De volta para o futuro

Lost | Quinta temporada

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A vida me ensinou que (hum, pareço um velho, vamos começar de novo).

A experiência me ensinou que escrever textinhos opinativos sobre séries de tevê é um tiro que frequentemente sai pela culatra. Como devemos analisar um produto cuja autoria é diluída entre um punhado de roteiristas e diretores? Como tentar um olhar distanciado para um programa que, ao entrar na nossa rotina com a intensidade de um hobby (um hábito!), nos conforta mesmo quando tropeça nos 40 minutos mais desajeitados da história da teledramaturgia? Desisto.

Acompanho Lost há cinco anos e aposto que, se somarmos o tempo gasto nessa atividade totalmente improdutiva, eu poderia ter escrito dois ou três romances parrudos sobre tipos agoniados e crises existenciais. A quinta temporada (7.5/10) me parece a mais desastrada de todas: a necessidade de esclarecer mistérios é tamanha que muitos dos episódios soam simplesmente como explanações didáticas para fãs aflitos por entender de onde veio, o que significa isso ou aquilo. Mas não me arrependo: hobby é hobby, com ele vou até o fim.

O curioso é que, quanto mais responde as próprias perguntas, mais mirabolante a série parece. O que era insólito tomou proporções delirantes. Agora, os personagens saltam no tempo, morrem e ressuscitam, falam latim, alteram eventos do passado e atualizam trechos bíblicos com a naturalidade de quem vira páginas de gibis.

Lost pode ser acusado de tudo, vejam bem, mas taí uma série que lançou as próprias ambições à estratosfera. Nesse ponto, está à altura de Arquivo X, que definhou depois da quinta temporada. Em cinco anos, fomos obrigados a aceitar o que há de menos plausível no mundo da ficção-científica (se é que podemos chamar isso tudo de ficção-científica). E o que ganhamos em troca?

Quase nada, é verdade. Fico com a impressão de que, desde o início da quarta temporada, assisti a um longo aquecimento para o desfecho da série. Na quinta, essa sensação ficou um pouco mais intensa. Aceitar a premissa à De volta para o futuro, admito, foi o mais complicado: se os personagens podem voltar indefinidamente no tempo à mercê das vontades dos roteiristas, onde fica o mistério? Trata-se de um truque velho: mergulhar no passado da saga não resolve o que ela tem de inconsistente nem avança a trama. Só parece um flashback tamanho-família. Na maior parte do tempo, a narrativa girou em falso.

O episódio final resumiu os problemas da temporada (e não siga adiante neste texto se você ainda não assistiu ao episódio): o personagem mais abstrato da série ganhou corpo e os roteiristas gastaram parte do tempo explicando as relações entre aquele homem e alguns dos passageiros da Oceanic. Precisava? Como de praxe, os minutos finais deixaram ganchos forte para os próximos episódios (e o que foram as cenas tresloucadas envolvendo uma bomba meio enferrujada?). Mas, apesar de aguardar ansiosamente, ainda temo por eles.

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Star Trek

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Star Trek, 2009. De J.J. Abrams. Com Chris Pine, Zachary Quinto, Simon Pegg, John Cho, Leonard Nimoy e Eric Bana. 126min. 6.5/10

Um amigo meu, um tanto perplexo com a situação toda: “A campanha de marketing de Star Trek é tão eficiente que estou me roendo de ansiedade pelo retorno de uma série que sempre desprezei.”

É o sonho de toda equipe de publicidade, não é? Já nos primeiros trailers deste filme, quando bati o olho naquele azul-pastel meio rosado rasgando a tela, admito que comecei a sentir saudades de um hobby que nunca tive, de um passado que nunca vivi – de sensações que talvez tenham evaporado da minha memória para ceder lugar a lembranças mais interessantes.

Fatos: não sou trekker. Não conheço nenhum trekker. Não acompanhei os episódios da série original, criada por Gene Roddenberry em 1966. Não me interessei por nenhum dos longas-metragens inspirados no programa de tevê. Eu poderia ter movido minha bunda e assistido a filmes como Generations, de 1994, ou First contact, de 1996. Preferi ficar em casa. Provavelmente assisti a algum deles há muito tempo: quando penso nessa saga de ficção-científica, tudo o que lembro é de um grupo de homens uniformizados conversando sobre assuntos complicados demais, ou pueris demais, ou tolos demais – temas e manias que, somados uns aos outros, nunca me interessaram.

Quando eu era pequeno, usavam Star Trek como um argumento infalível para ressaltar as qualidades de Star Wars. Sabe-se lá por que razão, o tempo fez justiça aos fracos e renegados. Veja só: o novo Star Trek pode sim ser empunhado como arma por aqueles que desejam desancar os Star Wars mais recentes. É uma atualização jovial de (mais) uma franquia envelhecida.

Rejuvenescer a tripulação da Enterprise permite ao filme a criação de um elo firme entre antigos fãs e um público novo e/ou desinteressado. Em vez de zerar o placar e criar novos paradigmas para a franquia, o novo capítulo preserva antigos métodos como uma forma de “respeitar” o original. Os efeitos visuais seriam mais modestos, mas cenas de abertura poderiam estar em qualquer um dos filmes anteriores: lá estão os homens uniformizados dentro de uma nave, flutuando no espaço, combatendo um vilão monstruoso que poderia habitar nossos pesadelos mais infantilizados.

Depois dos créditos iniciais, porém, vem o primeiro golpe de J.J. Abrams. Mais para Missão: impossível III que para Lost, a sequência de ação (embalada por Sabotage, dos Beastie Boys) acompanha as estripulias de um pequeno James T. Kirk com vocação para Vin Diesel. É o suficiente para convencer-nos de que aquele não será mais um Star Trek. E talvez o bastante para explicar aos antigos fãs de que os tempos mudaram. O que se vê a partir daí um jogo de estica-e-puxa entre a intenção de homenagear a série dos anos 60 e o projeto de renová-la.

De uma forma ou de outra, o filme funciona. É uma palavra adequada, já que Abrams filma com o pragmatismo de quem produz um episódio-piloto que precisa dar certo. Cada um dos elementos do filme é formatado para agradar a uma determinada fatia da audiência (dos nerds, que provavelmente adoram os longos diálogos sobre buracos negros, às adolescentes animadíssimas com a cena em que o rebelde Kirk aparece só de cueca). O truque usado pelo roteiro para justificar a trama – viagens no tempo, ora! – parece conter duas ou três piadas internas que só os fãs da quinta temporada de Lost entenderão.

Abrams filma o roteiro de Roberto Orci e Alex Kurtzman (ambos de Transformers, anote aí) como uma aventura de ação. Os conflitos são desatados na velocidade da luz e, muitas vezes, resolvidos no braço. A Enterprise é recauchutada como um parque luminoso, de cores que cintilam na tela como a vitrine de uma loja de doces. Os atores recuperam as fragilidades de personagens que já soavam como caricaturas. Construir a relação de amizade entre Kirk e Spock parece tão importante para o roteiro quanto desenvolver sucessão de eventos que pode dar na destruição do planeta Terra (mas que ninguém espere a angústia provocada por Presságio, ok?).

O novo Star Trek reinicia a franquia com bastante competência. Abrams ainda me parece filmar de modo excessivamente técnico, impessoal, um produtor com uma câmera. É um filme correto. Que se beneficiará das baixíssimas expectativas de quem nunca entendeu os trekkers (e de quem assistiu ao trailer do novo Transformers, aparentemente tenebroso). E que contará com a torcida dos fãs. Mas aí nem vale: eles sobreviveram a filmes que, colocados em perspectiva, transformam qualquer episódio de Lost em obra-prima.