♪ | Put Your Back N 2 It | Perfume Genius

Postado em Atualizado em

Então resolvi escrever um diário para narrar minhas experiências, meus sentimentos e minhas aventuras, minhas impressões sobre o mundo, a vida e tudo o mais. Escrevi três páginas em 10 minutos, depois fui dormir. No dia seguinte, quando dei por mim diante daquele alagamento de palavras, me senti um pouco enjoado. E estúpido.

Pensei: este diário só não vai me envergonhar se eu reescrevê-lo de forma que o texto fale a uma pessoa razoavelmente interessante, e não a uma página de papel (páginas de papel, sabemos, não sentem constrangimento nem pena nem raiva nem qualquer outra coisa). Só que aí passei a suspeitar que o projeto em si perderia sentido, já que diários são, naturalmente, objetos intransferíveis que não mostramos a ninguém.

De qualquer forma, segui escrevendo o meu caderninho de acordo com esse plano B — como se para uma outra pessoa — e, agora, até que estou satisfeito com o rumo que ele está tomando. Iniciei a minha obra no dia 1º de março e pretendo encerrá-la no dia 30. Essa é a meta.

Ainda penso, no entanto, em como esse diário ficaria se eu o escrevesse com uma prosa totalmente livre, derramando irresponsavelmente os meus pensamentos mais sinceros. Acho que seria um baita de um convite ao sadismo, e impublicável.

Vá saber.

Esses conflitos diarísticos e existenciais ocorreram — por coincidência — enquanto eu tentava me familiarizar com o segundo disco de Mike Hadreas, aka Perfume Genius. Como este é um blog sobre música & filmes, seria melhor se eu começasse a falar nele (no disco) em vez de ficar passeando em torno do meu umbigo.

As histórias (a minha e a dele), é claro, acabam se conectando. Porque, enquanto eu escrevo um diário, Mike grava discos que contém alguns dos elementos que encontramos nessas narrativas íntimas: ele é daqueles artistas que, a exemplo de um Casiotone For The Painfully Alone, de um Xiu Xiu ou até de um Eels, cria uma relação de cumplicidade muito estreita — quase irresponsável, às vezes constrangedora — com o ouvinte, mais ou menos como na primeira versão do meu diário in progress. As informações sobre o disco no site da Matador Records deixam bem claro (porque é esse o plano) que Mike vive quase tudo o que canta — e experimenta esses versos possivelmente aos prantos, sofrendo um pouco a cada dia.

Learning, o álbum anterior, era ainda mais (supostamente) direto. Nele, Mike – um rapaz de Seattle então com 20 e tantos anos – desabafava sobre crises familiares, o vício em drogas, a tentativa de suicídio e as experiências sexuais com os namorados. Put Your Back N 2 It é, diz a Matador Records, um disco mais “universal” e “cinematográfico”, menos “esparso” e “introspectivo”. Ainda que a faixa título, segundo o próprio compositor, tenha sido feita para mostrar ao namorado que sexo gay pode ser algo confortável e carinhoso. “Escrevi para Alan antes de nossa primeira vez”, ele conta, no site.

Encurtar a distância que geralmente se estabelece entre um cantor e seu público é um dos desejos mais explícitos de Mike — talvez por isso, no texto de divulgação, ele explique por que escreveu cada uma das faixas (nenhuma historinha supera a de Floating Spit: “E se A História sem Fim se passasse numa sauna, como ele se pareceria? Como as criaturas seriam?”). Ler o texto e ouvir as canções deixa a sensação de se conhecer muito — talvez demais — sobre a intimidade do compositor.

Nas músicas, Mike também se esforça para mostrar-se como veio ao mundo. Os arranjos são quase transparentes, e ele quase sempre é acompanhado por um piano e por camadas finas (em espessura) de efeitos new age, com uma ou outra referência mais arejada (como em Normal Song, uma quase balada country). As comparações com James Blake se tornam óbvias, ainda que me pareçam equivocadas porque, ao contrário do britânico, Mike tenta criar a impressão de um reality-show sonoro, captado com espontaneidade e certa displicência, como se a necessidade se confessar, de se desnudar para mostrar-nos que é de verdade, fosse o mais importante.

Aplicando esse método, sempre de forma muito calculada (e com esboços por vezes muito bonitos de melodias), Mike encena, em primeira pessoa, as desventuras de um homem cheio de sequelas, tentando encontrar a sonoridade mais adequada para transmitir as sensações de isolamento e depressão. Soa legítimo, ainda que ele ainda não consiga transformar toda essa catarse numa arte particular. Por enquanto, só ouço o desespero — transcrito num diário sem pudor ou arremate.

Segundo disco do Perfume Genius. 12 faixas, com produção de Mike Hadreas. Lançamento Matador Records. C+

18 comentários em “♪ | Put Your Back N 2 It | Perfume Genius

    Adalberto disse:
    março 15, 2012 às 10:04 pm

    Um disco envolvente, com lindas melodias e quase perfeito em sua atmosfera sonora (se bem que ele funciona melhor em um dia de preguiça, claro…). Porém, o que estraga são as letras que de tão confessionais, tornam-se auto-indulgentes e por muitas veszes constrangedoras.

    Tiago Superoito respondido:
    março 15, 2012 às 10:36 pm

    Adalberto, eu nem consegui notar esse contraste entre letra e música que você percebeu. Acho que as opções musicais do cara combinam com o discurso franco/íntimo/frágil/tô-em-frangalhos dele. Agora, sem querer comprar (mas já comparando), tem uma distância imensa entre isso aqui e o que fazem um James Blake ou (indo muito mais longe) ou faziam um Elliott Smith/Nick Drake, que é tomar os versos “confessionais” como parte de um projeto muito firme, tanto conceitual como musical. Pra mim o Perfume Genius tá bem mais próximo de um Casiotone For The Painfully Alone ou de um Xiu Xiu, ou até dos momentos mais desesperados de um of Montreal, quando o Barnes vai vomitando os desabafos dele sem prestar muita atenção no que está fazendo.

    dan disse:
    março 15, 2012 às 10:58 pm

    aah, essa música tristonha de boutique p mim n tem nada de real. achei forçado e um álbum mt ruim.

    Tiago Superoito respondido:
    março 15, 2012 às 11:04 pm

    Não acho fake, Dan, mas também me parece forçado.

    dan disse:
    março 15, 2012 às 11:17 pm

    eu tb n acho q essas confissões q rolam nas letras sejam fake. mas a estética, a atmosfera q ele criou através desse som beira o fake. n me convence..

    dan disse:
    março 15, 2012 às 11:20 pm

    foi ‘bnm’ no pitchfork, isso eu n entendo. qq os caras viram aí?

    Tiago Superoito respondido:
    março 15, 2012 às 11:25 pm

    O lance problemático da Pitchfork é que, pra não enferrujar a estrutura que foi criada para a revista, eles precisam ficar elegendo discos pro panteão do “Best New Music” praticamente a cada semana – e essa necessidade de ficar descobrindo novidades MARAVILHOSAS a todo momento acaba desnivelando os critérios deles. Ao mesmo tempo em que são rigorosos com alguns discos, são excessivamente generosos com outros – que já esses álbuns “the best” chegam meio que programados pra receber o selinho deles (e, por consequência, a nota tem que ser alta pra justificar a escolha; cria-se o círculo vicioso). Então não dá pra confiar muito.

    dan disse:
    março 15, 2012 às 11:46 pm

    exato, tiago, percebo isso de existir uma necessidade em ficar elegendo boas músicas novas de tempo em tempo.. isso já é ruim e traz, sim, desconfiança à credibilidade do site. mas o pior mesmo é eleger como ‘bnw’ uns álbuns ruins como esse aí, acho q tem coisa mais legal saindo q poderia suprir essa ‘obrigação’ deles. o pitchfork é mt superestimado, o legal mesmo do site é q eles revisam muita música nova, é o meu principal referencial p ver q álbuns novos estão saindo. acho isso bacana. mas a questão ‘valorativa’ do negócio é mt subjetiva.

    Tiago Superoito respondido:
    março 15, 2012 às 11:50 pm

    Concordo com você, Dan.

    Além de ficar elegendo discos extraordinários regularmente, eles se veem na obrigação de descobrir um monte de revelações extraordinárias. Aí fica difícil manter o rigor.

    Adalberto disse:
    março 16, 2012 às 1:42 am

    Fica a infeliz sensação de que ele está apenas querendo que nós sintamos pena dele. Forçando sua arte a meras lamentações, sem deixar espaços para interpretações variadas .
    Loser por loser, prefiro muito mais esses citados por ti, Tiago.

    Adalberto disse:
    março 16, 2012 às 2:19 am

    Dan, existe sites bem melhores para conhecer novas bandas e saber o que de novo está saindo das que nós já conhecemos.

    Aqui, algums blogs:

    New Album Releases, Impactus, Exystence, LaspikedeLycmusic, etc…

    Larga dessa tal de Pitchfork…

    dan disse:
    março 16, 2012 às 5:44 am

    cara, como eu falei, eu acho legal o fato da pitchfork revisar todos os dias vários álbuns q estão rolando, além de ter algumas matérias legais por lá tb. acho bom p me interar c algumas coisas q estão saindo (n sou mt bom nisso), leio alguns blogs tb. o problema maior seria se eu tivesse engolindo td o q lá é dado como ‘bom’ ou ‘ruim’, já q, como falamos, existe essa nítida obrigação em revelar novas sensações da música, criar hypes a todo instante e td essa história aí. isso é inegável. assim como é inegável q essa prática faz as pessoas começarem a desconfiar de algumas ou muitas coisas q saem lá, com razão. eu, nem sei se sempre consigo, mas tento escutar um álbum seja lá qm me indicou e chegar a uma conclusão própria. por isso n vejo nenhum problema em acompanhar o site q for. o q n parece ser bom é ter a opinião exclusivamente determinada, seja pela p4k ou por um blog. aliás, o meu álbum preferido dos q eu ouvi até agora é o da julia holter, nota alta no p4k. vcs curtiram ? manda uma crítica aí, tiago. haha

    abraços!

    Tiago Superoito respondido:
    março 16, 2012 às 11:38 am

    Sim, Dan, acho que o site funciona bem como guia, já que acaba resenhando um volume muito grande de discos. E algumas críticas são boas. “O que não parece ser bom é ter a opinião exclusivamente determinada, seja pela p4k ou por um blog”, é o que você diz. Sim, concordo.

    Adalberto disse:
    março 16, 2012 às 11:40 am

    É lindão esse novo album da Julia Holter, Dan!…
    O meu caso com Pitchfork é de amor e ódio (e é assim com todos os sites e blogs que falam de músicas, filmes e etc…). Eu falo isso mas não deixo de dar algumas belas espiadas nas suas resenhas e sei que podemos a toda hora discernir (com nossas próprias percepções e opiniões) das notas propostas por eles.
    Nesse mar de inquerencias salva-se poucos. Um deles é este blogue aquí.

    Abraço!

    Tiago Superoito respondido:
    março 16, 2012 às 12:24 pm

    Opa, valeu, Adalberto :)

    Adalberto disse:
    março 16, 2012 às 12:46 pm

    O lindo deste teu blog, Tiago, é o espaço que vc cede para o debate. É o que eu acho que todos sites e blogs deveriam fazer (alguns fazem, eu sei…).Mas existem muitos aí só enchendo caixa de mensagens…

    Tiago Superoito respondido:
    março 16, 2012 às 1:24 pm

    O “debate” acontece quando vocês se empolgam e, claro, acho bem bacana, Adalberto. Mas a ideia do blog é ser um espaço pra anotações toscas sobre o que vou vendo/ouvindo, apenas isso mesmo.

    Adalberto disse:
    março 16, 2012 às 1:59 pm

    Fica tranquilo, Tiago. eu não quero te dar mais responsabilidades, ok?kkkkkkk…
    Mas quando nos “empolgamos” não há como negar que fica bem interessante saber as outras opiniões além das dadas nas suas ótimas resenhas.

    Abraço, garoto!

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