Etc

‘A estrada’ Cormac McCarthy

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Não é o fim do mundo como o conhecemos.

Primeiro: ele não termina num estalo. Se desfaz lentamente, em cinzas e fogo e frio e sangue. Deixa cadáveres no acostamento, cidades abandonadas e famílias partidas. Não sabemos como, mas o pai e o filho caminham por esse ambiente durante uma década. Em busca de comida, arrombam casas vazias. Enfrentam bandos de canibais. Escondem-se na floresta, e lá encontram os rastros de guerras terríveis. E seguem, “cada um o mundo inteiro do outro”.

É essa, esqueleticamente essa, a trama narrada nas 234 páginas de A estrada. De certa forma, um livro de horror. Um filme de George Romero, só que contado com o chocante distanciamento de quem foi ao inferno e voltou. Entendo por que o público norte-americano sempre se manteve afastado da literatura de Cormac McCarthy. Mete medo. As ondas inexplicáveis de violência, que já existiam em faroestes como Onde os velhos não têm vez, devastam tudo o que respira. O mundo, em A estrada, já começa assim: devastado. Antes da primeira linha do primeiro parágrafo. O restante do texto é uma pancada.

Pouparei elogios, já que McCarthy é econômico e conciso – devíamos pensar em limar adjetivos de vez em quando. Mas acho que vocês deviam esquecer os discos e os filmes por alguns minutos e lê-lo a partir deste minuto. Antes que John Hillcoat (diretor da versão para o cinema, que chega no segundo semestre) transforme esta obra-prima num filmeco sobre os últimos homens na Terra. 

Uma pessoa como eu

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Leio meus textos para organizar um pouco a bagunça do blog e chego à constatação inevitável: são ruins! Melhor: estão ruins (e aí parto do princípio de que foram melhores, mesmo sem saber como, onde ou quando). Será que é uma fase? Será que passa? Há uma fórmula para escrever com pressa e, na pressa, escrever bem? Não repetir palavras, por exemplo? Nem usar frases de efeito, chavões, desfechos excessivamente bonitinhos?

Pelo menos ainda não estou empilhando enlouquecidas declarações de amor ou comentando crises familiares (também as tenho, não sou de ferro).

Mas ainda. Ainda. Sabe-se lá. Blog, pra mim, é sempre um perigo.

Ontens

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E aí inventei de entrar numa comunidade do Orkut em homenagem ao colégio onde estudei quando eu tinha 12 anos de idade. A escola já foi para os ares (no lugar, construíram uma academia de ginástica, um supermercado ou algo que o valha), mas os alunos, aparentemente, estão todos ainda muito vivos.

Não sei o que aconteceu, mas o baque de reencontrar aquelas pessoas todas – virtualmente, que seja – foi tão grande que desmarquei o cinema, saí dirigindo meio desnorteado no acostamento, quase enfiei o carro num caminhão, dobrei no retorno errado e, quando finalmente cheguei em casa, passei umas duas horas quieto, sentado na cama, olhando para alguns ontens através da porta do meu armário, ensimesmado, bobo da vida, um autista.

Não sei ainda descrever a sensação, se alegria ou tristeza. Provavelmente tristeza – comigo tudo acaba descambando num melodrama do Moretti. Mas pode ter sido alegria. Pode ter sido qualquer emoção. Não me peçam para descrever. Mas agora entendo bem claramente o que leva cineastas a fazer filmes sobre a infância. E os filmes saem umas bostas, mas eles continuam fazendo. É um tema forte demais. É uma pancada. Por um momento fiquei imaginando se tudo o que fiz na vida quando adolescente não teria sido mero epílogo daquele período. Adulto, então, o que faço? As memórias às vezes são boas demais, tão boas que machucam. Eu posso fazer um filme sobre isso. Um filme ruim, mas que soaria tocante para mim.

O que me deixou impressionado, acima de tudo, foi o comentário de uma garota de que mal lembro. Ela fez uma longa lista dos amiguinhos de classe e lá estava eu, o oitavo ou nono. E, entre parênteses, uma anotação: “ele era cinéfilo”. Aquele comentário despretensioso veio em cima de mim feito um vulto do mal. “Ele era cinéfilo”. 12 anos de idade! Me senti tão criança de novo. Estranho.

Desculpem o desabafo, mas acabo sempre concordando com um amigo meu: Orkut é “demônio” em alguma língua esquisita.

Todo mundo é crítico

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É sobre um carinha enrolado com uma psicopata. Filme de ex-namorada xarope.

Comentário que ouvi na cantina do trabalho sobre O passado, de Hector Babenco.