Animal Collective

mixtape! | de maio?

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A mixtape de maio está muito mais nervosinha e sortida que a de abril porque… porque… hum, porque (difícil explicar essas coisas)… porque chega de melancolia, certo?

Estava eu ouvindo a coletânea do mês passado quando enfim percebi: “Céus, que seleção musical mais sombria!” Curiosamente, naquele cedêzinho a minha intenção era gravar canções otimistas, cheias de afeto e doçura. O que aconteceu?

A mixtape anterior, creio eu, acabou por mostrar o estado de espírito de um sujeito em conflito, ao mesmo tempo entusiasmado com um período de mudanças extraordinárias, mas ainda numa luta terrível para lidar com a morte de uma das pessoas mais importantes da vida dele. Aquele cedê me mostra hoje que a temporada não foi simples.

A coletânea nova é bem diferente, e acredito ter a ver com o ritmo da cidade de São Paulo, onde moro há dois meses, e com uma tentativa (meio desesperada, admito) de seguir em frente. Ela tem alguns vestígios cinzentos, não vou negar, ainda que ma pareça mais agressiva, talvez mais vibrante. Não sei como vocês – os três leitores ainda nesta sala – vão avaliá-la. Só sei que estou satisfeito com o que ouço.

Aqui vocês encontram El-P (que tá lá na foto), Animal Collective, Death Grips, Of Montreal, Santigold, M.I.A., Howler, Damon Albarn, The Walkmen, Schoolboy Q. Algumas das músicas não são especificamente de maio, e entram nesta coletânea porque não conseguiram se encaixar nas anteriores. Encare-a como uma mixtape de outcasts. A lista de músicas está na caixa de comentários.

Espero que vocês apreciem.

Faça o download da mixtape de maio.

Ou ouça aqui:

Vídeos do VodPod não estão mais disponíveis.

Mixtape de maio, posted with vodpod
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Tomboy | Panda Bear

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Quando eu era mais novo, abandonei os livros para viver só de blogs.

Me transformei em leitor fiel: de blogs.

A obsessão durou mais ou menos um ano. Dos 16 aos 17. Talvez dos 17 aos 18. Não lembro direito. Nos blogs, encontrei aquilo que os livros não me davam: a impressão de que eu lia textos escritos diretamente para mim.

Parágrafos imperfeitos, toscos, ingênuos, sem rigor nem arte, às vezes sem coisa alguma. Mas verdadeiros, secretos. Havia os impublicáveis, os constrangedores. Era como virar páginas de diários.

Depois cansei da exclusividade e voltei aos livros, que me ofereciam muito mais do que espiadas no buraco da fechadura. Foram poucos os romances, no entanto, que conseguiram simular o efeito de um legítimo texto de blog: palavras íntimas, como impressões digitais, marcando a tela.

Já um tanto farto dos blogs, descobri que esse tipo de contato — sem filtros, franco, às vezes desajeitado — existe mais na música pop do que na literatura. O pop permite os desabafos, as confissões, o verso espontâneo, o pensamento mais vago e juvenil. Talvez porque o pop não se leva muito a sério, não quer imortalizar nada.

Há discos que, de tão sinceros, me tomam de cúmplice. Pink moon, do Nick Drake. Plastic Ono Band, do John Lennon. Sea change, do Beck. Os ouço e penso: estou entrando na casa, no quarto, no espírito desses compositores.

É claro que existe, em todos os casos, uma encenação muito bem feita (gravada e regravada em dezenas de takes) daquilo que conhecemos por sinceridade. Mas são discos que, antes de obras de arte, querem ser entendidos como autorretratos. “Essas canções são eu”, é como se os autores dissessem.

O caso de Noah Lennox, o Panda Bear, explica muito sobre essa tradição de songwriters. O Animal Collective, o grupo de que ele participa, é uma banda cujos versos se tornam cada vez mais reflexivos, mundanos. Mas, paralelamente, Noah foi um pouco além: gravou uma série de discos em primeira pessoa, domésticos, que pareciam ter sido escrito apenas para um grupo pequeno de amigos e fãs. Diários sonoros.

O segundo desses álbuns, Young prayer (2004), foi concebido como uma série de cartas para o pai de Noah, que morreu pouco depois de ouvir algumas das canções do filho. As faixas não têm títulos.

O terceiro, Person pitch (2007), também espelha questões cotidianas do músico: casado, pai de um filho, ele se mudou para Portugal e encontrou-se com o mar. Numa torrente de samplers, as faixas criam um fluxo sonoro circular, aquoso. Ondas batendo nas pedras, num dia de sol.

Discos que soavam como ideias muito particulares de prazer.

Noah não contava com o sucesso de Person pitch (na mesma época, o Animal Collective lançou um disco áspero, acimentado, Strawberry jam). Mas, de repente, a plateia cresceu, a crítica o elegeu favorito e o álbum se tornou uma referência para o uso de samplers e referências de psicodelia sessentista no indie rock.

E vocês sabem o que acontece quando um blog pequeno, sem muitas ambições, se agiganta: quanto mais gente lê, maiores são as cobranças e expectativas sobre o pobre sujeito que escreve.

Resumindo: de um dia para o outro, Noah se viu obrigado a tratar o Panda Bear mais como um trabalho do que como um hobby. “Tive que lidar com duas forças: as expectativas das pessoas e os meus sentimentos”, explicou, numa entrevista. Tomboy, o sucessor de Person pitch, é uma resposta a esse tumulto.

Melhor: é um disco sobre esse tumulto. Nas entrelinhas, ele conta a história de um homem que se vê diante de responsabilidades talvez incompatíveis com os próprios desejos. Os álbuns anteriores eram conversas sussurradas, de amigo para amigo, de pai para filho. O novo é um discurso ao microfone: e nós, nas poltronas, estamos em silêncio, esperando ansiosamente. No ar, dá para sentir o quão tenso é o momento.

Aqui, Noah tenta dar conta de se aproximar de dois “públicos”: a plateia numerosa, anônima, e as pessoas mais próximas, que o conhecem. Na primeira canção, You can count on me, ele se dirige ao filho (“Quero colocar uma bolha ao redor de você, como um campo de força, mas eu sei que manter uma criança em segredo é um truque bobo”) e, ao mesmo tempo, aos fãs. “Você sabe que pode contar comigo”, ele avisa, e promete se esforçar.

Musicalmente, no entanto, a faixa é uma das mais acessíveis que ele já gravou, com vocal cristalino sob areia de sintetizadores à Beach Boys. Está feito o pacto: ele não quer dificultar a vida de quem ouviu Person pitch e gostou.

O peso desse acordo chega na segunda faixa, Tomboy, que apresenta a nova aventura musical de Panda Bear: as experiências com riffs de guitarra (inspiradas, segundo ele, em Nirvana e White Stripes), que vão achatando a mixagem numa repetição hipnótica. Logo aí disco trata de criar um cenário diferente do anterior. Um outro capítulo, pois.

É nessa faixa que a angústia aparece pela primeira vez – e chega para ficar. E Tomboy não é um disco de maré baixa. Aos 32 anos, Noah carrega nos ombros mais de uma dezena de questões sobre a idade adulta, os deveres de pai e artista pop: “Como é minha vida? Como é o meu trabalho? Como eu gasto meu tempo?”, ele vai perguntando, sem respostas, enquanto o mantra eletrônico o envolve numa concha.

Em Slow motion, ele duvida da sabedoria popular. “Quando eu diminuo o ritmo, fica claro: o que conta é aquilo que as pessoas não costumam dizer com frequência”, avisa. Cada verso da canção é um dito popular, que logo cria uma massa de som em que a voz do cantor se confunde com os barulhinhos dos sintetizadores. O homem e a música se transformam numa coisa só.

As incertezas seguem em Surfer’s hymn (os versos vêm bronzeados de filosofia e parafina) e ganham um tom pop na faixa mais direta do disco, Last night at the Jetty. “Quem pode dizer que nós não hoje somos da forma como éramos?”, pergunta Noah, ainda em crise. “Não quero esconder as minhas esperanças”, avisa. Soa como um recado aos que cobram mais do que ele pode ou quer oferecer.

O temperamento de Noah, no entanto, não é de confronto. Tomboy, ao contrário até de Person pitch, é um disco que se mostra generoso, de fácil compreensão (até certo ponto, mais a primeira metade que a segunda), com faixas que duram no máximo seis, sete minutos e que, em alguns casos, se aproximam de formatos mais convencionais (é o caso da sublime Alsatian darn). Ele vai tentando agradar aos dois públicos, ora arredio (Drone, Scheherazade), ora mais comunicativo (Friendship bracelet).

Noah comentou que, em Tomboy, a intenção era, ao entrar num território musical por ele desconhecido, provocar tanta surpresa quanto o disco anterior. Se não soa tão extraterrestre (já que a sonoridade de Panda Bear agora nos é familiar), o álbum mostra a dedicação de um artista que, trancado num sótão, sozinho, num “pesadelo diurno” (o quarto era iluminado apenas por uma lâmpada), tenta transformar e amplificar uma arte que nunca disse respeito a muita gente.

“Alguns podem dizer que vencer não é o mais importante. Mas não há nada mais verdadeiro ou natural do que a vontade de vencer”, ele explica, na faixa que encerra o disco, Benfica. “Não lamento as opções que fiz. Algo se ganha, algo se perde”, resume, em Friendship bracelet.

Tomboy não é o Panda Bear que conhecíamos, não é um álbum tão iluminado quanto Person pitch. Algo daquela velha liberdade se perdeu, mas não deixa de ser o registro frontal de um momento: Noah tenta conciliar o disco que esperávamos dele com o disco que ele queria ter feito. Não soa tanto como um blog ou uma confissão, mas como uma negociação: séria, sim, fascinante (é claro) e tão íntegra quanto tudo o que ele gravou.

Quarto disco de Panda Bear. 11 faixas, com produção de Noah Lennox. Lançamento Paw Tracks Records. 8/10

Superoito express (32)

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The age of adz | Sufjan Stevens | 8.5

Quem ouve apressadamente este The age of adz pode ficar com a impressão de que Sufjan Stevens escolheu um itinerário semelhante àquele que M.I.A. e MGMT tomaram recentemente: a aventura da autosabotagem. Afinal de contas, esta zoeira de ruídos eletrônicos, orquestrações pomposas e arranjos sinuosos é o sucessor de  Illinois (2005), o disco que fez de Stevens uma espécie de Colombo indie. Uma parte numerosa do público, que não acompanha os “projetos paralelos” do músico, possivelmente ainda espera dele uma nova fornada de crônicas americanas narradas com uma caligrafia delicada e pessoal. Esses continuarão esperando, já que The age of adz é um desvio de rota.

Se Illinois era uma viagem de dentro para fora (o homem investiga o país e se enxerga nele), The age of adz se volta a um território sentimental, íntimo. Viagem ao redor do próprio quarto. Mas, ao contrário do EP All delighted people (que apontava para a sutileza folky de Illinois e especialmente de Seven swans), The age of adz envolve essas confissões de Stevens numa colcha de excessos – com barulhinhos, coros angelicais e furacões de sintetizadores -, numa explosão cósmica que nos atira diretamente ao buraco negro do prog rock dos anos 70. 

Quanto mais ouvimos o disco, mais fica claro que a provocação não é gratuita – ele não foi planejado como um suicídio comercial, mas como afirmação de princípios. É como se as faixas, quase sempre incontroláveis, refletissem um compositor de pulsos abertos, afetado por decepções amorosas (e I walked é uma canção de despedida muito direta e tocante), desejo de espiritualidade (Get real, get right), medo da passagem do tempo (Now that I’m older) e outras crises que se enfrenta aos 35 anos. A reação de Stevens a esse cataclisma informa a música que ele produz, mais tensa e caótica do que de costume: The age of adz vai desagradar a quem o conhece como o bom-moço capaz de escrever melodias agradáveis que inspiram publicitários e fãs de Belle and Sebastian; e vai confirmar a fé dos que procuram em Stevens um artista.     

Pop negro | El Guincho | 7

Pop negro soa como o “lado A” de Alegranza! (2008), um disco mais labiríntico (e que me parece mais denso e interessante) do que este aqui. O espanhol Pablo Diaz-Reixa continua combinando loops siderados como um legítimo herdeiro do Animal Collective, mas desta vez ele usa esse método a serviço da sensação de conforto e euforia que se espera de um disco pop. É um álbum que, por isso, deve até incomodar os fãs do anterior – muitas das canções soam como remixes nada radicais para o repertório do Mutantes ou de bandas como Café Tacuba e Aterciopelados. Dito isso (e quebrada essa resistência em relação ao disco), o que fica é a ótima impressão de que Pablo sabe como extrair o sumo de boas canções comerciais e contaminá-lo com psicodelia. É uma festa boa, quente, e que não nos aborrece em momento algum. E ela termina tão rapidamente que dá vontade de ficar ouvindo o disco sem parar.    

Maximum Balloon | Maximum Balloon | 6

Um disco criado para nos provar que Dave Sitek (o “cientista louco” do TV on the Radio) também curte a vida adoidado. Não que ele consiga nos convencer totalmente disso (o pop “desencanado” do sujeito se revela tão engenhoso, tão excessivamente maquinado quanto qualquer outra coisa que ele produziu), mas consegue algo raro em discos superpovoados por participações especiais: ele dá ao som do Maximum Balloon uma unidade forte, como se adaptasse as referências do TV on the Radio (Bowie, Byrne, pós-punk) ao clima febril de uma pista de dança. Agora é esperar que, nos próximos discos do projeto, ele consiga usar essa sonoridade para criar canções tão boas quanto Young love, das poucas que me interessam aqui.

Postcards from a young man | Manic Street Preachers | 6

Depois de reencontrar a fúria (e a ansiedade adolescente) no ótimo Journal for plague lovers (2009), o Manic Street Preachers retorna ao ponto em que haviam parado em Send away the tigers (2007). Isto é: de volta às tentativas de fabricar rock de arena, comercial até a costela, com alguma dignidade. Sabemos que, nesse aspecto, eles não têm noção de limites: daí momentos constrangedores como Hazelton Avenue, que rouba o riff the It ain’t over til it’s over, de Lenny Kravitz. Mas o disco anterior parece ter energizado a banda, que parece mais confiante do que nunca na luta para voltar ao trono do britrock. Quantos euros o Bon Jovi pagaria para escrever uma canção como (It’s not war) Just the end of love? De volta à realidade, pois.

Bluish | Animal Collective

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Tudo azul (e um pouquinho vermelho) no novo clipe do Animal Collective. Dirigido por Jason Oliver Goodman, o vídeo tem constelações, bolhas de sabão, dançarinas exóticas e tudo aquilo que a gente imagina quando ouve esta que é uma das minhas canções favoritas do grande Merriweather Post Pavilion. Boa viagem.

Os discos da minha vida (6)

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Esta semana, na infinita saga dos discos que assombraram a minha vida, um parzinho insólito: um álbum que representa muito bem a minha infância e outro que explica quase tudo sobre o período em que (creio eu) virei adulto de vez. Tiago aos sete versus Tiago aos trinta. Um confronto que, para mim, é muito emocionante, muito profundo. E que, para vocês, é só mais um post de blog.

E é óbvio que você, leitor inteligente deste sítio, vai fazer o download desses disquinhos tão especiais. Semana que vem (se o mundo não se transformar em geleia cósmica) tem mais. 

090 | Merriweather Post Pavilion | Animal Collective | 2009 | download

Em dezembro de 2008, logo que este disco vazou na internet, eu o levei para uma viagem que fiz ao Rio de Janeiro. Foi um feriado em grande parte tranquilo, mas naquela época eu só conseguia pensar (em vão, é claro) no meu futuro. O que eu faria dele? Qual seria o próximo passo? Não foi a primeira vez em que eu me vi na pele de um adulto – de um homem responsável pelas próprias escolhas, sozinho no mundo -, mas naquele momento eu pude sentir claramente que algo estava se transformando na minha vida. Lembro que, enquanto esperava o voo de volta (que atrasou uma eternidade), este era o disco que eu ouvia repetidamente. Todas as músicas tentavam conversar comigo. Com meus medos (Also frightened), minha nostalgia (Summertime clothes), minhas inseguranças (My girls) e, finalmente, meus desejos mais inocentes (No more running). Enquanto ouvia, me percebi adulto. Talvez seja um álbum também sobre essa sensação. Top 3: Bluish, My girls, No more running.

089 | Selvagem? | Os Paralamas do Sucesso | 1986 | download

É um disco essencial para o rock brasileiro dos anos 80, eu sei – mas ainda não consigo encará-lo com distanciamento. Ainda soa, para mim, como um grão da minha infância. Principalmente a Melô do marinheiro, que entrou tão lá no fundo da minha memória e hoje está no mesmo compartimento onde guardo as canções de ninar que eu ouvia quando muito pequeno. Eu não desgrudava do lado A (quem conta isso é minha mãe) e é dele que sinto saudades: Alagados e A novidade têm o cheiro do bairro carioca onde eu vivia – e a cor de um daqueles verões fervilhantes, ingênuos, que não se consegue esquecer. Top 3: Melô do marinheiro, Alagados, A novidade.

Guys eyes | Animal Collective

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Talvez seja o clipe mais simples do Animal Collective: um velho filme caseiro reeditado por um sujeito com febre. O tipo de vídeo que, se ainda estivessemos nos anos 90, encontraríamos nas madrugadas da MTV. A direção é de Joey Gallagher, que entendeu direitinho o espírito de uma das faixas mais espaçosas de Merriweather Post Pavilion. Transes de uma tarde de verão.

Por falar em tardes de verão, vale lembrar que a curvilínea, sedutora e delicada mixtape de junho (relativamente ensolarada, também) já está vestida para matar. Ela chega ao blog amanhã, quarta-feira, às 21h. Então fiquem atentos, e depois não digam que não avisei.

Superoito express (20)

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Volume 2 | She & Him | 6

O fã-clube de Zooey Deschanel que não me pendure praça pública, mas eu esperava encontrar, neste segundo disco do She & Him, a personagem que ela interpretou com tanta convicção em 500 dias com ela: Summer Finn, a musa imprevisível que atormenta os fãs românticos (e panacas) de indie rock. Mas (que vida!) meus desejos não foram realizados. Neste conto de fadas folky, ela ainda vive a mocinha indefesa, a heroína que caminha melancólica, inconsolável pelos campos ensolarados da Califórnia.

Tudo bem. Nem tudo é perfeito. E talvez a Zooey popstar se aproxime da Zooey real (o que seria uma pena, mas enfim). O problema é que essa (ops) personagem me parece cada vez mais monocórdica. Este Volume 2 é um disco do Camera Obscura, só que sem ironia ou finesse. Parece fácil fazer pop vintage, com aquela sonoridade quente de vitrola velha, mas o risco do diluir efeitos está sempre ali. Daí que o disco, comportadíssimo, só brilha quando o vinil de M. Ward ganha um outro colorido, uma doçura à Jon Brion. São duas músicas: In the sun e Don’t look back. Mas elas mostram que, sim, Zooey é capaz de virar o disco. Ao terceiro volume, então.

Dear God, I hate myself | Xiu Xiu | 7.5

Ao contrário do projeto de Zooey e M. Ward, o estilo de Jamie Stewart é um caso tão particular que parece projetado para provocar estranhamento. As canções, com mudanças abruptas de andamento e efeitos dissonantes, soam às vezes como arquivos corrompidos de MP3. Stewart vai picotando um punhado de referências (synthpop, lo-fi, indie, goth rock) até fazer com que o disco perca completamente o eixo, numa colagem doméstica, frágil, agoniada, que ressalta a franqueza do discurso. Como acontece com os álbuns do Why? e do Eels, este também cria um ambiente de intimidade quase sufocante. Pode soar simplesmente doentio. Mas, se não é tão forte quanto Fabulous muscles (2004), no mínimo serve para comprovar que Stewart ainda não encontra conforto nem no rock, nem em nada. É bonito, garanto. E recomendo que você tente pelo menos três vezes antes de desistir.

Big echo | The Morning Benders | 7

O Morning Benders pode ser considerado uma espécie de primo do Local Natives, outra banda californiana que usa a massa bruta do indie rock americano (no caso, o folk barroco de um Grizzly Bear) para criar uma sonoridade generosa, próxima do pop. Mas, antes que os acusem de oportunismo, aviso que eles se apropriam desses novos chavões sem cinismo. Estão verdadeiramente dispostos a disputar um espaço entre os ídolos. Big echo é, por isso, um álbum muito esforçado. Sei que a palavra é terrível, mas taí um quarteto que faz tudo para agradar a um público muito específico. E consegue, mesmo sem personalidade. Eficiência e bom gosto, no caso. Califórnia é uma grande nação (como diz a música do She & Him) e é interessante acompanhar uma banda tentando encontrar um lugar nesse mundo.

Fang Island | Fang Island | 7

Mas claro: mais interessante do que acompanhar uma banda deslumbrada com as próprias referências é descobrir aquelas que tentam criar todo um vocabulário. O Fang Island, de Rhode Island, é dessas. Eu definiria o som deles como um monstrengo prematuro nascido de uma rapidinha entre o Van Halen (os solos de guitarra a mil por hora, a pompa hard rock) e o Animal Collective (os corinhos infantis, o espírito comunitário). Para o Wikipedia, eles cabem no rótulo “progressive rock”. Talvez seja isso, ainda que tudo acabe soando tão frenético quanto um disco de hardcore. Ainda não sei se amo essa bagunça (e, se é para quebrar tudo, Dan Deacon me parece muito mais radical), mas reconheço que não ouvi nada igual.

Life is sweet! Nice to meet you | Lightspeed Champion | 6

Para quem conhecia e gostava do projeto anterior de Devonté Hynes (a banda de dance-punk Test Icicles, praticamente um tigre), o Lightspeed Champion vai continuar provocando muita frustração. No segundo disco, o texano (criado na Inglaterra desde os dois anos de idade) continua a enquadrar o próprio som de acordo com algumas convenções pop quase caducas: brit pop, easy listening, new wave. Tudo o que ele quer, aparentemente, é mandar um abraço para Jarvis Cocker e Morrissey (e quantos outros não querem?). A boa ideia deste Life is sweet é o olhar positivo para temas que costumam ser cantados com fatalismo (Dead head blues, por exemplo, é uma faixa alegre sobre o fim de um relacionamento). O oposto de A vida é doce, do Lobão. Nas recaídas, no entanto, Hynes escreve obviedades como I don’t want to wake up alone, que só reforça os clichês associados ao tal “som da Inglaterra”. E aí as piores do Morrissey soam pelo menos mais divertidas.