Trem mistério ***

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Logo ali, falávamos sobre como os primeiros filmes Jarmusch parecem uma obra só, que se alarga aos poucos – muito lentamente – com a adição de pequenos detalhes. Trem mistério quebra um pouco essa lógica, já que trata-se de um momento em que o diretor, apesar de ainda fiel a antigas obsessões, injeta ambição ao formato dos longas anteriores. Para notar a mudança, nem é preciso raciocinar muito: em comparação a Permanent vacation, por exemplo, é um filme em que muita, muita coisa acontece.

Já se disse que o código genético de Pulp fiction estaria bem aqui. Fica mesmo difícil desprezar as semelhanças entre os dois filmes, a começar pela estrutura narrativa – dividida em três histórias, encenadas num mesmo período de tempo, que se esbarram em um hotel decadente de Memphis – e a terminar pelos diálogos empapados de cultura pop vagabunda (a discussão sobre Perdidos no espaço caberia muito bem em qualquer roteiro de Tarantino). Pode parecer tudo muito simples, mas não perto dos anteriores de Jarmusch, que eram quase o contrário disso: exploravam o vazio deixado pelas brechas de histórias esburacadas, cheias de espaços em branco.

É outro registro, mais comunicativo, mais direto – mais ou menos como o “álbum acessível” de uma banda underground. E, se essa abertura deixa evidente o lado esquemático dos filmes do diretor, ela reforça o tino cômico de Jarmusch e sublinha (mesmo que de forma didática) o interesse do cineasta por personagens deslocados do lar, soltos em uma terra estrangeira que não tem quase nada de estranha – como o casal de japoneses em busca do fantasma de Elvis Presley, tão longe e tão perto de Yokohama.

Leões e cordeiros *

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É bem-intencionada a palestra de Mr. Redford sobre a necessidade de engajamento em uma América apática, mas o cineasta devia ter seguido a lição do personagem que interpreta, um professor idealista: pregação desapaixonada periga não converter ninguém.

Desastroso é como o diretor reduz as peças do tabuleiro pós-11 de setembro a figuras caricatas que representam, pela ordem: 1. os políticos marqueteiros e gananciosos; 2. os jornalistas experientes, entre a ética e o contracheque, 3. os universitários “alienados” (ninguém usa mais o termo, mas cabe neste filme anacrônico) e 4. os pobres soldados, abandonados numa guerra cruel.

Há certo interesse quando se abre o debate sobre o papel da mídia em dias de guerra – ou sobre o poder de convencimento de professores de graduação (em menor escala, ok). Mas não quando esses temas são adaptados ao formato de um episódio de The west wing, e com uma lição de moral que deixa lembranças de A corrente do bem.

Daunbailó ***

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A experiência de assistir aos filmes de Jarmusch em ordem cronológica só explicita um método rigoroso do diretor: cada obra era tratada como prolongamento e expansão das anteriores. O herói “sem dinheiro, sem futuro, sem lar” de Permanent vacation descobriu uma América esvaziada em Estranhos no paraíso. Multiplicado em dois (Zack e Jack) neste Daunbailó, ele será finalmente confrontado com as regras da sociedade: preso por crime que não cometeu, ainda assim não dará a mínima.

É como se Jarmusch saltasse de gênero a gênero (neste caso, a comédia, o filme de prisão, o conto de fadas) sempre pela ótica de tipos desiludidos, outsiders por natureza. O estado de espírito dos personagens subverte os gêneros cinematográficos: a prisão parece tão entediante quanto a vida lá fora, onde nada acontece, tudo se assemelha. Até a presença de uma figura pitoresca (o italiano histriônico de Robert Benigni), prestes a encontrar o amor em uma casinha abandonada no pântano, não modifica nada. “O mundo é triste e belo”, o estrangeiro avisa. Mas ele segue árido. Os planos longos, duríssimos, não nos confortarão.

Não é um filme que me comova, e Jarmusch talvez nem tenha esperado esse tipo de reação de ninguém. Parece distanciado, frio demais, calculado em excesso. Mas, pensando bem, é o que provoca toda a estranheza desta comédia meio-amarga, toda torta, toda errada.

Estranhos no paraíso ***

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A importância para o cinema independente norte-americano é incalculável e sabemos disso. Transfira o filme para o contexto do início dos anos 1980 e o entenda como resposta seca, quase esquelética aos maneirismos de Hollywood: desse jeito, também funciona muito bem. Sacado desse cenário, porém, fiquei um pouco frustrado de não encontrar a obra-prima por que eu aguardava. Culpa minha? Teria eu esperado muito, e por tempo demais?

Culpa do meu olhar saturado pelos cineastas independentes filhotes de Jarmusch? É, já que a estética desse filme lembra muito a de, por exemplo, O balconista. E quantos O balconistas já não vimos?

De qualquer forma, melhora muito quando volto a pensar nele. Os longos planos, a estrutura narrativa dividida em pequenos blocos, a composição exagerada dos personagens (que parecem saídos de uma tirinha de jornal), a trilha sonora que brota de lugares inesperados, nada me intriga muito. Mas há algo nesse antigo Jarmusch que dialoga muito com o mundo em que vivemos hoje. Talvez a noção de que, quanto mais você se desloca, mais os ambientes se revelam todos muito iguais. Não há mais para onde ir, não existe desafio, todos os cantos já foram explorados, conhecemos tudo como a palma de nossa mão – é, de certa forma, um road movie sobre o quão ridículos e inviáveis se tornaram os road movies.

É uma simples, bela comédia, antes que eu me esqueça.

Mandando bala **

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Um disco do Kings of Leon nunca será um disco do Strokes, então não daria mesmo para esperar um Tarantino deste filme de (quem?) Michael Davis. Mas o negócio é tão descaradamente barato e oco – e tão bem-humorado – que não dá para resistir. Quase ninguém vai concordar comigo, mas daria uma boa sessão dupla com Planeta terror. Com a diferença de que, enquanto Rodriguez se esforça incrivelmente para tirar graça de uma sátira ao pulp setentista, Davis explora o nonsense de uma forma muito confortável, como alguém que não tem nada a perder e que sabe de todas as críticas que irá receber por profanar a arte alheia.

A premissa foi toda inspirada em uma cena de Hard boiled, do John Woo, em que o herói exibe uma arma enquanto carrega um bebê no colo. O diretor não tem vergonha de assumir que o filme trata-se de uma homenagem, simples assim. Na soma dos detalhes – como a participação de Monica Bellucci, na pele de uma prostituta especializada em amamentar os clientes -, vai um pouco além disso.

1408 **

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Este pequeno filme de horror nos faz lembrar como John Cusack, quase sempre no papel do herói atônito, se sai bem em exercícios de gênero (é o único detalhe digno de lembrança em Identidade, por exemplo). A adaptação de Stephen King poderia ter apelado para o lamaçal gore à Jogos mortais ou para o espiritismo kitsch – o roteiro dá brecha tanto para um quanto para outro. Mas o sueco Mikael Hafström busca um registro menos espalhafatoso, mais elegante enquanto afunda em um cafofo de estranhas alucinações.

O tempo inteiro, o diretor joga com imagens falsas – e chega perto do paraíso quando convida o espectador a ser, ele também, despistado por essa brincadeira. Até o desfecho, que poderia ter saído absolutamente forçado, parece a única solução possível para a trama.

E a cena em que Cusack bate boca com um frigobar é, por si só, um primor da cara-de-pau. Um filme de terror com noção do próprio ridículo – felizmente isso ainda existe.

Antes só do que mal casado **

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Não está entre os melhores dos Farrelly, e pode até parecer uma grande decepção perto do ótimo Amor em jogo, mas simplesmente não consegui me importar tanto assim com o tombo. Não assisti ao original (Corações em alta, de Elaine May), mas retornar ao playground dos diretores é, nessa altura da partida, para este que vos escreve, irresistível. Pouco funciona na trama central (e a longa duração, no caso, não ajuda em nada), mas é pelas bordas que os irmãos mostram seguir em frente: principalmente na forma desiludida, nada ingênua como encaram o casamento, instituição que é colocada no alvo desta comédia romântica.

E a trilha, cheia de canções de David Bowie, hem?

Ou seja: eles crescem, mas não necessariamente do jeito como esperam que eles amadureçam. Continuam a explorar com muito gosto o humor grosseiro e pateta que desagrada papai e mamãe. Por mim, que sigam por aí.

Um verão para toda a vida °

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Harry Potter perde a virgindade na Lagoa Azul, vira homenzinho e descobre que não pode confiar nas mulheres. Diante de memórias de infância tão insípidas, passei a reconsiderar minhas opiniões sobre Eu me lembro.

PS: Ontem ganhei de presente uma antiga câmera Super-8. Deus é um palhaço.

Sem controle *

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Ela lê Os sofrimentos do jovem Werther. Ele tenta uma aproximação: “Você sabia que esse livro provocou suicídios em massa na Europa?”. Ela responde: “Não”, e expressa curiosidade, quando deveria ter respondido “claro, está na orelha dessa edição”. Mais tarde, ela aparecerá com um exemplar de As afinidades eletivas. Grandes leituras, que parecem não ter provocado influência sobre os diálogos.

Nos 15 minutos finais, quando o filme se transforma em nossa sucursal de A vila, existe uma tentativa interessante de jogar com as diferenças entre teatro e cinema, e trabalhar com a estrutura frenética de fitas de suspense. Exige, aí, um certo grau de boa vontade do público, que periga observar o espetáculo pela lente do ridículo. Olha, absolutamente nada contra a experiência, mas não com esse texto. Não com esses atores. E, definitivamente, não com a repetição infinita de falas daquela peça de teatro.

Permanent vacation **

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Começa quarta-feira no CCBB aqui de Brasília (no Rio, já está em cartaz) a mostra O baú de Jim Jarmusch, com todos os filmes do diretor (em película) e uma seleção de obras de cineastas admirados por ele.

Um dos destaques é o raro Permanent vacation, dirigido em 16mm por um recém-formado Jarmusch.  No filme estão as bases de um certo olhar de cinema: está lá o herói outsider, à deriva, um beat tardio. Há as referências de cultura pop (fala-se em Batman, joga-se ioiô, compra-se pipoca) e, claro, as imagens de uma Nova York ao avesso – de mendigos, prédios em ruínas, muros pichados.

Agora: o filme se sustenta sem esse contexto? Sim, se sustenta, ainda que pareça um tanto inocente perto de muito o que o diretor faria depois (no meu caso, falta ver alguns filmes importantes dele). O uso da trilha sonora continua caso à parte, principalmente nas cenas em que uma versão jazzística de Over the rainbow briga com ruídos de música concreta. O efeito rende um ambiente assustador, contraponto ao discurso libertário do personagem principal. 

Fica na memória, acima de tudo, a imagem de Manhattan se afastando aos poucos, enquanto o navio segue lentamente em direção a Paris. Nosso herói sabe que não vai encontrar nada de inspirador do outro lado do oceano. Esse entorpecimento infinito, sem cura, perturba.

Melhores da Mostra de SP

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O Chico pediu a lista dos cinco melhores filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em dois fins de semana (o segundo deles, bem tumultuado), não vi muita coisa, mas já dá para tirar um dream team que vai assim:

1. I’M NOT THERE

Mais do que compreender profundamente o transe de identidades que faz de Bob Dylan um mito tão sedutor, me impressiona pela forma apaixonada como se aproxima desse símbolo. Haynes não pretende desvendá-lo. Não quer explicá-lo. Como fã, sabe que esses procedimentos costumam anular o magnetismo de todo bom ícone pop. Como cineasta, melhora a cada filme. Este é obra-prima.

2. IMPÉRIO DOS SONHOS

Lynch bem à vontade no mundo que é só dele e de mais ninguém. Em comparação, quase todos os concorrentes parecem muito medrosos.

3. ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Amargo, Lumet nos leva ao inferno na companhia de personagens que não têm mais por onde acertar. Estou no time dos que consideram este um dos maiores filmes do diretor.

4. À PROVA DE MORTE

Eu ainda preferiria testar a versão de 90 minutos – mas não deixa de soar estranho um filme cujo impacto mais espetacular parece concentrado depois das cenas todas de perseguição, no (brilhante) letreiro final.

5. PARANOID PARK

Skate, colégio e Elliott Smith. Gus Van Sant ainda obcecado pela dolência adolescente, e (sorte a nossa) sem fazer a menor idéia de como entender toda essa crise.     

As 4 aventuras de Reinette e Mirabelle ***

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“Se eu falar demais, você vai embora”, logo comenta Reinette – a menina do campo – à parisiense Mirabelle.

E essa é só uma amostra de como, nos anos 80, o cinema de Eric Rohmer era capaz de abraçar todo tipo de observação – das banalidades do cotidiano a questionamentos filosóficos, e aí inclua também um tipo leve de auto-ironia. Até o título do filme parece uma anedota: as quatro aventuras dessas duas amigas são momentos em que quase nada acontece. Notar o minuto de completo silêncio no amanhecer (a chamada “hora azul”), discutir sobre ética, brincar sobre a questão do valor que se dá à arte. Elas falam demais, como de hábito, mas nem por isso iremos embora.

Há temas recorrentes nos quatro “episódios” (“é preciso silêncio diante de uma obra de arte”, eis um deles), mas Rohmer mais uma vez não quer forçar nada: cada desafio colocado para as duas personagens tende a afinar uma amizade que, com o passar do tempo, ficará mais forte, mais complexa. É um filme sobre a construção de uma relação, e isso é muito. Mas tenho certeza de que ele será encarado por muitos como uma comédia ingênua empolada de girl talk. Ok, então vale pelo menos uma sessão dupla com À prova de morte, do Tarantino.

Transylvania *

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Se a melhor referência de multiculturalismo no cinema realmente for os carnavais de Tony Gatlif, tenho que assumir meu quase completo desinteresse pelo assunto. O transe de Exílios já me incomodava como exotismo gratuito, meio macumba pra turista. Mas Transylvania vai um pouco além, já que o diretor parece empurrar cada seqüência para um amontoado de imagens e situações supostamente excêntricas, festivas, talvez para celebrar o estado de espírito de personagens à deriva – nos piores momentos, deixa saudades do Kusturica. 

E pior é que o filme até começa bem, com a Asia Argento a ver navios, coração estilhaçado, solta na multidão. Depois, quando ela assume a vida cigana e encontra um par à altura, o diretor se amansa numa típica história de amor entre outsiders. Gatlif filma com o desprendimento que cobra dos personagens, mas não esconde o esquematismo que existe nessa forma declaradamente multicultural de representar o mundo. Não a comprei.

Rascunho, esboço, anotações

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Se tudo der certo, este blog funcionará como um apêndice do site tiagos8.sites.uol.com.br, onde listo todos os filmes a que assisto. Nada de muito ambicioso: apenas um bloco de notas onde poderei rascunhar algumas idéias que servirão ou não de esboço para textos menos bagunçados. Sem mais.