Alexander Sokurov

mostraSP | Dias 11 a 14

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Aqui termina o meu diário da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Infelizmente (ou felizmente, dependendo do seu ponto de vista), são curtos os parágrafos sobre os últimos filmes que vi no festival. Tenho muito a dizer sobre cada um deles, mas pouco tempo. No mais, começo a achar que os posts desta série provocam certo cansaço até no leitor mais dedicado deste blog.

Portanto, rapidinho: as cotações ainda vão da letra D (de desagradável, digamos), à letra A+ (de absolutamente mágico, digamos). Além dos filmes que estão neste post, ainda assisti à cópia restaurada de Despair (1978), de Fassbinder, e à cópia encardida de Meu amigo Ivan Lapshin (1986), de Aleksei German. Não escreverei sobre esses filmes porque me sinto pequeno/burro perto deles. Logo após os comentários vocês encontram a meu top 10 da Mostra.

Fausto | Faust | Alexander Sokurov | A | Na primeira hora de projeção, a lenda de Fausto é narrada com a agilidade de uma aventura medieval. Parece o filme mais direto de Sokurov. Mas, ao enevoar progressivamente a trama, o cineasta nos mergulha no pesadelo do personagem – e, para quem não estiver disposto às comparações com a obra de Goethe, o filme pode ser visto simplesmente como uma caminhada para a perdição (por trilhas cada vez mais estreitas e difíceis), na companhia de um diabo cínico e encenada dentro de algums das imagens mais delirantes, mais impressionantes, que o cineasta já compôs. Mais ou menos como acontecia com o Tarantino de Bastardos inglórios, Sokurov cria o filme com a intenção quase declarada de compor uma obra-prima. Não acredito que chegue a tanto, mas não dá para acusar o diretor de negar fogo diante de ambições tão gigantescas. Resultado da odisseia: um filme acessível como nenhum outro do cineasta – e misterioso, estranho como qualquer um que já dirigiu. Escolha corajosa do júri de Veneza.

Caverna dos sonhos esquecidos | Cave of forgotten dreams | Werner Herzog | B | Um bom doc do History Channel, que cresce quando Herzog se livra das amarras do formato e divaga sobre as origens da arte. A exibição em 3D, adequada ao tema do longa, transformou o filme numa das atrações principais da Mostra de SP. Mas não é para tanto: ele não me parece singular ou forte, por exemplo, como um Homem-urso.

Um mundo misterioso | Un mundo misterioso | Rodrigo Moreno | B | Nada importante acontece, quase sempre graciosamente. Mais bem humorado e menos frustrante que O guardião, o anterior do cineasta.

Tudo pelo poder | The ides of march | George Clooney | B | Um conto político à americana: ágil, fun, um tanto simplório (e o título em português poderia ser Tudo por uma boa reviravolta de roteiro), but it works, it does. No elenco, todos os homens de Steven Soderbergh.

O dominador | Cho-neung-nyeok-ja | Kim Min-suk | B | Um super-herói boa-praça, um supervilão estressadíssimo, Coreia scores again.

Os contos da noite | Les contes de la nuit | Michel Ocelot | C+ | Animação com estilo (e Ocelot, tal como Sokurov, é dono de uma ilha visual absolutamente particular), mas o tom professoral/pedante da narrativa me afastou um pouco da brincadeira. E o gosto pelo exotismo, raso desse jeito, me parece uma boa intenção apenas superficial.

Projeto Nim | Project Nim | James Marsh | C+ | O diretor de O equilibrista acompanha a dura vida de um chimpanzé (submetido a pesquisas científicas e, por fim, abandonado) num doc cujo tema interessa mais que o formato: domesticado, quadradíssimo.

Periferic | Bogdan George Apetri | C | Um romeno especialmente romeno, sob medida para festivais de cinema. Na trama, tragédia pouca é bobagem.

Kaidan horror classics | Ayashiki bungo kaidan | Hirokazu Kore-eda, Masayuki Ochiai, Shinya Tsukamoto e Lee Sang | C | Combo televisivo (produzido pela NHK) cheio de limitações. O episódio do Kore-eda é o único que se salva.

País do desejo | Paulo Caldas | D | Momento vergonha-alheia da Mostra. Que diálogos são esses, Brasil?

Os 3 | Nando Olival | D | Cinema publicitário sem culpa (e sem rumo, sem graça, sem brio, sem razão de ser). Felizmente, dura apenas 80 minutos.

Desapego | Detachment | Tony Kaye | D | Um drama sobre o cotidiano em escolas públicas americanas que tenta chocar, tenta emocionar, mas só consegue ser tosco e infantil. Kaye, diretor de American history X, grita ao espectador lições que já conhecemos. Duas opções: encarar o filme como um Entre os muros da escola from hell. Ou abandonar a sala após a cena em que estudantes matam um gatinho a marteladas.

Top 10: Meus favoritos da Mostra de São Paulo

01. Isto não é um filme, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi
02. The day he arrives, de Hong Sang-soo
03. Fausto, de Alexander Sokurov
04. Histórias da insônia, de Jonas Mekas
05. Habemus papam, de Nanni Moretti
06. O garoto da bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
07. Irmãs jamais, de Marco Bellocchio
08. Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan
09. Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvecio Marins Jr
10. Las acacias, de Pablo Giorgelli

3 filmes | Hunger, Alexandra e Katyn

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Irlanda, Rússia e Polônia: três experiências em guerras.

Hunger | Steve McQueen | 7 | Sempre haverá polêmica em torno de filmes que resgatam episódios reais por perspectivas radicalmente subjetivas. Lembro do lançamento de Elefante, quando Gus Van Sant foi acusado de explorar o massacre de Columbine. A questão de sempre: na arte, existe uma “forma correta” de lidar com determinados temas? McQueen traz das artes plásticas um olhar provocativo que me parece raro no cinema: em metamorfose constante, Hunger tenta se resolver como uma biografia intimista de Bobby Sands (Michael Fassbender, excepcional), líder do IRA que se submeteu a uma greve de fome, e também como uma reflexão pessoal, num tom abstrato e físico, sobre violência. O filme é composto como uma instalação de choque, com planos rigorosos e cenas agressivas – uma encenação que pode decepcionar quem procura um drama histórico ou um perfil aprofundado do personagem (e é didático o modo como o cineasta tenta mostrar os “dois lados” do conflito, por exemplo, ou explicitar o contexto da situação num diálogo interminável). Mas é um longa político a seu modo: menos sobre o IRA, mais sobre corpos em atrito e degradação.

Alexandra | Alexander Sokurov | 6 | É quase uma fábula dark – a guerra da Chechênia observada por uma avó que, em pleno conflito, decide visitar o neto numa base russa. Uma premissa até singela (que daria um horroroso melodrama hollywoodiano para a temporada do Oscar) é desenvolvida por Sokurov com uma estratégia nem sempre acertada, mas interessante: quanto mais naturais parecem as reações dos personagens, mais bizarro o filme fica. Acompanhar uma velhinha caminhando tranquilamente num campo minado provoca reações desencontradas do público – a maior parte cai na gargalhada (e há cenas, como a escapada noturna da personagem que só podem ter sido criadas com o propósito de fazer rir). Menos sutil e rigoroso que de costume (mais comunicativo, também um tanto acomodado), mas acredito que um típico Sokurov. Uma guerra que não assusta ninguém, cidades em ruínas, relações familiares impraticáveis e o sentimento de um ambiente devastado, em tons de verde-oliva.    

Katyn | Andrzej Wajda | 7 | Um duplo acerto de contas para Wajda: a reconstituição do massacre na floresta de Katyn, que vitimou oficiais poloneses em 1940, é uma saga, um épico. O diretor toma para si o compromisso de reparar um “erro histórico” (os assassinatos foram cometidos por soviéticos, não por nazistas) e prestar homenagem ao pai, morto na tragédia. Vence o dever cívico. Adotar uma narrativa clássica é uma opção até segura, já que o filme compõe um painel bastante abrangente de personagens para expor as consequências do crime (vários deles, por isso, têm a consistência de um desenho em papel-marchê). Mas um estilo também de austeridade e clareza, que prepara o espectador para um clímax chocante. Eu torcia para que o filme não dependesse desse tipo de impacto meio trivial. Mas é nessas cenas de catarse quase irracional que Wajda deixa transparecer a origem íntima do projeto, sem abandonar um sentimento universal de fúria e impotência.