é claro que aparecerá quem diga que eles não estão se esforçando. Novamente, calma: dentro do gênero que resolveram habitar (e vamos chamá-lo de rock pastoral britânico, algo assim), eles tentam praticamente de tudo. Para os parâmetros do nicho, Shadows é um disco até bem sortido, com camadas de guitarras que batem feito feixes de melodia, se sobreponto uns aos outros. Sutileza, sutileza.

E não é um grande disco, antes que me perguntem. Tecer lindas melodias pop sem beirar a fofura gratuita não é um trabalho tão fácil quanto parece, e o Teenage Fanclub ainda oscila entre o memorável (The fall, The back of my mind) e canções amarrotadas, que passam sem dizer olá. Ouvi o disco cinco vezes e há algumas faixas que soam simplesmente transparentes (pode ser que isso mude, mas não apostaria nisso).

Há quem acredite que a história do Teenage Fanclub chegou ao fim há 10 anos (e tudo o que temos desde Howdy, de 2000, é um longo epílogo meio cinzento). Eu não vejo assim, pelo contrário: Shadows, ainda que não justifique a espera de cinco anos, aponta muitas possibilidades para um quarteto que optou por crescer junto com o seu público.

Que eles se transformem num novo Clientele — eu não me incomodaria.

E, de qualquer forma, o tempo passa (e notem que muitas das letras do disco lidam com memórias, arrependimentos, saudade, o passado). A barriga cresce. O cabelo cai. E há pessoas que não querem ser Axl Rose (pelo menos não para a vida toda). O fã de Bandwagonesque, já trintão, vai ouvir este disco no iPod enquanto faz compras no supermercado, leva os filhos no colégio ou calcula as prestações da geladeira.

E aí o Teenage Fanclub soará novamente como aquele bom amigo que nos visita de cinco em cinco anos – e que deveria voltar mais vezes.

Nono álbum do Teenage Fanclub. 12 faixas, com produção da própria banda. Lançamento PeMa Records/Merge Records. 6.5/10