3D

cine | Pina

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Ah, cá estamos de volta ao incrível mundo dos documentários europeus em 3D! Ou quase isso (calma que explico).

Quando lançou Pina (B), Wim Wenders falou à imprensa que era antigo (muito antigo: duas décadas!) o projeto de filmar as coregrafias de Pina Bausch. Mas que só descobriu como levá-lo a cabo quando a tecnologia 3D digital apareceu no mercado. Este é, portanto, um documentário concebido para ser visto em tela grande, com óculos especiais. Imagino que, se exibido no Cinemark aqui de Brasília, possivelmente faria algum sucesso dividindo sessões com Premonição 5 – outro filme que perderia força se exibido sem efeitos tridimensionais.

Essa breve introdução se faz necessária porque, infelizmente (pois é), não vi Pina em 3D. O que traz (perdoe o trocadilho) uma outra dimensão a este post: sem o bônus visual (ao que parece, perfeitamente adequado ao tema do filme, ressaltando o movimento dos corpos dos bailarinos), o que temos é apenas um doc muito vistoso, mas sem o fator deslumbramento que nos distrairia de algumas escolhas (não tão deslumbrantes) de Wenders.

Outro obstáculo que talvez tenha minado minhas expectativas: assisti a este filme logo depois de George Harrison: Living in the Material World. A comparação entre os dois longas, aliás, se mostrou mais cruel do que eu temia. Porque, enquanto Scorsese se aproxima do personagem-celebridade como quem não quer nada (mas quer tudo), Wenders usa todo tipo de firula cênica para iluminar, maquiar e nutrir o perfil de Bausch – e o faz como que para compensar a ausência de um ponto de vista musculoso para o legado da alemã.

Pode parecer – e parte da crítica europeia repetiu essa ladainha infeliz – que o cineasta se esconde para deixar que Pina apareça. Só que não, não dá para comprar essa ideia, já que as escolhas narrativas do filme (as entrevistas etéreas com os bailarinos, as cenas à la cartão-postal filmadas em paisagens lindíssimas, as ‘licenças poéticas’) são, obviamente, quase todas de Wenders. Será que o 3D salva tudo isso?

Perguntinha retórica, é claro. Se esse é o projeto mais bem sucedido do diretor desde Buena Vista Social Club (e graças a Pina, a autora das coreografias muito inventivas que dominam o longa), não chega a resolver um bloqueio antigo: aquele Wenders dos anos 1970-80, que aparecia com muita propriedade nos filmes que fazia, segue meio sumido.

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mostraSP | Dias 11 a 14

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Aqui termina o meu diário da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Infelizmente (ou felizmente, dependendo do seu ponto de vista), são curtos os parágrafos sobre os últimos filmes que vi no festival. Tenho muito a dizer sobre cada um deles, mas pouco tempo. No mais, começo a achar que os posts desta série provocam certo cansaço até no leitor mais dedicado deste blog.

Portanto, rapidinho: as cotações ainda vão da letra D (de desagradável, digamos), à letra A+ (de absolutamente mágico, digamos). Além dos filmes que estão neste post, ainda assisti à cópia restaurada de Despair (1978), de Fassbinder, e à cópia encardida de Meu amigo Ivan Lapshin (1986), de Aleksei German. Não escreverei sobre esses filmes porque me sinto pequeno/burro perto deles. Logo após os comentários vocês encontram a meu top 10 da Mostra.

Fausto | Faust | Alexander Sokurov | A | Na primeira hora de projeção, a lenda de Fausto é narrada com a agilidade de uma aventura medieval. Parece o filme mais direto de Sokurov. Mas, ao enevoar progressivamente a trama, o cineasta nos mergulha no pesadelo do personagem – e, para quem não estiver disposto às comparações com a obra de Goethe, o filme pode ser visto simplesmente como uma caminhada para a perdição (por trilhas cada vez mais estreitas e difíceis), na companhia de um diabo cínico e encenada dentro de algums das imagens mais delirantes, mais impressionantes, que o cineasta já compôs. Mais ou menos como acontecia com o Tarantino de Bastardos inglórios, Sokurov cria o filme com a intenção quase declarada de compor uma obra-prima. Não acredito que chegue a tanto, mas não dá para acusar o diretor de negar fogo diante de ambições tão gigantescas. Resultado da odisseia: um filme acessível como nenhum outro do cineasta – e misterioso, estranho como qualquer um que já dirigiu. Escolha corajosa do júri de Veneza.

Caverna dos sonhos esquecidos | Cave of forgotten dreams | Werner Herzog | B | Um bom doc do History Channel, que cresce quando Herzog se livra das amarras do formato e divaga sobre as origens da arte. A exibição em 3D, adequada ao tema do longa, transformou o filme numa das atrações principais da Mostra de SP. Mas não é para tanto: ele não me parece singular ou forte, por exemplo, como um Homem-urso.

Um mundo misterioso | Un mundo misterioso | Rodrigo Moreno | B | Nada importante acontece, quase sempre graciosamente. Mais bem humorado e menos frustrante que O guardião, o anterior do cineasta.

Tudo pelo poder | The ides of march | George Clooney | B | Um conto político à americana: ágil, fun, um tanto simplório (e o título em português poderia ser Tudo por uma boa reviravolta de roteiro), but it works, it does. No elenco, todos os homens de Steven Soderbergh.

O dominador | Cho-neung-nyeok-ja | Kim Min-suk | B | Um super-herói boa-praça, um supervilão estressadíssimo, Coreia scores again.

Os contos da noite | Les contes de la nuit | Michel Ocelot | C+ | Animação com estilo (e Ocelot, tal como Sokurov, é dono de uma ilha visual absolutamente particular), mas o tom professoral/pedante da narrativa me afastou um pouco da brincadeira. E o gosto pelo exotismo, raso desse jeito, me parece uma boa intenção apenas superficial.

Projeto Nim | Project Nim | James Marsh | C+ | O diretor de O equilibrista acompanha a dura vida de um chimpanzé (submetido a pesquisas científicas e, por fim, abandonado) num doc cujo tema interessa mais que o formato: domesticado, quadradíssimo.

Periferic | Bogdan George Apetri | C | Um romeno especialmente romeno, sob medida para festivais de cinema. Na trama, tragédia pouca é bobagem.

Kaidan horror classics | Ayashiki bungo kaidan | Hirokazu Kore-eda, Masayuki Ochiai, Shinya Tsukamoto e Lee Sang | C | Combo televisivo (produzido pela NHK) cheio de limitações. O episódio do Kore-eda é o único que se salva.

País do desejo | Paulo Caldas | D | Momento vergonha-alheia da Mostra. Que diálogos são esses, Brasil?

Os 3 | Nando Olival | D | Cinema publicitário sem culpa (e sem rumo, sem graça, sem brio, sem razão de ser). Felizmente, dura apenas 80 minutos.

Desapego | Detachment | Tony Kaye | D | Um drama sobre o cotidiano em escolas públicas americanas que tenta chocar, tenta emocionar, mas só consegue ser tosco e infantil. Kaye, diretor de American history X, grita ao espectador lições que já conhecemos. Duas opções: encarar o filme como um Entre os muros da escola from hell. Ou abandonar a sala após a cena em que estudantes matam um gatinho a marteladas.

Top 10: Meus favoritos da Mostra de São Paulo

01. Isto não é um filme, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi
02. The day he arrives, de Hong Sang-soo
03. Fausto, de Alexander Sokurov
04. Histórias da insônia, de Jonas Mekas
05. Habemus papam, de Nanni Moretti
06. O garoto da bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
07. Irmãs jamais, de Marco Bellocchio
08. Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan
09. Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvecio Marins Jr
10. Las acacias, de Pablo Giorgelli

2 ou 4 parágrafos | Rio

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No multiplex aqui da esquina, inventaram de inaugurar uma sala superviril, potente, que nos intimida já no design da fachada (luminosa, kitsch, em tons de verde e prata). O sistema de som vai fundo no desafio de inflamar nossos tímpanos e aposto que, nas cenas de explosão, sai fumaça da tela. Uma delícia. Mas, para abrir o playground, essa gente ambiciosa cometeu um deslize fatal: programou a animação Rio (2/5). Que equivale a convidar o Jota Quest para tocar no palco ultratecnológico do U2.

Quando você abstrai os efeitos 3D (que são discretos; perto deles, Fúria sobre rodas é uma revolução visual) e o estrondo desnecessário do dolby digital, o que sobra é uma matinê antiquada, desbotada, by-the-numbers, que me transportou a uma época muito anterior ao domínio do Império Pixar. É o tipo de receita-de-muffin à Syd Field que, nesse ramo tão competitivo, ninguém mais tem coragem de aplicar (pelo menos não desse jeito unidimensional): o herói carismático e um tanto estabanado, o vilão terrivelmente malvado, os coadjuvantes que servem de alívio cômico, a guria linda e valente, os números musicais acoplados de qualquer jeito entre uma cena e outra, romance e ação.

É um passatempo tolinho, genérico, que não deve ser levado a sério (e, se decidirmos levá-lo a sério, então teremos que levar MUITO a sério concorrentes nem tão espetaculares como Rango e Como treinar o seu dragão), mas que desperta nossa curiosidade – e falo em nós, brasileiros – mais pelo cenário do que pelos personagens e pela trama. Porque o interessante é descobrir de que forma o Rio de Janeiro foi filtrado e embalado pelos pixels da Blue Sky para ser vendido lá na gringa.

Sobre esse aspecto, sou otimista: me parece um filme muito simpático e respeitoso com a cidade (nem precisava tanto, sinceramente), que sai-se bem com a sacada de encenar a narrativa no carnaval, uma época que parece permitir todo tipo de delírio e licença poética. Macacos malandros? Meninos órfãos assediados por bandidos do morro? Ok. Mas nada que me faça admirar um filme tão automático, sem estilo ou graça. Carlos Saldanha é um brasileiro que ganha muito dinheiro lá fora, que domina uma técnica, uma fórmula. Talvez seja motivo de orgulho, um exemplo a ser seguido. Tudo bem. O que ainda procuro nele e não encontro é algo diferente disso: um cineasta.

Forced to love | Broken Social Scene

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Vocês me conhecem muito pouco, mas o suficiente para saber que não vou trocar meu televisor de 42 toneladas por um desses monitores que prometem altas viagens em três dimensões. Não vou. Mas, graças ao Broken Social Scene, prometo pensar no assunto. É que esse clipe ultra-mega-tecnológico de Forced to love me deixou salivando por um daqueles óculos quadradões. Os diretores Adam Makarenko e Alan Poon usam um scanner que distorce a forma das imagens e cria camadas fantasmagóricas. E, no fim, usam um toque eco-friendly para… Péra aí. Certeza que não foi James Cameron quem dirigiu?

2 ou 3 parágrafos | Alice no país das maravilhas

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Mais do que uma decepção, este Alice no país das maravilhas (3/5) me pareceu foi um grande de um mistério. Saí da sessão disparando perguntas às paredes. Por que Tim Burton resolveu criar uma adaptação de Lewis Carroll que mais parece uma homenagem ao C.S. Lewis (com cenas de batalha pra lá de Nárnia)? Por que o nonsense hilariante do livro foi praticamente limado do roteiro de Linda Woolverton? Por que os efeitos 3D resultam achatados e pálidos? Por que, nos momentos mais mecânicos, a trama poderia ter saído de uma reunião da equipe de marketing da Disney?

Sim. É sério. E vai me dizer que você não conhece o Guia Disney para faturar alto, conquistar o maior número de pessoas e arruinar um clássico da literatura? 1. Transforme a protagonista numa aborrecente de 19 anos (caso contrário, este seria um filme infantil), 2. Adapte o livro ao modelo de fitas de aventura com um quê épico, pós-Senhor dos anéis, 3. Dê de presente ao Johnny Depp mais um tipo bizarro, 4. Escolha um cineasta que garanta ao longa um certo ar de relevância, 5. Exiba cópias em 3D, 6. Inclua uma música insuportável da Avril Lavigne na trilha sonora, 7. E boa viagem!

Ok, vamos falar sério (é que pode não parecer, mas eu gostei do filme). O que me agrada neste Alice não é a forma muito perversa como Burton transfigura o espírito de uma obra-prima (até as minhas expectativas foram desafiadas: eu queria um filme mais sombrio, cruel, um milkshake de Sweeney Todd com A fantástica fábrica de chocolate, entende?), mas as sutis peripécias do diretor, que constroi um “país das maravilhas” decadente e desolado, sob a névoa da guerra e do autoritarismo. Um inferno. Há uma cena em que a jovem Alice lembra dos dias de criança: o contraste com o resto do filme é absoluto. A personagem de Carroll vivia num mundo mais colorido, um delírio infantil. Mas a festa já acabou quando a heroína de Burton desce à toca do coelho. Novamente, no entanto, é na fantasia que a personagem vai se armar para enfrentar a “vida real”. E, se o diretor parece um pouco desinteressado com essa batalha, talvez seja até compreensível: ao longo da carreira, Burton “filmou” Lewis Carroll de tantas formas diferentes que este novo hit da Disney deixa a sensação de ser a mais banal entre todas elas.

2 ou 3 parágrafos | Como treinar o seu dragão

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Esta boa animação digital da Dreamkworks (3/5) bem que poderia se chamar Como sobreviver no mundo de Avatar. Os diretores de Lilo e Stitch, mais espertos do que imaginávamos, entenderam a lição de James Cameron: usam o 3D como elemento criativo, essencial à narrativa.

Os personagens do filme são vikings que enfrentam dragões. Os monstrengos voam alto, dão piruetas. E é como se voássemos com eles. Parece um detalhe bobo, mas poucas fitas do gênero se beneficiaram tanto da tecnologia para nos transportar a um ambiente fantasioso. Em alguns trechos, parece até que os diretores se entusiasmam com o truque, curtem a brincadeira. Não vi nada parecido em Up – Altas aventuras, nem em Monstros vs. alienígenas, muito menos em A era do gelo 3. É um avanço.

No mais, Dean DeBlois e Chris Sanders vão ao trabalho (isto é: confrontam a Pixar) com as armas menos vulgares: a exemplo de Wall-E e Up, vão buscar no cinema de Hayao Miyazaki uma pincelada de lirismo que dá uma outra dimensão à amizade entre o menino outsider e o dragão com fama de mau. Nada muito pessoal, é claro (aliás, quando é que vão lançar Ponyo no Brasil?). Estamos falando de uma animação by the numbers (tudo é fórmula: a narração em off, os coadjuvantes engraçadinhos, o motivo romântico etc). Mas é um alívio notar que os estúdios querem bancar a “revolução” de Avatar: não tenho muito a reclamar de filmes que levam a sério tanto o 3D quanto esse tipo honesto de sentimentalismo, à japonesa.

Heligoland | Massive Attack

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Quem tem menos de 20 anos pode (e tem o direito de) desconfiar, mas havia um tempo em que o Massive Attack era uma das bandas mais importantes do planeta.

Sério. Quando lançaram Mezzanine, em 1998, Daddy G, Mushroom e 3D ainda posavam nas fotos como gângsteres emburrados, irritadiços, visionários e muito perigosos. Até eu, um inocente fã de Smashing Pumpkins e Oasis, os respeitava.

Nas revistas inglesas, pareciam intocáveis: passavam por “pais do trip hop” (o gênero mais cool na prateleira de CDs), “alquimistas pop”, “inventores da nova soul music”, “reis de Bristol”. Eram os caras que gravaram uma obra-prima precoce (Blue lines, de 1991) e dois grandes álbuns que chegavam bem perto daquela estreia (Protection, de 1994, e o próprio Mezzanine). Nas listas de melhores do ano, entravam sempre com pulseirinhas VIP.

Acredito até que, por algum momento, alguns meses, lá por volta de 1996, todo rapper sonhava em fazer uma ponta num disco do Massive Attack.

Para quem viveu os anos 90, é complicado entender por que, há 10 anos, o Massive Attack não é capaz de provocar tanta comoção. O que houve? Por que uma banda que traduzia tão bem a atmosfera de tensão e paranoia do fim de século não conseguiu sobreviver ao bug do milênio? Por que, justo no momento em que as coisas ficaram verdadeiramente confusas, eles nos abandonaram?

Sem querer encontrar o diagnóstico para a síndrome, minha hipótese é de que a musa do Massive Attack era os anos 90. O trio soube, como poucos, congelar a polpa de uma década transitória, sem identidade definida, um período de muitas incertezas e transformações velozes, às vezes inacreditáveis (e a banda nem teve tempo para entender a internet, por exemplo). O trip hop é a trilha sonora dos anos 90: uma colagem mutante, urbana, sombria e prestes a explodir.

Discos como Mezzanine e Pre-millenium tension (esse último, do Tricky) ainda soam como um réquiem para o século. Curioso é como o “novo mundo” previsto pelo trip hop acabou por destroçar o gênero. O Portishead demorou uma eternidade para lançar o terceiro disco, que só foi possível graças a um longo processo de reinvenção. O Tricky não soube se adaptar bem ao futuro e o Massive Attack acabou se desintegrando. O gélido 100th window, de 2003, soa como um projeto solo de 3D — ainda estiloso e fatalista, mas sem destino.

No álbum novo, Heligoland, eles tentam retomar uma estrada que parecia perdida desde o fim dos anos 90. Daddy G volta à cena e, agora como duo, a banda tenta retornar a uma sonoridade mais carnuda, calorosa, mais para a soul music do que para a eletrônica minimalista. É uma boa tentativa, com alguns grandes momentos. Mas, novamente, eles se esforçam para retratar um estado de coisas que não mais compreendem.

Para eles, a única salvação seria fazer justiça ao prestígio que ainda preservam junto ao público que cresceu nos anos 90. Muitos críticos vão tratar este disco com condescendência, talvez estimulados por lembranças daquela época. Ainda que nada em Heligoland dê sinais da maior qualidade do antigo Massive Attack: a capacidade de nos assombrar.

Pelo contrário. Este é o álbum mais domesticado que eles gravaram. Previsível na escolha dos convidados da vez (se bem que Horace Andy, Hope Sandoval e Damon Albarn mostram muito bem a saudade que este disco sente dos anos 90), mas o mais próximo que eles chegaram do pop. A faixa de abertura, com participação de Tunde Adebimpe (TV on the Radio), explica tudo: começa como um mantra à Protection e logo facilita nosso trabalho com um trecho melodioso que quase soa como uma homenagem a Brian Wilson. Slitting the atom, outro bom momento, abre com camadas de vocais abafados, mas quebra o mistério com um refrão até assobiável. O miolo do disco fica nessa dúvida: é possível reciclar e diluir o próprio passado com alguma diginidade?

Talvez sim. Um exemplo de que a banda realmente se esforçou é a alienígena Paradise circus, que poderia ser usada como tema de ficção científica (o clima cinematográfico do disco, aliás, diz muito sobre a experiência de 3D em trilhas sonoras). Ou o crossover, ainda que discreto, com o brit pop, em Saturday come slow (uma típica balada desesperada dos três últimos discos do Blur).

Há elegância, alguma segurança nesse tiroteio. Mas, é claro, eles continuam perdidinhos nos anos 00. Seria interessante se, nos próximos discos, 3D e Daddy G conseguissem usar essa dificuldade de adaptação como motor para dialogar com uma geração que também sofre com esse tipo de crise. Mas, ao contrário de colegas de classe como o Radiohead e o Portishead, o Massive Attack parece preocupado demais com a própria sobrevivência para pensar nesse tipo de aventura.

Daí que corre o risco de, para toda uma geração com menos de 20 anos, serem lembrados como os caras que criaram o tema de House. O futuro (eles estavam certos!) é mesmo triste.

Quinto disco do Massive Attack. 10 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Virgin Records. 6/10