Chavões

Amor sem escalas

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Up in the air, 2009. De Jason Reitman. Com George Clooney, Vera Farmiga, Anna Kendrick e Jason Bateman. 108min. 5/10 

Quando eu era pequeno, meu pai dizia: “No melhor dos mundos, filho, você vai estudar, fazer alguns amigos, crescer, estudar mais um pouco, se formar, chegar à idade adulta como um sujeito honesto, conseguir um emprego digno, formar uma família, ter três ou quatro filhos, ganhar um salário mediano, dar o exemplo, ficar velhinho e morrer.”

Fui criado assim. Pé no chão. E chão de mármore, frio.

Deixei de acreditar em Papai Noel aos seis anos de idade, quando meu pai resolveu abrir o jogo e admitir que o carrinho de controle remoto não caberia na meia e, além disso, era caro demais. Anos e anos mais tarde, quando meu pai foi demitido a exatos dois meses da aposentadoria, perguntei a ele sobre empregos dignos e recebi uma resposta lacônica. “O trabalho é uma guerra.” Não voltei ao assunto.

Hoje, converso pouco com meu velho. Batemos papo nos aniversários e em outras datas importantes. Na páscoa, por exemplo (e não sei exatamente por que). No carnaval. Quando alguém morre. Sinto saudades. Reprovo a ideia de paternidade à distância. Mas nos entendemos razoavelmente bem. Apesar de, nessas conversas, nunca trazemos à pauta assuntos relevantes. Nada de incertezas amorosas ou outros temas que não possam ser concluídos em cerca de cinco minutos. Geralmente ele pergunta sobre meu trabalho e respondo: está tudo bem.

Quase nunca está. Noto que ele tinha razão. Trabalhar é uma guerra travada entre as nossas convicções e o que somos obrigados a fazer. Não estou falando dos dilemas épicos, crises monumentais. Nada disso. Faço referência apenas às pequenas provações que enfrentamos e superamos dia após dia. Situações triviais que, admita, nos machucam (mesmo quando sutilmente) e fazem com que, no mês seguinte, afirmemos com segurança aos novatos: “Somos profissionais experientes, nos respeitem.”

O que aprendi em muitos anos de dedicação integral a essa máquina é que concessões devem ser feitas. Meu pai estava certo: é possível, numa empresa, trabalhar honestamente, divertir-se, fazer amigos e gostar muito do que se faz. Mas não há como fugir de todas as lutas.

Amor sem escalas (e finalmente chegamos a ele!) é, em alguma medida, um filme sobre o trabalho. Pessoas são demitidas. E nós, amedrontados com a perspectiva de sermos ejetados de nossas rotinas, nos identificamos com elas. No contexto em que foi lançado, pode ser interpretado como um longa-metragem dedicado às consequências da recessão norte-americana. Pode, mas não deveria. A todo momento, em todo lugar, pessoas são demitidas. O próximo pode ser você. E ninguém sabe como reagir a isso. É, me contaram, como ser expulso de casa pelo irmão mais velho que nunca te deu muita atenção. Dói.

O protagonista, interpretado por George Clooney, é a encarnação desse irmão mais velho. Um homem impassível que cumpre rigorosamente o papel de demitir pessoas. Não sou nem nunca fui chefe, mas entendo que demitir um funcionário não deve ser algo tranquilo e animado como um passeio no parque. Em resumo: os chefes constrangidos contratam Clooney para limpar elegantemente a cena do crime.

E Clooney é um faxineiro eficiente. Cínico, prático e insensível como um matador de aluguel. Requisitado que é, está acostumado a viajar de avião por todo o país, acumulando milhas, dormindo em quartinhos de hotel e matando o tempo em bares chiques porém impessoais. Parece muito satisfeito com a vida que leva. Numa dessas noitadas solitárias, ele conhece uma mulher que, resolvidíssima, topa embarcar com ele numa relação sexy e casual. Todos os envolvidos aprovam esse esquema de relacionamento tãããão século-21. Para combinar os encontros, eles abrem laptops e digitam aceleradamente algumas palavras misteriosas porque isso sim – laptops? – é uma coisa moderna.

Enfim. Na primeira metade do filme, o diretor Jason Reitman reprisa o método de Obrigado por fumar: expõe os vícios de workaholic amoral. Num determinado momento da trama, Clooney descobre que o próprio emprego está em risco. A partir daí, sai numa jornada para ensinar uma hitgirl iniciante e metódica e ambiciosa as artimanhas do ofício. No meio tempo, dá palestras sobre como esvaziar mochilas que carregam todo o peso do mundo. Ou algo parecido.

Jason Reitman, sabemos, é um sujeito conservador. E moralista. Nada contra, mas deixemos isso claro. O protagonista de Obrigado por fumar é um ás da retórica confrontado com algumas boas verdades da vida. Juno é a adolescente grávida prestes a descobrir o amor verdadeiro na figura de um nerd honesto, generoso e boa gente. Existe sim uma “mensagem” em Amor sem escalas, e ela não é nada nebulosa: o estilo de vida de Clooney pode até parecer charmoso (são tantas milhas!), mas não é saudável.

O cinismo cool da primeira parte do filme – que lembra a gramática de Steven Soderbergh, mas acaba soando como um piloto genérico de seriado da HBO – é abruptamente substituído por um tom mais afetuoso. Sabe-se lá como (talvez por conta de uma turbulência especialmente severa num voo longo), os personagens se transformam. Lá pela metade da trama, Clooney vira um gentleman que sente falta dos prazeres de uma vidinha simples (cercado por memórias de adolescência). A hitgirl iniciante sonha em casamento e filhos. A amante prafrentex, no fim das contas, não era tão prafrentex assim. O que Reitman quer com isso? Mostrar-nos que nossas vidas modernas são vazias? E que, para completá-las, teremos que formar uma família e nos comprometer a longo prazo com alguém?

O filme manda o recado de uma forma tão direta que quase nos convence de que está absolutamente certo. Ou, pelo menos, de que Reitman é um cineasta franco, ainda que sem estilo. Mais uma vez, nada contra. Pior do que isso é a forma primária como nos convida a essa aula de boas maneiras: na segunda metade, a trilha sonora usa até Elliott Smith para nos sensibilizar e finalmente nos converter… a que dogma mesmo? À maravilhosa congregação de Juno e os ursinhos sentimentais?

Meu pai, na certa, acharia tudo muito tolo. Ele tem família, filhos, uma casa e um cachorro. Sabe que as coisas não terminam – talvez só começam – aí. Sabe mais: que nada disso resolve a relação conflituosa, dolorida que a maior parte das pessoas mantém com o trabalho. O medo de uma demissão, o choque cotidiano com decisões duras de empresas. Reitman, ainda que se aproxime desses temas, parece ter perdido a chance de tocar no assunto de uma forma adulta. Na ânsia de disparar chavões sobre “as coisas importantes da vida”, esquece que nós temos absoluta certeza de que eles só servem para engendrar a ficção mais preguiçosa. Não nos dizem respeito. No mais, já vimos filmes de fantasia mais inventivos.

Superoito e os primeiros parágrafos

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Imaginei que seria uma boa idéia escrever sobre o medo de voar. Outro dia, não lembro quando, eu estava esperando por alguém no saguão do aeroporto. Não sei quem estava para chegar, se minha namorada ou minha mãe ou a mãe da minha namorada, mas o fato é que alguém estava para chegar e eu estava esperando . Havia muita gente no saguão e todos pareciam ansiosos. Eles roíam unhas numa espécie de coreografia. No mais, torciam para que nenhum Boeing despencasse em mil pedaços, pelo menos não nos próximos 60, 80 minutos.

Adianto que nenhum Boeing caiu. O importante foi que, no meio daquele mundaréu à beira de um ataque de nervos, vi um rapazinho de uns 14, 15 anos, que parecia tenso, mas por um motivo mais nobre. Ele estava de cabelo muito bem lambuzado de gel, o cheiro de perfume estava nos matando e, para deixar a situação toda mais surreal, o moleque andava de um lado para o outro do setor de desembarque com um ursinho de pelúcia pendurado pela pata. Que cena!, pensei. E fiquei esperando o desenrolar da história – já que, como vocês sabem desde criancinhas, sou um dedicado espectador da vida alheia.

Ouvi um diálogo rápido entre o menino e o pai do menino. O garoto queria ficar sozinho. Logo entendi o drama na íntegra: o guri estava prestes a se encontrar pela primeira vez com uma menina linda e irreal que ele (muito possivelmente) conhecia apenas pela internet. Pensei: será isso? Era. Depois de 20 minutos de suor escorrendo no rosto e o maldito ursinho balançando repetidamente no ar, indefeso (coitado), a guria desembarcou e criou-se uma atmosfera de suspense no saguão: será que sim? Será que não? Paramos todos de pensar nos aviões despedaçados e nos concentramos naquela história de amor meio bamba, meio boba, mas muito verdadeira, do tipo que os filmes não nos entregam mais.

O que aconteceu, em resumo, foi isto: o menino escreveu o nome num pedaço de cartolina, que a menina leu do outro lado do vidro. Ela acenou, ele acenou. Eles se examinaram à distância, já que as malas demoravam para chegar e era uma agonia. Já com a mochila cor de rosa e a maleta preta, ela olhou o garoto bem de perto, trocaram algumas palavras que ninguém mais ouviu, ele encostou a mão no ombro da musa (e não é que era uma musa bastante típica, beleza grega etc?) e enfim se beijaram. Tudo ok. Céu de brigadeiro. Expectativas correspondidas. O saguão do aeroporto soltou em uníssono um sonoro suspiro de alívio. Nossos corações tremeram. E, naquela tarde, nenhum Boeing caiu.

Não é bonito? Essa história aconteceu de verdade, exatamente desse jeito como a conto, e ainda me impressiono com a forma como ela guarda tantos sentidos ocultos. Por exemplo: é possível traçar um paralelo entre o medo de voar, que contaminava o saguão do aeroporto, e o medo de um não – o risco e a recompensa pelo risco. O alívio que sentimos quando o voo finalmente chega seria semelhante à forma como nosso peito se enche de ar quando somos correspondidos? Vá saber. Só sei que estou pensando nessa história desde que comecei a escrever crônicas para o jornal onde trabalho. Isto é: há três semanas.

Vocês querem saber como estou me saindo nessa tarefa? Terrivelmente mal, amiguinhos. Terrivelmente mal. Se eu soubesse que as coisas seriam assim, eu nunca, nunca teria dito sim para esse oh tão inglório desafio que tira o meu sono, polui minha mente, corrompe a minha inocência literária e impede até que eu escreva para este blog que tanto amo. Culpem as assustadoras crônicas pelo bloqueio criativo que me atazana há três semanas. É tudo por causa delas. Absolutamente tudo. Eu queria escrever três, cinco posts por noite, mas elas não deixam e eu sou fraco, não consigo lutar.

Verdade. Desde que comecei a escrever crônicas, meu mundinho tomou um choque elétrico. Até agora, escrevi duas. A primeira, um desastre atômico. A segunda, um desastre. A sorte é que quase nenhuma pessoa conhecida leu os textos (e aí descobri que os repórteres nem passam o olho no jornal que escrevem, já que, notando minha crônica lá na página, certamente alguém me provocaria por puro sadismo e nada além de puro sadismo). Fiz questão de não anunciar nada. Entrei e saí da redação morrendo de vergonha e pânico, mas me portei como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Uma forma muito elegante de fracassar.

A primeira crônica, muito oportunista, foi sobre o dia em que Michael Jackson passou por Brasília, em 1974, num show do Jackson 5. Tentei reconstruir a cena e inventar algumas coisas, num mix de jornalismo gonzo com devaneios de um blogueiro estúpido. Não deu em nada. Não gostei do resultado. Li depois e quase tive um troço: um textinho sem paixão, sem ritmo, sem humor, todo travado diante da multidão, uma crônica com dor de barriga e mãos suadas.

Depois escrevi aquele texto que anunciei aqui no blog, sobre o menininho encabulado que desenhava na rodoviária. Ficou um pouco melhor. O título me agradou bastante (“O menino invisível”, e com duas ou três possibilidades de leitura, vejam só a evolução). Consegui me colocar no texto com um pouco mais de desenvoltura, criei umas brincadeiras metalinguísticas com o “eu lírico” (eu quando estagiário), a história do menino era a história de quando eu tinha 12 anos, mas detestei o desfecho derramado e desamarrado, com uma construção de frases chorosas e apelativas. Não entendo por que, em todos os meus textos, me obrigo a escrever frases como “não sei”, “não me pergunte”, “não há como saber”. Qual a função disso? Criar uma pose de coitado? Cobrar do leitor piedade, leitor, piedade? As pessoas devem ler e suspeitar que sou simplesmente um ignorante.

O engraçado foi que, nesse último caso, eu esperava alguma resposta dos meus colegas. Nem que algo do estilo “boa tentativa, Tiagão, mas você é uma bichinha chorona”. Mas o que aconteceu foi… nada. O silêncio. Novamente, ninguém leu. Dos leitores do jornal, então, nem um único e-mail de repúdio. Minto. Leram sim. Uma pessoa. Que me deixou muito feliz com um elogio sincero, e é aí que você descobre quem são seus amigos. Mas passei o dia meio decepcionado com aquela não-reação. Então é isso? Você dá o sangue para escrever 37 linhas (e um título de duas palavras!) para, no fim das contas, receber a total indiferença? Mamãe, não quero ser cronista quando eu crescer.

O que, moral da história, só ressalta todo o desastre. Minhas crônicas são tão atraentes e inspiradoras que as pessoas nem começam. Ainda que, nesses casos, eu realmente preferiria que ninguém lesse. Que se concentrassem nos obituários ou num outro tipo de prosa agradável. Os furtos de carros. O trânsito caótico. As reformas no viaduto. Os ipês que florescem na seca. Ninguém quer saber sobre o menininho ridículo que vende balas na rodoviária e ninguém certamente quer saber sobre o modo como eu conto a história do menininho infeliz – e ficamos assim, distantes; eu aqui, o leitor lá.

O problema (para mim) é que é tudo muito difícil. Tudo dolorido de tão difícil. Escrever uma crônica de exatas 37 linhas para pessoas que desconheço completamente… Por onde começar? O primeiro parágrafo é sempre o mais complicado. Não sei o tom a ser adotado. Devo ser mais informal? Devo chegar chutante a porta e forçando amizade? Devo contextualizar de uma forma, er, poética? Devo fazer referências vazias de cultura pop (talvez esperem isso de um repórter de cultura pop)? Posso citar Salinger? E Paul Auster? E a Bíblia? E o Corão? E os provérbios chineses, que sempre salvam o dia? Quanto mais escrevo, mais percebo que deveria permanecer calado.

Antes de rabiscar essas crônicas, dei uma olhada na obra dos cronistas que me antecederam. Tentei copiar o estilo de cada um deles até compor um texto cheio de piscadelas de olho e referências safadinhas a textos publicados anteriormente. Aí percebi que essa era uma forma covarde de me esconder da plateia – e isso me lembrou do dia em que minha irmã, mais tímida que eu, convidou a família para assistir a uma peça de teatro em que atuaria. Quando vimos, o papel da garota era uma árvore. Eu sorri. Minha irmã, quando se esforça e quando quer, é brilhante.

Escolher os temas é árduo, vou te contar. Falar sobre o quê? Dá branco. Tenho medo de mostrar ao mundo que só consigo imaginar histórias meio tolas sobre meu passado, meus cachorros e meu umbigo. Sou uma fraude. O rei está nu. As crônicas me obrigaram a pensar no meu futuro como escritor de romances (e, agora vocês sabem, é assim que me vejo daqui a dez anos), e tudo o que vi foi breu.

Pensei tanto (e este parágrafo é importante, atenção!) que cheguei à conclusão de que meu tema será a adolescência e que, talvez por isso, escrevi uma crônica sobre o pequeno Michael Jackson, uma outra sobre um pequeno vendedor de doces com talento para a pintura e planejo uma terceira sobre um pequeno moleque apaixonado no saguão de aeroporto barulhento.

Talvez o tema tenha me encontrado antes do dia em que percebi que ele estava logo aqui. Não sei (e nisso sou sinceramente ignorante). Mas decidi que preciso iluminar esses personagens. Essa turma. Essas criaturas imaturas e indecisas que não conseguem mirar o espelho e que têm medo e que não sabem exatamente o que são ou o que deveria ser. Essa gangue. Essa faixa etária. Esse universo. É sobre eles que devo escrever e, quando a ficha caiu, me senti um tanto mais tranquilo. As crônicas são a versão imperfeita, tosca e envergonhada – a versão adolescente! – de quem eu quero ser, como escritor, em dez ou quinze anos. E todo começo é um começo.

Eu estava pensando nisso e em outras questões essenciais quando soube que um sujeito de vinte e poucos anos bateu o carro numa mureta e morreu. Era sete da noite. Eu não o conhecia direito, mas conhecia suficientemente para sentir por alguns minutos o que invade nosso corpo quando alguém morre: aquele vazio gelado, o salto no precipício gelado, e depois todas as perguntas que ficam guardadas à espera de um clique gelado. Qual o sentido disso tudo? Para que fazemos o que fazemos? Por que levamos a vida deste jeito? O que queremos de nós mesmos?

Pensei em escrever uma crônica sobre isso. Mas só tenho mais uma esperando na fila. E depois serei um homem livre.