Caetano adolescente

21st century breakdown | Green Day

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greendayGreen Day é uma das maiores bandas de rock do mundo? Ainda não me acostumei com a ideia. O que aconteceu com o mundo, afinal?

Fico com a impressão de que poderia ter sido qualquer um. Quem cresceu nos anos 90 talvez sinta a mesma cosia. E se o Offspring, depois do sucesso de Americana (1998), tivesse gravado uma ópera-punk sobre a saga de um anti-herói adolescente massacrado por uma América apocalíptica? E se o Weezer, em vez de abraçar o power pop eufórico e autoirônico, tivesse optado por fechar o sorriso e mirar coração e mentes da juvenília desesperada? E se…

Não, sério: não poderia ter sido qualquer um. Não. Ao contrário do Offspring e do Weezer (e do Foo Fighters e do Korn e do My Chemical Romance e do Oasis etc), o Green Day descobriu o milagre do rejuvenescimento. Mais que isso: o trio parece habitar indefinidamente uma bolha de adolescência. Depois de 22 anos de carreira, Billie Joe Armstrong (37 anos!), Mike Dirnt (37 anos!) e Tré Cool (36 anos!) ainda são três moleques de 16 anos.

Não sei como. E também não me decidi se isso contaria como uma qualidade. Tomemos como um fato, um traço de personalidade. Recorro a Caetano Veloso, Verdade tropical: “Alguém já disse que os homens que fixam seu espírito nos temas enfrentados na infância produzem obras profundas, enquanto os que repetem indefinidamente as questões e ilusões da adolescência estão fadados a girar nessa zona periférica em que se discute repressão, definição sexual e satisfação dos anseios de liberdade. Eu me situo no segundo grupo.”

Se Caetano é uma personalidade atormentada por inquetações de adolescente, preciso fazer uma correção: o Green Day é uma banda de rock pré-adolescente.

Talvez esse espírito de juventude sirva de explicação para as duas ressurreições da banda: depois de ocupar o vazio deixado pela queda do grunge com a despretensão de um punk californiano arejado, divertido (Dookie, 1994), o grupo combateu o cansaço da fórmula e voltou à briga com uma balada pop de sucesso (Good riddance, de Nimrod, 1997). Já ali, Armstrong se mostrava um band leader duro-na-queda, sem vocação alguma para o underground.

O segundo retorno, depois do morninho Warning (2000), viria com American idiot, a ópera-punk inspirada em The Who que, apesar de recebida com críticas desanimadoras (a produção automática de Rob Cavallo e as baladas derramadas pesaram contra — e ainda não consigo ouvir o álbum sem sentir saudades de Dookie), começou a história da estaca zero: conquistou um novo público, virou fenômeno e fez do Green Day um monstro de arenas. Ninguém grava uma parceria com o U2 em vão.

Essa história longa e enfadonha nos leva a 21st century breakdown — que, se dependesse do histórico de altos e baixos do Green Day, seria um projeto fadado ao fracasso, a um (novo) desagaste de uma (nova) fórmula. Mas, pela primeira vez, o trio avança furiosamente na oportunidade de manter-se no topo. Como um summer movie de Hollywood, o disco é uma continuação segura do blockbuster American idiot — mas trata-se de uma sequência que preserva elementos do longa-metragem original como um template para novas criações. Homem-Aranha 2, digamos.

E, bem, devíamos ficar felizes por isso! Ao trocar Michael Ba… Rob Cavallo por Sam Raim… Butch Vig, o Green Day encontrou finalmente o produtor certo para o projeto pop que eles sempre sonharam. Pode parecer tardio, mas 21st century breakdown ergue-se como o manifesto definitivo do Green Day: um álbum tolo, escancaradamente comercial, repleto de baladinhas para seriados de tevê, mas igualmente poderoso no acúmulo de referências de glam e classic rock. Um disco assumidamente comercial, popular, que faz tudo para agradar e, não sem forçar a barra, consegue despertar uma alegria pré-adolescente no ouvinte. Em qualquer ouvinte.

Procurar alguma transgressão no discurso de Armstrong é caçar vanguarda em fita de ação. Dividido em três atos, o álbum acompanha a fuga enloquecida de um casal de outsiders: Christian e Gloria. As canções atacam instituições religiosas (sem citar nomes), governo (e aí cita pelo menos um nome: Nixon), a “opressão da sociedade” (trademark punk) e um inimigo que pode estar em qualquer lugar. Não é uma narrativa tão clara quanto a de American idiot: a paranoia que move os personagens embaça as cenas e situações. E que ninguém esqueça de que, nas bordas do roteiro, existe uma história de amor.

A faixa-título, inspirada em Queen, é ambientada na virada do século. É um flashback adequado, já que o álbum pertence àquela época: é um tipo de superprodução que nasce datada, como um exercício de nostalgia, uma peça à antiga (coloque na mesmo arquivo de Stadium arcadium, do Red Hot Chili Peppers, The black parade, do My Chemical Romance, Viva la vida, do Coldplay, e No line on the horizon, do U2). O formato do disco recicla clássicos como The Who sell out como um cineasta que recorta cenas de Easy rider e cola num videoclipe da Shakira.

Mas existe uma força ingênua no disco que acaba por justificar essa colagem superficial: em quase 70 minutos, o Green Day usa todos os recursos a que tem acesso para manter o público atento, entusiasmado. É uma banda limitada — Bohemian rhapsody, do Queen, já instigou experiências mais ousadas (Paranoid android?) —, mas disposta a testar o próprio fôlego. Daí a forma meio desengonçada como eles tentam expandir um som quadrado e se aproximar do power pop (Last of the american girls é quase Fountains of Wayne), do pós-punk da geração 2000 (Horseshoes and handgrenades copia Main offender, do Hives), e de soft rock levado a sério (o Foo Fighters teria feito uma balada como Last night on Earth, mas com algum sarcasmo).

Estou certo de que o Green Day planejou este álbum como um resumo da ópera — o último grande disco de rock. Soam até preocupados. Na pele deles, eu não me incomodaria. Depois desta geração de adolescentes haverá outra, e depois outra. Quando se tem 16 anos para sempre, essa imagem de futuro deveria servir de conforto.

Oitavo álbum do Green Day. 18 faixas, com produção de Butch Vig e Green Day. Reprise Records. 7/10