Clive Owen

2 ou 3 parágrafos | Trama internacional

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international

Os bancos são os inimigos, o sistema financeiro não poupa ninguém, o mundo corporativo é mais frio que a morte, the end. Dito dessa forma, Trama internacional (6.5/10) parece uma bobagem. Adianto logo: na onda de thrillers inspirados no cinema americano dos anos 1970, este é o menos fluente, o mais pedante e “confuso”. Mas tudo isso me cheira a uma boa tomada de posição: sem paciência alguma para passatempos à Tony Gilroy, Tom Tykwer (que é alemão, e aqui essa informação se faz essencial) constroi uma fita de espionagem a base de aço, vidro e paranoia. É um arranha-céu moderníssimo: elegante e gélido, doa a quem doer.

O diretor de Corra, Lola, corra não é o mais adequado para pilotar um Boeing desse tamanho, com todos os botões luminosos e um manual de instruções de mil páginas. Essa relação desconfortável entre Tykwer e as normas do gênero acaba fazendo bem ao filme. Admito que perdi o interesse em mais de um momento (as cenas de ação, desastradas, atropelam a narrativa feito um caminhão) e não enxerguei o fio que liga todas as teorias da conspiração atiradas pelo roteiro (se é que existe um fio). O que notei foi um confronto até mesmo entre o roteiro — um falatório sem fim — e a direção, que parece mais interessada em compor um ensaio visual sobre arquitetura.

É esta, aliás, a camada do filme que mais me atrai: Tykwer não precisaria de diálogos nem de personagens nem de uma mirabolante rede de intrigas para comentar sobre o nosso pesadelo corporativo. A arquitetura das cidades diz tudo. A primeira cena mostra o primeiro registro cinematográfico de uma arrojada estação ferroviária de Berlim. Já o clímax, quando o herói finalmente enfrenta o “sistema”, é rodado num antigo telhado de Istambul. O contraste entre novo e antigo, as cores quentes contra os tons frios, a “moral da história”, está tudo ali: uma bela exposição de fotografias perdida num thriller apenas razoável.

Duplicidade

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duplicity

Duplicity, 2009. De Tony Gilroy. Com Julia Roberts, Clive Owen, Tom Wilkinson e Paul Giamatti. 125min. 6.5/10

Duplicidade é um filme que poderia ser exibido nas prateleiras da Tok&Stok: prático, funcional, com acessórios discretos, linhas suaves e cores elegantes. Combina praticamente com tudo e fica des-lum-bran-te no canto da sala.

Tony Gilroy é um roteirista de tramas engenhosas (histórias redondas sobre o nada, vide a trilogia Bourne) que, como cineasta, reza a cartilha de Steven Soderbergh. Ambos acreditam na existência de um tipo sofisticado de entretenimento, composto por trilhas jazzísticas, cenários clean, referências vagas a filmes antigos e roteiros que elevam velhas fórmulas da literatura policial a um patamar mais, hum, charmoso e cool.

Em Conduta de risco, indicado ao Oscar, o diretor usava esse estilo frívolo a serviço do perfil psicológico de um homem poderoso à beira de um colapso nervoso. O personagem era vivido por George Clooney, que transitava com ternos bem cortados num mundo corporativo gélido, hostil.

Naquele filme, o diretor deixava a impressão de mapear esses ambientes acinzentados com uma olhar crítico. Da primeira à última cena, acompanhamos um herói desencantado com os códigos que regem as relações empresariais. Duplicidade nos mostra que a intenção de Gilroy talvez não tenha sido exatamente essa.

O cineasta retorna a espaços que esquadrinhou tanto em Conduta de risco (as grandes empresas) quanto nas aventuras de Jason Bourne (as teias de espionagem), só que adota um tom de farsa light que anula qualquer pretensão de profundidade. O diretor usa os símbolos dos filmes anteriores para criar um playground inofensivo: mais ou menos como Soderbergh fez em Onze homens e um segredo, outro exercício de “entretenimento sofisticado” sem muitas ambições.

Aposto que muita gente defenderá este Gilroy “de superfície” — e é um filme dirigido com muita competência, mesmo com as quedas de ritmo provocadas pelo excesso de flashbacks —, mas sinto que falta algo. Uma das primeiras cenas, que mostra dois empresários superpoderosos distribuindo sopapos em câmera lenta, estabelece o tom de charge de uma forma cristalina. Lembra os Coen de Queime depois de ler. Mas, a partir daí, o filme prefere seguir um caminho mais convencional, alternando uma história de amor entre dois agentes secretos (calorosa, multinacional) e uma trama de espionagem cheia de reviravoltas (fria, entre corredores impessoais).

Existe aí um contraste curioso, talvez acima da média do gênero, mas nada muito memorável.

Até agora, Gilroy vai se impondo como um diretor pragmático: filma roteiros com objetividade, sem ornamentos. Como fez com Clooney, aqui ele abre lacunas no design das cenas para destacar o carisma de Julia Roberts e Clive Owen, que retribuem com performances (apenas) corretas. Numa trama que opõe duas realidades — um caso de amor impulsivo e um golpe meticuloso, racional —, o diretor deixa bem claro em que lado prefere apostar. O filme ganha embalo quando abandona a love story e se assume como um thriller para fãs de livrinhos de pulp fiction.

Ok. Soderbergh não teria feito melhor.

em tempo…

set

Esta é a capa da nova SET, que chega às bancas amanhã. A revista agora é editada por uma equipe carioca – entre os editores está Carlos Heli de Almeida; Pedro Butcher faz parte do time de colunistas. Pediram para que este blog divulgasse o lançamento e, como isso nunca aconteceu antes (pelo visto, a estratégia de marketing deles é tão ampla que inclui sites com cinco leitores), taí o informe publicitário gratuito. Admito que eu não lia a revista há um bom tempo e me incomodava tanto com a extrema generosidade dos críticos quanto com a infantilização das capas (Super-heróis e mais o que mesmo?). Mas lembro de uma época em que a SET trazia ótimos textos (de gente como Inácio Araújo, lembram?) e não concentrava o repertório em novidades de Hollywood. Sei que o mercado está em crise, mas, se eu quiser ler sobre o desenrolar de superproduções conhecidíssimas, irei à web. Um pouquinho de profundidade não faz mal a ninguém, ok? (E, depois de ter lido a revista, voltarei ao assunto aqui no blog).