Anos 60

Os discos da minha vida (38)

Postado em Atualizado em

Esta semana, a saga dos 100 discos que zoaram a minha vida chega a uma edição apocalíptica. Melhor: revolucionária. Antes disso: incendiária. Antes ainda: lancinante. 

Um contém os diabinhos frios da minha adolescência, o outro guarda um pedaço importante da minha infância lá dentro. Dois discos que, acima de tudo, me ensinaram o seguinte: tenho todo o direito de criar expectativas quase insuportáveis para a música pop; ela, a música pop, quase sempre me surpreende.

Dois álbuns de invenção, se é que podemos catalogá-los dessa forma. Dois álbuns que pedem para que criemos novas formas de catalogar álbuns. Um disco que abriu (tardiamente) os anos 1960, um que iniciou (pontualmente) os anos 2000. Duas obras-primas.

Muita gente boa (e muita gente ruim) já escreveu vários parágrafos bons (e vários parágrafos ruins) sobre esses discos, então vou me esquivar da responsabilidade e aproveitar este espaço para contar historinhas sobre a minha vida. Dica: não leve estes textos (e este ranking) muito a sério, ok? São apenas textos. E isto é apenas um ranking (e um ranking sem discos do Novos Baianos).

026 | Kid A | Radiohead | 2000 | download

Lembro que foi o primeiro disco que baixei via web, mas a conexão discada lá de casa era tão lenta que demorei mais ou menos uma semana para organizar todas as faixas numa pastinha virtual alaranjada. Quando fui ouvir a coleção, o espanto foi tão grande que eu não sabia quem culpar: se a banda, se o disco, se a conexão discada, se as minhas expectativas, se a web (como um todo). Admito que, cutucando aquela versão aparentemente inacabada de um disco aguardadíssimo, imaginei ter caído numa gozação. Esperei o lançamento do CD, comprei a bolachinha REAL e, bem, e nada: a internet nem sempre mentia (lição duríssima, aliás) e o som era mesmo quebradiço, às vezes bizarro, a trilha sonora vacilante para a era do gelo (e não falo em desenhos animados fofos, mas no apocalipse). Mais do que um álbum de transição, é uma tomada de posição: muito difícil de ser aceita de imediato (principalmente por um fã de Ok computer, meu caso), mas que nos empurra lentamente para uma paisagem de onde não conseguimos nos desvencilhar. Talvez um ambiente glacial, repugnante, mais pessimista do que qualquer livro do Philip K. Dick; também fascinante. Dali pra frente, aprendi rapidinho a baixar mp3. E tudo ficou nos lugares certos. Top 3: Everything in its right place, Morning bell, Optimistic.

025 | Rubber soul | The Beatles | 1965 | download

Meu pai, que nem sei muito bem onde está, gravou este disco para mim numa fita-cassete. Eu tinha acho que 10 anos, talvez um pouco menos. Lembro que era período de férias e eu detestava ficar desocupado, de bobeira na casa do meu velho, deitado no sofá, lançando osso pro cachorro, dormindo enquanto passava filme dublado na tevê. Antes de amar os Beatles, eles serviam para que eu preenchesse meu tempo. E Rubber soul é um dos discos que me levam àquelas tardes tão desalmadas: era como se não existisse mais vida alguma além daquela que saía do meu walkman. Ainda me impressiono como essas músicas acabaram se impregnando nas minhas lembranças, de tal forma que hoje choro quando ouço Drive my car e You won’t see me. Passei muito tempo negligenciando este disco, o trocando por outros (Revolver, por exemplo). Mas agora chega: Rubber soul, ainda que desperte memórias por vezes lamentáveis, até muito tediosas, guarda algo da minha infância que outros discos dos Beatles não têm. Talvez a sensação de que havia um playground lá fora enquanto eu estava preso lá dentro. Para minha sorte, havia um momento em que as férias com meu pai acabavam e, finalmente, eu apertava o stop. Top 3: Drive my car, You won’t see me, I’m looking through you.

Depois do pulo, confira os discos que já apareceram neste ranking.

Leia o resto deste post »

Os discos da minha vida (35)

Postado em Atualizado em

A saga dos 100 discos mais faiscantes da minha vida chega a um episódio que é pura apoteose e delírio, rapaziada. Um fogaréu tão intenso que, ao fim do post, só sobreviverão as baratas e – é claro – este ranking sentimental.

Resolvi o seguinte: mesmo que este blog pendure o All Star (é provável), esta odisseia aqui só vai terminar quando chegar ao fim. Combinado? Combinado.

Puxe a cadeira, portanto. Tome um suco de maracujá, um antisiolítico, escreva uma carta longa para a namorada, faça planos para os netinhos, vá grampeando todas as contas de luz e água dos últimos seis meses, ocupe-se. A atividade recreativa não termina cedo.

A partir de agora, todos os discos da lista me levam de volta à minha adolescência e, por isso, vão me fazer chorar feito um bebezinho. Vou sofrer. Vai ter mágoa. Vai ter saudade. Vai ter lembrança cruel. Fica, sensatez. Bróder, veja isto: não consigo ouvir vários desses discos (eles abrem o baú dos meus sentimentos), quiçá escrever sobre eles!

Eu deveria ficar bem quieto. Bico fechado. Ou pedir para outras pessoas escreverem parágrafos distanciados, técnicos. Ou recortar e colar trechos do Wikipedia e do All Music Guide. Ou jogar vinte clichês no liquidificador aqui de casa e postar a vitamina. Não sei. É tudo muito estranho. É tudo muito abstrato. É tudo muito louco, gente.

Certo, sem piadinhas. Vamos aos discos, antes que eu entregue os pontos, perca a cabeça e mate um porco (o download é obrigatório, ok?).

032 | Odessey and oracle | The Zombies | 1968 | download

Eu sei, eu entendo: os seus amigos não conhecem esta obra-prima do Zombies porque ela não paralisou o mundo com surpresas instantâneas (caso de Sgt. Peppers) nem entrou para o livro sagrado dos discos intocáveis, nossos cânones (caso de Pet sounds). Mas é prudente aceitar o óbvio: isto aqui não quer ser uma revolução, mas uma síntese de tudo o que conhecemos por psicodelia britânica, em canções contagiosas, mas também delicadas, que vão se abrindo e nos envenenando feito flores exóticas (é uma metáfora kitsch, ok, tá certo, mas ninguém procura comedimento no pop barroco). Com apenas 35 minutos, e faixas que obrigam reprises infinitas, foi um dos discos que ouvi mais vezes. Uma obsessão que me transformou num fã de rock para sempre frustrado: procuro discos tão extravagantes e bonitos quanto este, quase nunca os encontro. Top 3: A rose for Emily, Time of the season, Friends of mine.

031 | Wowee zowee | Pavement | 1995 | download

O Pavement gravou discos BEM melhores, não gravou? Crooked rain, crooked rain, de 1994, é todo perfeitinho. Slanted and enchanted, de 1992, certamente sai como o mais importante. Mas o meu preferido é Wowee zowee, o “álbum branco” de uma banda arteira demais para levar a sério a ideia de gravar um “álbum branco”. A palavra que mais se usou no lançamento do disco foi ‘ecletismo’. Eu prefiro outra: ‘excessos’. Excessos saudáveis, diga-se. Com acenos a Frank Zappa, um quê de country rock e outro de hardcore, a banda rejeita se enquadrar a qualquer gênero (indie rock, ã-hã) e lança como single uma faixa que, nos anos 70, seria tachada de soft rock (Rattled by the rush). A revista Rolling Stone deu nota baixa. Enquanto isso, eu adotava o CD como uma espécie de segredo perverso, que pouca gente entenderia. Uma piada interna. E assim ficou. Top 3: Father to a sister of tought, Grounded, We dance.

Os discos da minha vida (30)

Postado em Atualizado em

É carnaval, afinal: a saga dos 100 discos que jogaram serpentina na minha vida apresenta dois clássicos para ouvir antes da quarta-feira de cinzas.

O blog está um pouco combalido, coitado, numa eterna ressaca de viver, mas este ranking não nega fogo. É muito chão, ó folião. Muito samba, suor e download.

Se este blog fosse uma escola do grupo especial, estes discos desfilariam na velha guarda, ensinando à ala dos novatos como é que se dança.

O download é obrigatório. Minto: não é obrigatório nada, já que obviamente vocês conhecem os disquinhos como a palma da mão.

E perdoem o desânimo. Este post foi escrito quando o trio elétrico passou na poça de lama e deu um banho no sujeito que estava ali no calçamento. O sujeito era eu. Em outras palavras: muito trabalho e pouca diversão fazem do Tiago um blogueiro sem paixão.

E chega de concentração.

042 | Younger than yesterday | The Byrds | 1967 | download

“Então você quer ser um astro de rock ‘n’ roll?”, provoca o Byrds, logo na faixa de abertura deste disco. Antes de inventar o country rock (e Sweetheart of the rodeo é desses discos indispensáveis), a banda de Jim McGuinn e David Crosby ajudaram para criar a ideia de juventude que fez dos anos 60 uma década fundamental para a música pop. Genial já no título, Younger than yesterday é todo dedicado a essa mescla de ingenuidade e atrevimento, como se dissesse adeus a um tempo que estava prestes a mudar. No lado B, a versão para My back pages (Bob Dylan) funciona como uma declaração de intenções: uma banda de rock um tanto saudosista, mas que nada pode fazer além de olhar para frente — quase por acaso, ia deixando discos extraordinários no meio do caminho. Top 3: Have you seen her face, My back pages, So you want to be a rock ‘n’ roll star

041 | Exile on Main St. | Rolling Stones | 1972 | download

Ninguém deve entrar na discografia do Rolling Stones por esta porta aqui, mas foi o que aconteceu comigo. Não me arrependo, mas audições compulsivas de Exile on Main St. podem lançar uma luz dura, cruel, sobre os outros álbuns da banda. Seria melhor tratamos como uma espécie de hors concours: nas primeiras audições, soava como pura selvageria — a longa jornada de um grande grupo de rock rumo à selva do blues. Literalmente: soul music. Depois, já conhecendo a história do disco, percebi que ele vai muito além de uma homenagem a certas tradições americanas. Este mamute registra os humores de uma banda que é sim gigantesca, por vezes caótica, e, por isso tudo, se revela por completo quando numa sala espaçosa, com tempo livre, dezenas de guitarras coloridas para brincar. Um retrato ampliado, este aqui. Top 3: Shine a light, Tumbling dice, Rocks off.

Os discos da minha vida (28)

Postado em Atualizado em

Sem tempo para os 100 discos, meus amigos. Escrevo este post enquanto devoro um prato de macarrão, telefono para minha mãe, organizo as contas do mês e preparo a lista de compras (supermercados congelam a minha alma). Parece simples. Não é.

Ainda assim, apesar de tudo, resistindo a chuvas e terremotos, cá está mais um episódio da saga dos álbuns que sequelaram a minha vida. Queimando pneus a 120 por hora.

Outro dia eu estava pensando em, depois deste ranking (que só deve terminar em 2020, mas não tenho pressa),  criar uma lista também muito pessoal com os 100 filmes que eu levaria para uma videoteca secreta. Mas aí pensei: será que compensa? Será que eu mereço? Toda essa batalha. Toda essa epopeia. Todo esse suor. Todo esse drama. Todas essas piadinhas infames. Não, não, talvez não.

Me afogo em trabalho e aí percebo que minha vida não é tão espaçosa quanto imagino. Não é furgão; é fusca. No mais, talvez eu tenha que pisar o freio e ficar parado no acostamento um tempinho, admirando a paisagem.

Enquanto isso não acontece, vamos à rotina.

Os álbuns de hoje representam duas vertentes desta lista. A dos discos que entraram na minha vida com um chutão na porta – impossível ignorá-los. E a dos discos que me ensinaram quase tudo o que sei sobre música pop.  Ambos fundamentais – e não sei se pra você também.

046 | Is this it | The Strokes | 2001 | download

Talvez tenha sido apenas um delírio coletivo, mas, quando Is this it foi lançado, soava como o melhor disco do mundo. Parecia tão primário e ao mesmo tempo tão irresistível – riffs e ruídos, verso e refrão -, e talvez por isso deixava a impressão de estarmos começando de novo. Esqueça todos os ídolos: o rock, no nosso rock (que, num surto de euforia, foi apelidado de novo rock), nascia ali. Com o passar do tempo, ficou até um tanto embaraçoso explicar por que este álbum tão sucinto, um resumo do pós-punk de Nova York (numa coleção de singles de dois, três minutos de duração) foi acolhido como um marco. Mas talvez devamos tomá-lo como o sintoma de um período muito específico – o início do século, o começo dos anos 00. Com o placar zerado, o Strokes entrou em cena como um bando de pioneiros. Posudos, estilosos, irônicos, ridículos. Nos tomaram pelo braço. E com eles nós dançamos como se fosse a primeira noite. Top 3Hard to explain, Last nite, Take it or leave it.

045 | The Who sell out | The Who | 1967 | download

Há, é claro, as gravações gigantescas, destemidas, ousadíssimas, que afirmam as possibilidades do álbum enquanto obra, enquanto conceito, enquanto aventura humana (e aí eu penso em Zaireeka, o disco quádruplo do Flaming Lips, que só consegui ouvir integralmente uma única vez, com a little help of my friends). Mas The Who sell out, apesar de ser geralmente incluído nesse Clube dos Grandes Álbuns (com maiúscula), tem uma história um pouco diferente: existe uma ideia forte que sustenta o projeto (soa como se transmitido por uma rádio pirata), mas o humor venenoso do grupo vai corroendo esse arcabouço até nos deixar confusos sobre as intenções do projeto. Autoparodia ou não, piada interna ou não, é um exemplo de que ambição nada tem a ver com sidudez: pode ser hilariante e prazeroso fazer um Álbum, principalmente se você tem à disposição algumas das canções mais saborosas dos anos 60. Top 3I can see for miles, I can’t reach you, Rael.

Os discos da minha vida (27)

Postado em Atualizado em

O capítulo de hoje da indomável saga dos 100 discos vai ao habitat de uma espécie perigosa: os discos aparentemente mansos sobre sentimentos selvagens.

Cuidado com eles.

Antes de escrever alguns garranchos sobre esses dois álbuns tortuosos – e extraordinários – preciso lembrar-lhes das regras deste ranking. Isto aqui é uma seleção absolutamente pessoal de discos que foram pontilhando alguns dos momentos mais importantes da minha vida. É isso e só isso.

Portanto, nada de vir reclamar que o disco X está muito atrás do disco Y, ou que o disco Z foi subestimado e que o disco K, ignorado. A brincadeira não tem nada a ver com isso. E, sem querer ser grosseiro, tem muito pouco a ver com você – ainda que eu recomende com força o download de desses álbuns, que continuam me emocionando ano após ano.

Muitos dos discos desta lista fazem parte do cânone da música pop. Vocês o conhecem ou ouviram falar sobre eles. Há uma parte desse ranking, no entanto, que correu pelas bordas dos top 10s e, na opinião deste blogueiro, merece um pouco da sua atenção, ó leitor. É o que acontece neste episódio de número 27. Um deles é o clássico. O outro é aquele que, num mundo perfeito, seria um clássico.

Não estamos num mundo perfeito, eu sei, mas este blog tem uma missão a cumprir.  

048 | Mighty Joe Moon | Grant Lee Buffalo | 1994 | download

Muito antes de integrar o elenco de Gilmore Girls e de gravar discos com alguma maquiagem pop, Grant-Lee Phillips era o homem dos falsetes infinitos, que parecia ter encontrado um atalho secreto para conectar a rusticidade do country rock com a sensualidade do glam. Fuzzy, da estreia, é a canção indie mais sexy dos anos 90 – mas é no segundo álbum que o som do Grant Lee Buffalo explode em milhares de cores numa tela gigante de Drive-in, sem a vergonha de nos seduzir com efeitos de estúdio e riffs que se lambuzam com as apelações do hard rock. Como os discos que Elliott Smith gravou para a Dreamworks, este também apresenta uma versão compacta, pontiaguda (talvez polida) de um estilo já totalmente pronto. Talvez não seja o melhor da banda, mas é aquele que esconderemos para sempre nos nossos armários, junto com os velhos gibis soturnos e as blusas de flanela: um disco perfeito para uma época que menosprezava discos perfeitos. Sugiro o seguinte: dane-se a época, fiquemos com o disco. Top 3: Mockingbirds, Rock of ages, Drag.    

047 | Astral weeks | Van Morrison | 1968 | download

Talvez o disco mais difícil da minha adolescência: não foi na primeira, nem na segunda, nem na terceira tentativa que finalmente consegui comprar o tíquete para a terra nebulosa – mágica, não duvide – de Van Morrison. É um dos álbuns mais importantes dos anos 60, principalmente por catalisar uma série de signos da contracultura: o lirismo beat, o folk à Dylan, o jazz e o blues, o misticismo riponga e a imagem de liberdade anexada à figura de um homem que inventa a própria bússola e assim desbrava o mundo, sem lenço ou documento. Mas (e vocês querem sinceridade, certo?) eu só consegui me afeiçoar por ele quando percebi que ele pode ser compreendido como uma das seções de O som e a fúria, de Faulkner: um narrador que, com uma voz muito particular, tenta dar conta de um ambiente. Admita: você nunca vai entender verdadeiramente o que Morrison quer dizer. Mas olhar o mundo através dessas canções ainda pode ser uma experiência fascinante. Top 3: Cyprus Avenue, Madame George, Astral Weeks.

Os discos da minha vida (23)

Postado em Atualizado em

Hoje este ranking é só saudade. A saga dos meus 100 discos inesquecíveis chega a uma episódio um tanto choroso, um tanto blue, mas nada grave: pode parecer incrível, mas voltei a ser um menino de 15 anos, ansioso e febril, que anda pelas ruas sem ouvir o barulho dos carros e nem dorme direito de tanto pensar nela. Olho para as nuvens e vejo desenhos engraçados. No trabalho, não me concentro. Sorrio quando os casais se abraçam. 

Eu sei, meus bróderes: soa como uma enxurrada de sentimentos perturbadores. Mas estou me sentindo muito bem, obrigado.

É claro que ela faz falta, está longe, e isso machuca um pouco. Mas, por outro lado, ela se faz sempre tão presente que é como se a distância encurtasse. Entre uma e outra chamada de longa distância, vamos enganando o calendário até o próximo voo, que não demora. Pode parecer uma tortura. Mas estamos bem, obrigado.

Meu único desejo, neste momento, é que a sensação não vá embora. Talvez ela não vá, quem sabe? Me descobri um otimista.

Por tudo isso vocês notarão nos novos textos deste blog – e, por consequência, nesta saga que não acaba nunca – algo de juvenil, de muito ingênuo. Que sou eu na minha expressão mais sincera, eu em janeiro de 2011, eu abobado encarando a parede branca do meu quarto, eu queimando parágrafos com lirismo de colégio, eu num momento da minha vida que ainda me enche de surpresa e alegria. 

Com o tempo, vou explicar melhor o que acontece. Enquanto não consigo, abro minha estante e tiro mais dois discos que talvez vocês gostem de ouvir – talvez vocês precisem ouvir (são dois álbuns que marcaram a minha vida e a vida de uma multidão). Talvez vocês se apaixonem por eles. E aí talvez vocês entendam mais ou menos em que pé estou.   

056Bringing it all back home | Bob Dylan | 1965 | download

Entre todos os discos de Bob Dylan, Bringing it all back home era o favorito dos meus 15 anos de idade, um pouco antes de eu descobrir Nashville skyline e Blood on the tracks. Com o tempo entendi o motivo de tanto fascínio: é o disco em que Dylan bagunça o quarto de brinquedos, talvez entusiasmado demais com todas os objetos coloridos que estão espalhados no chão. É, para efeitos de história do pop, um álbum de transição: metade folky, metade elétrico, o prenúncio da revolução de Highway 61 revisited (também de 1965), mas já surreal e enigmático como as obras-primas que ele gravaria daí em diante. Uma diferença em relação aos outros: neste aqui, Dylan faz a invenção mais sofisticada soar como um hobby, uma brincadeira, uma ideia de diversão. Top 3: Maggie’s farm, Subterranean homesick blues, It’s alright ma (I’m only bleeding).

055 | Music from Big Pink | The Band | 1968 | download

Não foi proposital organizar este encontro extraordinário, dentro de um post, entre o meu disco favorito da The Band e um dos meus preferidos do Bob Dylan. Mas, forçando a amizade, acredito que eles têm semelhanças que vão muito além do fato de que a sonoridade da The Band foi em grande parte amadurecida nos shows de Dylan, com quem se apresentou anos antes. São dois discos que exalam um ar de descoberta. Dylan descobria aos poucos um estilo; já a The Band encontrava uma forma de condensar várias das referências que moldaram o fim dos anos 1960: o rock, o country, o folk, a psicodelia, a contracultura, as estradas sem fim, a cultura hippie, a saudade das tradições. Nasciam os fundamentos do country rock. Todo esse estado-de-coisas cultural inserido naturalmente num disco de 11 músicas. O tipo de fenômeno que não acontece sempre. Mas aconteceu. Top 3: This wheel’s on fire, The weight, I shall be released.

The king is dead | The Decemberists

Postado em Atualizado em

Entre todos os discos de Bob Dylan, se eu tivesse que escolher só um, Nashville skyline seria aquele que eu salvaria de um desastre atômico.

Não é o que transformou a minha vida (talvez Blood on the tracks). Talvez não seja o mais relevante, se começarmos a raciocinar como pesquisadores sisudos de música pop (Blonde on blonde). Mas eu o exibiria aos sobreviventes da tragédia para provar que sim, é possível criar uma obra-prima sobre o bem-estar – o marasmo bonito dos sentimentos agradáveis.

Era Goethe, talvez exageradamente, quem dizia: “Nada é mais difícil de suportar do que uma série de dias belos”.  Os críticos que trataram Nashville skyline como uma passatempo, uma “obra menor”, talvez tenham procurado nuvens pesadas num céu quase sempre azul e claro. Como poderia um artista com essa imaginação, essa importância, e em 1969!, nos entregar uma coleção de canções singelas de country e folk? Soava como uma piada sem desfecho.

Se um menino de 15 anos começa a fuçar o passado da música pop, pode parecer estranhíssimo: no ano do Woodstock e de Altamont, de Abbey Road, de Let it bleed, de Stooges e Jimi Hendrix, o que Bob Dylan teria a nos dizer? Que a vida em família pode ser gloriosa, que o amor nos preenche de satisfação, que existe um sorriso sob o chapéu de palha. A ideia de plenitude parecia ter afetado até a voz do nosso ídolo, agora cristalina, serena.

O disco, apesar de tudo o que se escreveu contra ele, foi recompensado por gerações posteriores, já protegidas contra as paixões intensas e os radicalismos daquela época. Por bandas como The Coral, por exemplo, ou Wilco e toda a onda de “country alternativo” dos anos 90. Por críticos mais jovens que puderam ouvir o álbum exatamente como ele é: 10 faixas, 27 minutos e uma música chamada Country pie. Tão simples quanto eterno.

The king is dead, do Decemberists, é um dos muitos discos contemporâneos que provocam a sensação de afinar as mesmas ambições de Nashville skyline. Como aconteceu com Dylan, a banda de Colin Meloy se refugiou no campo (uma fazenda de 32 mil metros quadrados em Oregon) e selecionou um repertório que sugere um dia de verão na relva. É um álbum que passa por nós como uma brisa suave – sem intenção algum de provocar abalos ruidosos no nosso cotidiano.

Apesar da referência de Smiths logo no título, não é um disco tão ornado quanto The queen is dead. Pelo contrário. A referência declarada do Decemberists é o R.E.M. do começo de carreira. O guitarrista Peter Buck participa de três faixas – uma delas, Calamity song, soa como uma lembrança não tão distante de Murmur (1983). Mas, ao contrário da banda de Michael Stipe, que adensava o folk, o Decemberists adoça as experiências com gêneros tradicionais que eram comuns nas college radios do início dos anos 1980. The king is dead é primaveril, arejado, quase sempre muito objetivo.

O desafio de Meloy é muito parecido ao enfrentado por Jeff Tweedy em Sky blue sky (outro que deve muito ao tom de Nashville skyline): desnudadas, as canções passam a exibir o que elas têm de mais primário. Temos a canção e nada mais que a sustente – o disco nada mais é do que uma costura dessas canções autossuficientes. Pode parecer mais fácil do que gravar um álbum revestido por um ambicioso, cheio de firulas, efeitos de estúdio e ideias extravagantes. É mais difícil: para cada Nashville skyline (um disco com canções amáveis e aparentemente singelas, mas que ficam, que se impõem por si só), há muitos Sky blue sky e The king is dead.

E com isso não estou desqualificando totalmente o disco. Não. Este é um passo até inusitado para o Decemberists, uma banda que valoriza a pompa e sabe como tratá-la dignamente (Picaresque e The hazards of love são exemplos disso). Em comparação, The king is dead é quase um unplugged: mesmo quando usa todo o arsenal de instrumentos típicos do country rock (gaita, violão, slide guitars etc), a banda nos transmite a imagem de uma gravação descompromissada, de um outtake que, por acaso, foi vendido como disco oficial.

Para quem se sufocava com os excessos dos álbuns anteriores, é o momento de respirar. E fica difícil negar: existe força em canções como Dear Avery (a favorita de muitos que ouviram a minha mixtape de dezembro), June hymn e Down by the water. Se o clima despreocupado remete ao Dylan de Nashville skyline, a atmosfera das letras é mais melancólica, introspectiva, num flerte contínuo com referências pop (a América de 2011 pouco tem a ver com a de 1969), como se Meloy estivesse declarando amor não a uma pessoa, a uma família, a um estilo de vida ou a uma época, mas aos discos que o emocionam.

Um belo disco de country/folk rock escrito por um aluno estudioso, ainda que um tanto apressado nos sentimentos e nas referências que tenta evocar. De qualquer forma, ele engrandece a aura de Nashville skyline: aquele sim, um álbum que ainda parece tão simples, tão mundano. Mas ainda não encontrei quem conseguisse fazer igual.

Sexto disco do Decemberists. 10 faixas, com produção de Tucker Martine. Lançamento Capitol Records. 7/10