Anos 90

Superoito express (41)

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Nesta edição: 1, 2, 3, 4, 5 machos solitários (e foi por acaso – não é incrível?)

Within and without | Washed Out | 7.5

Já não alertamos que é perigoso inflar as nossas expectativas? A Sub Pop, que lança o long-player de estreia do Washed Out, admite que está entusiasmada com o disco num nível quase insuportável. A onda de elogios para este projeto de Ernest Greene, o novo prodígio de Atlanta, deve atingir escala oceânica nas próximas semanas – quanto sites que sempre apostaram no rapaz tentarão nos convencer de que Within and without é a última ilhota verdejante do Atlântico. A Spinmandou ver: “Chillwave para quem não aguenta mais chillwave”. Uau.

Ouvir o disco, nesse contexto de euforia, parece até dispensável. Comigo aconteceu o contrário: ouvi o disco quase por acaso, sem atentar muito para todo esse foreplay, e me interessei por ele sem grande empolgação. Digamos que eu tenha admirado a atmosfera aquática, fluida, que Greene cria para envolver as composições – mas não consegui notar uma identidade forte neste disco, que me faça defendê-lo como algo verdadeiramente especial. Eu confundiria algumas dessas faixas com as do Toro Y Moi, com as do Memory Tapes (leia textinho a seguir). Talvez por isso o rótulo chillwave tenha colado tão bem a esses projetos: é que, em muitos momentos, eles acabam soando como exercícios de gênero.

O sujeito pode ser um diretor competentíssimo de fitas policiais. Mas daí ser um Michael Mann… Greene é sim competente, se aproveita do formato conciso que a Sub Pop tanto preza e se alia a um produtor experiente sem se deixar asfixiar por ele (o homem é Ben Allen, de Merriweather Post Pavillion, do Animal Collective, e Halcyon digest, do Deerhunter). Os momentos mais extrovertidos são os que mais me fisgam – o romantismo sem-medo-de-ser-passional de Amor Fati, acima de todas -, mas nota-se que a praia do Washed Out é uma introspecção por vezes etérea, vaporosa, mas sempre cheia de sutilezas: um estilo que Greene defende com convicção e rigor; qualidades que serão recompensadas pela torcida.  

Player piano | Memory Tapes | 7.5

Desconfio que o LP de Dayve Hawk não será recebido com tanta euforia e condescendência quanto o do Washed Out (até porque o Memory Tapes lança pela Carpark Records, selo minúsculo em comparação à Sub Pop), mas acredito que estejam num mesmo patamar e que até se complementem – e não me canso de ouvir um logo após o outro. Enquanto o Washed Out vai depurando os traços mais visíveis da chillwave, o Memory Tapes trata de pressionar os limites do gênero – de tal forma que Player piano acaba sabotando nossas expectativas. As faixas mais surpreendentes são também as mais dóceis, que chegam a lembrar o pop eletrônico de um Postal Service, por exemplo (ouça Wait in the dark e Sun hits). As colagens do disco anterior dão espaço para composições mais diretas, quase corriqueiras, mas não dá para dizer que este disco tente o caminho mais fácil: Hawk arrisca para tentar encontrar um sotaque, uma voz reconhecível, uma marca. Não acredito que tenha chegado lá, mas a aventura tem lá seu encanto (e o finalzinho de Worries é amor para o inverno inteiro, não dá pra negar). 

Dedication | Zomby | 7

Deixando o distrito da chillwave rumo às quebradas do dubstep (ou algum lugar próximo dali), o novo do produtor inglês nos recebe com um temperamento quase oposto à ternura triste do Washed Out e do Memory Tapes: o tecido aqui é áspero, o clima soa apreensivo – estamos presos num dia chuvoso. A faixa-guia é Things fall apart, que praticamente resume a ambiência pós-apocalíptica do disco: não são poucas as coisas que desmoronam. Por mais que eu tenha dificuldades sérias com o dubstep mais arredio e single-minded (a exceção é James Blake, mas acredito que ele não se enquadre completamente no gênero), Dedication não me parece uma jornada aborrecida noite adentro. Ainda que não fuja da premissa do disco, que poderia ser usado como trilha para um filme de serial killer do David Fincher, Zomby vai abrindo vielas soturnas a cada faixa – e as melhores, como Digital rain e Mozaik, ficam rondando o nosso cérebro horas depois da audição, feito resíduo de pesadelo. Atormentam.  

Goodbye bread | Ty Segall | 6.5

Para quem conhece Ty Segall só agora (e é meu caso), Goodbye bread pode reavivar as lembranças da fase mais doméstica de um Elliott Smith, de um Guided By Voices. Está certo que essa aparência de despojamento se transformou num clichê do indie rock, mas existe algo neste disco que nos deixa com a certeza de que ele foi gravado quase por acidente, em meio às atividades cotidianas do compositor (a canção que resume tudo, aliás, se chama Comfortable home). E também soa caseiro até pela forma meio despreocupada, às vezes óbvia, como ele vai perfilando as influências de Segall – e Fine, o desfecho, acaba saindo homenagem pra lá de digna à fase solo de John Lennon (ainda que a letra otimista pareça ter sido escrita por McCartney). No meio do caminho, psicodelia lavada a seco: My head explodes e I can’t feel it são canções enormes armazenadas sem muito cuidado, em pequenos recipientes. Tá certo: é só o começo de uma amizade.   

Demolished thoughts | Thurston Moore | 6

Pensando bem, e que tolice a minha!, nos anos 90 eu acompanhava os episódios da música pop como quem assistia a um filmezinho maniqueísta – grunge versus punk-pop, Nirvana contra Michael Jackson, Radiohead infinitamente mais legítimo que Muse. Nesse script, o Sonic Youth me parecia uma banda na contracorrente da década, e minha impressão era de que eles reagiam a absolutamente tudo o que era criado na época. Daí meu espanto ao ouvir um disco de Thurston Moore que não apenas tem a produção de um dos artistas-símbolo dos anos 90 (Beck Hansen, o mascote do pós-tudo) como não faz nadinha para destoar daquilo que a gente espera de um álbum-padrão de singer/songwriter. Polido, “delicado”, franco, direto (e inclua aí qualquer outro adjetivo que você aplicaria a um disco solo do Richard Ashcroft), Demolished thoughts é uma das maiores surpresas do ano. E tem baladas tocantes que machucam de verdade, como Illuminate. Atenção ao contraste brutal entre a interpretação distanciada de Moore e melodias tão afetuosas. Pena que, depois da terceira faixa, o álbum sinta a falta de canções mais duradouras – metade do disco parece Sonic Youth unplugged, faixas conhecidas num modelito diferente. E aí, meu filho, não há Beck Hansen que dê conserto.

Os discos da minha vida (39)

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Hoje, na incrível novela dos 100 discos que levaram a minha vida ao delírio: sexo, violência, solidão, horror, êxtase, agonia, manhãs de domingo e o penteado do demônio. Entre outras atrações imperdíveis.

Ainda falta um tantinho para que este ranking chegue ao fim (para efeito de comparação: se estivessemos numa viagem de carro entre Rio de Janeiro e Brasília, este post seria Paracatu). Mas toda hora é hora de lembrar a vocês que esta é uma lista absolutamente pessoal. Ela obedece a critérios obscuros (e obtusos) e é de inteira responsabilidade de Tiago Superoito, o senhor soberano deste latifúndio. Todas as reclamações devem ser feitas diretamente a ele, portanto. E na caixa de comentários logo ali embaixo.

O cardápio do dia é o seguinte: um disco que já se tornou clássico (mas é daqueles clássicos que ainda mordem, atenção com ele!) e outro que vai acabar se tornando uma referência, um cânone, um álbum grandalhão daqueles que você guarda para mostrar aos bisnetos  – isso, é claro, se deus for justo com os homens de bem.

À colheita, irmãos!

024 | The Velvet Underground & Nico | The Velvet Underground | 1967 | download

O primeiro disco do Velvet Underground me acertou primeiro no peito e depois no cérebro. Hoje tenho certeza de que existe algo errado nessa ordem (é um disquinho de nariz empinado, certo?), mas foi o que aconteceu. Eu tinha 14 para 15 anos quando Sunday morning caiu no meu aparelho de som e ficou ali, deitada de monoquini, torrando na brisa. É uma canção tão adorável que, por muito tempo, evitei ouvir o restante do disco. Só depois, alguns meses depois (nota do revisor: na época Tiago tratava os discos com um pouco mais de discplicência, sem respeitar a ordem das faixas ou as intenções do autor; talvez ele deva recuperar o hábito, em minha opinião), percebi que as outras faixas tratavam de temas um pouco mais angulosos. E havia definitivamente algo macabro em Venus in furs, mas eu não sabia definir o conteúdo perturbador da canção. O disco acabou me seguindo por muito tempo, e me segue até hoje. É o meu favorito do Velvet, talvez por combinar com harmonia o delicado e o terrível, amor e morte. É daqueles álbuns que podemos começar a ouvir aos 10 anos de idade e continuar até o dia em que nossos dentes começarem a cair. Aposto que só vou entender The black angel’s death song quando eu fizer oitentinha. Top 3: Sunday morning, Venus in furs, I’ll be your mirror

023 | Odelay | Beck | 1996 | download

Um disco de adolescência. Ah, meus 14 anos! Nada de muito interessante acontecia. Talvez por isso eu tenha me apegado a álbuns superhiperativos, rios de ideias escorrendo pelas bordas. Odelay era a mais querida dessas jukeboxes: Beck Hansen era meu ídolo porque parecia possível ser alguém como ele. Não era um rockstar nos moldes tradicionais (e, aparentemente, ele também desenvolvia paixões platônicas as mais loucas) e sempre me soou mais como um nerd no controle de um painel preenchido por botões coloridos. De qualquer forma, ele sabia operar a maquininha como um jedi: quase tudo o que sei sobre colagem pós-pós-moderna de sons e ideias está contido aqui, em Odelay (depois, é claro, conheci Prince e as coisas começaram a ficar mais complicadas). Where it’s at é a obra-prima do sujeito, sem concorrentes à altura (sorry, haters). Ainda não fizeram nada nem remotamente parecido a The new pollution. Mas não vamos esquecer que é um disco também emocionante, e de um jeito mundano: ouça Jack-ass, uma das canções que aqueceram e adoçaram a minha ó-tão-friorenta juventude. Bateu até um tiquinho de saudade, viu. Top 3: Where it’s at, The new pollution, Jack-ass.

Depois do pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking

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Os discos da minha vida (35)

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A saga dos 100 discos mais faiscantes da minha vida chega a um episódio que é pura apoteose e delírio, rapaziada. Um fogaréu tão intenso que, ao fim do post, só sobreviverão as baratas e – é claro – este ranking sentimental.

Resolvi o seguinte: mesmo que este blog pendure o All Star (é provável), esta odisseia aqui só vai terminar quando chegar ao fim. Combinado? Combinado.

Puxe a cadeira, portanto. Tome um suco de maracujá, um antisiolítico, escreva uma carta longa para a namorada, faça planos para os netinhos, vá grampeando todas as contas de luz e água dos últimos seis meses, ocupe-se. A atividade recreativa não termina cedo.

A partir de agora, todos os discos da lista me levam de volta à minha adolescência e, por isso, vão me fazer chorar feito um bebezinho. Vou sofrer. Vai ter mágoa. Vai ter saudade. Vai ter lembrança cruel. Fica, sensatez. Bróder, veja isto: não consigo ouvir vários desses discos (eles abrem o baú dos meus sentimentos), quiçá escrever sobre eles!

Eu deveria ficar bem quieto. Bico fechado. Ou pedir para outras pessoas escreverem parágrafos distanciados, técnicos. Ou recortar e colar trechos do Wikipedia e do All Music Guide. Ou jogar vinte clichês no liquidificador aqui de casa e postar a vitamina. Não sei. É tudo muito estranho. É tudo muito abstrato. É tudo muito louco, gente.

Certo, sem piadinhas. Vamos aos discos, antes que eu entregue os pontos, perca a cabeça e mate um porco (o download é obrigatório, ok?).

032 | Odessey and oracle | The Zombies | 1968 | download

Eu sei, eu entendo: os seus amigos não conhecem esta obra-prima do Zombies porque ela não paralisou o mundo com surpresas instantâneas (caso de Sgt. Peppers) nem entrou para o livro sagrado dos discos intocáveis, nossos cânones (caso de Pet sounds). Mas é prudente aceitar o óbvio: isto aqui não quer ser uma revolução, mas uma síntese de tudo o que conhecemos por psicodelia britânica, em canções contagiosas, mas também delicadas, que vão se abrindo e nos envenenando feito flores exóticas (é uma metáfora kitsch, ok, tá certo, mas ninguém procura comedimento no pop barroco). Com apenas 35 minutos, e faixas que obrigam reprises infinitas, foi um dos discos que ouvi mais vezes. Uma obsessão que me transformou num fã de rock para sempre frustrado: procuro discos tão extravagantes e bonitos quanto este, quase nunca os encontro. Top 3: A rose for Emily, Time of the season, Friends of mine.

031 | Wowee zowee | Pavement | 1995 | download

O Pavement gravou discos BEM melhores, não gravou? Crooked rain, crooked rain, de 1994, é todo perfeitinho. Slanted and enchanted, de 1992, certamente sai como o mais importante. Mas o meu preferido é Wowee zowee, o “álbum branco” de uma banda arteira demais para levar a sério a ideia de gravar um “álbum branco”. A palavra que mais se usou no lançamento do disco foi ‘ecletismo’. Eu prefiro outra: ‘excessos’. Excessos saudáveis, diga-se. Com acenos a Frank Zappa, um quê de country rock e outro de hardcore, a banda rejeita se enquadrar a qualquer gênero (indie rock, ã-hã) e lança como single uma faixa que, nos anos 70, seria tachada de soft rock (Rattled by the rush). A revista Rolling Stone deu nota baixa. Enquanto isso, eu adotava o CD como uma espécie de segredo perverso, que pouca gente entenderia. Uma piada interna. E assim ficou. Top 3: Father to a sister of tought, Grounded, We dance.

Os discos da minha vida (24)

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Neste episódio da saga dos 100 discos que atazanaram a minha vida, meu voto é pela economia de parágrafos: vocês sabem como são as regras deste jogo, vocês sabem que as regras deste jogo são muito subjetivas, vocês sabem que este ranking não segue uma lógica muito clara e vocês sabem que somos grãos de areia num universo grandalhão e infinitamente misterioso.

Resumindo: a falta de sentido tem o seu encanto.

Só preciso lembrar-lhes, antes de partir para os álbuns da semana (extraordinários, juro), que é o grande lance desta série interminável de post é clicar naquela palavrinha sublinhada em azul e fazer o download de discos que deixarão a sua discoteca muito parecida com a minha. Não sei se há vantagem nisso, mas fico feliz com a ideia.

054 | Murmur | R.E.M. | 1983 | download

O primeiro LP do R.E.M. ainda soa a expressão mais cristalina da banda. As melodias vêm carregadas de uma intensidade quase bruta, que contrasta com uma poesia sempre engenhosa, enigmática. Uma tipo sofisticado de rusticidade que muitos tentaram copiar, mas cujo efeitos poucos conseguiram reproduzir (a tentativa mais recente: The king is dead, do Decemberists). Nos álbuns seguintes, o R.E.M. se tornaria mais “inconsequente” – com resultados às vezes deslumbrantes, mas sem essa dedicação obsessiva a uma ideia musical. Uma das obras-primas dos anos 80, Murmur retrata uma  juventude precocemente madura – uma banda apaixonada por um estilo que soava simultaneamente novo e clássico, original e velho. E a história estava só no começo. Top 3: Talk about the passion, Pilgrimage, Sitting still.

053 | Parklife | Blur | 1994 | download

Um álbum pop que soa como um daqueles livros infantis que tentam nos surpreender a cada dobradura: se o rock britânico dos anos 90 precisava de monumento, encontrou neste playground do Blur. Mais grandioso que isso:  neste voo panorâmico sobre a ilha, Damon Albarn usa os standards do pop inglês à serviço de uma longa crônica sobre a vida de meninos e meninas anônimos que se aprontam para o feriado, sonham com a América, temem a velhice, sofrem de amor e caminham em ruas enevoadas. Pessoas comuns (so many people!) – cujas histórias são narradas com o misto de euforia e melancolia, excitação e a certeza dolorida de que, apesar dos pequenos prazeres que provoca, o cotidiano não vai mudar. Top 3: To the end, End of a century, Parklife.

Os discos da minha vida (20)

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Semana delicadíssima para a saga dos 100 discos que estouraram o champanhe da minha vida: entre as festas de Natal e ano-novo, muita gente bronzeada está tirando férias, viajando, curtindo a praia, desligando computadores, afogando pen-drives e respirando ar puro. O que é triste: este blog, que costuma receber cinco ou seis visitas diárias, já se sente muito só.

Os que saíram pra curtir a vida vão perder um capítulo especialmente inspirado desta série interminável de posts. Vale por um dia inteiro de sol, mate leão e sanduíche natural (ok, não vale tudo isso, mas vamos fazer de conta que sim).

Por coincidência (e tudo aqui é mera coincidência, reparem), dois discos que me pegaram mais ou menos na mesma época, quando eu era um garoto de 14 anos que amava os Simpsons e a revista Rolling Stone.

Sim, eu vestia camisas de flanela meio pobretonas, adquiridas na C&A. Mas as coisas não eram tão estereotipadas assim (e o outro disco do post mostra que havia algo de complexo naquele tempo bom que não volta nunca mais).

062 | In utero | Nirvana | 1993 | download

A primeira audição foi um terremoto. Minha irmã trancou a porta do quarto, minha mãe avisou que eu estava passando dos limites e meu padrasto me chamou para uma conversinha. Eu mesmo demorei para sobreviver a um disco que soava como uma cirurgia dentária (sem anestesia). Era uma época em que as bandas de rock disputavam para ver quem gravaria o álbum mais enfezado. Kurt Cobain, mais uma vez, venceu. In utero registra com secura (saudades de você, Steve Albini!) o pessimismo dos depressivos, a agonia dos suicidas, a aflição dos obsessivos. Síndromes de uma geração. “A fúria adolescente rendeu muito bem, agora estou entediado e velho”, Cobain admitiu, aos 26. Era como nos sentíamos: velhos, e cedo demais. Top 3: Heart-shaped box, Serve the servants, Pennyroyal tea.

061 | Paul’s boutique | Beastie Boys | 1989 | download

O disco que adaptou o Beastie Boys aos anos 90 (Check your heads, de 1992) me levou a este álbum de 1989 que é, talvez sem chance de discussão, o manifesto do trio por uma colagem pop sem freios ou vergonha na cara. O medley final, B-boy Bouillabaisse, cria uma conexão entre o hip-hop dos anos 1980 e o lado B de Abbey Road, dos Beatles. Por que não? Produzido sem os padrões de polidez da época (saudades de vocês, Dust Brothers!), o disco é uma confusão de samplers e hinos adolescentes que primeiro nos sufoca e depois nos deslumbra. Uma prévia para Odelay, do Beck, e para todos os outros discos pop dos anos 1990 e 2000 que fizeram da reciclagem (e do contrabando de ideias) uma arte. Top 3: Hey ladies, Shake your rump, Shadrach.

Os discos da minha vida (19)

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Ninguém pediu, mas cá está ela. Depois de uma pausa mais ou menos longa, voltamos a sintonizar a saga dos 100 discos que sonorizaram a minha vida.

Notícia triste: o fim não está próximo.

Explicando as regras do jogo, mais uma vez: este é um ranking totalmente pessoal, cheio de idiossincrasias, serve tão somente para que você entenda quem eu sou. Há, por exemplo, mais discos dos anos 1990 do que de qualquer outra década — foi a época em que comecei a ouvir discos compulsivamente. Um lista que não faz muito sentido, entende? Que não ordena o caos. Que não orienta nada. Por isso, liberte-se da lógica e deixe a vibração fluir.

Neste capítulo, dois discos que não têm nada em comum além do fato de que voltei a eles recentemente, e com muito entusiasmo. Daí que confirmei o seguinte: além de importantíssimos para a minha vida, são obras-primas que poderiam estar em qualquer lista séria de grandes discos que você precisa ouvir antes de se mandar para a Lua.

Não que alguém esteja pensando em se mandar para a Lua, mas é um plano interessante.

064 | Ladies and gentlemen we are floating in space | Spiritualized | 1997 | download

Foi lançado na Inglaterra exatamente junto com Ok computer (16 de junho de 1997, anote no calendário dos Dias Que Abalaram a Música), só consegui ouvir muitos meses depois, quando o CD desembarcou na loja de importados. Acabei construindo uma aura em torno dele que a primeira audição quase destruiu. Quase. Talvez um garoto de 17 anos não saiba (ou não queira) entender o quão desesperado é o desejo de Jason Pierce por “um pouco de amor para mandar a dor embora”. Um pedido de ajuda, sim. Mas também um dos álbuns de rock mais imponentes da minha adolescência, que transportou o rock britânico dos anos 1990 a outras galáxias e nos deixou flutuando no ar. Top 3: Stay with me, Ladies and gentlemen we are floating in space, Electricity.

063 | American beauty | Grateful Dead | 1970 | download

Um dos discos mais queridos (e mais amáveis) do Grateful Dead talvez não represente tão bem o alcance da banda (Workingman’s dead, o anterior, talvez seja ainda mais redondo), mas é o meu preferido. A começar pela faixa de abertura, Box of rain, que contém tudo o que me atrai no country rock (e não é só um gênero musical, certo? É um estilo de vida). Um daqueles discos em que ouço o som de uma banda totalmente feliz com o som que consegue produzir. Dá um pouco de inveja: todas as faixas importam, e elas acabam retratando o clima de uma época sem que isso pareça um fardo, uma missão pesada demais. A perfeição pode ser doce. Top 3: Box of rain, Sugar Magnolia, Truckin.

Os discos da minha vida (16)

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A saga dos 100 discos que aterrorizaram a minha vida chega a um capítulo especialmente tortuoso, com álbuns mui tensos sobre aquele tema que, vocês sabem, nem curto muito: o amor, meus senhores, o amor.

Antes de abrirmos o pacote de torturas sentimentais, devo lembrar-lhes das regras do jogo: este é um ranking absolutamente pessoal. E que, por isso, parecerá um tanto incoerente e injusto aos olhos de quem se preocupa com coerência e justiça. Fica a dica: não se preocupem tanto, pelo menos não neste caso. É só uma lista, e prometo que ela vai fazer sentido no fim (pelo menos pra mim).

Mentira: não prometo nada. Este blog não promete nada. Neste blog, existe um cacto onde deveria haver um coração.

070 | Portishead | Portishead | 1997 | download

A vida em preto e branco. A vida na névoa. A vida num quarto trancado. E tudo o mais. Vocês preferem o primeiro e estão certíssimos, mas o segundo disco do Portishead é aquele que congela de forma mais assustadora a sensação de uma vida a perigo. Nada de paixões alegres, primaveris: o que se ouve nessas canções é o lamento de romances perdidos, das chances abandonadas, da posse e do medo de ficar só. Beth Gibbons interpreta a personagem principal deste drama bergmaniano com absoluta convicção (a crooner dos nossos pesadelos). Geoff Barrow e Adrian Utley criam a mise-en-scene de uma fita de horror gravada com fitas velhas de VHS. Fotografia granulada, sustos cruéis, álbuns arranhados. E, no fim da projeção, um enigma: como pode um disco tão coeso conter canções que soariam inesquecíveis em qualquer outra narrativa? Top 3: Over, Only you, All mine

069 | 69 love songs | The Magnetic Fields | 1999 | download

O disco triplo do Magnetic Fields é um inventário sobre o amor que, apesar da ambição monumental, soa irônico e caseiro – como um bom álbum de indie rock do fim dos anos 90. A diferença é que nenhuma banda de indie rock americana do fim dos anos 90 contou com um auteur tão destemido quanto Stephin Merrit – o homem que materializava ideias absurdas, ridículas, impossíveis. Eis um projeto extremamente detalhista, obsessivo, que dá a cada faixa um sentido, um conceito muito específico – conceitos esses que remete graciosamente a um ou outro gênero musical, a diferentes estados de espírito, a períodos da música americana, a amores saudáveis e doentios, aos sonhos e à estupidez dos românticos. O tipo de projeto louco que só se lança uma vez na vida, e como quem atira no breu: para nossa sorte, Merrit nos metralha com pequenas canções que amam demaisTop 3:  I don’t want to get over you, I shatter, Absolutely cuckoo.