Amizade

Drops | Mostra de São Paulo (5)

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'Exit through the gift shop', de Banksy

Bróder | Jeferson De | 3/5 | Antes da sessão, o próprio Jeferson De resumiu: “Este não é um favela movie. É um filme-família.” De fato, Bróder adentra a periferia com um tom afetuoso, sem o punch provocativo de um Tropa de Elite, por exemplo. A violência urbana ocupa o clímax da narrativa, mas é um gatilho que o diretor aperta para testar as relações de amizade, cumplicidade entre os três personagens principais. Como muitos filmes de estreia, este também compensa uma certa afobação (a revelação final me parece apressada, atropelada pela montagem) com a energia de quem tem muito a dizer sobre um determinado ambiente e, principalmente, sobre as pessoas que vivem por lá.

Cleveland x Wall Street | Jean-Stéphane Bron | 3/5 | Em 2008, Cleveland entrou com processo contra os bancos que teriam implodido a economia da cidade. Mas o julgamento nunca chegou a ocorrer – uma pendência que este documentário francês “resolve”. Bron encena o teatro jurídico com os próprios personagens da crise financeira. A reflexão sobre o poder da retórica faz deste um filme lúcido, firme. Mas todo o discurso sobre o colapso econômico americano apenas perfila todos os argumentos que conhecemos sobre o assunto (e encontramos em outros docs sobre o tema, com ou sem Michael Moore).

Minha Perestroika | My Perestroika | Robin Hessman | 2.5/5 | Memórias sobre o ocaso da União Soviética. Os personagens certos, mas confinados num formato tão caduco quanto o velho regime político: depoimentos + imagens de arquivo = estagnação.

Exit through the gift shop | Banksy | 3.5/5 | Não é exatamente um documentário sobre Banksy, o provocador do grafite. Também não é apenas uma fita amalucada de ficção sobre um homem sem talento que, pelos poderes do hype, se torna um ídolo em galerias de arte. Exit through the gift shop tem um pouco disso e daquilo, lembra os clipes arruaceiros que Spike Jonze dirigia nos anos 90 (Praise you, por exemplo), tem a graça de um bom mockumentary, mas, principalmente, pode ser interpretado como um pequeno ensaio pop sobre as qualidades misteriosas que diferenciam um grande artista de um grande farsante – e sobre como essa diferença, maquiada por truques de marketing, às vezes não é sequer percebida. O próprio Banksy (um ás da autopromoção) e o público do filme (tão descolado) não são poupados.

2 ou 3 parágrafos | Como treinar o seu dragão

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Esta boa animação digital da Dreamkworks (3/5) bem que poderia se chamar Como sobreviver no mundo de Avatar. Os diretores de Lilo e Stitch, mais espertos do que imaginávamos, entenderam a lição de James Cameron: usam o 3D como elemento criativo, essencial à narrativa.

Os personagens do filme são vikings que enfrentam dragões. Os monstrengos voam alto, dão piruetas. E é como se voássemos com eles. Parece um detalhe bobo, mas poucas fitas do gênero se beneficiaram tanto da tecnologia para nos transportar a um ambiente fantasioso. Em alguns trechos, parece até que os diretores se entusiasmam com o truque, curtem a brincadeira. Não vi nada parecido em Up – Altas aventuras, nem em Monstros vs. alienígenas, muito menos em A era do gelo 3. É um avanço.

No mais, Dean DeBlois e Chris Sanders vão ao trabalho (isto é: confrontam a Pixar) com as armas menos vulgares: a exemplo de Wall-E e Up, vão buscar no cinema de Hayao Miyazaki uma pincelada de lirismo que dá uma outra dimensão à amizade entre o menino outsider e o dragão com fama de mau. Nada muito pessoal, é claro (aliás, quando é que vão lançar Ponyo no Brasil?). Estamos falando de uma animação by the numbers (tudo é fórmula: a narração em off, os coadjuvantes engraçadinhos, o motivo romântico etc). Mas é um alívio notar que os estúdios querem bancar a “revolução” de Avatar: não tenho muito a reclamar de filmes que levam a sério tanto o 3D quanto esse tipo honesto de sentimentalismo, à japonesa.