CCBB

Entrevista | Pedro Costa

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No primeiro dia da mostra O cinema de Pedro Costa, em cartaz no CCBB, o diretor português de Juventude em marcha (2006) e No quarto da Vanda (2000) veio a Brasília para conversar com o público. Na manhã seguinte, eu e minha colega Yale Gontijo entrevistamos o cineasta para o Correio Braziliense, jornal onde trabalhamos. Após 50 minutos de bate-papo, eu e Yale concordamos num ponto: para quem gosta de cinema, conhecer as ideias de Costa pode provocar o efeito de um bom disco de punk rock. Elas atiçam o nosso desejo de desafinar os instrumentos (as câmeras digitais) e ir à ação – no caso, filmar. 

Nos tornamos fãs do sujeito.

Antes de fazer filmes, Costa atuava como músico em bandas punk. Parece ter transportado um tanto dessa aflição musical para as telas de cinema. Não gosta, por exemplo, do estigma de “autor”. Nem da burocracia, dos gastos excessivos, das equipes numerosas. “O que produzo é trabalho, não arte”, ele diz. E é o primeiro a admitir que a retrospectiva do CCBB mostra uma obra irregular – que, com o tempo, foi se estilhaçando para, finalmente, se descobrir em imagens difusas, indefiníveis. Conversar com Costa, resumindo, é uma grande alegria – é encontrar um realizador que não encontra nenhum tipo de conforto no cinema. E que, por isso, inspira aqueles que também se sentem incomodados com o que veem por aí.

A entrevista (que tem por objetivo apresentar as ideias do diretor aos leitores de um jornal diário) foi publicada hoje, sábado, no Correio Braziliense. O texto ficou grande e, por isso, foi editado. Depois do pulo você pode ler o bate-papo quase na íntegra.

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2 ou 3 parágrafos | Lola

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Duas avós: Sepa e Puring. O neto de Sepa foi morto pelo neto de Puring, ladrão de celular (um sujeito tão pobre que possivelmente já roubou galinhas). O bandido é preso e cria-se o conflito entre as personagens. Puring quer libertá-lo – mas, para isso, precisa entrar em acordo com uma inconformada, inconsolável Sepa.

Se fosse um filme americano, o que aconteceria? Uma baita crise moral, talvez. Algo como Casa de areia e névoa, imagino. Mas aposto que o tema central não seria dinheiro. A falta de dinheiro. A necessidade de dinheiro. O desespero por (qualquer) dinheiro. E é do que trata este Lola (3.5/5), um longa filipino dirigido por Brillante Mendoza (em 2009, ele também fez Kinatay, prêmio de melhor direção em Cannes) e levado no colo por duas senhoras atrizes. 

O filme passou na mostra Descobrindo o cinema filipino, numa cópia excelente em 35mm (o que, por si só, é um acontecimento). Infelizmente, não posso acompanhar toda a programação, mas o que comentam entre as sessões é que os filmes lembram algo do cinema brasileiro. Sei não: talvez lembrem mais a nossa realidade do que o nosso cinema (eu queria muito ver um Raya Martin por aqui). Mas voltando a Lola: o que noto de mais particular no filme é como ele transporta um dilema universal e até meio calculado (duas avós, dois dramas, as injustiças do sistema judicial, etc) a um determinado estado de coisas, a uma questão social. E aí tudo fica parecendo muito específico. Mesmo quando Mendoza (que procura realismo e crueza em tudo) cai na bobagem de eleger alvos de plástico – como os dois gringos que, apalermados, filmam e exploram as misérias do país.

Entre aspas | Chris Marker e as séries americanas

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chrismarker

“Para falar a verdade, eu já não vejo mais muitos filmes, exceto os dos amigos, ou as bizarrices que um amigo americano grava para mim no canal TCM. Há coisas demais para se ver na atualidade, nas reportagens, nos canais de música ou no insubstituível canal Animal. E minha necessidade de ficção se alimenta com o que é distante da fonte mais completa: as formidáveis séries americanas. Ali há um saber, um senso de narrativa, de economia, de elipse, uma ciência do enquadramento e da montagem, uma dramaturgia e uma atuação de atores que não possuem equivalente em lugar nenhum, sobretudo não em Hollywood.”

Chris Marker, em entrevista raríssima ao Libération, em 2003. Lembrando que hoje começa em Brasília, no CCBB, uma excelente retrospectiva com 31 filmes do cineasta – entre eles, Sem sol e O fundo do ar é vermelho, que vi e recomendo fortemente. Taí a programação completa

(E a imagem que ilustra este post, Gay Lussac, é de maio de 1968, em Paris).