cine | Tomboy

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Na edição de 2011 do Festival de Berlim, Tomboy venceu o prêmio Teddy, entregue ao melhor filme com temática homossexual. O troféu deve ter facilitado a distribuição do filme, uma produção modesta, que custou 1 milhão de euros. Mas ele pode dificultar a vida de quem espera encontrar na tela os temas e conflitos de uma produção tipica e abertamente gay. Não é o caso. A dificuldade de classificar o projeto, aliás, esclarece o que existe de notável no segundo longa de Céline Sciamma: tal como a personagem principal, uma menina que se passa por menino, a narrativa flutua entre definições de gênero e de orientações sexuais.

Mais justo seria tratar este pequeno filme como um conto de infância, um conto de verão, que retrata com naturalidade as crises de uma identidade em formação. Já que a questão “ser ou não ser gay?” passa muito à margem da rotina inocente de Laure, uma petiz de 10 anos interpretada com convicção espantosa por Zoé Héran. A criança, que se mudou há pouco para um subúrbio de Paris com os pais (Mathieu Demy e Sophie Cattani) e a irmã caçula (Malonn Lévana), tem outras preocupações: fazer novos amigos é uma delas, e talvez a mais importante.

No suadouro do verão, Laure sai de casa vestindo bermuda, regata e com cabelo curto. A vizinha Lisa (Jeanne Disson) logo a confunde com um menino — o que, para a nova moradora da vizinhança, não é nada mal. Daquele dia em diante, passa a se apresentar como Mickäel, embarcando numa fantasia que não pode (nem vai) durar muito. Com uma câmera suave, grudada aos gestos infantis, a cineasta acerta ao arejar a narrativa, sem truques de folhetim. Não há por que condenar Laure: a farsa da menina, ainda que deixe na plateia a expectativa por uma tragédia, é narrada com a leveza algo amarga de quem entende que, aos 10 anos, as transições aparentemente simples podem ser também as mais doloridas.

(França, 2011) De Céline Sciamma. Com Zoé Héran, Malonn Lévana e Jeanne Disson. 84min. B

5 comentários em “cine | Tomboy

    dantast disse:
    fevereiro 10, 2012 às 11:46 am

    Bem verdade o que você disse. Fiquei com os olhos grudados em Laure durante todo o tempo, temendo que algo terrível acontecesse. O desfecho foi bem cortante, mas o final foi tão tão tão lindo que fiquei sorrindo. Leveza. Essa é a palavra.

    (Agora, pra manter a tradição de comentários-aleatórios, vou dizer que… AINDA PREFIRO LÍRIOS D’ÁGUA. Huhuahuahuau.)

    Belo texto. ;D

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 10, 2012 às 11:55 am

    Eu acho esse melhor que o Lírios D’água, mas também é um filmezinho simpático.

    dantast disse:
    fevereiro 10, 2012 às 1:37 pm

    Deve ser melhor mesmo. Não dá pra negar que é mais “bem resolvido” e consciente de si. Só que eu GOSTO mais do outro. Curto a ~~violência~~ emocional e os choques extremos. Rere.

      Tiago Superoito respondido:
      fevereiro 10, 2012 às 3:59 pm

      Entendo.

    Henrique Miura disse:
    fevereiro 16, 2012 às 9:57 pm

    A curta duração do filme não condiz com o quanto ele consegue dizer. Acho que existe ali um filme de descoberta muito interessante, não da Laure, mas da vizinha Lisa.
    Destaco a atuação da menina que faz a Laure, o que é aquilo? Achei sensacional.

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