Baby

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A estreia do Tribes é, digamos, um grande álbum de rock para quem ainda se importa com grandes álbuns de rock. Não é uma plateia pequena: as multidões que se entusiasmaram com os mais recentes do Foo Fighters e de Florence + the Machine possivelmente vão receber este superdisco com muito carinho. Isso porque o objetivo deste quarteto de Camden, Londres, é deixar marcas numa calçada da fama que inclui ídolos como Oasis, Strokes, Libertines e Pixies. “Belas referências”, diria o coordenador do departamento de Recursos Humanos da gravadora Island, que os contratou em meio ao oba-oba anual do semanário New Musical Express. A banda, se tudo der certo, vai se mostrar competentíssima na dying art de vender discos: em Baby, posso detectar cinco singles fortes, sendo que um deles vampiriza muito alegremente uma das canções mais conhecidas do Pixies, Where is my Mind?

Voltemos a 1988, então. Surfer Rosa, o primeiro LP do Pixies, talvez não seja um dos mais bizarros dos anos 1980 — mas é, e deixe-me escolher uma palavra precisa, rascante. Até chegarmos à faixa de número cinco, Gigantic, o álbum deixa a impressão de ter sido produzido durante um colapso nervoso de Frank Black (naquela época, ainda Black Francis). Nesse contexto, Where is my Mind? oferece um certo alívio: uma canção enlouquecedora, mas maquinada num formato pop. O contraste provocado pela simples disposição daquela faixa entre duas estranhezas (River Euphrates e Cactus) era uma das graças do disco — que, obviamente, não é extraordinário apenas por causa desse detalhe.

Dito isso, bate um desânimo quando percebo a forma tolinha como o Tribes se apropria de uma faixa que, muito possivelmente, eles admiram tanto: We were Children, além de não provocar nenhuma tensão dentro do disco, é apenas um single eficiente entre 10 outros. Os Pixies são tratados — e não pela primeira vez — como uma daquelas estampas bacanas que se gruda na mochila para impressionar quem entende mais de música que você. A faixa resume o que noto como o maior problema do disco: as referências (e inclua aí David Bowie, The Killers, Babyshambles, Arctic Monkeys, Girls) são tratadas como zonas de conforto (já testadas e aprovadas pelos jornalistas que vão elogiar o disco) — e, para não incomodar ninguém, despidas da força, das particularidades originais. É um remake que “funciona”.

Não sei ainda o que é o som do Tribes, e talvez nem eles saibam. Para a NME, o choque de “suavidade e agressividade”, de “glam e grunge”, é uma característica a ser elogiada. Nos meus ouvidos, soa simplesmente como um caso de identidade indefinida: um disco nem tão suave, nem tão agressivo — mas estagnado num meio-termo economicamente viável (o tema do disco é: o desespero de uma gravadora europeia em tempo de crise econômica) —, nem isso, nem aquilo. Talvez tudo ao mesmo tempo. Eclético, digamos. Cheio de (repito) faixas imediatamente adoráveis (Sappho, por exemplo: que single para festinhas de rock! E Bad Apple soa tão dócil), mas que se instala num feixe oportunista e mecânico do rock inglês que me entedia profundamente.

Vai entrar em listas de melhores do ano? Acho que sim. E, depois, os chapas da banda vão desafrouxar gravatas e comemorar no happy hour da firma. Well done.

Primeiro disco do Tribes. 11 faixas, com produção de Mike Crossey. Lançamento Island Records. C