Daniela Thomas

LINHA DE PASSE

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Linha de passe, 2008. De Walter Salles e Daniela Thomas. Com Sandra Corveloni, Vinícius de Oliveira, João Baldasserini, João Geraldo Rodrigues e Kaíque dos Santos. 113min. ***

Acredite nas expectativas criadas por Cannes: este é um dos melhores filmes de Walter Salles.

Talvez o melhor, com Terra estrangeira. Por isso mesmo, impossível menosprezar a presença de Daniela Thomas. Como a diretora afirmou, o longa foi desenvolvido como um processo coletivo, aberto a alterações de última hora – um filme de colaborações. Ao mesmo tempo, uma produção que depende de um roteiro de arquitetura complicada, uma trança de histórias sobre uma família que, quando nada mais dá certo, é capaz de formar uma teia de resistência e fraternidade.

Já adianto uma reclamação que aparecerá nas resenhas de quem vê uma alma postiça no cinema de Salles: as tramas são amarradas umas às outras com tanta precisão e assepsia que esse novelo narrativo chega a parecer incoerente com um projeto tão apegado à origem documetnal. Os atores vivenciaram as experiências dos personagens de tal forma que se perdem neles, mas como aceitar esse “retrato da realidade” sem notar as pressões exercidas pelo deus do roteiro?

Que ninguém confunda essa estrutura, porém, com os mosaicos de Iñárritu & Arriaga. Além de não apelar ao discurso apocalíptico, Linha de passe não condena os personagens à condição de sintomas para uma doença social ou para um mal-estar do mundo contemporâneo ou para qualquer uma dessas bobagens que encontramos em filmes como Babel e 21 gramas. Pelo contrário: cada trama se move numa direção e todas elas são concluídas (ou não) com o mínimo de dignidade. O futuro dessa gente é um mistério que o filme não quer e não pode resolver.

Apesar de aparentemente simples, é um projeto mais ambicoso que Central do Brasil ou até Diários de motocicleta. Salles e Daniela não querem menos que interpetar o Brasil contemporâneo – um desafio nada modesto. Conseguem desenhar esse ensaio sobre a nossa cegueira com muita habilidade, já que, além de desmontar estereótipos (as figuras do evangélico e do motoboy, tão banalizadas em todo canto, ganham em complexidade), se dedicam a uma idéia muito profunda sobre as relações humanas no país: a de uma “vida na horizontal”, em que o auxílio mútuo muitas vezes compensa a ausência do Estado.

A dupla consegue arredondar esse discurso sem pesar a mão numa narrativa que é ágil mesmo quando se esforça para nos mostrar que nada de muito importante acontece (as cenas filmadas no trânsito de São Paulo e em campos de futebol são exemplos dessa falsa simplicidade do longa). Se algumas soluções manjadas do roteiro quase prejudicam essa direção sensível, o trabalho do elenco compensa quase todos os deslizes.

E já que falamos em elenco… Provavelmente não havia outra atriz melhor que Sandra Corveloni na seleção de Cannes – ela interpreta a mãe com tanta convicção que consegue se infiltrar mesmo nas cenas em que não está presente. O clímax do filme, por exemplo, é todo dela – fora do plano, mas no coração de um filme que sobrevive ao próprio esquematismo e, afinado aos melhores momentos do cinema de Salles, vence o obstáculo da polidez com um olhar sentimental e sensato – para os personagens e o país onde eles vivem.

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