‘Come Down to Us’, Burial

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“Vollmer entrou numa fase estranha. Ele agora passa o tempo todo à janela, olhando para a Terra lá embaixo. Fala pouco ou fica calado. Só quer olhar, nada mais que olhar. Os oceanos, os continentes, os arquipélagos. Estamos configurados no que é chamado de série de órbitas cruzadas, de modo que giramos em torno da Terra em trajetórias que não se repetem. Ele fica sentado, olhando. Como à janela, verifica as listas de tarefas à janela, quase sem olhar para as folhas de instruções enquanto sobrevoamos tempestades tropicais, queimadas, grandes pastagens. Fico aguardando que ele retome seu hábito de antes da guerra, de usar expressões insólitas para descrever a Terra: uma bola de praia, uma fruta amadurecida pelo sol. Mas ele fica só olhando pela janela, comendo biscoitos de amêndoas, enquanto o papel que embrulhava os biscoitos flutua ao seu redor. A vista claramente preenche sua consciência. É poderosa o bastante para calá-lo, para silenciar a voz que sai do céu de sua boca, para deixá-lo sentado de lado em sua cadeira, numa posição desconfortável, por horas a fio.

A vista é uma fonte inesgotável de gratificação. É como a resposta a toda uma vida de perguntas e anseios vagos. Ela satisfaz toda a curiosidade infantil, todo o desejo silenciado, todas as facetas de Vollmer, de cientista, poeta, profeta primitivo, contemplador de fogo e de estrelas cadentes, todas as obsessões que absorvem o lado noturno de sua mente, todos os anseios doces e sonhadores que ele sentiu na vida por lugares distantes sem nome, todo e qualquer sentimento telúrico que ele tenha, o pulso neural de alguma consciência mais selvagem, uma empatia pelos animais, toda e qualquer crença numa força vital imanente, o Senhor da Criação, quaisquer ideias secretas da unidade da espécie humana, todo e qualquer desejo e esperança singela, tudo o que há de  excessivo e insuficiente, tudo ao mesmo tempo e pouco a pouco, toda e qualquer ânsia ardente de fugir da responsabilidade e da rotina, fugir de sua própria especialização excessiva, o eu circunscrito e ensimesmado, todo e qualquer resquício de seu desejo infantil de voar, seus sonhos de espaços estranhos e altitudes estonteantes, suas fantasias de uma morte feliz, toda e qualquer tendência indolente e sibarítica – comedor de lótus, fumante de ervas, contemplador do espaço com olhos azuis – tudo isso é satisfeito, tudo se reúne e comprime naquele corpo vivo, a vista que ele vê da janela.

‘É tão interessante’, ele diz por fim. ‘As cores, e tudo.’

As cores, e tudo.”

(Don DeLillo, Momentos Humanos na Terceira Guerra Mundial)

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