Mandando bala **

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Um disco do Kings of Leon nunca será um disco do Strokes, então não daria mesmo para esperar um Tarantino deste filme de (quem?) Michael Davis. Mas o negócio é tão descaradamente barato e oco – e tão bem-humorado – que não dá para resistir. Quase ninguém vai concordar comigo, mas daria uma boa sessão dupla com Planeta terror. Com a diferença de que, enquanto Rodriguez se esforça incrivelmente para tirar graça de uma sátira ao pulp setentista, Davis explora o nonsense de uma forma muito confortável, como alguém que não tem nada a perder e que sabe de todas as críticas que irá receber por profanar a arte alheia.

A premissa foi toda inspirada em uma cena de Hard boiled, do John Woo, em que o herói exibe uma arma enquanto carrega um bebê no colo. O diretor não tem vergonha de assumir que o filme trata-se de uma homenagem, simples assim. Na soma dos detalhes – como a participação de Monica Bellucci, na pele de uma prostituta especializada em amamentar os clientes -, vai um pouco além disso.

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1408 **

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Este pequeno filme de horror nos faz lembrar como John Cusack, quase sempre no papel do herói atônito, se sai bem em exercícios de gênero (é o único detalhe digno de lembrança em Identidade, por exemplo). A adaptação de Stephen King poderia ter apelado para o lamaçal gore à Jogos mortais ou para o espiritismo kitsch – o roteiro dá brecha tanto para um quanto para outro. Mas o sueco Mikael Hafström busca um registro menos espalhafatoso, mais elegante enquanto afunda em um cafofo de estranhas alucinações.

O tempo inteiro, o diretor joga com imagens falsas – e chega perto do paraíso quando convida o espectador a ser, ele também, despistado por essa brincadeira. Até o desfecho, que poderia ter saído absolutamente forçado, parece a única solução possível para a trama.

E a cena em que Cusack bate boca com um frigobar é, por si só, um primor da cara-de-pau. Um filme de terror com noção do próprio ridículo – felizmente isso ainda existe.

Antes só do que mal casado **

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Não está entre os melhores dos Farrelly, e pode até parecer uma grande decepção perto do ótimo Amor em jogo, mas simplesmente não consegui me importar tanto assim com o tombo. Não assisti ao original (Corações em alta, de Elaine May), mas retornar ao playground dos diretores é, nessa altura da partida, para este que vos escreve, irresistível. Pouco funciona na trama central (e a longa duração, no caso, não ajuda em nada), mas é pelas bordas que os irmãos mostram seguir em frente: principalmente na forma desiludida, nada ingênua como encaram o casamento, instituição que é colocada no alvo desta comédia romântica.

E a trilha, cheia de canções de David Bowie, hem?

Ou seja: eles crescem, mas não necessariamente do jeito como esperam que eles amadureçam. Continuam a explorar com muito gosto o humor grosseiro e pateta que desagrada papai e mamãe. Por mim, que sigam por aí.

Um verão para toda a vida °

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Harry Potter perde a virgindade na Lagoa Azul, vira homenzinho e descobre que não pode confiar nas mulheres. Diante de memórias de infância tão insípidas, passei a reconsiderar minhas opiniões sobre Eu me lembro.

PS: Ontem ganhei de presente uma antiga câmera Super-8. Deus é um palhaço.

Sem controle *

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Ela lê Os sofrimentos do jovem Werther. Ele tenta uma aproximação: “Você sabia que esse livro provocou suicídios em massa na Europa?”. Ela responde: “Não”, e expressa curiosidade, quando deveria ter respondido “claro, está na orelha dessa edição”. Mais tarde, ela aparecerá com um exemplar de As afinidades eletivas. Grandes leituras, que parecem não ter provocado influência sobre os diálogos.

Nos 15 minutos finais, quando o filme se transforma em nossa sucursal de A vila, existe uma tentativa interessante de jogar com as diferenças entre teatro e cinema, e trabalhar com a estrutura frenética de fitas de suspense. Exige, aí, um certo grau de boa vontade do público, que periga observar o espetáculo pela lente do ridículo. Olha, absolutamente nada contra a experiência, mas não com esse texto. Não com esses atores. E, definitivamente, não com a repetição infinita de falas daquela peça de teatro.

Permanent vacation **

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Começa quarta-feira no CCBB aqui de Brasília (no Rio, já está em cartaz) a mostra O baú de Jim Jarmusch, com todos os filmes do diretor (em película) e uma seleção de obras de cineastas admirados por ele.

Um dos destaques é o raro Permanent vacation, dirigido em 16mm por um recém-formado Jarmusch.  No filme estão as bases de um certo olhar de cinema: está lá o herói outsider, à deriva, um beat tardio. Há as referências de cultura pop (fala-se em Batman, joga-se ioiô, compra-se pipoca) e, claro, as imagens de uma Nova York ao avesso – de mendigos, prédios em ruínas, muros pichados.

Agora: o filme se sustenta sem esse contexto? Sim, se sustenta, ainda que pareça um tanto inocente perto de muito o que o diretor faria depois (no meu caso, falta ver alguns filmes importantes dele). O uso da trilha sonora continua caso à parte, principalmente nas cenas em que uma versão jazzística de Over the rainbow briga com ruídos de música concreta. O efeito rende um ambiente assustador, contraponto ao discurso libertário do personagem principal. 

Fica na memória, acima de tudo, a imagem de Manhattan se afastando aos poucos, enquanto o navio segue lentamente em direção a Paris. Nosso herói sabe que não vai encontrar nada de inspirador do outro lado do oceano. Esse entorpecimento infinito, sem cura, perturba.

Melhores da Mostra de SP

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O Chico pediu a lista dos cinco melhores filmes da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Em dois fins de semana (o segundo deles, bem tumultuado), não vi muita coisa, mas já dá para tirar um dream team que vai assim:

1. I’M NOT THERE

Mais do que compreender profundamente o transe de identidades que faz de Bob Dylan um mito tão sedutor, me impressiona pela forma apaixonada como se aproxima desse símbolo. Haynes não pretende desvendá-lo. Não quer explicá-lo. Como fã, sabe que esses procedimentos costumam anular o magnetismo de todo bom ícone pop. Como cineasta, melhora a cada filme. Este é obra-prima.

2. IMPÉRIO DOS SONHOS

Lynch bem à vontade no mundo que é só dele e de mais ninguém. Em comparação, quase todos os concorrentes parecem muito medrosos.

3. ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

Amargo, Lumet nos leva ao inferno na companhia de personagens que não têm mais por onde acertar. Estou no time dos que consideram este um dos maiores filmes do diretor.

4. À PROVA DE MORTE

Eu ainda preferiria testar a versão de 90 minutos – mas não deixa de soar estranho um filme cujo impacto mais espetacular parece concentrado depois das cenas todas de perseguição, no (brilhante) letreiro final.

5. PARANOID PARK

Skate, colégio e Elliott Smith. Gus Van Sant ainda obcecado pela dolência adolescente, e (sorte a nossa) sem fazer a menor idéia de como entender toda essa crise.