Baz Luhrmann

Austrália

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Australia, 2008. De Baz Luhrmann. Com Nicole Kidman, Hugh Jackman e Bryan Brown. 165min. 3/10

Austrália é um daqueles filmes que transformam as (geralmente chatíssimas) sessões para a imprensa numa festa. O longa tem quase três horas de duração. Da primeira meia hora em diante, já havia gente fazendo piada, simulando bocejos, combinando o almoço, passando mensagem por celular, atualizando o twitter, fazendo compras online.

Como numa longa viagem de ônibus, era preciso matar o tempo de alguma forma.

Curioso como o primeiro projeto verdadeiramente ambicioso (inspirado em épicos de multidões como Ben-Hur e Titanic) de Baz Luhrmann tenha resultado numa espécie de transatlântico desgovernado: caro, vistoso, imenso, mas que importância tudo isso tem quando estamos perdidos no oceano?

Logo nas primeiras cenas, quando apresenta os personagens da forma mais desengonçada possível, fica claro que Luhrmann mira alto: quer narrar uma fábula que dê conta de remeter à formação da sociedade australiana e, como se isso fosse pouco, ainda pretende somar uma aventura infanto-juvenil, uma love story demodê, um drama de guerra e (ora, sim!) uma denúncia dos maus tratos sofridos pelos aborígines.

Luhrmann facilita o nosso trabalho ao trancar a Austrália inteira dentro de uma fazenda: lá convivem uma inglesa aristocrática (Nicole Kidman), um capataz grosseirão (Hugh Jackson) e um menino meio-aborígine, meio-branco. Fiquei imaginando uma superprodução chamada Brasil que narrasse as relações entre uma linda portuguesa, que se apaixona por um escravo e adota um indiozinho.

Sutileza não é nem nunca foi o metiê de Luhrmann (vide o uso exaustivo da música-tema de O mágico de Oz). Mas, de um filme que assume com tanta franqueza a inspiração de monumentos do entretenimento, seria exagero cobrar desta narrativa um pouco de… afetuosidade? Bom humor? Fluência? Austrália não tem nada disso.

É um espetáculo que, na linha da trilogia Piratas do Caribe, acumula efeitos e rescunhos de ideias sem fazer conexões entre elas – e acaba sabotando o perfil psicológico dos personagens (daí, nada feito: quem se envolverá com a história de amor entre dois postes?).

Para os que se enjoavam com o decalque frenético dos filmes anteriores do cineasta, Austrália prova que o buraco está em outro canto: sem as antigas muletas formais, o diretor simplesmente tomba no vazio. Se o país é tão enfadonho quanto este filme, não me convidem.