Deerhunter

♪ | Parallax | Atlas Sound

Postado em Atualizado em

Meu disco preferido do Atlas Sound ainda é o primeiro, Let the Blind Lead Those Who Can See but Cannot See (2008). Talvez por ser o álbum perfeito sobre garotos tímidos, incapazes de sair do quarto, que dormem muito (por isso, sonham demais) e se ocupam brincando de fazer música (para ninguém). Ali, Bradford Cox me convenceu de que era um desses meninos.

Era um disco infantil, e acredito que no melhor dos aspectos. Já o seguinte, Logos (2009), soa um tanto adolescente: menos recluso (três das faixas principais têm convidados especiais), mais sensual, em crise de identidade (é o que costuma acontecer nessa fase), inseguro e com os hormônios fervilhando. O garoto ainda estava lá — mas, em um ano, muita coisa havia mudado.

Eis que chegamos a 2011, quando encontramos um Bradford Cox menos aflito — talvez adulto. Tem 29 anos. Era a idade de Bob Dylan no ano de Self Portrait e New Morning. Por coincidência, são discos que operam numa frequência sonora semelhante à de Parallax. São superficialmente relaxados, tranquilos; mas nunca se é totalmente tranquilo aos 29.

Resisti um pouco a Parallax porque ainda insisto em preferir a infância de Bradford às outras fases (reais ou inventadas) da arte do compositor. Quanto mais cresce artisticamente, mais Bradford sugere uma aproximação entre o Atlas Sound e os formatos/timbres/referências psicodélicas que o Deerhunter (a banda de Cox) testou nos doscos mais recentes. Talvez, ao fim de um longo processo, os dois projetos se transformem numa entidade só.

Minha resistência, no entanto, foi inútil. Parallax é um grande disco – e uma armadilha para quem (como eu) às vezes se deixa levar por primeiras impressões.

Este parece ser o disco “dylanesco”, o disco de crooner desgrenhado que o Deerhunter ainda não gravou: o álbum mais cristalino de Bradford, aquele que se mostra menos empetecado. Pra quem o ouve sem muito cuidado, soa como se tivesse sido gravado às seis da manhã, antes do café, com o olhar ainda embaçado.

Mas não. Não é só isso. Porque cada canção do disco guarda uma série de surpresas muito bem cuidadas (o avesso da ideia de um projeto despretensioso, pois bem) que só serão desvendadas depois de muitas audições. De tal forma que as faixas aparentemente mais obtusas (como Te Amo, digamos, que eu definiria como, digamos, psicodelia subaquática?), acabam se revelando menos fascinantes que os momentos mais desencarnados do disco, como Praying Man (que é emocionante, mas só depois que se insiste exageradamente nela).

Quando já estamos familiarizados ao disco, percebemos como a espinha de Parallax acumula resíduos tanto de Let the Blind Lead (quando canta trechos como “when you’re down, you’re always down”, o compositor está voltando à infância, e criando uma narrativa circular) quanto de Logos (o interesse crescente pela maquinaria da canção pop, e daí lindezas como My Angel is Broken e Mona Lisa).

Essas 12 canções então passaram a desafiar a imagem que eu construí para Bradford. Hoje acredito que eu o intrepretava de uma forma simplificada. Mesmo singulares, e com temperamentos muito específicos, mesmo infantis/adolescentes/adultos, cada um dos três álbuns contêm o compositor por inteiro. E é dentro dessa aparente contradição que mora um dos mistérios do Atlas Sound.

Terceiro disco do Atlas Sound. 12 faixas, com produção de Bradford Cox. 4AD Records. 81

Anúncios

Skying | The Horrors

Postado em Atualizado em

Tenho uma tese sobre o The Horrors e ela é simplória, bobinha, infantil mesmo: pra mim, a relação entre a banda e os admiradores (e aí inclua uma parte grande da imprensa inglesa) é de amor. E amor a gente sente, a gente vive, a gente curte. Amor a gente não explica, né mesmo?

Falando sério (mas nem tanto): quando leio uma resenha absolutamente elogiosa sobre um disco da banda, me pego diante de uma prosa que me lembra cartas apaixonadas. E o lugar-comum não mente jamais: sabemos que o amor, apesar de lindo, nos cega.

É um caso atípico nos arquivos do indie rock, creio eu. Tome Primary colours (2009), por exemplo. Há quem o encare com ceticismo desapaixonado. Eu, por exemplo. Reconheço a bravura da produção, mas me irrito quando a banda trata as referências de shoegazing e dream pop de um jeitão superficial e single-minded, como quem decora as letras do My Bloody Valentine para impressionar a namorada deprê.

Mas há os que veem no disco uma espécie de obra-prima britânica, um monumento que define sei-lá-o-que, ainda que eles não consigam oferecer argumentos suficientemente extensos ou (a meu ver) convincentes para justificar o afeto. Talvez porque (e que o clichê me ajude novamente) não dê pra explicar essa coisa que chamamos de amor.

Nada contra essa entrega louca, aliás. Amamos os discos e as bandas como amamos nossos animais de estimação e os programas de tevê favoritos. Com eles nos identificamos. A eles juramos fidelidade. No mais, quem sou eu para julgar esse tipo de relação obsessiva, radicalmente sentimental, com os nossos hobbies?

Este textinho apressado, portanto, não vai espezinhar quem vê no Horrors uma espécie de banda-dos-sonhos. Vou tentar algo menos cruel: o que me interessa neles, e agora mais que nunca, é esse talento para despertar paixões. Isso e quase apenas isso. Quando ouço Skying, começo a entender o fenômeno (ainda que não consiga ainda me importar terrivelmente por ele).

É um álbum que deve ampliar o fã-clube e aquecer o coração de quem ama a banda. Espero reações delirantes, superlativos enlouquecedores, tweets chorosos, acesso VIP nas listas de melhores do ano. E vou encarar tudo isso sem grande surpresa, porque o The Horrors é uma dessas bandas inglesas que não querem apenas um público: ela deseja um séquito.

Nesse ponto, é previsível o entusiasmo da crítica britânica, que há muito procura uma nova associação recreativa do porte de um Oasis, de um Stone Roses. Em Skying, o The Horrors assume de vez essa condição de mascote-de-estádios, e com franqueza, autoridade. Difícil acusá-los de hipocrisia. Não: eles nos conquistam principalmente porque entendem a nosso gosto por discos que pensam grande, e se dedicam ao ofício com gana, paixão. Suam a camisa, como dizem os boleiros.

O álbum, simplificando bem, é shoegazing e psicodelia amplificados aos padrões do rock oitentista: soturno, grandalhão e acessível. Alguém comparou a Simple Minds, e não devíamos dar risadinhas porque o caminho é esse mesmo: o Echo and the Bunnymen de Ocean rain seria outro atalho para Skying (e vai ser divertido ler os comentários positivos de gente que detesta The suburbs, do Arcade Fire, outro dos nossos novos discos oitentistas).

Acontece que, ao expor os músculos pop que estavam ofuscados pela maquiagem pesada de Primary colours, o The Horrors começa a soar mais convencional, ainda que mais (digamos) apaixonante. Skying é para ser amado intensamente: mais ou menos como se o Deerhunter decidisse assinar com a Warner, gravar um clipe com o Spike Jonze e jogar para a torcida.

O Deerhunter, aliás, é tudo o que o The Horrors quer ser e (talvez por ter nascido tão britânico) jamais conseguiria. Porque, no caso dos ingleses, existe uma ambição por grandiosidade. E uma ambição um pouco ultrapassada (da mesma forma como acontece no disco mais recente do Arcade Fire), que faria mais sentido numa época menos dispersiva. Skying é um disco de indie rock para plateias enormes — mas onde elas estão? E, no mais, elas se importam?

(E aí você responde: estão nos grandes festivais europeus, as plateias enormes. Sim, assistindo a Foo Fighters e Arcade Fire. Mas ainda acredito que Radiohead e Deerhunter representam melhor os anos 2000 do que Arcade Fire e The Horrors)

Quando olhamos para o rock contemporâneo, uma banda como o Deerhunter soa mais realista, mais urgente que uma banda como o The Horrors. Mas o Horrors entende a nossa necessidade de super-heróis, sabe que ainda gostamos de álbuns com início, meio e fim — e, no mais, percebem a saudade que sentimos de uma época que moldou nosso gosto por música pop. É uma banda que dialoga intimamente com a minha geração, com tanta fluência que nos parece adorável mesmo quando não sabemos explicar por que.

É o que sinto quando ouço I can see through you, por exemplo. Ou as ambiências de Still life. Por alguns minutos, elas soam como as canções mais empolgantes da minha vida. Quando, após 54 minutos, as caixas de som silenciam, percebo o entusiasmo era um tanto ilusório. Neste terceiro disco, o The Horrors ainda é a banda que me lembra outras bandas – são fãs dedicados, saudosistas, que calharam de tocar guitarras.

Às vezes emociona. E daqueles discos que soltam fumacinha do nariz, que não passam discretamente, que querem nos convocar para uma guerra. Mas por que ainda me deixa com a sensação de uma obra que deriva excessivamente de outras e que, por fim, não tem algo tão interessante a comentar?

Acho que desse amor fatal, incondicional, eu fui poupado.

Terceiro disco do The Horrors. 10 faixas, com produção da própria banda. Lançamento XL Recordings. 7/10

Os melhores discos de 2010 (10-1)

Postado em Atualizado em

Vamos ao top 10?

Não necessariamente os 10 Melhores Discos de 2010 (admito que o título do post ficou um pouco blasé: é pra chamar atenção no Google), mas aqueles que provocaram reações felizes neste blog e, simplificando de vez a metodologia, fizeram de 2010 um ano um pouco menos frustrante para o blogueiro que escreve estes posts confusos. Um sujeito que acha que entende sobre alguma coisa e que, de janeiro pra cá, sofreu um bocado.

Antes, as menções honrosas, para ouvir antes de morrer (em ordem alfabética): American slang, The Gaslight Anthem; Before today, Ariel Pink’s Haunted Graffiti; Broken dreams club, Girls; Cosmogramma, Flying Lotus; The fool, Warpaint; Forgiveness rock record, Broken Social Scene; Gorilla manor, Local Natives; Grinderman 2, Grinderman; Hidden, These New Puritans; IRM, Charlotte Gainsbourg;  Pilot talk, Curren$y; Public strain, Women; Treats, Sleigh Bells.

E, coming soon, a lista dos 20 melhores filmes de 2010 e, se tudo der certo e eu cumprir o meu cronograma apertado, os 10 discos brasileiros do ano. Mas não prometo nada, ok?

10 | The age of adz e All delighted people EP | Sufjan Stevens

I should not be so lost… But I’ve got nothing left to love – ‘I walked’

Sufjan no furacão (ou: a crise dos 30). “Quanto mais ouvimos o disco, mais fica claro que a provocação não é gratuita – ele foi criado como uma afirmação de princípios. É como se as faixas refletissem um compositor de pulsos abertos, afetado por decepções amorosas, desejo de espiritualidade, medo da passagem do tempo e outras crises que se enfrenta aos 35. A reação de Sufjan a esse cataclisma define a música que ele produz hoje, mais tensa e caótica do que de costume.” (14 de outubro, texto completo)

9 | The Monitor | Titus Andronicus

The enemy is everywhere – ‘Titus Andronicus forever’

Um épico americano, em lo-fi. “Um disco imenso e valente, que cria uma atmosfera de filme de época (sobre a Guerra Civil) para se aventurar na América de hoje. Nunca sem paixão, o Titus Andronicus entende os desafios de uma banda de rock independente: aproveitar as liberdades do mercado para brincar com as convenções, experimentar, criar monumentos de areia — nem que apenas para procurar um tipo diferente de diversão” (12 de fevereiro, texto completo)

8 | The ArchAndroid (Suites II and III) | Janelle Monáe

It’s a cold war… You better know what you’re fighting for – ‘Cold war’

Janelle, nossa heroína. “Sem querer forçar comparações absurdas (mas já forçando), a estreia de Janelle Monáe soa como se tivesse sido criado por uma menininha que, sem contato com os produtos mais mecânicos do pop, ouviu um disco dos Beatles (ou do Frank Zappa, ou do Love, ou uma ópera-rock do The Who) e decidiu escrever algumas canções. Nos 68 minutos de duração, a palavra que quica é liberdade.” (27 de maio, texto completo)

7 | Body talk | Robyn

Get a heart made of steel ‘cause you know that love kills – ‘Love kills’

Agonia e êxtase. “Robyn entende o que há de mais poderoso na música pop: cumplicidade e catarse. Com arranjos introspectivos, este seria um dos discos mais melancólicos da temporada (reparem nos versos sobre amores perdidos, crises de identidade, depressão e solidão). Mas o clima é festivo de doer. Os minidiscos são de provocar dependência química, mas este aqui é grande disco pop do ano.” (9 de dezembro, texto completo)

6 | Halcyon digest | Deerhunter

Walking free… Come with me… Far away… Every day – ‘Desire lines’

Um álbum de memórias, sobre juventude, mas Bradford Cox ainda vive cada disco como se não houvesse amanhã. “O vocalista se exibe em quase todas as canções. Ora melancólico (quase suicida), ora eufórico, otimista. Em todos os casos, leva às gravações um discurso franco, sem corretivos, que nos toma pelos braços. Somos cúmplices. Pode ser encenação – mas, nesse caso, a técnica só valoriza um álbum que soa como os posts desesperados (e ansiosos, e por vezes apressados) de um blogueiro que ouviu demais.” (20 de setembro, texto completo)

5 | The Suburbs | Arcade Fire

Sometimes I can’t believe it, I’m moving past the feeling – ‘The Suburbs’

Um grande disco de rock dos anos 70 para as tardes silenciosas da minha juventude. “O discurso do Arcade Fire se infiltra em nossas vidas, em nossas lembranças, em nossas aflições. Não existe conclusão em The suburbs porque nossas vidas também são imprecisas. E, se o disco parece se movimentar em círculos (com trechos de melodias e de versos que se repetem), é que estamos sempre retornando às nossas casas, aos nossos antigos problemas, aos nossos sonhos mortos, às nossas frustrações e à nossa adolescência.” (27 de julho, texto completo)

4 | Teen dream | Beach House

It is happening again – ‘Silver soul’

Jornada delicada sonho adentro. “Este é um daqueles álbuns em que uma pequena banda adapta um estilo sólido a certas convenções do pop rock. Soa como um problema? Não quando essa pequena banda está disposta a usar um ou outro truque para facilitar nosso acesso a um mundo ainda sutil, ainda misterioso. Que me perdoem os mais radicais: à luz rósea do pop, a história do Beach House fica ainda mais bonita.” (26 de dezembro de 2009, texto completo)

3 | Have one on me | Joanna Newsom

Hey, hey, hey, the end is near. On a good day you can see the end from here – ‘On a good day’

Visões de Joanna (num disco onde, se aceitarmos o convite, podemos morar por um bom tempo). “A sensação de liberdade, de não dever satisfações ou se obrigar a algum tipo de obrigação, contamina de tal forma este álbum triplo que, lá pelos 60 minutos de viagem, tudo o que eu consigo ouvir nele é beleza bruta, beleza estranha, beleza sutil, beleza que emociona, beleza nos detalhes mínimos, beleza que não se sabe de onde vem, beleza inclassificável, beleza difícil, beleza insuportável. Outra beleza.” (2 de março, texto completo)

2 | Expo 86 | Wolf Parade

A little vision come, come shake me up – ‘Ghost pressure’

Quatro velhos amigos numa sala (enquanto o mundo pega fogo). “Quando fazemos algum esforço, conseguimos visualizar, entre uma faixa e outra, uma banda correndo dentro do estúdio, excitadíssima com as próprias canções, com pressa para gravar, mixar, concluir o trabalho e mostrar-nos o resultado. É, apesar dos versos ainda muito agoniados, um disco que sorri para si mesmo e para o público. Nada como o som de uma banda de rock no auge, feliz com a imagem refletida no espelho” (16 de maio, texto completo)

1 | My beautiful dark twisted fantasy | Kanye West

We’re going all the way this time – ‘All of the lights’

No mundo parelelo de Kanye West, discos pop ainda nos deslumbram e espantam, ainda nos levam a lugares onde nunca estivemos. “A angústia de West, para nossa surpresa, acaba por energizar o disco, já que ele compõe e grava como se estivesse à beira do precipício. Como se houvesse apenas mais uma chance (não é o caso, mas o sujeito é uma pilha de nervos). Em sua discografia, não existe um outro disco que aposte tantas fichas, que mire tão alto e que tome caminhos tão arriscados. As faixas são grandiosas por birra, não por necessidade. Muitas delas caberiam em três minutos de duração. Mas West as alonga para explicitar o que têm de desconfortável. Uma obra-prima.” (16 de novembro, texto completo)

Mixtape! | O melhor de setembro

Postado em

Não sei o que aconteceu com vocês, mas, para mim, setembro foi o mês dos pesadelos.

Muitos sonhos ruins, meus amigos. Quase um por noite, e de todos os tipos. Pesadelos realistas (como num filme de Christopher Nolan) e pesadelos loucos (como num filme de David Lynch); pesadelos sangrentos como os de A hora do pesadelo e pesadelos silenciosos, plácidos e, portanto, especialmente tensos.

A mixtape deste mês, como era de se prever, foi contaminada por essa aflição noturna. É a minha cara. Nem preciso escrever outros posts chorosos sobre o assunto: está tudo aqui. É a mais aflitiva entre todas as compilações que gravei. Algumas canções duram mais do que deveriam e nos carregam por trilhas sem iluminação. Outras sofrem de carência e solidão, se rasgam pela metade e caem em pedacinhos. E há as que explodem em ruído e fúria, saem correndo e não voltam para casa, etc.

Não é uma mixtape dócil.

Mas aí vocês vão me perguntar: “Tiago, por que eu gastaria meu tempo baixando e ouvindo um CD sobre pesadelos e aflições? Um CD que vai me deprimir, que vai me fazer sentir um sujeito miserável, que vai perturbar o meu sossego e mostrar sentimentos que eu não quero ver?”

Três motivos:

O primeiro: esta coletânea abre com a música que, por enquanto, é a minha favorita deste ano.

O segundo: a segunda faixa me acompanhou no decorrer deste mês complicado e, de alguma forma, explica tudo o que você leu neste blog durante o período.

O terceiro: esta é, de longe, a coletânea de que mais me orgulho. É toda desarranjada, um pouco estranha e arredia, onírica toda vida, com o rosto amarrotado de quem acabou de acordar; é desesperada, sente enjoos e perdeu os limites.

Lá dentro, você vai encontrar canções do Deerhunter (que gravou o meu disco preferido do mês, e por isso está na foto acima), do Blonde Redhead, do Grinderman, do Black Mountain, do Sufjan Stevens, do Maximum Balloon, do Chromeo, do Abe Vigoda, do Interpol e, finalmente, do Belle and Sebastian.

Spoiler: o desfecho, atendendo a pedidos, é otimista.

Espero que, mesmo estranhando a ausência das canções que despertam apreço imediato, vocês repitam a experiência pelo menos três vezes. São músicas que, na maior parte dos casos, não podem ser domesticadas – mas prometo que elas vão se revelar mais adoráveis do que você imagina.

A lista de faixas está, como de hábito, na caixa de comentários. Será bacana se vocês comentarem sobre o que ouviram. Isso me ajuda a ter ideias para outras coletâneas, entende? É importante. Vocês sabem o quanto é importante, não sabem?

Então taí. Engula a pílula e bons sonhos.

Faça o download da mixtape de setembro aqui ou aqui.

Halcyon digest | Deerhunter

Postado em Atualizado em

Há momentos (e não são poucos) em que me envergonho de textos que escrevo.

Dias em que penso: escrevi demais, contei o que não devia. Ou então: usei as palavras erradas, fui ansioso e indulgente, não reli, faltou rigor. Ou: exagerei na pieguice e nas gracinhas, fui fraco, apelei, perdi.

Esse sentimento de frustração me acompanha já por muitos anos e, honestamente, não sei o que fazer dele. Escrevo para trabalhar e para me divertir. Escrevo pelos cotovelos, vocês sabem. Mas, ainda assim, mesmo com a prática, às vezes me falta coragem para ler o que escrevi. Quando leio, quase sempre me decepciono. Acabo chegando à conclusão triste de que ainda falta muito (talvez muito-muito) para que eu consiga os parágrafos que me matariam de orgulho.

Meu maior defeito, admito, é escrever além da conta e, no processo, me expor excessivamente. Daí que me identifico, e sempre me identifiquei, com as pessoas (os músicos, os escritores, os cineastas) que também não se poupam – que deixam, talvez por não conseguir evitar, que experiências muito íntimas contaminem os próprios “textos”. 

Que escrevem como que para um diário – sem medo, talvez sem cautela ou limites. E que depois largam o diário no banco da praça. 

Bradford Cox, vocalista do Deerhunter, é desses. Mas eu poderia estar falando sobre Elliott Smith e Kurt Cobain, sobre o John Lennon de Plastic Ono Band, sobre o Nick Drake de Pink moon, sobre o Beck de Sea change. E sobre cineastas como Jacques Nolot ou Hong Sang-soo ou Elia Suleiman. Todos tão perdidamente eles próprios, mesmo quando inventam, mesmo quando falseiam ou se camuflam em tipos de ficção.

No quarto disco do Deerhunter, Bradford Cox se exibe em quase todas as canções. Ora melancólico (quase suicida), ora estranhamente eufórico, otimista. Em todos os casos, leva às gravações um discurso franco, sem corretivos, que nos toma pelos braços. Somos cúmplices. Pode ser encenação – mas, nesse caso, a técnica só valoriza um álbum que soa como os posts desesperados (e ansiosos, e por vezes apressados) de um blogueiro que ouviu demais.  

O narrador só se revela por completo nas últimas faixas do disco – especialmente em Basement scene e Helicopter, duas das canções mais brutais (e tocantes) do ano. “Eu não quero acordar. Eu não quero envelhecer”, Bradford avisa, sobrevoando uma canção de ninar psicodélica. E depois, como um rockstar condenado, solitário, lamenta: “Nos clubs as pessoas sabem o meu nome”. Os fãs não curam. O palco é uma piada. A vida segue.

A faixa seguinte afoga o vocalista em um loop aquático. Profunda agonia. “Todas essas drogas que eles fabricam… Elas não surtam o efeito que provocavam. Eu costumava usá-las dia após dias”, conta. “Ninguém se importa comigo. Eu não tenho companhia.” E a voz de Bradford, 28 anos, vai sendo engolida por efeitos sonoros coloridos e distorcidos. Um parque de diversão decadente.

O restante do disco, ainda que não vá tão longe nessa autoanálise, vai compondo a persona dúbia de Cox com uma caligrafia trêmula. Mas atenção: trata-se de uma confissão desarranjada e não muito confiável (no sentido documental da coisa, digo), já que confunde sonhos, desejos e memórias. “Este é um disco sobre a forma como reescrevemos e editamos nossas lembranças para formar uma versão condensada e agradável daquilo que queremos lembrar”, disse o vocalista.

O impressionante é como Cox – e a banda, que não se ausenta – leva essa ideia para a sonoridade do disco, que alterna trechos mais oníricos (como Helicopter, Earthquake e Sailing) com faixas cruas (como He would have laughed, escrita em homenagem a Jay Reatard, que morreu este ano). No conjunto, as melodias do disco talvez tentem simular aquele estado breve que antecede o sono, quando nossos pensamentos sobre o cotidiano (nossas preocupações de cada dia) começam a se diluir em sonhos. Soa quase delirante.

A produção de Ben Allen (de Merriweather Post Pavilion, do Animal Collective) ajuda a moldar uma sonoridade a um só passo extravagante e familiar. O disco começa num andamento lento, duro (Earthquake é uma canção do Air remixada por Kevin Shields), mas logo se abre para arranjos de garage rock sessentista (Don’t cry, Revival) e versos inocentes. “Venha cá, garoto, você não precisa chorar. Você não precisa entender todas as razões”, Cox adverte, em busca da infância perdida (um tema que retorna em Memory boy).

Em Sailing, a brisa já passou. Cox está à deriva. “Apenas o medo pode fazer você se sentir sozinho por aqui. Você aprende a aceitar qualquer coisa que consegue encontrar.” E o disco então se parte em dois: verão e inferno, alegria e depressão, lado B misturado ao lado A. Mais do que em qualquer outro álbum do Deerhunter ou do Atlas Sound (até mesmo de Cryptograms, totalmente esquizofrênico), o vocalista depura uma sonoridade que resume um temperamento imprevisível, que oscila a todo momento.

Talvez mais interessante do que isso: uma sonoridade que mostra um compositor capaz de combinar referências de todo canto (do shoegazing ao pós-punk), que se transforma ora em Bowie, ora em Lou Reed, ora em Thurston Moore, ora em Julian Casablancas (na ótima Desire lines, escrita pelo guitarrista Lockett Pundt). Que é todos e ninguém (e, por isso, mascote de uma geração que ouve música exageradamente, apressadamente, talvez sem prudência).

Bradford Cox é um dos nossos: ele vive cada disco como se não houvesse amanhã. Ele está lá. Eu estava me perguntando por que, para mim, parece muito complicado comparar este Halcyon digest com qualquer outro álbum do Deerhunter (até com Microcastle, também hipnótico). Encontrei a resposta: Cox nos faz acreditar que este disco é a imagem fiel – até constrangedora, em alguns trechos – de quem ele é neste exato momento. Aqui e agora. E o que ficou lá atrás, enquanto durar este feitiço, não mais interessa. 

Quarto disco do Deerhunter. 11 faixas, com produção da própria banda e de Ben Allen. Lançamento 4AD Records. 8.5/10

Helicopter | Deerhunter

Postado em

Bradford Cox nos encara enquanto o mundo explode (num monitor de tevê). Lindo clipe, este. Esfumaçado e desencantado como as melhores canções do Deerhunter. E esta, Helicopter, é uma das grandes.

Logos | Atlas Sound

Postado em Atualizado em

atlasQuem acompanha obsessivamente a programação dos cinemas sabe o quão importante é topar num novo Tarantino. Ou num James Gray. Ou até numa animação da Pixar. São filmes que, de uma forma ou de outra, nos mostram que estamos certos: apesar dos inúmeros indícios de que estamos jogando boa parte da nossa existência no depósito de lixo das comédias românticas, as exceções nos garantem que sim, nós escolhemos a obsessão correta.

(E aposto: pescar, praticar tiro ao alvo e caçar alces são hobbies que podem se revelar tão frustrantes quanto)

Acontece algo parecido com quem ouve música compulsivamente, e estou aqui como testemunha de que, nesse caso, também é necessário perseverança. A estrada é sinuosa, meu irmão. Não são poucas as decepções que assombram o caminho de quem persegue a batida perfeita. Apesar da alta média de acidentes, a experiência deixa claro que, depois do centésimo lançamento do ano, fica fácil separar os Tarantinos dos Guy Ritchies.

Na música pop (e incluo aí o indie rock), os clichês também nos soterram, tiram nosso fôlego, arruínam nossos dias, nos condenam ao tédio abissal e quase nos convencem de que seria melhor virar o disco das nossas vidas e optar pela pesca, pelo tiro ao alvo ou por caçar alces (nem que por vingança).

Claro, há as exceções. E, como no cinema, elas nos revigoram. Tudo isso parece muito óbvio, mas é uma introdução necessária para explicar por que este disco irregular do Atlas Sound soa tão especial. É que a voz e as ideias de Bradford Cox soam genuínas. Funcionam, por isso, como um tipo de conforto. Depois de duas ou três audições, estamos prontos para enfrentar a Lady Gaga.

Afirmo sem medo de cometer um exagero: Cox é um dos maiores nomes do novo rock americano – um dos poucos que transitam por diferentes nichos sem deixar que essas mutações corrompam sua identidade. No Deerhunter, ele vai do shoegazing ao pós-punk com a naturalidade de quem não conhece as linhas que separariam uma denominação da outra (e, no fim das contas, as fronteiras não existem). Daí que, inevitavelmente (e felizmente), o Atlas Sound soa como uma filial do Deerhunter – por enquanto, Bradford Cox não consegue ser alguém diferente dele mesmo.

Mas tenta. O Atlas Sound foi criado para abrigar toda e qualquer produção de Cox que não coubesse no formato de uma típica “banda de rock”. O primeiro álbum, o ótimo Let the blind lead those who can see but cannot feel (2008), criava climas de pesadelo com elementos de ambient rock e de eletrônica minimalista. Era um álbum que soava coeso, quase claustrofóbico, com versos que pareciam desenrolados num fluxo contínuo de consciência e evocavam imagens de uma infância perdida. Trilha de filme de horror. O novo disco conta uma história diferente.

Com o tempo, o Deerhunter mostrou um interesse cada vez maior por estruturas convencionais de canção pop – e essa guinada, além de ampliar o público do grupo, deu em Microcastle, o melhor disco da banda (e uma névoa de ruídos rosados na linha de Loveless, do My Bloody Valentine). Seria natural esperar do novo disco do Atlas Sound, por isso mesmo, uma pose mais experimental. No entanto, acontece o oposto disso: Logos é o momento mais acessível e sortido de Cox – ainda que seja um projeto assumidamente errático.

Ao contrário da estreia do Atlas Sound, este leva ao pé da letra o formato de um “livro de rascunhos” (e o próprio Cox definiu o projeto como um sketchbook), com um apanhado disforme de canções órfãs que, num ponto de vista otimista, acabam revelando que Cox é um consumidor fominha de lançamentos musicais – um tipo como eu e você.

Logos é um disco mais permeável e indeciso que o anterior – ainda que, curiosamente, acabe soando até mais saboroso. Dá prazer de ouvir (e, muito francamente, é um disco que ouço com mais gosto que o recente do Flaming Lips). Como eu dizia antes, um Bradford Cox em modo despretensioso é o suficiente para nos curar de dezenas de sub-Animal Collective.

O álbum começa como se abandonasse lentamente a estação do disco anterior. The light that failed é um mantra psicodélico com violões, efeitos de eco e vozes repetitivas. A segunda faixa, An orchid, acrescenta uma melodia mais crua e simples a esse formato. Até aí, nada de novo. É na terceira música que o barco é engolido pela primeira onda: Walkabout pode ser encarada como uma versão remix de uma canção do Animal Collective. As marcas da banda são replicadas de forma tão cristalina que notei o parentesco antes mesmo de ter percebido que Panda Bear colaborava na faixa. O disco começa a se deixar transfigurar.

A partir daí, é uma surpresa atrás da outra: Criminals tem um quê de folk rock (ainda que pela lente embaçada de Cox, que vive sempre no mundo da lua), Attic lights soa como um lamento à PJ Harvey e Sheila, a revelação mais chocante do pacote, é uma cantiga de roda quase pueril, ainda que com tema dark (é como se um menino de seis anos jurasse amor eterno a uma menininha. “Vamos ser enterrados juntos para não morrermos sozinhos”, ele diz).

A segunda parte abre com um outro dueto, desta vez com Laetitia Sadier. Com oito minutos, Quick canal convida a vocalista do Stereolab para um transe à krautrock que pouco combina com o resto do disco. Mas o efeito é hipnótico. Depois, Cox volta lânguido em My halo e vai preparando o terreno para o ápice da viagem: Kid klimax parece sintetizar todas as experiências do álbum, bem no meio do caminho entre o pop eletrônico e a fixação psicodélica de Cox. É uma pedra lapidada. Sublime de verdade – e eu ficaria muito feliz se o vocalista decidisse levar o Deerhunter nessa direção.

Depois do clímax, o disco vai esmaecendo até chegar à faixa-título, outra que surpreende pela crueza. Se o álbum anterior do Atlas Sound mostrava o quanto Bradford Cox valorizava uma certa tradição da música pop – os discos “conceituais” -, desta vez ele se desprende das amarras e abre o ateliê para que o fã dê uma espiada. Logos é o retrato de um processo criativo caótico. E que vale por um documentário franco sobre as filmagens de um longa do Tarantino.

Do que estou reclamando mesmo?

Segundo disco do Atlas Sound. 11 faixas, com produção de Bradford Cox. Lançamento Kranky/4AD. 7.5/10