Drops

Superoito express (39)

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Burst apart | The Antlers | 7.5

Como seria nossa amizade com o The Antlers se esse trio tivesse nascido em Londres e lançasse discos por uma grande gravadora (a EMI, digamos)? Talvez eles seriam rotulados como uma aposta da indústria musical para reforçar o segmento ocupado pelo Elbow, pelo Wild Beasts: grupos que, em maior ou menor intensidade, satisfazem os desejos de fã trintão que ainda torce para que o Radiohead grave um novo Ok computer (ou, vá lá, um outro In rainbows).

Mas, já que eles são nova-iorquinos e lançam discos por selos muito pequenos, a tendência é que essa história seja lida de outra forma, com um pouco de condescendência. Ok. É uma banda que soa tão sincera, tão verdadeiramente à beira de uma convulsão (corações sangrando!), que dobra nossa ranzinzice e faz com que desviemos o olhar daquilo que está na cara: Peter, Michael e Darby ainda estão digerindo muito lentamente, e com deslumbramento, o som dos ídolos (e, enquanto isso, criando derivações lindas como No widows e Putting the dog to sleep).

Ó, irmãos, cá está o dilema: diante de um disco tão apaixonante (e também tão óbvio, para padrões do indie rock), como proceder? Para cada referência superficial (e para cada versinho rebuscado que não chega a lugar algum), o Antlers vai criando um novelo sentimental que nos captura por completo. É singelo, às vezes apelativo, mas irresistível: por isso muito parecido com o primeiro disco do Band of Horses, Everything all the time. Menos monocromático e deprimente que Hospice, de 2009, porém mais arriscado, e por opção (se eles quisessem, gravariam um disco inteiro de climões sinistros). Me ganharam. Só não me saiam com um Infinite arms daqui a seis anos, ok?

w h o k i l l | Tune-Yards | 7

Merrill Garbus, a voz do Tune-Yards, poderia passar apenas como a musa perigosamente imprevisível da estação – o equivalente às meninas do Warpaint (temporada 2010) e ao Micachu and the Shapes (temporada 2009). E, de fato, whokill é um álbum cuja estranheza colorida, frenética, nos seduz logo na primeira audição – é disco perfeito, por isso, para jornalistas que trabalham demais. Quando ouço com mais calma, encontro: lo-fi pós-tudo feito com autoridade (Gangsta, Es-so), lo-fi pós-tudo que desbota com o tempo (My country, Doorstep), certa obsessão por violência (Killa), uma linda canção triste no lugar errado (Wooly wolly gong) e ideias de afro-pop que soam ainda imaturas, mas que talvez rendam grandes coisas nos próximos discos. É um grude. Mas é só o início.

Hot sauce committee part 2 | Beastie Boys | 6.5

Há os que compararam à energia teen de Licensed to ill (1986), há os que lembraram do espírito noise de Check your head (1992) e Ill communication (1994). Eu, que ouvi todos esses discos muitas vezes, não arredo pé: pra mim, Hot sauce committee part two vem no mesmo feixe de Paul’s boutique (1989) e Hello nasty (1998), discos em que a zoeira de samplers, que piscam feito árvore de Natal, domina a festa. Ouça Ok, por exemplo: é ou não é um filhotinho de Intergalactic? Soa como se eles tentassem, com muita força, reprisar o lance mágico. Taí: percebo uma banda tentando se reintegrar à própria mitologia – como o sujeito que, depois de uma crise, retorna à cidade de origem. Talvez por isso o disco seja um pouco parecido com qualquer outro que eles gravaram: e também um pouco melancólico, já eles próprios sabem como, em 2011, já não fazem mais tanta diferença assim.

Wasting light | Foo Fighters | 6

É, de certa forma, quase um irmão desse disco novo dos Beastie Boys – já que o Foo Fighters também faz um flashback para recuperar algo que a banda perdeu. Os mais recentes (principalmente Echoes, silence, patience and grace) eram discos muito técnicos, álbuns polidos, para disputar campeonato de eficiência. O que eles procuram aqui é a virulência dos primeiros discos e algo do desespero de Kurt Cobain – mas parece uma busca inútil, já que, por mais que se tente reprisar a juventude, tudo o que nos resta no fim do espetáculo é um grupo de adultos entediados, ricos, famosos, tocando rock numa garagem. A produção de Butch Vig é pragmática (como sempre), evitando espaços em branco, e Dave Grohl segue abastecendo o repertório para arenas superlotadas. Mas, pronto-falei: não consigo acreditar numa única palavra que ele canta. E, no mais, isto aqui soa mais ou menos como os discos anteriores: eficiente. Só que mais enxuto. É o bastante?

Circuital | My Morning Jacket | 5

Para uma banda que começou a carreira como uma espécie de Grateful Dead para fãs de Flaming Lips, o My Morning Jacket não poderia ter se transformado em algo mais distante daquilo que esperávamos dele: Circuital soa como Fleetwood Mac para fãs do Wilco. Eu não consigo ir contra essa filosofia de mudar e surpreender a cada disco, mas, deus!, taí uma das poucas bandas que deveriam parar de tentar. Quase todas as reviravoltas me parecem desengonçadas ou, no mínimo, equivocadas. Em Evil urges (2008), que era medonho, eles acenaram para Prince e Radiohead. Desta vez, eles criam uma espécie de mashup com Creep e Sting, numa faixa-título que resume as fraquezas do disco. Algumas faixas ainda retêm a graça country-rock do primeiro disco, mas vêm embaladas numa produção inofensiva, higiênica. O crítico da revista pode até curtir (olha lá, eles são inquietos!), mas duvido que ouça pela quarta vez.

Superoito express (36)

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Let England shake | PJ Harvey | 7.5

Quando o contista que sempre escreve livros em primeira pessoa, íntimos, resolve lançar um romance histórico em terceira pessoa, o leitor fiel primeiro estranha e depois entende que, no desvio inesperado, o ídolo se põe nu. Soa como uma especie de recomeço. Na saga de PJ Harvey, Let England shake é essa obra que desorienta: musicalmente, a cantora permanece numa zona de conforto (cercada por uma “guarda real” que inclui o parceiro John Parish e o produtor Flood), mas o tema e o contexto das canções — que poderia render um roteiro de filme de guerra pra inglês filmar — obriga a cantora a romper o próprio estilo num ponto fundamental (e vou explicar de um jeito singelo, mas lá vai): em vez de olhar para dentro, ela agora olha para fora.

Daí que, se o disco não chega a parecer um objeto totalmente estranho dentro do repertório de Harvey (a sonoridade, uma espécie de folk rock despedaçado, lembra um pouco A man a woman walked by, que ela gravou com Parish em 2009), me parece o mais arriscado de uma carreira com muitos riscos. É que, no momento em que ela se obriga a seguir um “script” e ir descendo ao passado sangrento da Inglaterra (e com toda uma pesquisa musical que é aparece de modo sutil, um pouco como uma atualização das war songs de Dylan), ela deixa de depender do tal “ponto de vista feminino” que conduziu discos inteiros, como Uh huh her (2004) e Is this desire? (1998). Não serei eu a desconsiderar um esforço desses.

Mas acredito que essa transformação — que tanto entusiasma os fãs do disco — acaba escondendo ou até compensando as fragilidades do álbum, como se fosse o suficiente para provar que Harvey é uma grande artista. Quanto mais ouço, menos forte, menos “importante” ele parece. Principalmente a segunda parte, quando as ideias de Harvey (tanto musicais quanto poéticas) vão se quebrando em pequenas narrativas que se dissolvem no ar. Já a primeira parte contém, de verdade, algumas canções valentes: The words that Maketh Murder levaria Nick Cave às lágrimas, e a balada England, que parece convidar o espírito de Joan Baez para bater um papinho com Joanna Newsom. Mudar de perspectiva é um desafio para Harvey, mas me pergunto se ideias monumentais não deveriam vir acompanhadas de canções um pouquinho mais corajosas. Admirável, mas não consigo cair de amores.

Here we rest | Jason Isbell and the 400 Unit | 7

É o disco em que entendemos, muito didaticamente, por que Jason Isbell saiu do Drive-by Truckers, para onde provavelmente nunca voltará. Enquanto a banda procura um country rock lascado, que combine com personagens degenerados, o som de Isbell se torna cada vez mais polido, como se o objetivo do compositor fosse as paradas de sucesso para o público “adulto contemporâneo”. Dito isso, lembro que Isbell é um compositor tão talentoso quanto a dupla principal dos Truckers e, se a produção do disco higieniza tudo o que encontra pela frente, as canções sobrevivem a esse perfume de “soft rock”. É um disco para os fãs de Sky blue sky, do Wilco, e de The king is dead, do Decemberists: melodias aparadas, sem fissuras, como pedaços de madeira talhados com esmero e amor pelo ofício — no mais, Alabama Pines, Codeine e Stopping by são canções que o Uncle Tupelo lançaria com muita alegria no início dos anos 90.

12 desperate straight lines | Telekinesis | 7

Aprendam aí, Jonas Brothers: Michael Lerner cumpre todos os mandamentos do power pop, mas nem por isso soa como se estivesse diluindo o repertório do Fountains of Wayne e do Wings. Os discos do Telekinesis são aparentemente muito simples, quase tolos (o riff estrondoso, os versos cheios de tristeza juvenil, o refrão que ilumina uma cidade inteira; tudo isso em menos de três minutos), mas também muito precisos nesse tentativa de explorar tudo os fundamentos do gênero: franqueza, doçura, alguma melancolia. Está tudo no título: 12 linhas retas e desesperadas. Em 50 ways, Lerner cita Paul Simon (mas soa como uma versão nervosa do The Shins). Em Car crash, fala sobre um caso de amor que começa bem até o momento em que você começa a se sentir tão sozinho. Em Dirty thing, narra o início o meio e o fim de um namoro de verão. Não tem muito happy end por aqui. E é tudo muito dolorido, ainda que pareça fácil.

Hotel Shampoo | Gruff Rhys | 6

Lembro que, quando ouvi Rings around the world (2001), imaginei o seguinte: quando o Super Furry Animals assumir de vez, sem culpas, o amor por Burt Bacharach, talvez grave o disco pop mais bonito do mundo. A banda sempre ficou em cima do muro em relação a isso, mas, 10 anos depois, Gruff Ryhs parece praticar essa ideia de “disco de easy listening” com este Hotel shampoo. A má notícia é que, além de não ser o disco pop mais bonito do mundo, o álbum joga água na feijoada de Rings around the world, amenizando quase tudo o que aquele disco dizia. Se aquele era um álbum que brilhava forte no escuro, Hotel shampoo é de pelúcia, uma tentativa meio estabanada de pescar e adoçar algumas referências do rock dos anos 60. Sem muita convicção. Como se Gruff avisasse: estou brincando de ser gentil, aguardem o meu próximo disco. E, apesar de faixas muito boas (como Candy all over), acaba soando, no máximo, engraçadinho.

Drops | Mostra de São Paulo (3)

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'As quatro voltas', de Michelangelo Frammartino

Tudo vai dar certo | Alting bliver godt igen | Christoffer Boe | 1.5/5 | Numa reviravolta que só pode ser descrita como estúpida, o thriller de Boa esvazia sem piedade uma ideia mais ou menos instigante (ainda que desgastada: quantos são os filmes sobre pecados de guerra?). O estilão afetado do cineasta, com closes e cores quentes em profusão, me lembrou daquelas mobílias que encontramos em lojas caras e “sofisticadas”: design arrojado, mas pouco resistente.

A primeira coisa linda | La prima cosa bella | Paolo Virzi | 2.5/5 | Novelão italiano que soa como um contraponto melodramático (e menos imaturo) a Eu matei minha mãe, de Xavier Dolan. Tem momentos cômicos até fortes, mas por que gastar 124 minutos com o que pode ser dito em 80?

!!! As quatro voltas | Le quattro volte | Michelangelo Frammartino | 4/5 | Um dos mais elogiados na Mostra até aqui, e logo nas primeiras cenas entendemos o porquê: Frammartino compõe imagens a partir da observação de ciclos da natureza (em alguns momentos, o filme deixa a impressão de um documentário sobre os bichos e os homens de uma pequena aldeia), mas sempre com o rigor de um bom ficcionista. Uma narrativa absolutamente sob controle (e talvez polida demais, em alguns momentos): de supetão, o protagonista sai de cena; mas, na plateia, continuamos hipnotizados.

Os amores de um zumbi | The loves of a zombi | Arnold Antonin | 2/5 | Minha vontade, admito, é de elogiar qualquer fita trash haitiana que acompanhe o calvário de um zumbi romântico, perdido num país de mortos-vivos. Mas esta aqui me parece muito mais provocativa e engraçada na teoria do que na prática (imagine uma novela da TV Manchete TV Distrital de Brasília reeditada em 90 minutos; você se diverte nos primeiros trechos, se entendia logo depois). Apesar da precariedade também narrativa, não há como negar: o formato tosco (sem gore!) combina com um filme que cita Buñuel, mas parece mesmo é uma versão subdesenvolvida (e aí não vai nenhuma crítica, só uma constatação) do horror político de Romero.

PS: Comparei os zumbis haitianos às novelas da Manchete e logo depois me arrependi. Como o Rudá bem apontou na caixa de comentários, uma boa novela da Manchete editada em 90 minutos muito possivelmente renderia um filme interessante. Talvez eu tenha pensado nas novelas mais precárias da emissora, ou naquelas que são produzidas para a TV Distrital de Brasília, toscas e divertidas.

Drops | Mostra de São Paulo (1)

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'Cópia fiel', de Abbas Kiarostami

Cyrus | Jay Duplass e Mark Duplass | 2/5 | O tipo de drama indie aparentemente cru (mas que se torna apelativo, superficial) que a Fox Searchlight lança todos os anos para tentar indicações ao Spirit Independent Awards e, quem sabe, ao Oscar. John C. Reilly e Jonah Hill mereciam mais.

Símbolo | Shinboru | Hitoshi Matsumoto | 3/5 | Difícil descrever esta piração de Matsumoto, que começa como uma fita de Robert Rodriguez (cenário: o deserto mexicano) e logo se transforma num cartoon surrealista. Incrível é como o diretor consegue (e consegue!) amarrar essas duas pontas da narrativa. Um filmezinho bizarro sobre as bizarrices do mundo.

Fora da lei | Hors-la-loi | Rachid Bouchareb | 2/5 | Para Bouchareb, está claro que expor didaticamente a tragédia argelina interessa mais do que fazer cinema. Só fico me perguntando se filmar burocraticamente também conta como um ato político. As 2h20 passam como 6h20.

Abel | Diego Luna | 3/5 | Luna me incomoda um pouco quando se diverte com os traços cômicos da premissa (um menino traumatizado passa a se comportar como se fosse o próprio pai), mas vira o jogo na meia hora final. Pouco a pouco, a brincadeira literalmente perde a graça.

!!! Cópia fiel | Copie conforme | 4/5 | Pode deixar a impressão, principalmente nas primeiras cenas, de que se trata de um dos filmes mais simples de Kiarostami. Mas não: o conforto provocado por uma encenação familiar (um homem e uma mulher conversando nas ruas da Itália) é só o aquecimento para um dos jogos mais enigmáticos do cineasta. O que parece óbvio vai se dissolvendo lentamente: os personagens podem não ser o que aparentam, os papéis que interpretam estão sujeitos a alterações e até o tema principal do filme (aparentemente tão claro: as relações entre original e cópia) é colocado em xeque. Uma história de amor? Um ensaio sobre arte? Talvez as duas coisas. Kiarostami, como sempre, brinca com a nossa percepção – e não fecha a porta do mistério.

Drops | Festival do Rio

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'Tio Boonmee', meu favorito do Festival do Rio

Dias 5, 6 e 7

Nosso fantástico século 21 | Neowa naui 21 segi | Ryu Hyung-ki | 2/5 | O cineasta coreano fotografa a metrópole como quem testa ideias para um filme de ficção científica – mas o visual cinzento serve a uma narrativa desapaixonada, sem viço, que larga os personagens (e o espectador) à deriva. É a estreia de Hyung-ki, o que talvez explique a falta de jeito.

The Runaways – Garotas do rock | Floria Sigismondi | 2/5 | Uma banda de rock pioneira – já que formada apenas por meninas, nos anos 70 – merecia mais do que uma cinebio falsamente ousada (visual à la Boogie nights, narrativa que em nada trai o modelo de fitas sobre estrelas que sobem e desabam). De qualquer modo, Kristen Stewart e Dakota Fanning vão com sede ao pote. 

Viúvas sempre às quintas | Las viudas de los jueves | Marcelo Piñeyro | 2.5/5 | Um episódio de Desperate housewives sobre a crise econômica argentina. Não deixa de ser curioso (mas me parece o pior de Piñeyro).

Nossa vida exposta | We live in public | Ondi Timoner | 3/5 | A trajetória de Josh Harris é tão bizarra e cheia de surpresas extravagantes que me perguntei em vários momentos se este filme não seria um mockumentary: de geniozinho milionário da internet a cobaia de loucas experiências virtuais, o homem conseguiu prever a onda de exposição da intimidade via web… e foi engolido por ela. Grande história, que o filme documenta sem grandes insights.

!!! Armadillo | Janus Metz | 4/5 | Um filme de guerra espantoso (crueza e lirismo à queima-roupa, e algumas das digressões visuais mais chapantes deste festival) que acompanha soldados dinamarqueses numa missão no Afeganistão. A paranoia e a aflição se intensificam no decorrer da narrativa – como de praxe em documentários do gênero. O que me embasbaca, no entanto, é descobrir a motivação dos personagens, tipos comuns que poderiam estar em casa jogando Playstation, mas vão para o front em busca de “aventura e camaradagem”.

A solidão dos números primos | La solitudine del numeri primi | Saverio Costanzo | 1.5/5 | Dois personagens outsiders, cheios de manias esquisitas, solitários, infelizes, adoráveis. E claro: ESPECIAIS. Fofice-loser para fãs de Amélie Poulain. Sob medida para virar hit de festivais.

Quebra-cabeça | Rompecabezas | Natalia Smirnoff | 3/5 | Um filme orgulhosamente pequeno (contraponto necessário a um cinema argentino cada vez mais hipnotizado pelo “padrão de qualidade” que não ofende a Academia de Hollywood) que se concentra no que lhe parece essencial: a ótima atuação de María Onetto e um roteiro com peças que se encaixam.

Amores imaginários | Les amours imaginaires | Xavier Dolan | 2/5 | Cinema juvenil tanto no tema (amores idealizados, não correspondidos, impossíveis) quanto no formato (uma colagem de referências cool, de Tarantino a Kar-wai, passando obrigatoriamente por Godard e Truffaut do início dos anos 60). Muito glacê para pouca massa – outro canditato a hit de festivais. Pode parecer increditável, mas a cena final confirma: já podemos falar num sub-Honoré.                  

Dias 3 e 4

Dois irmãos | Dos hermanos | Daniel Burman | 2/5 | Ainda não consigo engolir a ideia de que Burman se contenta em dirigir comédias afetuosas (e inofensivas) sobre relações familiares. O público dessas cinecrônicas parece mesmo imenso (vi o filme numa sessão lotada de meio-dia, com fortes aplausos ao fim), mas, desde Direito de família, fico com a impressão de que o cineasta encontrou uma zona de conforto de onde rejeita sair. Boas atuações, no entanto.

!!! Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas | Lung Boonmee raluek chat | Apichatpong Weerasethakul | 5/5 | É, como Mal dos trópicos, um passeio numa Tailândia rural, misteriosa, onde o mundano e o transcendental dividem um mesmo espaço. Mas, se naquele filme Apichatpong dividia a narrativa em duas partes (uma mais realista, outra mais abstrata), em Tio Boonmee o cineasta derruba essa parede entre os “mundos” e cria um fluxo contínuo de delírio, crença e cenas do cotidiano. Não tem como fugir do clichê: o efeito é de transe, de alucinação mesmo. Mesmo acostumado às habilidades hipnóticas do diretor, saí do cinema transtornado – é daqueles filmes que nos abduzem.

The killer inside me | Michael Winterbottom | 2.5/5 | O olhar cínico e desapaixonado de Winterbottom para o noir (como se estivesse estudando o gênero) me lembra algo dos irmãos Coen, mas o sujeito ainda não me convenceu de que tem algo de pessoal a comentar sobre as f’órmulas cinematográficas que aplica. Quem é Winterbottom? Apesar de conhecer quase toda a filmografia do diretor, ainda não sei como responder essa pergunta.

Scott Pilgrim contra o mundo | Edgar Wright | 3.5/5 | Wright é dos poucos diretores que me fazem rir feito criancinha (e quase chorar, como na cena que usa I heard Ramona sing, do Frank Black, como tema para a venenosa Ramona Flowers). Michael Cera talvez não seja o ator certo para interpretar Scott Pilgrim, o geek bom de briga. Mas quem seria? O tilt do filme nem me parece culpa do ator ou do diretor: tal como a HQ, a primeira parte da narrativa (30 minutos de paraíso) perde a verve quando a trama vira um joguinho de luta.

Poesia | Shi | Lee Changdong | 3.5/5 | Um filme que, como os personagens principais, desvia o tempo todo do conflito principal – como quem fecha os olhos para não encarar a cena de um acidente. A catarse do desfecho compensa os muitos momentos frouxos da narrativa, que se alonga demais. Ganhou o prêmio de roteiro em Cannes, mas merecia mesmo era ter vencido o de melhor atriz.

Stones in exile | Stephen Kijak | 2/5 | Qualquer documentário sobre a gravação de Exile on Main Steet será no mínimo interessante, mas este me pareceu uma peça de divulgação “oficial” que pouco acrescenta a tudo o que conhecemos sobre o caso. E, em econômicos 60 minutos, soa superficial. 

Dia 2

Tournée | Mathieu Amalric | 3/5 | As fanfarronices das atrizes no palco são bem mais poderosas do que os dramas familiares do protagonista, e Amalric é generoso (e inteligente) o suficiente para não podá-las na montagem. Mas vocês têm certeza de que ele levou o prêmio de melhor direção em Cannes?

A vida durante a guerra | Life during wartime | Todd Solondz | 2/5 | A fúria de Solondz não cessa jamais, e este filme contém alguns dos diálogos mais cruéis que saíram da “caixinha de maldades” do diretor. Mas a continuação de Felicidade (com elenco totalmente diferente) só explicita o quanto este cinema, ainda que tenha se tornado mais áspero e inflexível, não sabe muito o que fazer além de reaproveitar preguiçosamente as próprias ideias. 

Amigo | John Sayles | w/o | Primeira desistência da Mostra: a cópia embaçada (em DVCam), somada à minha completa desatenção nos primeiros 20 e 30 minutos, me derrubaram. Mas parece curioso (Sayles filma a guerra nas Filipinas) e prometo voltar a ele. 

Ano bissexto | Año bisiexto | Michael Rowe | 1/5 | No fim da sessão, uma senhora tentou me convencer de que este é o melhor filme da Mostra: “Ele não é pra qualquer bico. Tem psicologia, psiquiatria… É uma loucura”, ela se esforçou. Me senti um cego: tudo o que consegui ver na tela foi uma personagem infeliz sendo torturada implacavelmente (pela vida, pelo namorado macabro, por ela própria e principalmente pelo diretor). Sabe-se lá por que, venceu a Câmera de Ouro em Cannes.

Contos da era dourada | Amintiri din epoca de aur | Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru | 3/5 | Um raro filme de episódios que preza por uma unidade não só temática (eles encenam as lendas urbanas da ditadura de Ceausescu) mas formal. Os capítulos são filmados com a mesma lente realista de um 4 meses, 3 semanas e 2 dias, mas com a ironia surreal de um A leste de Bucareste. Isto é: um portfólio simpático (ainda que talvez confortável demais) para o “novo cinema romeno”.         

Dia 1

!!! Somewhere | Sofia Coppola | 4/5 | É o mais arredio entre filmes de Sofia Coppola (os 15 minutos iniciais, com cenas longas que se espreguiçam infinitamente, chegam a lembrar Vincent Gallo e o Gus Van Sant de Last days e Elefante), mas também me parece uma continuação para Encontros e desencontros, com um protagonista perdido numa bolha de sucesso e tédio, quase descolado do tempo e do espaço (e as cenas da viagem a Itália rendem comparações irresistíveis com aquele outro filme) e que só consegue enxergar a própria crise quando entra em contato com outra pessoa (a filha). A descoberta é narrada com sutileza até um desfecho amarradinho que quase estraga tudo. Logo em seguida, nos crédios, entra Love like a sunset, do Phoenix – e o filme volta às nuvens.

Carancho | Pablo Trapero | 2/5 | Uma decepção. As cenas de violência ardem os olhos, mas visual do filme me parece polido e impessoal (mais para O segredo dos seus olhos, menos para Família rodante ou Leonera) e o desfecho é digno de Iñárritu.

Rubber | Quentin Dupieux | 3/5 | Uma metagozação (e, se a palavra soou grosseira, faz todo o sentido nesse contexto) que soa como um videoclipe alongado do Spike Jonze – isto é: nonsense espertinho com uma ou outra boa ideia visual. Resumindo a trama: um pneu assassino à solta no deserto americano.

La nostra vita | Daniele Luchetti | 2.5/5 | Elio Germano venceu prêmio em Cannes pelo papel do pai de família que perde a esposa e tem que cuidar dos filhos. É uma atuação muito segura (ainda que a cena principal do personagem tente ganhar o espectador literalmente no grito), mas fiquei com a impressão de já ter visto umas cinco versões melhores para este melodrama italiano – e sem a necessidade da câmera tremida.

!!! Film socialisme | Jean-Luc Godard | 4/5 | Um Godard mais criptografado do que de costume (admito que não captei nem 10% das referências políticas, literárias, filosóficas, geográficas) e ainda fascinante. A composição de cores em digital me impressionou muito. No mais, sem comentários.

Diário | Superoito no Festival de Brasília

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Anotações sobre os filmes do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Minha semana será integralmente dedicada à mostra. Infelizmente, não terei tempo para escrever textos grandes. Se eu sobreviver, estarei dentro deste post até quinta que vem.

'Lula, o filho do Brasil': começamos mal

24/11

Premiação | Era o que se esperava do júri (formado por, entre outros, Caio Gullane e Flávio Tambellini): a consagração de um cinema de forte apelo popular. É proibido fumar levou oito prêmios do júri oficial (melhor filme, roteiro, atuações e crítica, entre os principais) e Filhos de João ficou com um prêmio especial de júri e júri popular. Evaldo Mocarzel levou o Candango de direção por Quebradeiras e A falta que me faz foi ignorado. Entre os curtas, uma surpresa: Ave Maria, de Camilo Cavalcante, levou o prêmio principal. Mas Recife frio, do Kleber Mendonça Filho, saiu com júri popular, direção, crítica e o Saruê, entregue pela equipe do Correio Braziliense ao melhor momento da edição.

23/11

A falta que me faz | Marília Rocha | 7 | A história do encontro entre uma equipe de cinema e quatro adolescentes da Serra do Espinhaço, no norte de Minas. Aparentemente simples (e plácido), mas de engenharia complexa, o doc impressiona pela relação de cumplicidade criada entre quem faz o filme e as pessoas que aparecem na tela. No fim da viagem, notamos que não há mais distância entre esses e aqueles: as incertezas das personagens são também nossas. O melhor longa exibido na edição do festival – e um que eu gostaria de ver novamente.

E os curtas Azul (5), de Eric Laurence, que me lembrou muito o lirismo calculado de Casa de areia, e o doc sobre o universo brega Faço de mim o que quero (4), de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, que é uma colagem de tipos excêntricos.

Hoje sai o resultado. Espero que Recife frio e A falta que me faz levem alguma coisa.

22/11

É proibido fumar | Anna Muylaert | 6 | Uma crônica paulistana saborosa que, subitamente, desvia para uma trilha mais sombria e menos plausível. Soa como uma versão soft de Durval discos – aqui, também prefiro o lado A ao lado B.

E os curtas Carreto (6), de Marília Hughes e Claudio Marques, que acerta no tom de delicadeza, e A noite por testemunha (4.5), de Bruno Torres, que reconstitui um caso chocante (o assassinato de um índio em Brasília por um grupo de adolescentes de classe média) com perplexidade e truques visuais de fitas de ação.

21/11

Homem mau dorme bem | Geraldo Moraes | 4 | Folhetim de beira de estrada – truncado e ingênuo demais para ser levado a sério  (mas, em matéria de humor involuntário, é nota 10).

E os curtas Verdadeiro ou falso (5), de Jimi Figueiredo, que é uma piada cínica sobre relações amorosas, e o genial Recife frio (8.5), de Kléber Mendonça Filho, um falso documentário hilariante (e assustador) que imagina um futuro friorento para a cidade pernambucana. Um dos melhores filmes que vi no Festival de Brasília desde quando acompanho a mostra, em 1992 (e o Kléber usa extamente a mesma sinfonia de Beethoven que rola em Presságio: mera coincidência?).

20/11

Quebradeiras | Evaldo Mocarzel | 5.5 | Depois de dirigir uma dezena de documentários socialmente inflamados (com muitas entrevistas, diálogos), Mocarzel tenta uma “ruptura radical” e usa tom lírico, câmeras estáticas, planos longos, cenas de natureza exuberante, silêncios e tudo o que supostamente distancia a arte do jornalismo. Esforço curioso, mas fico com a impressão de que o cineasta troca uma fórmula por outra.

E os curtas Dias de greve (5.5), de Adirley Queirós, que tem o mérito de filmar Ceilândia de dentro para fora (mas a ficção parece genérica), e Ave Maria ou Mãe dos sertanejos (6), de Camilo Cavalcante, que edita imagens do sertão num fluxo musical que deixa tudo mais interessante.

19/11

Perdão, mister Fiel | Jorge Oliveira | 5 | Uma boa reportagem sobre o caso Manoel Fiel Filho e a tortura militar no Brasil – o depoimento do Lula, por exemplo, vale mais que todo o longa do Fábio Barreto. Mas a “aula de História” mostra total desinteresse pela linguagem do cinema e, por isso, parece deslocada no festival. A cenas de dramatização dos fatos, no estilo Linha direta, são risíveis.

E os curtas Bailão (6), de Marcelo Caetano, que é um doc com ótima ideia (dar voz a uma geração que nasceu e continua à margem de tudo) e só, e Água viva (4), de Raul Maciel, projeto universitário cheio de metáforas “criativas” e “sensíveis” sobre o desabrochar da sexualidade.

18/11

Filhos de João, admirável mundo novo baiano | Henrique Dantas | 5.5 | O filme não é tão sofrível quanto o título: existe uma qualidade doméstica, afetuosa neste doc sobre os Novos Baianos que quase compensa a superficialidade do projeto. Para iniciados, é dispensável (e o excesso de trechos engraçadinhos de depoimentos me lembrou Glauber, o filme – Labirinto do Brasil). Mas é um retrato arejado, leve, apesar de tudo.

E os curtas Homem-bomba (4), de Tarcísio Lara Puiati, que falha no salto do realismo para a fantasia, e Amigos bizarros do Ricardinho (5.5), de Augusto Canani, que é divertido e tudo, mas deveria se chamar Quero ser Wes Anderson.

17/11

Lula, o filho do Brasil | Fábio Barreto | 4.5 | Acompanho o Festival de Brasília desde 1992 e esta foi a sessão de abertura mais concorrida (e desorganizada) que vi. O Teatro Nacional, que lota com cerca de 1,3 mil pessoas, recebeu 1,8 mil convidados – com área VIP de 400 lugares para o governo federal. Antes da projeção, Luiz Carlos Barreto fez um discurso apocalíptico e avisou que todos os espectadores ali entulhados corriam perigo de tragédia. Ninguém deu bola para a recomendação, muitos o vaiaram e o filme começou nesse clima de excitação e feira-do-milho típicos do festival. O curioso é que, durante o filme, a plateia não se manifestou em nenhum momento – no desfecho, os aplausos foram protocolares. O que aconteceu?

O longa tem sim potencial para blockbuster (sabemos que o público adora ir ao cinema para conhecer histórias de pessoas que ele já conhece), é produzido com a “sofisticação” de uma minissérie da Globo e carrega no melodrama (volta e meia, acaba despencando no dramalhão mesmo). Muitos compararam a 2 filhos de Francisco e, de fato, o filme de Zezé & Luciano parece ter sido tomado como molde: a trama simplifica a biografia do presidente fechando o foco na relação entre Lula e a mãe, interpretada por Glória Pires. Mas acredito que, se Breno Silveira dirigiu aquele filme com visível comprometimento (é, apesar de tudo, um esforço que soa sincero), Fábio Barreto recorta e cola trechos da trajetória de Lula como quem soma peças de uma máquina numa linha de montagem. Não é tão emocionante quanto assistir a cenas de arquivo da posse (que, aliás, são usadas no filme).

Pior: a jornada toda é narrada de forma unidimensional e, por isso, enfadonha. A família Barreto faz uma ode tão escancarada a Lula (que representa todas as qualidades mais nobres do povo brasileiro: teimosia, determinação, capacidade de superação, etc) que, ainda que não tenha sido preparado como propaganda eleitoral, este filmezinho oficioso pode muito bem ser usado como tal.