Crise

Tomboy | Panda Bear

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Quando eu era mais novo, abandonei os livros para viver só de blogs.

Me transformei em leitor fiel: de blogs.

A obsessão durou mais ou menos um ano. Dos 16 aos 17. Talvez dos 17 aos 18. Não lembro direito. Nos blogs, encontrei aquilo que os livros não me davam: a impressão de que eu lia textos escritos diretamente para mim.

Parágrafos imperfeitos, toscos, ingênuos, sem rigor nem arte, às vezes sem coisa alguma. Mas verdadeiros, secretos. Havia os impublicáveis, os constrangedores. Era como virar páginas de diários.

Depois cansei da exclusividade e voltei aos livros, que me ofereciam muito mais do que espiadas no buraco da fechadura. Foram poucos os romances, no entanto, que conseguiram simular o efeito de um legítimo texto de blog: palavras íntimas, como impressões digitais, marcando a tela.

Já um tanto farto dos blogs, descobri que esse tipo de contato — sem filtros, franco, às vezes desajeitado — existe mais na música pop do que na literatura. O pop permite os desabafos, as confissões, o verso espontâneo, o pensamento mais vago e juvenil. Talvez porque o pop não se leva muito a sério, não quer imortalizar nada.

Há discos que, de tão sinceros, me tomam de cúmplice. Pink moon, do Nick Drake. Plastic Ono Band, do John Lennon. Sea change, do Beck. Os ouço e penso: estou entrando na casa, no quarto, no espírito desses compositores.

É claro que existe, em todos os casos, uma encenação muito bem feita (gravada e regravada em dezenas de takes) daquilo que conhecemos por sinceridade. Mas são discos que, antes de obras de arte, querem ser entendidos como autorretratos. “Essas canções são eu”, é como se os autores dissessem.

O caso de Noah Lennox, o Panda Bear, explica muito sobre essa tradição de songwriters. O Animal Collective, o grupo de que ele participa, é uma banda cujos versos se tornam cada vez mais reflexivos, mundanos. Mas, paralelamente, Noah foi um pouco além: gravou uma série de discos em primeira pessoa, domésticos, que pareciam ter sido escrito apenas para um grupo pequeno de amigos e fãs. Diários sonoros.

O segundo desses álbuns, Young prayer (2004), foi concebido como uma série de cartas para o pai de Noah, que morreu pouco depois de ouvir algumas das canções do filho. As faixas não têm títulos.

O terceiro, Person pitch (2007), também espelha questões cotidianas do músico: casado, pai de um filho, ele se mudou para Portugal e encontrou-se com o mar. Numa torrente de samplers, as faixas criam um fluxo sonoro circular, aquoso. Ondas batendo nas pedras, num dia de sol.

Discos que soavam como ideias muito particulares de prazer.

Noah não contava com o sucesso de Person pitch (na mesma época, o Animal Collective lançou um disco áspero, acimentado, Strawberry jam). Mas, de repente, a plateia cresceu, a crítica o elegeu favorito e o álbum se tornou uma referência para o uso de samplers e referências de psicodelia sessentista no indie rock.

E vocês sabem o que acontece quando um blog pequeno, sem muitas ambições, se agiganta: quanto mais gente lê, maiores são as cobranças e expectativas sobre o pobre sujeito que escreve.

Resumindo: de um dia para o outro, Noah se viu obrigado a tratar o Panda Bear mais como um trabalho do que como um hobby. “Tive que lidar com duas forças: as expectativas das pessoas e os meus sentimentos”, explicou, numa entrevista. Tomboy, o sucessor de Person pitch, é uma resposta a esse tumulto.

Melhor: é um disco sobre esse tumulto. Nas entrelinhas, ele conta a história de um homem que se vê diante de responsabilidades talvez incompatíveis com os próprios desejos. Os álbuns anteriores eram conversas sussurradas, de amigo para amigo, de pai para filho. O novo é um discurso ao microfone: e nós, nas poltronas, estamos em silêncio, esperando ansiosamente. No ar, dá para sentir o quão tenso é o momento.

Aqui, Noah tenta dar conta de se aproximar de dois “públicos”: a plateia numerosa, anônima, e as pessoas mais próximas, que o conhecem. Na primeira canção, You can count on me, ele se dirige ao filho (“Quero colocar uma bolha ao redor de você, como um campo de força, mas eu sei que manter uma criança em segredo é um truque bobo”) e, ao mesmo tempo, aos fãs. “Você sabe que pode contar comigo”, ele avisa, e promete se esforçar.

Musicalmente, no entanto, a faixa é uma das mais acessíveis que ele já gravou, com vocal cristalino sob areia de sintetizadores à Beach Boys. Está feito o pacto: ele não quer dificultar a vida de quem ouviu Person pitch e gostou.

O peso desse acordo chega na segunda faixa, Tomboy, que apresenta a nova aventura musical de Panda Bear: as experiências com riffs de guitarra (inspiradas, segundo ele, em Nirvana e White Stripes), que vão achatando a mixagem numa repetição hipnótica. Logo aí disco trata de criar um cenário diferente do anterior. Um outro capítulo, pois.

É nessa faixa que a angústia aparece pela primeira vez – e chega para ficar. E Tomboy não é um disco de maré baixa. Aos 32 anos, Noah carrega nos ombros mais de uma dezena de questões sobre a idade adulta, os deveres de pai e artista pop: “Como é minha vida? Como é o meu trabalho? Como eu gasto meu tempo?”, ele vai perguntando, sem respostas, enquanto o mantra eletrônico o envolve numa concha.

Em Slow motion, ele duvida da sabedoria popular. “Quando eu diminuo o ritmo, fica claro: o que conta é aquilo que as pessoas não costumam dizer com frequência”, avisa. Cada verso da canção é um dito popular, que logo cria uma massa de som em que a voz do cantor se confunde com os barulhinhos dos sintetizadores. O homem e a música se transformam numa coisa só.

As incertezas seguem em Surfer’s hymn (os versos vêm bronzeados de filosofia e parafina) e ganham um tom pop na faixa mais direta do disco, Last night at the Jetty. “Quem pode dizer que nós não hoje somos da forma como éramos?”, pergunta Noah, ainda em crise. “Não quero esconder as minhas esperanças”, avisa. Soa como um recado aos que cobram mais do que ele pode ou quer oferecer.

O temperamento de Noah, no entanto, não é de confronto. Tomboy, ao contrário até de Person pitch, é um disco que se mostra generoso, de fácil compreensão (até certo ponto, mais a primeira metade que a segunda), com faixas que duram no máximo seis, sete minutos e que, em alguns casos, se aproximam de formatos mais convencionais (é o caso da sublime Alsatian darn). Ele vai tentando agradar aos dois públicos, ora arredio (Drone, Scheherazade), ora mais comunicativo (Friendship bracelet).

Noah comentou que, em Tomboy, a intenção era, ao entrar num território musical por ele desconhecido, provocar tanta surpresa quanto o disco anterior. Se não soa tão extraterrestre (já que a sonoridade de Panda Bear agora nos é familiar), o álbum mostra a dedicação de um artista que, trancado num sótão, sozinho, num “pesadelo diurno” (o quarto era iluminado apenas por uma lâmpada), tenta transformar e amplificar uma arte que nunca disse respeito a muita gente.

“Alguns podem dizer que vencer não é o mais importante. Mas não há nada mais verdadeiro ou natural do que a vontade de vencer”, ele explica, na faixa que encerra o disco, Benfica. “Não lamento as opções que fiz. Algo se ganha, algo se perde”, resume, em Friendship bracelet.

Tomboy não é o Panda Bear que conhecíamos, não é um álbum tão iluminado quanto Person pitch. Algo daquela velha liberdade se perdeu, mas não deixa de ser o registro frontal de um momento: Noah tenta conciliar o disco que esperávamos dele com o disco que ele queria ter feito. Não soa tanto como um blog ou uma confissão, mas como uma negociação: séria, sim, fascinante (é claro) e tão íntegra quanto tudo o que ele gravou.

Quarto disco de Panda Bear. 11 faixas, com produção de Noah Lennox. Lançamento Paw Tracks Records. 8/10

Superoito express (10)

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jonas

Ou: por que a crise da indústria musical é um tédio.

Lines, vines and trying times | Jonas Brothers | 4 | E a triste história vai assim: Nick, Joe e Kevin eram três adolescentes ingênuos e serelepes que, apesar de bastante satisfeitos com o confinamento numa interminável sitcom do Disney Channel, ouviram os conselhos dos executivos errados e resolveram… bem, resolveram crescer. O resultado dessa jogada comercial meio apressada é um disco que soa como um longo, aborrecido especial da VH1. Eu, que gosto do power pop abertamente juvenil de A little bit longer, não passei da terceira audição. O excesso de sopros e teclados nos leva a um canto dos anos 1980 que deveria permanecer (para sempre) pouco iluminado. E não sei ainda o que o rap Don’t charge me for the crime embaça mais: a carreira dos Brothers, a reputação de Common ou todo o staff incompetente da Hollywood Records (um galho da Universal, vale lembrar)? Meu conselho: continuem imaturos.   

Music for men | Gossip | 5.5 | Não vou negar o carisma de Beth Ditto, uma band leader que me parece imensa em absolutamente todos os sentidos. Mas, por aqui, o Gossip continua soando como aquela banda do single espetacular (quando decidirem que você deve pagar mico como DJ, vá por mim e não esqueça de Standing in the way of control) e de álbuns inconsistentes. Este é o mais frágil de todos, e uma típica estréia em grande gravadora: a produção de Rick Rubin lima o descontrole que coloria o som do trio, agora sem as arestas punk e atado a um formato glam dançante e “sensual”  (entre aspas mesmo, já que a coisa toda soa mais fria que a morte). O primeiro single, Heavy cross, é uma diluição de Standing in the way of control — uma estratégia bem comum entre novatos amedrontados com a indústria. Nossa sorte é que a Columbia ainda não conseguiu submeter Ditto a uma dieta radical de carboidratos — ela (e pelo menos ela!) segue em forma.

Love vs. money | The-Dream | 6 | O melhor álbum desta listinha deprimente (e o único que recomendo a vocês, ainda que sem muito entusiasmo) é o novo projeto conceitual do produtor de Umbrella, também conhecido como Terius Hagert Youngdell Nash. Ao lado de convidados como Kanye West e Mariah Carey, The-Dream narra um palpitante melodrama pop sobre as tantas e doloridas maneiras como o dinheiro mata o amor e o amor é maior que o dinheiro e o dinheiro não compra o amor e o amor sem dinheiro vale mais que dinheiro sem amor. Etc. Um tanto monotemático, certo? Mas a crítica mainstream adora (e dá até pena ver revistas que já foram consideradas relevantes transformando o Jonas Brothers ou a Lady Gaga em artistas respeitáveis, mas este é o nosso mundo) e eu entendo o porquê do falatório: se o pop anda em busca de um salvador da pátria (e vamos lembrar que Michael Jackson já havia nos deixado há uns bons 30 anos, ok?), The-Dream parece uma opção até razoável. Ele tem tino para a melodia (Right side of my brain é um baita algodão-doce) e é um romântico incurável. Tem muito dinheiro, certo. Mas canta o amor com certa franqueza (na medida do possível — este é um disco da Def Jam). Meu voto é dele.

The fame | Lady Gaga | 4.5 | Ah, sério?  Quando descobri que a Nova Musa do Pop era aquela que cantava praticamente todos os cinco hits vagabundos que rodam incessantamente nas academias de ginástica e estações FM (e descobri tarde, mas não perdi quase nada), fiquei com saudades dos momentos mais açucarados da Kylie Minogue. Há quem encontre influências de David Bowie e Queen, mas suspeito que elas tenham contribuído mais para a performance da moça e menos para a sonoridade de um disco que dilui a cartilha do electropop (letras sacanas e engraçadinhas sobre celebridades lindas, sujas e ricas) num modelito pop “para pistas” que não machuca ninguém. Provavelmente eu deveria ouvir mais vezes, mas prefiro acreditar que o delírio coletivo vai acabar passando e, em dois anos, todo mundo estará novamente mais interessado no novo da Madonna.

Wait for me | Moby | 5 | Por último, um disco que soa como uma coletânea de bonus tracks. Pobre Moby: hoje em dia, a grande ambição do sujeito é fazer um álbum mais ou menos parecido com Play. Engraçado ler a chamada da Folha de S. Paulo: “no novo disco, Moby mistura eletrônica com soul music”. E não é o que ele sempre fez? Um editor mais honesto pouparia o eufemismo e lascaria logo: “no novo disco, Moby mistura seus discos mais recentes com os discos que gravou há algum tempo”. É mais ou menos por aí: um projeto mais introspectivo e caseiro que os anteriores (ok, melhor que os anteriores), mas tão óbvio e aguado quanto tudo o que ele lançou desde Play. Uma pena, já que o primeiro single (a instrumental e sombria Shot in the back of the head) sugeria um desvio de rota. Não é bem isso. Na verdade, é quase nada.

Two weeks | Grizzly Bear

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… E é isso o que acontece quando se vai à igreja excessivamente.

Ok, talvez não (eu, que frequentei mais de uma dúzia de missas, não lembro dessa parte). O novo clipe do Grizzly Bear é um dos melhores do ano: o diretor Patrick Daughters, no auge, vai do bizarro ao sublime com alguns closes e (quase) nada mais.

(Assisti a alguns filmes no fim de semana, mas, apesar das tentativas de escrever sobre eles, terminei totalmente desmotivado. Não é culpa dos filmes — por exemplo: redescobrir Playtime na tela grande contou como uma das cinco sessões mais emocionantes da minha vida  —, talvez apenas um misto de preguiça e desinteresse. Ou algo mais grave que isso. Ainda não sei. Preciso esperar um pouco para ver o que acontece)