livro | Festa no covil

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O que você faria se o seu filho (ou o irmão pequeno, ou o sobrinho) pedisse um hipopótamo anão da Libéria? O pai de Totchli, narrador-mirim do livro Festa no covil, decide fazer valer o desejo do menino. Não só esse, mas todos – porque, claro, ele é um homem muito rico. E também por acreditar (e isto ele vive dizendo) que, quando não se pode ir à montanha, é possível fazer a montanha andar.

Como encontrar e capturar o bicho? A pergunta intriga Totchli. O garoto só pensa nela. Quem lê o romance, no entanto, tem outras dúvidas. Por exemplo: por que essa criança não tem amigos? O que explica o fato de ela estudar em casa, e não numa escola? Ela mora num palácio de verdade, cercado por leões e tigres, ou inventa uma realidade à semelhança dos desenhos animados?

As respostas acabam aparecendo — nas entrelinhas, vazando nas frestas da fala de Totchli. É um tema delicado. Página a página (e são poucas: 88), descobrimos estupefatos que o herói do livro é filho de um traficante poderoso, que o mantém preso numa mansão kitsch e o ensina — entre outras lições — a odiar os gringos americanos, a valorizar a lealdade e a matar gente. Enquanto isso, o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, estreante em ficção, usa um ponto de vista infantil para observar (de solsaio) a crise de um país.

Mas e o hipopótamo anão da Libéria? Ele está em todo canto, no começo, no meio e no fim da história – porque, vale repetir, Totchli só quer saber dele. A sanguinolência do cotidiano, que machuca a sensibilidade do leitor, se tornou tão comum para o menino que ele mal se deixa afetar por ela. Dezenas de pessoas perambulam nos cômodos do casarão: seu professor particular, empregados, prostitutas, políticos. Enquanto a tevê exibe notícias policiais, ele joga Playstation, coleciona chapéus e pesquisa palavras no dicionário. Gosta das mais difíceis, como sórdido, patético ou nefasto.

No posfácio do livro, o escritor inglês Adam Thirlwell elogia a gana experimental do texto de Villalobos. A micronarrativa do mexicano, segundo Adam, se apropria de um gênero pulp (a narcoliteratura) de uma forma absolutamente original — já que este estupendo Festa no covil, indicado ao First Book Award do jornal The Guardian, é também um conto familiar, que o escritor concebeu para alertar o filho recém-nascido sobre a perda da inocência, a sedução do poder, a solidão e as contradições sociais de um país tão ferido quanto ameaçador.

A linguagem do livro, segundo Thirlwell, se mostra “uma coisa precária, insensível, inocente, perturbada, opaca, devastada”. Totchli, apesar de precoce, ainda é uma criança. Ao transferir esse olhar enclausurado como que diretamente para o papel, sem anestesia, Villalobos sugere um contexto tão repugnante que, nos momentos mais tétricos, obriga o leitor a desviar o olhar. O menino, no entanto, assiste à selvageria dos adultos como quem passa os olhos em mais um filme de samurai. Não é nada, não é nada. Principalmente quando se tem hipopótamos anões na Libéria.

(Fiesta en la Madriguera/Down the Rabbit Hole, 2010). De Juan Pablo Villalobos. Tradução de Andreia Moroni. Companhia das Letras. A

5 comentários em “livro | Festa no covil

    gabrielraugusto disse:
    fevereiro 15, 2012 às 11:26 pm

    Aê, resenha de livro! A última da qual eu lembro de ter visto aqui foi sobre um volume bonito – mas ruim – sobre nuvens.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 15, 2012 às 11:37 pm

    Nem dá pra considerar AQUILO uma resenha, né, Gabriel? Mas que memória, hem… Hehe.

    Humberto Junior disse:
    fevereiro 22, 2012 às 2:39 am

    suuuuuuuuuuuuuuuuuuuupa!!!!!!! que saudade vei, muito tempo sem poder entrar no seu blog aqui, to virando hominho, e so agora consegui ter tempo pra voltar pro seu blog.

    vei, saudade mesmo, e esse livro merece ser lido mesmo neh? ahh, voce ja leu cem anos de solidao? eu acabei de ler esse livro, e acho que nunca li livro melhor na vida. caramba, muito bom o livro. e vou voltar a comentar aqui, seu blog eh bom de mais, e parece que ta ficando melhor agora.

      Tiago Superoito respondido:
      fevereiro 23, 2012 às 10:55 am

      E aí, Humberto, beleza? Tem que ler esse livro sim, é bem bom. Abraço!

    Bruno Machado de Oliveira. disse:
    fevereiro 24, 2012 às 8:00 pm

    Lerei.

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