Delicadeza

The Drums | The Drums

Postado em Atualizado em

Fofofóbicos, tremei: The Drums não é uma banda para vocês.

Não é. Recomendo desistência por antecipação. Sei qual é a dos fofofóbicos, essa gente com aversão a fofuras e chamegos xaroposos e guti-gutis afins. Para eles, Belle and Sebastian, Camera Obscura, The Shins e Sufjan Stevens equivalem a ursinhos de pelúcia róseos e muito simpáticos e macios (simpáticos e macios demais, diriam). E Juno só seria um filme decente se banisse aquele nerd delicado, com hálito de suco de laranja. Irc.

Gente estranha. Não os entendo.

Quer dizer: tento entender. Tento porque convivo com eles. Tento porque sei o que eles detestam. E eu nem veria problema em apontar nomes, já que todos acreditam que meu blog é aprazível, delicadinho, emotivo e, por isso, abominável feito algodão-doce de morango.

Eu acho, sinceramente, que eles deveriam se tratar. O que seria do mundo sem os momentos de fofura, meus amigos? Eu nem quero saber.

Mas, como eu ia dizendo, tento entendê-los. E bandas como o The Drums me ajudam nessa luta. É uma banda muito fofa, aviso logo. Um doce. Fofíssima: dá vontade de pegar no colo. Ela é formada por quatro sujeitos que são ou extremamente cínicos ou perigosamente carentes. Nada de errado com carência. Todos nós, até os fofofóbicos, vivem dias, horas, segundos de carência. É claro: eles superam as agruras com três ou quatro abdominais ou barras de chocolate (meio-amargo). Nós, os tristes, descarregamos nossas pitangas na música pop.

E o curioso é que nós, os tolerantes a excesso de fofura, queremos sempre mais. Mais choro, mais desencanto, mais fragilidade, mais doçura, mais melancolia. Então não nos irrita o fato de que uma banda como o The Drums (e há tantas!) acabe soando como um encontro meio literal entre The Smiths e The Shins, com sintetizadores agradáveis que afagam a nossa nuca e um manto acolchoado de guitarras que nunca espeta nossas costas. Logo nos primeiros acordes, nos sentimos acolhidos, seguros.

Para quem congela só de ouvir a palavrinha “twee”, aviso: mantenha distância. The Drums soará simplesmente intratável. É uma daquelas bandas que aprenderam o bê-a-bá do “beach pop” (que vem lá dos anos 60, Beach Boys e congêneres) e o aplicam ao gosto de uma geração que traduz essas influências de uma forma estudada, meio blasé, autoirônica (mas sem se aproximar da autoparódia). Algo como os momentos mais delicados do Vampire Weekend e do Ra Ra Riot.

The Drums é assim: demonstra muito talento para usar aquele velho clichê californiano (versos tristes para melodias alegres) de uma forma que soa muito sincera. É um quarteto de Brooklyn, Nova York, e a procedência talvez explique por que eles às vezes deixam a impressão de participar de um grupo de estudos avançados sobre indie pop. E, se alguém tinha dúvidas sobre a origem da faixa mais grudenta do disco (Me and the Moon), está tudo lá: The Strokes via Phoenix.

Essa música, a mais animadinha (e a mais derivativa de todas), é desvio de rota num álbum até certo ponto monocórdico e (falsamente?) ingênuo. “Você é meu melhor amigo, então você morreu”, canta Jonathan Pierce na faixa de abertura, Best friend, que vai desfiando memórias da adolescência muito doloridas, embaladas em arranjo dance. Mais adiante, ele confessa que a vida vai ficando cada vez mais difícil. “Eu imaginava que ficaria mais fácil”, diz. E coisa e tal.

Lá nas últimas faixas, a banda acrescenta uns violões safados ao pão-de-ló sentimental. E aí entendo a birra dos fofofóbicos. Da mesma forma como nós, os sentimentais, reclamamos da dureza impassível de algumas bandas de heavy metal e de hard rock, eles também têm o direito de se irritar com os trejeitos frágeis dessa turma à flor da pele. Nos dois casos, existe uma fórmula em ação. Há truques e há golpes baixos. The Drums usa essa artilharia com eficiência (é um primeiro disco!), mas, admito, parece cuidadosamente adaptada para agradar a um público que sabe o que vai ouvir e, ainda assim, quer mais.

Numa pastilha (de uva): é previsível, sim. Mas os bons sentimentos me parecem verdadeiros. Ou muito bem encenados. E acredito que é por conta desse elemento secreto, misterioso, que esta banda consegue se destacar em meio a tantas outras. Não tem nada a ver com marketing, ó descrente. A fofura, em alguns momentos, nos comove, nos levanta um espelho. E aí é como se, de um jeito meio torto, acertasse nossos nervos.

Como explicar esse efeito a alguém que nunca se apaixonou terrivelmente por algo impossível, por uma fantasia? E como explicar tudo isso a alguém que nunca encontrou conforto nas melodias chorosas das love songs? Não dá.

A estreia do The Drums não é nada extraordinária. E nada medíocre. Não é o céu nem o inferno. É um purgatório em azul-bebê, digamos, com cheiro de lavanda, etc. Por isso, pode soar irritante ou apaixonante. Eu escreveria um longo texto negativo sobre este disco e provavelmente vocês concordariam comigo. Mas este não sou eu. Meu coração tem 12 anos de idade. E (perdão, fofofóbicos) ele bateu feliz com o que ouviu.

Primeiro disco do The Drums. 12 faixas, com produção de Jonathan Pierce. Lançamento Moshi Moshi e Island Records. 7/10

Have one on me | Joanna Newsom

Postado em Atualizado em

Conheço gente que acha Joanna Newsom um desastre. Um erro. Quase um nojo. Eu digo é mais: a mulher é insuportável.

Eu mesmo, que viro um menino desamparado quando ouço a harpa da moça, reconheço que é mesmo difícil olhar nos olhos desse furacão. Nós conhecemos uma multidão de cantoras e compositoras que estão por aí, desnorteadas, perdidinhas, à procura de um estilo, uma voz, um raio de personalidade. A maioria não encontra nada. A arte de Joanna Caroline Newsom, exceção entre exceções, é tão particular que machuca. Dá medo. Provoca alguma raiva (e uma pontinha de inveja, que ninguém é santo).

Joanna Caroline Newsom tem 28 anos, canta como só ela canta (naquela voz agudíssima e às vezes alienígena que põe muito marmanjo nervoso), compõe como só ela compõe, toca harpa como só ela toca e escreve álbuns que, por mais que você tente mapear as comparações fáceis (Joni Mitchell, Kate Bush, Vashti Bunyan), soam radicalmente diferentes de tudo o que você ouve no blog e na rua e na rádio e no elevador e na loja de roupas e na feira hippie.

Não existe outra Joanna Newsom. Entendeu o drama? E, aos que ainda se amedrontam diante desta mulher com franja de menina, recomendo que pode ser uma boa ideia (e note que não estou forçando nada) começar a conhecê-la desse modo meio inocente, quase tolo, nada irônico, nem um pouco sacana, sem a predisposição de encontrar um modelo formatado de musa indie, diva folk, nerd excêntrica, celebridade cult, outsider de butique. Ela não é nada disso (ainda que possa ser categorizada injustamente com todos esses adesivos).

O culto a Joanna Newsom – que existe e pode ser irritante como qualquer culto a qualquer astro pop (e odiamos as fãs mais descabeladas de um Marcelo Camelo, não odiamos?) – tem muito a ver com a forma como ela abre a porta do quarto e nos deixa entrar. Simples. E complicado. A música de Joanna é de um intimismo profundo, que exige total cumplicidade do ouvinte e, por isso, provoca um tipo muito sensível de conexão sentimental. O fã ouve um disco de Joanna como quem lê compulsivamente as páginas de um romance delirante escrito em primeira pessoa. Está enfeitiçado desde o prólogo.

É por isso que todas as estranhezas da moça, que podem soar imperdoáveis (e insuportáveis) para os infiéis e não-iniciados, são imediatamente perdoadas pelos súditos. A esses, recomendo que tomem um certo distanciamento, nem que por alguns minutos. O que eles vão encontrar? Uma caligrafia que não é bem folk, não é exatamente barroca, não é tão etérea quanto parece e que às vezes soa como a trilha sonora para uma versão lisérgica de Branca de Neve e os sete anões. Um conto de fantasia cuja protagonista parece habitar o nosso mundo e, se tivéssemos muita sorte, poderia ser a nossa vizinha.

Esse contraste que entre a atmosfera onírica das canções de Joanna e o tom pessoal do discurso pode não ter ficado muito claro no disco anterior, Ys (2006), um impressionante ciclo de melodias dividido com o auteur e arranjador Van Dyke Parks. Aquele era um álbum obsessivamente ornamentado – um (lindo) quadro na parede, uma obra-prima pensada como obra-prima. Have one on me é um disco mais espontâneo, menos carregado de ambições e, para minha surpresa, ainda mais apaixonante.

Mais uma vez, Joanna mostra um desejo imenso de jogar com aquilo que conhecemos como um formato tradicional de álbum. Ys tinha a quantidade de canções de um EP, mas soava monumental como uma obra conceitual do fim dos anos 1960. Have one on me, por sua vez, é um disco triplo (e, à exceção do Prince e do Magnetic Fields, quem comete uma sandice dessas?) com a duração de um CD duplo e organizado como três mega-EPs. Mais inusitado ainda: um disco triplo que aproveita o espaço amplo para se espreguiçar, abrir lacunas entre os acordes, tecer pequenas variações melódicas, deixar o tempo passar, espairecer.

Se Ys soava como a obra de uma artista que precisava imediatamente definir uma visão de mundo e se impor acima dos formatos mais convencionais do pop, Have one on me acaba por parecer muito mais sereno (no estilo) e complexo (nos temas e emoções despertados por cada canção). Talvez você não acredite, mas é o álbum mais convidativo – e talvez o melhor – que ela gravou.

O que surge no disco é uma compositora mais permeável e generosa, disposta a assimilar uma diversidade de ideias sem medo de desviar do caminho que resolveu seguir. O disco oscila entre delicadas canções curtas como a perfeitinha On a good day e monumentos folk como No provenance. Há temas históricos (Have one on me é aparentemente sobre Lola Montes) e confissões muito íntimas (Easy, um poeminha belíssimo sobre as inseguranças do amor).

Talvez mais importante é como Joanna desta vez compartilha o disco com uma banda, que caminha junto dela e, quando necessário, preenche as brechas da harpa e do piano com violões, bateria, instrumentos de sopro. Tudo até meticuloso – como na deslumbrante You and me, Bess, que permite até a inclusão de um coro. Sabemos que esse processo de abrir-se ao mundo é sempre muito perigoso – mas Joanna cumpre o desafio sem perder nada daquilo que, para os ouvintes que se deixam atropelar pelas canções, sempre soou esquisito e radical.

Lembro que, quando Ys foi lançado, as resenhas mais furiosas comparavam o álbum ao que há de mais exibicionista e esnobe no rock progressivo dos anos 70. Temi que Joanna Newsom acabasse por levar em conta esse tipo de comentário. Mas não. Have one on me, gravado em Tóquio com produção da própria Joanna (e, em seis faixas, mixagem de Jim O’ Rourke), surpreende fãs e detratores. Talvez para o mal. Interessa (a mim, pelo menos) a forma decidida como Joanna segue uma trajetória de completa independência criativa. “Eu não vou voltar, agora que o caminho está mais claro”, ela avisa, em On a good day.

E a sensação de liberdade, de não dever satisfações ou se obrigar a algum tipo de concessão, contamina de tal forma este álbum triplo que, lá pelos 60 minutos de viagem, tudo o que eu consigo ouvir nele é beleza bruta, beleza estranha, beleza sutil, beleza que emociona, beleza nos detalhes mínimos, beleza que não se sabe de onde vem, beleza inclassificável, beleza dura, beleza fácil, beleza difícil, beleza insuportável. Outra beleza.

Daí em diante, lá pelos 80 minutos, Joanna está completamente no controle. É um disco dela é para ela. E o que resta a nós, os pobres súditos, é o prazer de sermos conduzidos para um lugar infinitamente misterioso.

Atualização (3 de março): Depois da décima audição, dá pra bater o martelo: You and me, Bess é a música mais bonita do mundo.

Terceiro disco de Joanna Newsom. 18 faixas, com produção de Joanna Newsom. Lançamento Drag City. 9/10

The executioner’s song | Cass McCombs

Postado em

Taí um belo clipe do Cass McCombs. Sugiro que vejam até o fim. É apenas perturbador — e combina perfeitamente com a canção, uma balada delicada e assombrada sobre trabalho.

Dirigido por Aaron Brown.