Action movie

2 ou 3 parágrafos | Os mercenários

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São dois filmes dentro de Os mercenários (2/5), um muito melhor do que o outro. No primeiro, uma gangue de justiceiros veteranos bebem, jogam dardos, lustram as motocicletas, fazem tatuagens e ouvem blues-rock na jukebox de um boteco até ajeitadinho. No segundo, alguns desses marombeiros-velhos-de-guerra tomam um avião para a América Latina e explodem uma ilhota miserável. 

O filme do boteco tem clima de churrasco-com-cerveja, reunião de colegas de trabalho. É o que Stallone faz desde Rocky Balboa: revê o certo passado de uma certa distância – uma distância às vezes até melancólica. Mas existe a obrigação de conciliar essa autoanálise com o filme de ação oitentista que esperam dele. É aí que Os mercenários começa a se aproximar mais da truculência maçante de Rambo do que da franqueza de Rocky.  

E é um filme assumidamente oportunista (o título em português é piada pronta; o original, The expendables, sai melhor ainda), que tenta se justificar pela quantidade de ex-astros de ação que consegue reunir (Van Damme, mais sensato do que eu imaginava, recusou o convite). A cena de Willis, Stallone e Schwarzenegger, que deve durar uns cinco minutos, é uma entre tantas que provocam mais constrangimento do que saudade. “Você perdeu uns quilinhos”, repara Arnoldão. “E você ganhou alguns”, diz Sly, cruel. Eu estive lá, nos anos 80. Eu tinha videocassete. Eu vi os filmes. Eu gostava de alguns deles. Mas saudosismo, meu amigo, tem limite.

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Romance is boring | Los Campesinos

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Vamos falar sobre você por um minuto?

Imagino que você, leitor deste blog, seja meus ou menos como eu: uma pessoa que não recebeu o Nobel, não escalou o Everest, não plantou muitas árvores, não teve muitos filhos, não escreveu uma série de livros memoráveis, não levou a Palma de Ouro, não faturou a Mega-Sena, não foi condenado à morte, não apareceu na manchete do jornal nem salvou o sujeito que estava prestes a ser tragado pela enchente. Você não é o melhor nem o pior, não está entre os cinco mais nem entre os cinco menos. Você, na hipótese mais provável, é uma pessoa decente e sensata, que trabalha (ou estuda) mais do que gostaria, ganha menos do que merece, se apaixona por pessoas difíceis ou impossíveis, teme a morte e comete erros constrangedores de vez em quando. Não é uma exceção. Não é extraordinário. E há muitos iguais a você.

É por isso que o terceiro disco do Los Campesinos talvez lhe pertença. É música para (e sobre) sujeitos comuns. E, nos melhores momentos, sobre o que há de espantoso, surrealista, hilariante em nossas vidinhas mais-ou-menos.

O disco abre com a frase que usei para começar este post: “vamos falar sobre você por um minuto”, provoca Gareth Campesinos, um vocalista que parece ter nascido de um experimento biológico com os genes de Jarvis Cocker (Pulp), Robert Smith (The Cure) e Eddie Argos (Art Brut). A canção, In media res, acelera feito action movie: primeiro tensa, depois sombria, mais adiante (quando os trompetes entram em cena) eufórica. Uma crônica esquizofrênica, em cores saturadas, em fast-forward.

A faixa começa com a narração de um (suposto) acidente automobilístico, depois de alguns jogos de palavras à beira do nonsense, termina com um desafio prático: “Se você tivesse a opção de morrer em paz aos 45, mas com o amor de sua vida ao seu lado, depois de uma vida plena e feliz, isso o interessaria?” E então? Interessaria?

Gareth parece conversar diretamente conosco, o tal público médio de rock. Gente que se importa com este tipo de coisa: riffs, piadas tortas, pop stars sarcásticos, love stories desengonçadas, listas de fim de ano. Eu, você. Qual é a nossa idade? 30? 25? 18 anos? Tanto faz. Estamos na outra ponta do diálogo, convocados a nos identificar com a verborragia ruidosa deste septeto galês. Somos, de certa forma, o tema das canções.

Era o que acontecia nos dois discos anteriores da banda, ambos de 2008: Hold on now, youngster e We are beautiful, we are doomed. Em Romance is boring, eles parecem ainda mais confortáveis nesse papel de talk-show-hosts do nosso cotidiano. É um disco “de amor”. Mas, ao contrário da delicadeza nerd de One life stand, do Hot Chip, um amor ordinário, pé-no-chão, cínico e safado. Um disco também sobre sexo, morte e sarcasmo. E cortes de cabelo.

Gareth, aparentemente, interpreta um personagem. E esse personagem é um cínico que, em algumas recaídas, se revela um sujeito adorável. A faixa-título, saltitante feito brit pop, enxerga a chatice dos romances (o melhor, como diz o vocalista, é provar um pouco do “bolo fálico” que ele acabou de preparar). Ela vem logo depois de uma faixa que narra a história de um amor obsessivo, sequelado, coisa de principiante (e admita: There are listed buildings tem um quê de Dashboard Confessional). Em Straight in at 101, eles pulam as preliminares: “Precisamos de mais pós-coito e de menos pós-rock.”

Apesar das tentativas de uma sonoridade mais sortida (eles conseguem lembrar Pixies, Sleater-Kinney e New Pornographers numa mesma canção), os versos de Gareth ainda soam mais excitantes do que a música dos Campesinos. Como acontece com o Art Brut, a banda ganha um outro porte quando entendemos sobre o que ela está cantando. A produção bruta de John Goodmanson ressalta a cacofonia e lima sutilezas. Tudo bem: desde o primeiro flerte, a banda nos seduziu a pancadas. Mas me parece justo perguntar se o terceiro álbum da carreira não seria o momento de surpreender também musicalmente (Boys and girls in America, do Hold Steady, serviria de belo exemplo).

Mas, como eu disse, não é isso que nos fará voltar aos Campesinos. Em Who fell asleep in, eles falam em religiosidade como quem discute um problema prático (como beijar uma garota que parece manter uma relação íntima com deus?). Em I just sighed, I just sighed, I just sighed, observam os efeitos provocados por um corte de cabelo na masculinidade. Mais comovente é The sea is a good place to think of the future, quando Gareth se rasga todo enquanto fala sobre uma menina deprimida, amaldiçoada pela beleza. “Ela não está comendo de novo, ela não está comendo de novo, ela não está comendo de novo, ela não está comendo de novo”, repete, enfático.

É um grande disquinho que explica por que os Campesinos estão fadados à incompreensão: aqueles que desprezam a banda logo de saída (já que a sonoridade ainda parece mesmo um tanto genérica — e que beleza seria se eles encontrassem um bom produtor!) não chegam à corrente sanguínea de um grupo que destoa de quase tudo o que está em cartaz. Atípico por lembrar aquele seu amigo de infância — nem extraordinário, nem desprezível, tão próximo de sua vida.

Terceiro disco do Los Campesinos. 15 faixas, com produção de John Goodmanson. Lançamento Wichita Recordings. 7.5/10

X-Men origens: Wolverine

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X-Men origins: Wolverine, 2009. De Gavin Hood. Com Hugh Jackman. Liev Schreiber e Ryan Reynolds. 110min. 5/10

Se geralmente não me interesso por filmes de super-heróis, por que insisto tanto neles? Seria uma forma de masoquismo?

Existe uma etapa da vida em que simplesmente abandonamos tudo aquilo que não nos agrada? Que aprendemos a passar à margem do que nos deixa insatisfeitos? Que desistimos em definitivo das segundas chances?

Quando esse meu dia chegar, temo pelos filmes de super-heróis.

Por enquanto, eles resistem. É que sou um sujeito curioso. E teimoso. Por isso volto regularmente a procurar um grande filme do gênero como aqueles surfistas que buscam a onda perfeita. Admito (sem achar graça nisso): ainda não o encontrei.

Os que mais me impressionam são aqueles que integram trajetórias de cineastas que me interessariam até se filmassem adaptações de Jane Austen. Tim Burton, por exemplo. Bryan Singer, apesar das pisadas na bola. Guillermo del Toro, e provavelmente vocês já entenderam onde quero chegar.

Sem um bom cineasta disposto a transfigurá-lo, o gênero me aborrece. Nada posso fazer contra isso. Provoca um efeito entediante que é superior à média de fitas de ação e comédias românticas que assisto a cada seis meses (e são muitas). Acompanhar as “histórias de formação” de super-heróis – aquelas narrativas que nos explicam detalhadamente como o sujeito aprendeu a voar, ficar invisível e quebrar vidros com o poder do pensamento – equivale a assistir a uma longa maratona de Gossip girl e Grey’s anatomy. Um inferno, acreditem.

Sei que estou na contramão do mercado, das bilheterias, dos lucros astronômicos de estúdios poderosos e tudo o mais. Posso viver com isso. Hoje em dia, vender um filmeco qualquer como uma “história de formação de super-herói” é meio caminho andado para faturar horrores. Sei. Entendo. Estou por dentro. Não penalizo o público por cair nesse conto vagabundo. Eu, que não sou ingênuo nem nada, estarei sempre na fila para assistir a qualquer ficção-científica sobre a destruição do planeta Terra. Somos todos culpados. E estamos quites nisso, ok?

Eis que…

Qual não foi minha alegria ao descobrir que a Fox Film inaugurou uma nova franquia de “filmes sobre heróis em formação”, e ela começa com Wolverine? Se cair no gosto do público (já estou fazendo figa para que todos se entediem profundamente e se sintam miseráveis, engasguem com pipoca e drops de menta etc), seremos atacados por outros contos sobre as primeiras experiências de tipinhos extraordinários.

Eu sei. Eu deveria desistir deles. Vocês têm razão. Vocês sabem. Mas insisto. E vejam bem: com o mesmo distanciamento que aplico a filmes de Ron Howard e Michael Bay, consigo analisá-los até objetivamente, sem paixão, sem ódio, sem nada. Vejo qualidades. Coço o queixo, pensativo. Desenvolvo hipóteses, desenho diagramas. Analiso. Como quem abre um hamster. Tanto que, em vários momentos, compreendo que tenho direito a desenvolver alergia a filmes eficientes e bem-intencionados, com boas idéias e cineastas esforçados. Consigo. Respeito. Mas não é o caso de Wolverine.

O processo de filmagem do longa de Gavin Hood foi tão acidentado (DVD pirata sem efeitos especiais? E demitiram o jornalista por causa de uma resenhazinha? Pff) que provavelmente tudo o que a Fox quer neste exato momento é que a crítica trate o filme como um produto correto, simpático, que cumpre requisitos e sai-se bem no teste do olhômetro. Um legítimo nota 6. Para mim, é apenas um longa que exibe em cada cena o quão dolorosamente matemático pode ser o processo de confecção de um blockbuster.

Vamos lá, sem inocência: isto aqui é um baita de um mutante gerado em dezenas de reuniões de executivos de estúdio. Hood já declarou que não se interessa nem nunca se interessou por revistas em quadrinhos (isso significa que até eu, antigo leitor de Batman e Chico Bento, poderia ter dirigido o filme!), e a falta de paixão fica bastante clara na tela. O cineasta não leva muito a sério o que está filmando – e, se despretensão conta a favor de fitas autoirônicas do gênero (como Hancock, taí uma de que gostei), parece deslocada num action movie que parece querer ser Batman begins quando crescer. Falta pompa, carece de ambições trágicas, no mínimo.

O próprio Hugh Jackman, também produtor, interferiu no roteiro. Dizem que o filme custou algo em torno de US$ 100 milhões. Imagino que 90% disso tenha sido investido nas cenas de ação, tão mirabolantes e radicalmente tolas quanto as de Velozes e furiosos 4. O restante da produção parece ter sido penalizado por um acabamento de quinta categoria. Os cenários são galpões amarelados, laboratórios subterrâneos, castelos medievais de parque de diversão, objetos gerados em computação gráfica e uma ou outra casinha isolada numa montanha canadense. Movimentar meus olhos diante da tela exigiu esforço.

Encarado como o piloto de um episódio de tevê, o filme parece até (aí vai, Fox!) correto e eficiente. Eu o exibiria no AXN por volta das 20h, antes de uma reprise de Lost. A vantagem, no caso, é que Hood e Jackman fazem o possível para não lambuzar o belo trabalho de Singer no primeiro X-Men. A proposta de ambientar a trama 20 anos antes dos eventos do longa original é boa, já que evita comparações desnecessárias. Toda a narrativa se desenrola antes do dia em que as memórias de Wolverine perdeu a memória. Pode ter sido apenas um sonho ruim, vá saber.

Pelo que lembro, o filme de Singer resumia com bastante precisão a origem de Wolverine. Ou pelo menos o que precisávamos saber sobre ela. Aqui, boa parte das informações parecem subaproveitadas. Por exemplo: quando criança, Wolverine matou acidentalmente o próprio pai. Mais crescido, se viu obrigado a lutar violentamente contra o meio-irmão. Quando encontrou a mulher dos sonhos, ela revelou perigosas segundas intenções. É uma vida de cão ou não é? É Shakespeare, é Bíblia Sagrada ou não é? Hood toma esses traumas e faz deles uma fita de aventura para adolescentes – inofensiva, dente-de-leite.

Outro exemplo: os mutantes que cercam Wolverine (sim, já que este suposto voo solo acaba se revelando mais um filme de mutantes). Quem são eles? O que eles contam? No final da projeção, fiquei perdido entre tantos coadjuvantes que parecem existir apenas para preencher sequências de ação. Mas aí vem a necessidade de apresentar uma galeria de personagens para satisfazer os fãs que, quando não lêem gibis, assistem a episódios de Heroes e reruns de Caminhos do coração. Essa gente.

Aliás, tai outra coisa que me irrita em filmes de super-heróis. Quase todos os argumentos levam em conta os fãs, essa entidade misteriosa. Quem são eles? Não faço idéia. Ao final da sessão, hoje pela manhã, um jornalista usou essa velha cartada para defender o filme:

– Os fãs vão gostar.

– Os fãs dos quadrinhos?, perguntei, intrigado.

– Não. Os fãs dos outros três filmes.

– E os fãs dos quadrinhos?

– Esses talvez não gostem.

– E as fãs do Hugh Jackman?

– Essas vão gostar.

– E os fãs do Gavin Hood?

– Não existe.

Deixei assim. Sempre deixo. É normal. Nunca encontro respostas para esse tipo de pergunta. Repito: quem são os fãs? Como eles decidem se gostam ou não gostam de uma adaptação cinematográfica? Eles se reúnem em congressos ultrasecretos, onde assinam conclusões definitivas? Escrevem declarações e fazem cópias em três vias? Debatem via MSN e Twitter? Onde eles estão? Onde moram? São norte-americanos, na certa, mas de que estado? São sócios de algum clube? Jogam golfe? Falam três idiomas? Formam uma espécie de seita? Sinceramente, ainda não sei. Sempre que alguém justifica o apelo de um filme pelo gosto dos “fãs”, me sinto enganado. Estou certo de que alguns fãs gostarão de Wolverine. E estou certo de que outros sairão do cinema decepcionados. Mas por que deveríamos levar isso em conta quando discutimos um filme?

Wolverine me pareceu um filme capenga e desastrado. Como tantos outros. Há bons atores, Hugh Jackman é um chapa carismático (talvez demais, já que o papel exige uma angústia que ele não sabe de onde tirar) e a trama é curta o suficiente para não cansar. Nada memorável. E sim, claro, nosso angustiado Wolverine passa por uma série de testes para descobrir que a vida é feita de escolhas e que às vezes Freud não explica e que grandes poderes trazem grandes responsabilidades e que…

Os fãs entenderão.