‘Pauline Hawkins’, Drive-By Truckers

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“Fate always happens when nobody’s looking
Nobody’s looking”

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“We recorded with a stripped-down lineup that gave things a more primal and immediate feel. It’s a more turn-on-a-dime kind of thing, which suits these songs, and us as a band. It’s a very tasteful group, and when it needs to be it can be a very big, powerful, over-the-top band, too, and it can go from one to the other seamlessly.” (Patterson Hood)

ATLAS, Real Estate

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“Musically, we are who we are. We’re not going to sit down and decide to make some drastic change in our instrumentation and change our sound, really, because we all see ourselves as the kind of band that just stays with a guitar-heavy, timeless sound. I wouldn’t want to change that. If anything, I personally did not want to fall into a rut. The things that people said about us — “Well, they’re very nostalgic” — that became a cliché with a lot of bands.

I got married right after we finished the Days cycle — living in Brooklyn and not really being happy with living in Brooklyn because it’s, like, I have an urge to live in the suburbs and settle down like an old man or something. That’s kind of who I am deep down” (Martin Courtney à Grantland)

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A sonoridade do Real Estate muda pouco de um disco para outro e, por isso, será difícil perceber o quanto a banda se tornou mais complicada desde o álbum anterior, Days, lançado há três anos.

Principal transformação: antes, o Real Estate criou um repertório inteiro para dar conta de sensações de nostalgia, da saudade da adolescência. Atlas, em comparação, vai a um tema bem mais escorregadio: o fluxo entre memórias (de um passado recente e outro mais distante) e planos; questões da vida adulta, em resumo.

O disco oscila, em grande parte, entre dois tempos: o período em que o vocalista e letrista Martin Courtney viveu no Brooklyn, em Nova York (detestou cada minuto, diga-se), e a sua adolescência saudosa em uma cidadezinha em que quase nada acontecia. Há momentos em que essas duas linhas temporais se cruzam – em Past Lives, Martin retorna a esse Shangri-La e, desapontado, sente o peso da idade. Estão todos – ele e a cidade – diferentes e não há como recuperar o que perdeu.

Há, por outro lado, as canções que lidam diretamente com o dia a dia numa metrópole hostil: The Bend, a mais potente delas, fala sobre o medo de perder o controle num ambiente que deixa a impressão de estarmos ao volante de um carro cujas rodas não giram. Outra, Talking Backwards, é uma crônica muito breve sobre relacionamentos à distância. “Estou fazendo algum sentido para você?”, ele pergunta. Não faz muito sentido – e, em The Bend, ele explicará que precisa encontrar esse eixo antes que perca mais um ano.

Mais adiante, encontramos as músicas sobre o futuro ideal, que representaria um retorno ao subúrbio: “Não quero morrer sozinho e nervoso”, diz o refrão de Crime, sintetizando a crise com absoluta economia. Em Primitive, essa espécie de conto de fadas se repete, ainda mais pueril. Mas a história não acaba aí: o disco voltará ao passado recente e depois ao passado mais longínquo – às vezes dentro de uma única música. O álbum não encontra conforto nem nas musiquinhas mais adoráveis.

E estou, até aqui, divagando apenas sobre as letras das músicas. Gastei alguns parágrafos as analisando para sublinhar o choque entre esses versos conscientemente confusos e as melodias perfeitinhas – são quase sempre convidativas, fáceis de memorizar, bastante cantaroláveis – é o que o álbum tem de mais sagaz. Sim, já que, enquanto as letras transitam entre linhas de tempo, as melodias estão sempre apontando para uma direção: o futuro idealizado pela banda. É tudo matéria de sonho, o som. A melodia é ela própria a fantasia – o refúgio mágico que se encontra diante de uma realidade que pode ser desesperadora.

Nesse aspecto, pouca coisa mudou: a música do Real Estate ainda soa como uma caverna superagradável e familiar, isolada de interferências externas e com poucos ruídos que desviem a nossa atenção do que lhe é essencial. A estrutura das canções, quase sempre com duas guitarras duelando entre solos delicadíssimos e arranjos quase crus de quatro acordes, se repete quase de forma monótona, como se nos obrigasse a menosprezá-las. O trecho final do disco redunda, soa até um pouco desinteressado, um pouco aguado. Não é um disco perfeito.

Depois da quarta, quinta audição, quando memorizamos todos os refrãos (e é inevitável: eles serão memorizados), essas melodias superficialmente tão modestas passam a revelar uma série de detalhes muito precisos. O desfecho de The Bend é o melhor exemplo desse cuidado como a banda manipula e arredonda as mínimas arestas de suas pequenas canções: ele poderia explodir num grand finale psicodélico, mas não. Existe um esforço de conter excessos porque, no caso, o exagero musical anularia a imagem de paraíso que a banda tanto preza. Um paraíso de subúrbio e não de cidade grande.

Em entrevistas, o grupo faz questão de se mostrar muito satisfeito com um estilo que eles próprios definem como “apenas indie rock” e “boa música ambiente”. Falta de ambição, talvez? Talvez não. Depois de ir à cidade grande (e descobrir que não há nada lá), o Real Estate parece muito certo do sonho que quer para si. É uma questão de escolha: no caso, a opção de viver não da forma como querem (e estamos falando numa banda que nada tem nem terá de cool, que grava com o produtor do Ryan Adams no estúdio do Wilco), mas de um jeito que permita a eles uma certa felicidade.

As letras de Atlas admitem a dificuldade de colocar essa escolha em prática – isto é a vida adulta. Nesse meio-tempo, a banda cria um ambiente sonoro que, ao menos simbolicamente, facilita o happy end.

‘Past Lives’, Real Estate

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I can not come back to this neighborhood
With out feeling my own age
I walk past these houses where we once stood
I see past lives but somehow you’re still here

Underneath this canopy
All light up above us
Oh but i can see the sky
Is not the only thing that changes rapidly

This is not the same place i used to know
But it still has that same old sound
And even the lights on this yellow road
Are the same as when this was our town

Underneath this canopy
All light up above us
Oh but i can’t see the sky
Is not the only thing that changes rapidly

And even the lights on this yellow road
Are the same as when this was our town

‘Ronnie Drake’, Isaiah Rashad ft. SZA

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“I got love for my niggas, my killers, my dealers, my trickers, my bros
I got love for my sisters, my women, my bitches, my strippers, my hoes”

PRESENT TENSE, Wild Beasts

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Wild_Beasts_-_Present_Tense

“It was our mission statement. From the Stone Age to now, we judge our whole past by the culture people have left behind. Wanderlust is almost a kind of war cry, asking, is this the best we’ve got – kids singing in accents that aren’t their own, singing about lives that aren’t theirs, and reaping huge rewards from it? So little is done with so much privilege. Music is really a class thing. It’s only the rich kids who’ll get to art and music school. We’re talking about such a small group of people who are gonna create work that is supposed to define or tell us what out lives are. It’s a very scary prospect” (Hayden Thorpe à NME)

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Senhores, um alerta: o Wild Beasts é uma banda que se leva a sério.

E, se a frase acima soa como um sinal vermelho (afastem-se, banda chata e blasé adiante!), o problema é seu, nosso. Não dela.

Existe, sempre existiu, um charme meio que maltrapilho em torno de bandas que deixam a impressão de não se levar tão a sério assim – que soam como se tivessem entrado no estúdio para jogar algumas ideias fora, tomar umas, contar historinhas engraçadas e gravar canções que, olha que incrível!, por acaso saíram tão autênticas e divertidas em um disco perfeito que vai marcar época.

Mas isso é uma mentira. Não existe disco, filme, obra de arte que não se leve minimamente a sério. Não há como. Até porque, mundo da fantasia e da imaginação à parte, o processo de produção de um disco ou de um filme envolve dinheiro, esforço, responsabilidade, concessões, gravações que são feitas e refeitas, edição, negociações, escolhas. Dá trabalho fazer um bom disco, seja ele de sonoridade leve, suave, ou ruidosa, com arestas e desequilíbrios. Não é (só) o transe de um gênio num momento de profunda inspiração.

Mas esse charme persiste e, talvez por isso, o Wild Beasts tenha decidido abrir o disco Present Tense com Wanderlust, um manifesto a favor de bandas que assumem se levar a sério, que não se escondem atrás da cortina de fumaça da despretensão e que buscam na música pop uma espécie de aventura. Assim começa o álbum. É, no mínimo, uma forma valente de começar.

A faixa, ela própria, já mostra que a banda não é a mesma do disco anterior, Smother, nem dos dois outros, Two Dancers e Limbo, Panto. É um grupo que reaparece mais preciso e lúcido, tentando expandir possibilidades criativas, mesmo que a partir de uma sonoridade cada vez mais enclausurada, claustrofóbica.

E, se parece um pouco cafona e pedante falar em bandas que “expandem possibilidades criativas”, o problema é novamente seu, nosso.

No rock britânico que está aí, não há muitas as bandas com esse tipo de ambição – de colocar limites à prova, se arriscar, surpreender, essas metas demodé. Consigo pensar no These New Puritans e em mais duas ou três.

Então temos Wanderlust: um hino de guerra, mas um hino de guerra melancólico porque solitário. “Não me confunda com alguém que se importa”, eles repetem, transformando o “fora” de uma namorada numa espécie de resumo para o estado de espírito da geração Arctic Monkeys, meninos que don’t give a fuck.

Por isso é fácil, para quem não quer pouco da música pop, gostar do Wild Beasts. Essa “carta de intenções” que existe em Wanderlust praticamente justifica as resenhas positivas que o álbum receberá. Ok, parabéns para eles (que não se acomodam jamais) e para nós (que curtimos bandas desacomodadas). Mas… e o disco?

O disco me parece um pouco mais complicado que isso.

Como todos os álbuns da banda, este também funciona, em grande parte, apenas na teoria (e digo isso como fã de Two Dancers e, com um pouco menos de entusiasmo, de Smother).

Percebo a intenção de um disco mais compacto, com melodias marcadas por sintetizadores que aparecem feito raios laser, perfurando as canções, e com letras mais claras e pontuais, sobre temas específicos (a morte de um cachorro, a sensualidade de um lutador, luta de classes etc) e a abertura para um sentimentalismo mais direto. Tudo isso está aqui, mas talvez não com a potência que a banda tenha previsto.

Eis a questão do dia: é possível ser uma grande banda sem gravar grandes discos? Acredito que sim. Kanye West, por exemplo, está longe de ser o artista mais coerente e sensato – mas grava grandes discos porque consegue converter quase todas as suas ideias em melodia e letra. Por maior que seja meu entusiasmo por Two Dancers, não é um disco tão original ou provocativo quanto o projeto daquele próprio disco.

Present Tense tem duas músicas muito fortes que ofuscam o restante do conjunto: Wanderlust e, um pouco mais adiante, Sweet Spot (essa última é de uma concisão exemplar; o álbum inteiro está lá). Outras faixas são parecem ter a função de servir de vias de conexão entre as melhores canções. E há um terceiro grupo que me parece fracassar terrivelmente: as músicas mais vulneráveis e facinhas, que diluem todo o lirismo da banda em uma série de versos otimistas que poderiam estar num disco do Travis. A saber, A Simple Beautiful Truth e a faixa de encerramento, Palace, que tem um quê de Brian Eno via Coldplay.

Há outras obviedades: a banda explora à exaustão o trocadilho do título, não só nas letras mas ao criar muita tensão entre as faixas, nos arranjos, entre verso e melodia, entre os vocais (mais contidos que de costume) e os sintetizadores sufocantes de filme de terror.

Noves fora, o que eles conseguiram: uma OBRA que será muito elogiada (porque foi feita com esse objetivo e, no mais, eles são rapazes aplicados), mas que soa, fatalmente, limitada sempre que penso na ambição enorme que eles têm. Podem mais? Talvez não. Querem mais? Sim, muito. Talvez esse disco seja tudo aquilo que, com um enorme esforço, eles conseguiram neste momento.

Estranho caso: amo esta banda muito mais do que amo os (ótimos) álbuns que ela grava.

LOVE LETTERS, Metronomy

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loveletters

Muita gente já descreve o novo disco do Metronomy de um jeito desinteressado, como se ele fosse apenas um planetinha cor-de-rosa irrelevante girando em torno de certas referências de rock psicodélico dos anos 60. Ok: o próprio Joe Mount, band leader e todo-poderoso do quarteto, deixa essa impressão NA CAPA do álbum, que poderia ter sido usada pelo MGMT ou pelo Youth Lagoon, ou ao tagarelar sobre Beatles e Love nas entrevistas. Dito isso, acredito que esse povo apressado está errado: Love Letters é um disco de britpop – e talvez o álbum de britpop que mais entende o britpop desde, bem, o fim do britpop.

Um disquinho multicor que muito possivelmente será incompreendido nos Estados Unidos, onde o britpop penou para ser levado (um pouco) a sério. Os americanos entendem Arctic Monkeys, que visita chavões do rock de lá como quem se arruma todo para ir a um santuário, mas talvez nunca irão com a cara de um Field Music, nerd e sem-sal pro gosto deles.

O Metronomy de Love Letters é britânico demais.

Joe Mount hoje vive em Paris, o que faz ainda mais sentido no grande esquema torto e irônico das coisas. O pop tridimensional do Daft Punk e do Phoenix – que são ídolos de Mount, diga-se, e curtem o lema “the joke is on you” – sempre compartilhou com o britpop um desejo de jogar/brincar com a música pop, pelo viés da pop art e da new wave,  que era uma dos traços mais interessantes das melhores bandas do britpop (não estou falando em Oasis, notem).

A estrutura de teatro de variedades de um Parklife, por exemplo, é semelhante à daqueles livrinhos infantis que revelam uma surpresa a cada página. E This is Hardcore, do Pulp, mostra uma preocupação muito maior com a atmosfera de noir erótico que com as canções em si – ainda que muitas delas explodissem em refrãos gordões que imploravam para não serem esquecidos jamais (e nunca foram).

Love Letters surpreende porque não apenas tenta reproduzir, mas dá sinais de possuir verdadeiramente esse estado de espírito: o do álbum extremamente pop, quase um cartum, a simulação em desenho animado do que seria Grande Álbum Pop, e, ao mesmo tempo, uma crônica sobre discos pop.

A brincadeira tolinha do Metronomy é cheia de maneirismos, sim, mas nenhum truque é operado em vão.

Em primeiro lugar, minha sugestão é: preste atenção ao som. Faça o seguinte: ouça o álbum, em volume alto, após ter ouvido qualquer outro. A diferença será marcante: não que Love Letters vá parecer mais ou menos forte que o disco anterior, mas você notará que existe uma sonoridade muito específica, um halo no álbum (difícil descrevê-la, mas vou tentar: é um som cristalino, que destaca cada instrumento com absoluto detalhismo, mas ao mesmo tempo dissonante, como se estivesse saindo de uma caixinha de brinquedo em surround) e que essa “moldura sonora” não nos abandonará até a última faixa.

Definidas as bordas e as lentes e as locações, Joe fará em 40 minutos o que bem entender: da faixa-título, que soa como o tema de abertura de um seriado bem ridículo (ou como, digamos, a faixa-título de Parklife) a momentos que, de tão sentimentais, soam quase sarcásticos (como Call Me, que é de uma beleza cafona que só encontramos nas canções de amor do Daft Punk e do Phoenix). Numa das músicas, The Most Immaculate Haircut, Mount alcança o refrão mais perfeito do mundo – e, como quem nada quer, decide reprisá-lo apenas uma vez. E então a faixa acaba.

É um álbum tão alegremente sortido e bonito de ouvir, tão certo do que quer ser e de onde quer chegar, que nos autoriza a tratar o anterior, The English Riviera, como um esboço em preto-e-branco, um teste. Digam o que quiserem (e vão dizer muita coisa, preparem-se). Psicodelia chic? Retrô pra desfiles de moda e comerciais de TV? De ponta a ponta, o que ouço é o coração do britpop batendo: playfulness, como dizem por lá.

‘Sweet Spot’, Wild Beasts

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“Artists hold a unique place in society in that they are held in high esteem because they are distributors of comfort and joy and relief. The job is really essential, but the role of a musician is changing. It isn’t the glamor draw that it used to be, and if you want to make audacious work, you are risking not being able to pay your rent, and that’s OK. But there are people who don’t have to worry about paying their rent who still make music that sounds like they’re trying to pay the rent rather than taking on the possibilities of what they could achieve” (Hayden Thorpe à Pitchfork)

***

[There is a guardless state/
Where the real and the dream may consummate]

[erramos]

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Eu estava conversando hoje à tarde no Facebook com um amigo, jornalista recém-formado, sobre erros – os erros banais que cometemos de vez em quando (e que nos irritam) e, principalmente, sobre o quão frustrante é perceber que, por mais que nos esforcemos, seguiremos errando, sempre e talvez mais.

O que provocou a conversa foi um erro dele, que entrevistou quatro ou cinco pessoas para uma reportagem e, na hora de transcrever as gravações, se confundiu e trocou, sem querer, uma das declarações. Acabou que, no papel, um dos entrevistados dizia com muita fluência e convicção algo que, na realidade, nunca havia dito.

Quando percebeu a besteira que fez, meu amigo por pouco não mordeu a parte interna da bochecha, de tanta raiva. Sem exagero: ele se sentiu doente, desabrigado; um trapo. Entendo a sensação porque também acontece comigo nessas situações, quando cometo o tal equívoco bobíssimo e não consigo identificar de onde ele veio, por que errei, o que aconteceu, qual foi a origem da palhaçada toda. Me sinto estúpido, indefeso e perplexo diante do mistério dos erros, da vida e de tudo mais.

“Por que você trocou os depoimentos?”, eu perguntei (uma pergunta óbvia, porém necessária). “Não sei”, ele respondeu, digitando rapidamente na caixa de mensagens do Face. “Não sei, não faço ideia. Chequei as entrevistas uma, duas vezes, três, estava tudo certo. Mas depois vi que não estava nada certo. Quando fiquei sabendo, me perguntei: você tá brincando comigo?“.

Desastre feito, o pobre jornalista recém-formado tomou uma bronca do chefe e, depois de se afogar em copinhos de café, a vida seguiu. A bronca, no entanto, não foi o que feriu a alma do coitado. Ele sentiu uma dor, digamos, filosófica: outros erros viriam e não também não haveria como identificá-los. Não existiria estratégias para precaução. E ele não aprenderia com aquele erro, em específico. Na dimensão paralela dos erros indefiníveis, ninguém aprende nada. Eles simplesmente viriam, como mosquitos na praia, baratas na subida da Pamplona, bombons dentro do ovo de páscoa etc.

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O que fazer? Nada. Não há nada a ser feito.

O desabafo do meu amigo acabou levando meus pensamentos à época em que eu era um estagiário numa redação de jornal e em que, como todo estagiário, eu errava muito.

Tentarei resumir o caso, que aconteceu mais ou menos assim:

Eu era um repórter ainda muito iniciante na editoria de Cidades, onde eu cobria, entre outros assuntos, assassinatos e brigas de gangue. Naquele dia, minha missão era ir ao velório de um adolescente que havia sido assassinato por um grupo de adolescentes. Aquele tipo de crime acontecia muito e, creio eu, ainda acontece nas melhores e piores cidades [Brasília, onde eu morava, não era das piores].

Cheguei ao velório e, sem muito traquejo para apuração, tentei puxar assunto com três ou quatro amigos do garoto morto. Eles me contaram algumas histórias importantes e outras desimportantes sobre a vítima. Quando percebi que eu tinha todos os detalhes de que precisava para escrever um texto de trinta linhas, voltei para a redação. No início da noite, a matéria estava pronta: era um perfilzinho singelo sobre o rapaz assassinado.

No topo dos três parágrafos, lia-se: “Da Redação”. Explico: estagiários eram proibidos [pelo sindicato] de assinar matérias.

O erro? Sim, vamos à ele. O erro começou a se infiltrar naquela pequena matéria quando o editor sugeriu que eu usasse nomes fictícios para identificar as pessoas que entrevistei. Obviamente, nenhuma delas queria mostrar o nome num texto sobre briga de gangues. Acredito que, se fosse entrevistado, até o moço da barraquinha de cachorro-quente preferiria não ser identificado. Era perigoso.

“Pense num nome para este personagem aqui”, pediu o editor. E eu, inocentemente, falei o primeiro que clicou nos meus neurônios. “Felipe”.

Pronto: nascia um Felipe de ficção, claramente identificado como tal. No início da matéria, havia uma explicação em itálico: todos os nomes desta matéria são fictícios.

Concluímos a edição, o texto foi diagramado e voltei para casa. Não lembro o que fiz naquela noite, mas devo ter visto seriados e escrito textos constrangedores para um dos meus blogs.

No dia seguinte, fiquei muito feliz ao ver meu texto publicado numa página de jornal. Eu era estagiário, lembrem-se.

Havia, no entanto, um problema. No telefone, uma mulher queria falar comigo e, segundo a secretária, parecia “desesperada feito uma louca histérica”. Quando atendi o telefone, entendi o significado daquela expressão. A mulher não apenas falava rapidamente, mas gaguejava, chorava, não conseguia concatenar as frases. Um terror. “O que aconteceu, senhora?”, eu perguntava, já com a voz sumindo. “O que aconteceu, senhora? Diga, senhora. O que aconteceu?”

“Por que você colocou o nome do meu filho no jornal?”, ela perguntou, cada vez mais nervosa. “Por quê? Por quê?”

“Mas que filho?” [eu já estava me sentindo num drama familiar com a Meryl Streep no papel principal]

“O Felipe. Meu filho, o Felipe”

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Foi quando entendi o drama em sua versão integral, sem cortes. Um dos garotos que estavam no velório, não aqueles que entrevistei, se chamava Felipe e, segundo aquela mulher desesperada, estava com muito medo de morrer. Isso, claro, após a leitura da matéria que escrevi.

Tentei explicá-la que o nome na matéria era de ficção, era um nome fictício, mas ela não queria (ou não podia, ou não sabia) entender o significado daquele recurso jornalístico. Ficção ou não, mais cedo ou mais tarde os outros adolescentes da gangue ameaçariam o Felipe real. No jornal, ele aparecia falando sobre a vida do menino morto e sobre como aquela violência toda tinha que, um dia, acabar.

Conversamos ainda por alguns minutos e, quando desistimos de buscar solução para um problema tão inesperado, desligamos o telefone, exaustos. Foi uma das semanas mais aflitivas da minha vida. Eu sonhava com aquele Felipe real sendo perseguido por outros Felipes e morrendo. Em outros sonhos, o Felipe sequestrava minha família – e morria no fim (ele sempre morria no fim). No trabalho, eu ficava tenso ao apurar com a polícia as ocorrências. Dia sim, dia não, eu telefonava para a mãe do Felipe e ela dizia que, por enquanto, estava tudo bem. Aquele por enquanto me torturou de tal forma que pensei em desistir da profissão.

O tempo passou e, por sorte, ninguém foi atrás do Felipe. Esqueceram o caso. A rotina voltou a ser só aquilo de todos os dias, uma rotina, mas nunca me recuperei daquele erro. O que eu poderia ter feito para evitá-lo? Nunca mais usei nomes fictícios em matérias, mas sempre senti que algo terrível poderia ocorrer como resultado de uma ação minha – e de uma ação simples, ingênua. Poderia uma matéria singela de jornal provocar sofrimento a alguém?

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Sim, pode, isso é óbvio. Se eu pudesse, evitaria todos os meus erros. Os mais banais, acima de tudo. Não arranharia a mesa da sala ao apoiar meu computador de um jeito estabanado. Não digitaria Indianápolis em vez de Indianópolis. Não faria um comentário raivoso e cheio de preconceitos sobre uma pessoa que mal conheço.

O que me assusta nesses erros misteriosos é notar que estou, a todo momento, em perigo, prestes a ser traído pelo meu cérebro, por meus sentidos. “Prefiro não pensar muito nisso”, meu amigo disse. Também prefiro, mas ainda não sei se, nesses casos, essa seria a coisa certa a fazer.

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As ilustrações são do tumblr História Sem Graça

‘Come Down to Us’, Burial

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“Vollmer entrou numa fase estranha. Ele agora passa o tempo todo à janela, olhando para a Terra lá embaixo. Fala pouco ou fica calado. Só quer olhar, nada mais que olhar. Os oceanos, os continentes, os arquipélagos. Estamos configurados no que é chamado de série de órbitas cruzadas, de modo que giramos em torno da Terra em trajetórias que não se repetem. Ele fica sentado, olhando. Como à janela, verifica as listas de tarefas à janela, quase sem olhar para as folhas de instruções enquanto sobrevoamos tempestades tropicais, queimadas, grandes pastagens. Fico aguardando que ele retome seu hábito de antes da guerra, de usar expressões insólitas para descrever a Terra: uma bola de praia, uma fruta amadurecida pelo sol. Mas ele fica só olhando pela janela, comendo biscoitos de amêndoas, enquanto o papel que embrulhava os biscoitos flutua ao seu redor. A vista claramente preenche sua consciência. É poderosa o bastante para calá-lo, para silenciar a voz que sai do céu de sua boca, para deixá-lo sentado de lado em sua cadeira, numa posição desconfortável, por horas a fio.

A vista é uma fonte inesgotável de gratificação. É como a resposta a toda uma vida de perguntas e anseios vagos. Ela satisfaz toda a curiosidade infantil, todo o desejo silenciado, todas as facetas de Vollmer, de cientista, poeta, profeta primitivo, contemplador de fogo e de estrelas cadentes, todas as obsessões que absorvem o lado noturno de sua mente, todos os anseios doces e sonhadores que ele sentiu na vida por lugares distantes sem nome, todo e qualquer sentimento telúrico que ele tenha, o pulso neural de alguma consciência mais selvagem, uma empatia pelos animais, toda e qualquer crença numa força vital imanente, o Senhor da Criação, quaisquer ideias secretas da unidade da espécie humana, todo e qualquer desejo e esperança singela, tudo o que há de  excessivo e insuficiente, tudo ao mesmo tempo e pouco a pouco, toda e qualquer ânsia ardente de fugir da responsabilidade e da rotina, fugir de sua própria especialização excessiva, o eu circunscrito e ensimesmado, todo e qualquer resquício de seu desejo infantil de voar, seus sonhos de espaços estranhos e altitudes estonteantes, suas fantasias de uma morte feliz, toda e qualquer tendência indolente e sibarítica – comedor de lótus, fumante de ervas, contemplador do espaço com olhos azuis – tudo isso é satisfeito, tudo se reúne e comprime naquele corpo vivo, a vista que ele vê da janela.

‘É tão interessante’, ele diz por fim. ‘As cores, e tudo.’

As cores, e tudo.”

(Don DeLillo, Momentos Humanos na Terceira Guerra Mundial)

‘Kevin Carter’, Manic Street Preachers

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Kevin Carter (13 September 1960 – 27 July 1994) was an award-winning South African photojournalist and member of the Bang-Bang Club. He was the recipient of a Pulitzer Prize for his photograph depicting the 1993 famine in Sudan. He committed suicide at the age of 33. Portions of Carter’s suicide note read: ‘I am depressed … without phone … money for rent … money for child support … money for debts … money!!! … I am haunted by the vivid memories of killings and corpses and anger and pain … of starving or wounded children, of trigger-happy madmen, often police, of killer executioners … I have gone to join Ken if I am that lucky.’ (Wikipedia)

***

Deixe-me explicar o que aconteceu: eu estava passando os olhos numa matéria especial da NME sobre 1994 [naquela linha nonsense “o ano que mais mudou o rock em todos os tempos se excluirmos do calendário 1990, 1989, 1982, 1977, 1971, 1969, 1968, 1967, 1966 etc”] quando lembrei de textos que li naquela época, na biblioteca da Cultura Inglesa, sobre o The Holy Bible, do Manic Street Preachers. Tentem imaginar um mundo sem internet: os alunos do curso de inglês tinham acesso aos semanários de música, mas não à maior parte dos discos resenhados naquelas páginas. The Holy Bible nunca chegou às lojas de Brasília. Everything Must Go, o seguinte da banda, também não. Eu sabia quase tudo sobre eles, e até os amava, sem saber como soavam.

Algum tempo depois, ouvi os discos do MSP que foram lançados por aqui, a partir de This is My Truth, Tell Me Yours (esse eu sempre achei um daqueles álbuns balofos, desproporcionais, apesar de gostar de algumas músicas), e aos poucos aquela banda interessante – no papel – que conheci aos 15 anos foi perdendo a graça. Ouvi algumas músicas de The Holy Bible e Everything Must Go sem prestar atenção a elas. Até que, finalmente, na semana passada, depois da leitura da edição especial da NME, voltei a eles. The Holy Bible me pareceu turrão e limitado (em arranjos e melodias, em tudo), mas Everything Must Go me deixou bobo. É bonito demais.

Engraçado que não sei se eu teria gostado tanto dele dele em 1995, quando os discos irônicos e cheios de maneirismos me alegravam bem mais. Everything Must Go é de uma ausência de cinismo que soaria, ao menos para mim, de uma ingenuidade tremenda. É um disco sinceramente de rock, digamos, sincero de arena que só poderia ter sido escrito desse jeito (sincero) no contexto em que foi feito (após o desaparecimento de um dos integrantes da banda; e nem estamos falando em morte, em luto, mas numa espécie de estado de suspense, algo mais misterioso e tenso) e que enquadra precisamente uma um certo sentimento de valentia, da coragem de, depois de um trauma ainda nebuloso, se encantar novamente pela rotina – e, no caso, uma rotina feita de clichês do rock, acordes maiores, refrãos populistas, arenas.

O entusiasmo pela vida, que transborda no disco, é quase inocente, direto, ele está lá a todo momento; raríssimo, portanto. O modo vibrante como se canta cada verso de cada música trai os temas sombrios das letras, e isso a gente nota até na batida ansiosa das mãos nas cordas da guitarra [como se não houvesse amanhã] e em outros detalhes que precisam ser ouvidos e não descritos.     

***

Kevin Carter

Hi Time magazine hi Pulitzer Prize
Tribal scars in Technicolor
Bang bang club AK 47 hour

Kevin Carter

Hi Time magazine hi Pulitzer Prize
Vulture stalked white piped lie forever
Wasted your life in black and white

Kevin Carter
Kevin Carter
Kevin Carter

Kevin Carter
Kevin Carter
Kevin Carter
Kevin Carter

The elephant is so ugly he sleeps his head
Machetes his bed Kevin Carter kaffir lover forever
Click click click click click
Click himself under

Kevin Carter
Kevin Carter
Kevin Carter

‘Forgiven/Forgotten’, Angel Olsen

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Did anything significant occur in your life that affected the writing of this album in the last year?

A lot of it was fueled from not taking chances and then feeling like other people were responsible for those chances that I didn’t take. But eventually I realized that it was my responsibility. In any situation, in a friendship or whatever, you could blame the person for holding you back only so much before you decide to say, “Hey, this is my responsibility to not put up with certain things in my life and move forward. (Angel Olsen à Pitchfork)

Forgiven/Forgotten

All is forgiven
All right, you are forgiven
If there’s one thing i fear
If there’s one thing i fear
It’s knowing you’re around
So close but not here
So close
Oh, but not with me here
So close
But not with me here

All is forgotten
All is forgotten
I’ve made up my mind
I’ve made up my mind
I’ve wasted my time
Making up my mind
I don’t know anything
I don’t know anything
I don’t know anything
But i love you
Yes, i do
Yes, i do

Will you ever forgive me
A thousand times through
For loving you
For loving you
For loving you

‘Polly’, Gem Club

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Esta é a minha favorita de In Roses, um disco tedioso, mas que tenho ouvido com tanta ou mais frequência que os meus álbuns prediletos do ano [são eles: Benji, do Sun Kil Moon, e Burn Your Fire For No Witness, da Angel Olsen].

Como explicar esse apego que nasce por álbuns que mal se seguram em pé?

Os defeitos são berrantes e será muito simples listar alguns deles: as canções se alongam mais do que deveriam e, para azar delas, a banda não consegue concluí-las decentemente; falta energia ao conjunto, que sempre está correndo o risco de se tornar (e há momentos em que se torna) tão vibrante quanto uma parede bege; o vocalista balbucia os versinhos melancólicos como quem repassa demotapes do Bon Iver – e preciso parar aqui ou deixarei a impressão de não estar elogiando um disco que considero adorável.

Acredito até que é daquele tipo de disco que nos captura a partir do momento em que desistimos de procurar nele uma Grande Obra. Não é uma Grande Obra. Talvez tenha a ambição de ser algo assim, mas não é. O que é: um álbum construído com a paciência de quem levanta a obra de uma casa (um tijolo por vez), um álbum que parece marcar o tempo com um relógio descalibrado, mais vagaroso e sem que essa lentidão represente um gesto estilístico radical. Não são músicas “difíceis” e provocativas: são apenas preguiçosas (a preguiça de quem acaba de acordar e quer voltar a dormir). Na quarta ou quinta audição, quando notamos que o tempo do disco é esse e que só nos resta aceitá-lo ou abandoná-lo, só aí ele começa a se abrir para a gente.

E não se abre com muita frequência. Mas, quando acontece, em duas ou três faixas (‘Polly’, ‘Ideas for Strings’, ‘Braid’), deixa a impressão de ter capturado em profundidade algumas paisagens que só poderiam ter sido encontradas a partir dessa procura lerda de quem acabou de ser hipnotizado. Depois que me entendi com o temperamento dessas três faixas principais, o restante do álbum se enquadrou a essa sensação meio que de um transe-à-luz-do-dia e, voilá, até o jeito maçante como ele se arrasta passou a me parecer charmoso e único (desimportante, mas único).

‘The Sing’, Bill Callahan

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“There is ease in death. I was reading – still am reading – the Tibetan Book Of The Dead as I worked on this record. I estimated how many years I have left on this planet and divided the number of words in the book by how many days I may have left. To work out how many words I could read per day if I wanted to make the book last until my death or nearby” (Bill Callahan à The Quietus)

***

The Sing

Drinking while sleeping strangers
Unknowingly keep me company
In the hotel bar

Looking out a window that isn’t there
Looking at the carpet and the chairs

Well the only words I said today are “beer” and “thank you”
Beer, thank you
Beer, thank you
Beer

Giving praise in a quiet way
Like a church
Like a church
Like a church that’s far away

I’ve got limitations like Marvin Gaye
Mortal joy is that way

Outside a train sings its whale song
To a long, long train long, long gone
Then silence comes back alone
High as scaffolding

‘Til the wind finds something to ping
When the pinging things finds the wind
We’re all looking for a body
Or a means to make one sing