Abdellatif Kechiche

Os filmes da minha vida (2)

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A saga dos 100 filmes mais cultuados cá na Tiagolândia chega ao segundo episódio com mais dois títulos que cuspiram lava no meu infinito particular. Vocês entendem a dimensão desta série de posts, entendem?

Mas, sem querer ficar marisamonteando, serei sucinto: já que este ranking só vai terminar após a Copa de 2022, sugiro que os cinco frequentadores deste blog relaxem e, sem fazer julgamentos cruéis, aproveitem o passeio ao pântano das minhas lembranças & sentimentos imperfeitos. Ainda estamos nos trêilers, ok? E a sessão é tripla, tá certo? Então sit tight que…

098 | A esquiva | L’esquive | Abdellatif Kechiche | 2003

Quando penso em muitos dos meus filmes preferidos, geralmente lembro de características que nada têm a ver com a trama, com os conflitos que eles narram. Tomei um susto, por exemplo, ao ler hoje que as crianças de A esquiva ensaiam uma peça de Marivaux. É uma informação importante dentro do filme, mas que havia desaparecido dentro das minhas memórias. O que ficou foi uma impressão até infantil de coração partido: o desejo de ter permanecido verdadeiramente mais algumas horas, dias, dentro daquele mundo onde vivem os personagens. A encenação me convidou a entrar, digamos assim, e de repente eu me tornei um dos meninos da trama. Não foram poucas as vezes em que eu saí da sala de cinema como quem acorda de um daqueles sonhos que parecem muito vívidos: mas eu tinha uns 28 anos quando vi este filme. Não era mais inocente. Não era criança. Mas foi nisso que me transformei, naquela sessão (na embaixada da França), para meu espanto. Quando acenderam as luzes, me senti desamparado.

097 | Império do sol | Empire of the sun | Steven Spielberg | 1987

A história da minha minha relação com este longa de Spielberg está cheia de incompreensão e repulsa. Detestei o filme. Mas detestei, antes de tudo, porque não o compreendi, não entendi absolutamente nada da trama. Minha mãe cometeu um erro (uma ousadia?) ao me levar para o cinema numa época em que eu ainda não sabia ler legendas: o que ficou daquela sessão foi uma coleção de imagens desconexas. Também restou: um menino (mais ou menos da minha idade) perdido dentro de uma guerra e dentro de uma tela, tudo destroçado dentro da minha imaginação. Foi um embate difícil, sangrento, entre o espectador de oito anos e o pequeno J.G. Ballard (que se tornaria um dos meus escritores preferidos; mas muito mais tarde). Lembro que, nos créditos finais, me senti ainda mais pequeno, burro: enquanto o público aplaudia e chorava, eu só queria que alguém me explicasse aquela história, os diálogos, qualquer coisa. Mas eu me recusava a pedir orientações – e, depois que aprendi a ler legendas, me recusei a rever o filme. É um porre, eu dizia aos meus amigos. Menino orgulhoso, como vocês podem perceber.

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Drops | Mostra de São Paulo (10)

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'Vênus negra', de Abdellatif Kechiche

Copacabana | Marc Fitoussi | 2.5/5 | Babou é uma francesa com jeitinho brasileiro: cordial, otimista, desestressada, espirituosa, com muito jogo de cintura (também um pouquinho de malandragem; ninguém é de ferro) e o desejo quase avassalador de vestir plumas coloridas e cair no samba. O filme vê a personagem como um antídoto ao rigor por vezes sufocante da sociedade francesa – uma conclusão que, para o público brasileiro, pode soar irônica. Por sorte, o “gringo” Fitoussi tem Isabelle Huppert, que carrega uma comédia tão densa quanto um biscoito Globo.

O ultraje | Autoreiji/Outrage | Takeshi Kitano | 3/5 | Pode parecer uma contradição: depois de ter anunciado aposentadoria dos filmes sobre a máfia Yakuza, Kitano nos vem com um thriller que amplifica, agiganta, dá um close desagradável nos lugares-comuns do gênero: o sangue e a fúria. O tiroteio entre gangues rivais se torna tão repetitiva que, em vez da excitação típica de action movies, anestesia os nossos sentidos. Quando expõe exageradamente essa violência mecânica, banalizada da máfia japonesa (que não comove, que perde totalmente o significado e vira cartum), o diretor atira contra o gênero em que o filme supostamente se enquadraria. Mas, apesar de coerente com a fase autocrítica de Kitano, é um filme cujas ideias (sobre o cinema, sobre a máfia) me interessam mais do que a realização em si, que carece de uma artilharia de imagens poderosas.

Vênus negra | Vênus noire | Abdellatif Kechiche | 3.5/5 | Kechiche, o diretor de A esquiva e O segredo do grão, usa cada átomo da narrativa para esfregar nas nossas consciências o martírio da africana Sarah Baartman, exibida como atração circense para os pobres e os nobres ingleses do século 19. Não é, nem deveria ser, um retrato confortável: o cineasta organiza a trama de forma a acentuar, plano a plano, a intensidade do sofrimento da personagem, cujo corpo rechonchudo foi explorado cruelmente a serviço do comércio, do entretenimento, do sexo e, finalmente, da ciência. Os métodos de Kechiche têm um quê de chantagem sentimental (as cenas são estendidas implacavelmente dentro das 2h40 de duração; a câmera, grudada à ação, chega a pingar suor), mas eles se justificam por uma defesa incondicional, ferrenha mesmo, da dignidade humana. Como dizem, o feel-bad movie da Mostra.

Ondulação | Curling | Denis Côté | 1.5/5 | Um drama canadense projetado para preencher requisitos de festivais: paisagens exóticas (confirma!), famílias disfuncionais (confirma!), personagens lacônicos e solitários (confirma!), imagens lentas e silenciosas (confirma!), alguma reflexão sobre a banalização da violência (confirma!), roteiro inconcluso (confirma!), uma linda fotografia (zzzzzzzz).

Vocês todos são capitães | Todos vós sodes capitáns | Oliver Laxe | 3/5 | Como acontece em muitas estreias promissoras, este longa espanhol danta (às vezes sem conseguir) dar forma a um turbilhão de ideias interessantes – no caso, a meio caminho entre a ficção e o documentário. A intenção é das melhores; o resultado, um tanto vago: na trama, um diretor europeu quer fazer um filme “social” sobre crianças de um orfanato do Tânger, mas elas tomam o controle da câmera e obrigam a equipe a tomar um desvio imprevisto. Se Laxe desenvolvesse a narrativa com o mesma gana com que compõe imagens bonitas, estaríamos feitos.

O segredo do grão

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La graine et le mulet, 2007. De Abdellatif Kechiche. Com Habib Boufares, Hafsia Herzia e Farida Benkhetache. 151min. **

Decidiram exibir O segredo do grão na abertura da Mostra de Cinema Europeu, que começou ontem aqui em Brasília. Uma escolha bastante segura, já que o tema do evento é Diversidade e multiculturalismo (a trama acompanha o cotidiano de uma família de tunisianos na França). Mas também arriscada: assistir a este longa de 2h30 de duração numa sala sem ar-condicionado e cheia de mosquitos só fez ressaltar um dos problemas mais enervantes do filme: taí uma narrativa que se orgulha da própria flacidez.

Para mim, foi uma imensa decepção. Nem consigo comparar muito com A esquiva, já que ficaria parecendo um retrocesso terrível. Naquele filme, Kechiche não quer apenas retratar a vida de adolescentes de subúrbio, mas compreender profundamente os códigos daquele grupo social (e a experiência seria interessantíssima mesmo se reduzida a um making of). Já O segredo do grão deixa a impressão de obrigar que os personagens se adaptem a certas marcas supostamente autorais que soam artificiais (no sentido de não revelar naturalidade) em quase tudo.

Até a seqüência mais elogiada do filme, que envolve um almoço de domingo, não me convenceu tanto assim. O cineasta dá espaço para que cada personagem grude na película, e por aí realmente filma seqüências belíssimas como a da conversa do padrasto com a menina (e esse é o grande mérito do filme, daí as duas estrelinhas muito tímidas lá em cima), mas apela para um falatório histérico que, antes de parecer autêntico, deixa a impressão de uma fórmula aplicada a fórceps.

Mas o pior mesmo chega na metade final da trama, quando o roteiro dá marteladas na encenação relaxada que Kechiche ia construindo até ali. São golpes grosseiros que, ao mesmo tempo em que transformam o filme numa comédia de erros, condenam os personagens a uma via crúcis extremamente calculada, fria, que ofende a inteligência de qualquer um. O plano final, antecipado pelo filme em quase quinze minutos, é o momento em que Kechiche esgota todas as possibilidades da narrativa. É exaustivo. Tudo o que consegui sentir foi calor (por causa da falta de ar-condicionado), fome (haja cuscuz) e uma saudade danada de A esquiva.