Claudio Torres

cine | O homem do futuro

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O cínico em mim deveria enxotar O homem do futuro com dois pontapés, porque o filmezinho cheira mesmo a eletroeletrônico paraguiao. No formulário internacional de infrações cinematográficas, marcaria muitos pontos: as imagens lustradíssimas e acetinadas lembram anúncio de automóvel (confere!), as ideias da trama são todas contrabandeadas de um passado familiar (De volta para o futuro meets Carrie, a estranha, com uma vontadezinha de ser Charlie Kaufman), a trilha sonora se movimenta com a leveza de um tiranoussauro (Tempo perdido, da Legião Urbana, é a música-tema) e, bem, há duas ou três lições sobre como a vida é – verdade! – definida por nossas escolhas banais, e pelo acaso.

Tudo isso me deprime, vocês sabem, mas eu estaria mentindo se contasse que saí deprimido da sessão de O homem do futuro [57]. Não. O filme até me deixou (e aqui soa o alarme da polícia cinéfila!) razoavelmente animado, já que ele tem uma qualidade (talvez publicitária, vá lá, mas também cinematográfica) que falta à maior parte dos lançamentos comerciais que vi este ano: pulso, ritmo. E aí não o comparo somente a comédias brasileiras medonhas como Qualquer gato vira-lata ou Cilada.com, mas em fitas americanas que me pareceram quase insuportáveis de tão enfadonhas, como Lanterna Verde e Capitão América. Fico com a impressão de que o desejo do diretor de O homem do futuro, Claudio Torres, não era criar a melhor das comédias sobre viagens no tempo, mas uma que não soltasse o braço do espectador, não nos perdesse de vista durante a projeção. E isso (adeus, Tiago cínico) ele consegue.

Parece um desafio bobo (eu não acho), mas taí o filme que o leva a sério. Torres embola as idas e vindas da narrativa de forma a criar praticamente três clímaxes (todos acompanhados de “subclímaxes’) durante a trama. O filme tem quase duas horas – os picos de ação devem ocupar praticamente 60 minutos, talvez mais. Em 15 minutos, a impressão é de que o filme já está prestes a acabar – mas eis que ele retorna a um “ponto de relaxamento”, rapidamente tensionado por uma nova dobra do roteiro. Wagner Moura, é claro, merece crédito até aí: o carisma do ator colabora para esse projeto de uma hipermatinê, que produza os efeitos sedutores de uma peça publicitária enorme porém atraente. Por mais que eu tenha sentido um pouco de culpa no “day after” (quando o anúncio acabou, notei que era só um anúncio), eu até gostaria de ver bons filmes de entretenimento com um pouco da gana que aparece neste passatempo aqui.

Intrigas de Estado

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stateofplay

State of play, 2009. De Kevin Macdonald. Com Russell Crowe, Ben Affleck, Rachel McAdams, Helen Mirren e Robin Wright Penn. 127min. 6/10

Não conheço muitas redações de jornais. Desde o tempo em que eu ainda era um estagiário imaturo, ansioso e meio pateta, trabalhei em apenas três empresas. Uma experiência curta, mas que me ensinou uma lição: elas, as redações, são todas iguais.

Não falo em aspectos físicos, se é que vocês me entendem. No meu segundo estágio, frequentei uma redação tão compacta e insalubre que lembrava os escritórios esfumaçados de Mad men. Quando os repórteres de política retornavam do Congresso Nacional ou do Palácio do Planalto, por volta das seis da tarde, meu pulmão gemia. Todos fumavam desesperadamente e simultaneamente, numa alegre confraternização que poderia ter incendiado a cidade inteira.

Ainda assim, a rotina naquele inferninho não era muito diferente da que vivi antes (numa redação um pouco mais agradável, mas com serveras restrições orçamentárias) e da que vivo hoje (a maior onde trabalhei). Os operários da imprensa escrita aprendem a lidar com pautas mirabolantes, prazos rigorosos, corre-corre e a tensão quase apavorante que acompanha o fechamento das edições diárias. Quando a noite chega, a redação ferve. Os chefes têm pressa, as cobranças são agressivas, a terra treme, os cordeiros viram leões e ninguém é de ninguém.

Não sei se é assim em todo o canto do mundo, mas, a depender do que se vê no thriller Intrigas de Estado, as redações norte-americanas encontraram a solução para minimizar esse tipo de estresse. No filme, um repórter investigativo (interpretado por Russell Crowe) tem oito horas para apurar uma história cabeludíssima que envolve um congressista (Ben Affleck), assassinatos e uma possível conspiração envolvendo as mais caras instituições norte-americanas (em filmes dessa laia, a ameaça sempre é a mais perigosa possível). Quando ele retorna à redação, tarde da noite, depois de ter descumprido os prazos mais flexíveis do planeta, o que encontramos é um lugar silencioso, esvaziado e pacífico — uma espécie de lar-doce-lar. Um templo da informação.

Para uma fita supostamente realista, inspirada numa série britânica (da BBC!) que investiga a ligações perigosas entre imprensa e poder, parece um cenário de conto de fadas. Mas entendo esse tipo de simplificação: mesmo quando adota um tom sóbrio (a aí a inspiração é sempre, sempre Todos os homens do presidente), Hollywood ainda trata os jornais com tintas românticas, ora como set de filme de espionagem, ora como ambiente para a mais doce love story (alguém lembra do colunista sortudo de Marley e eu, que fica rico e compra uma mansão no campo?).

Imagino o quanto este filme teria crescido com um olhar menos ingênuo para o cotidiano dos repórteres. Em vez disso, o roteiro (escrito a seis mãos, com colaboração do paranoico Tony Gilroy de Duplicidade) toma duas ou três grandes questões do jornalismo contemporâneo — as relações entre repórter e fonte, a conflito entre a velha guarda e uma geração afinada às novas tecnologias — e dilui tudo numa trama policial truncada, cheia de furos e contradições (e com um desfecho risível, daqueles que banalizam um filme inteiro).

De qualquer forma, não é uma polpa tão rala. Diante de uma trama tão banal, é inevitável que o espectador acabe prestando atenção a detalhes mais instigantes. Por exemplo: as reviravoltas são armadas como uma grande arapuca para testar os códigos de ética do personagem de Crowe (que está muito bem, por sinal). O jogo de interesses entre o repórter e o político, amigos de longa data, cutuca a conduta da imprensa — tira os jornalistas do pedestal para tratá-los como profissionais falíveis. Não é muito, mas me agrada a ideia de um thriller de espionagem em que o repórter é, ao mesmo tempo, herói da opinião pública e vítima dos próprios vícios profissionais.

Parece bom? É, mas tudo isso melhoraria com outro diretor. O estilo de Kevin Macdonald, impessoal, transforma a trama num piloto de seriado de tevê. Não vi o original, mas aposto que a BBC fez melhor.

em tempo…

A partida | Okuribito/Departures | Yojiro Takita | 6 | Foi com enorme curiosidade que entrei na sessão de A partida, pronto para descobrir um cineasta que tenta renovar o melodrama com elementos de comédia e cinema fantástico. Mas o que encontrei foi uma experiência tímida: as chulices surgem de onde não esperamos, mas a carga de sentimentalismo é tão massacrante (e a trama, tão previsível) que, depois de quase 2h30 de duração, saí do cinema com a impressão de ter assistido a um combinado meio indigesto do Kurosawa de Viver com Kim Ki-duk. Estranho.

A mulher invisível | Claudio Torres | 5.5 | O melhor que posso dizer sobre o filme é que não é um desastre — e qualquer comparação com as comédias de Daniel Filho o transforma numa maravilha. O template visual sai da mesma linha de montagem de Se eu fosse você (tudo parece ter sido filmado em duas semanas num galpão do Projac), mas o diretor consegue se divertir com as limitações do projeto e exercitar o gosto por um humor maníaco-depressivo, quase desagradável. É uma comédia sobre um homem preso num sonho publicitário, não? Então faz sentido.