cine | O artista

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Depois de ter passado uma semana inteira enfezadinho com este filme tão adorável e fofo, acredito ter finalmente encontrado o motivo para a minha birra: é que, encerrado o debate sobre o quão ESPERTA é a ideia de recriar a atmosfera de um filme mudo por um viés contemporâneo, à serviço de uma (zz) linda homenagem ao cinema, não resta quase nada a ser dito sobre o filme. E, até por uma questão de coerência, eu poderia encerrar este post aqui.

Ah, ok: também podemos falar sobre como esse clima oldie é encenado de uma forma tecnicamente impecável. Os cenários são um bem fiéis àquilo que esperamos encontrar num filme velho, os atores estão um charme só, dá vontade de levar o cachorrinho pra casa e o roteiro contém dúzias de sacadinhas pós-modernas, ainda que monotemáticas: são variações sobre o fato de que, num filme silencioso, os atores não podem FA-LAAAR.

Ha-ha. Admito que ri (minto: sorri) durante o filme. Uma das sequências, a do sonho, merece ganhar um prêmio de curta-metragem. É divertido, sabe? A forma como o diretor parece estar fazendo um filme para pessoas que nunca frequentariam uma jornada de cinema silencioso, mas que (sabe-se lá por que razão) acham que os filmes eram mais genuínos nos anos 20. Muitas dessas pessoas, suponho, incluem Cantando na Chuva na lista de longas preferidos, ainda que não o tenham visto — caso contrário, certamente iriam reparar que esta ideia aqui é quase igual àquela (com a diferença de que, naquela, o segundo ato era bem menos previsível).

Vamos falar em ideias, então. O Artista talvez me incomode por parecer filme-de- uma-ideia-só — ideia essa que se esgota nos primeiros 30 minutos de duração (e ainda bem que não vi o trailer, porque teria sido um spoiler terrível). Os outros 90 são, no mínimo, redundantes. Por quê? Talvez porque muitos dos filmes mudos eram mesmo redundantes (e aqui a cobra morde o próprio rabo), ainda que haja controvérsias em relação a isso, mas e daí? Quando não está brincando com a faísca ultracriativa de trama (resumindo o enredo: ator de cinema mudo não consegue se adaptar à transição para cinema falado), o cineasta simplesmente deixa o herói do filme à deriva, chorando nos cantos enquanto o desfecho não vem.

Na cena final, o diretor nos mostra que o filme talvez não tenha apenas uma única ideia (certo, estou sendo cruel), mas duas. Ele nos ensina que a técnica do cinema mudo acabou por se tornar útil ao cinema falado. Não é irônico? Acho que sim. O Artista tira o chapéu elegantemente para tudo isso, dá um sorriso, pisca pra plateia. É um filme galante que nos entretém. Só senti falta (e isso não consigo encontrar nem em entrevistas, apesar de ter procurado com muita curiosidade) do olhar de um cineasta que não se contentasse tão somente com 1. o truque formal e 2. a explanação simplezinha acerca das transformações de uma época do cinema. Um olhar capaz de esgarçar a ideia, dilacerar o truque, e de nos surpreender profundamente.

Mas aí talvez seria pedir demais. Eu sei. Estou sendo rabugento. Quem tem uma ideia ESPERTA talvez não precise disso, de um olhar. Não cobramos um olhar de, por exemplo, anúncios sagazes de televisão. Queremos que os anúncios nos confortem, nos estimulem, nos afaguem, e um olhar pessoal às vezes nos incomoda, nos apresenta as coisas de uma outra perspectiva e anuvia o nosso dia. Not here. No que os fãs do filme vão retrucar com um “e daí?” Eles têm razão, já que o longa cumpre com precisão o objetivo que estipula para si. Voltando ao primeiro parágrafo deste post: não há o que discutir. É (atenção que vou repetir a palavra mágica) eficiente. No mais, eu nunca quis saber verdadeiramente o que o diretor de, hum, Amélie Poulain (outro filme que parece-me um projeto de filme, um filme-sem-filme) pensa sobre a vida, o mundo, a arte e tudo mais.

Que venha o Oscar, então. E viva o cinema etc.

(The Artist, França, 2011). De Michel Hazanavicius. Com Jean Dujardin, Bérénice Bejo e John Goodman. 100min. C (ou, sendo cínico, B).

21 comentários em “cine | O artista

    Daniel disse:
    fevereiro 8, 2012 às 1:29 am

    Rapaz !! Quando vc não gosta de alguma coisa é cáustico e ácido como poucos.

    Não vi ainda o filme, mas sabe que pode rolar aqui uma polêmica parecida com a de O Discurso do Rei ano passado, pq esse O Artista é o típico filme que todos-irão-adorar-e-se-comover-e-será-o-vencedor-moral-do-Oscar (não creio que darão a ele o prêmio).

    Bem, confesso que gostei de O Discurso do Rei, mas Amélie Poulan de fato é um porre. hahaha

    Henrique Miura disse:
    fevereiro 8, 2012 às 9:42 am

    Eu acabei indo na onda do filme. Quando o filme monta essa coletânea de sacadinhas que homenageiam (a história d) o cinema, fiquei encantando e embarquei cegamente.Tenho até vergonha de assumir.
    Agora estou tarado esperando chegar logo o “Hugo”, que dizem que homenageia o cinema – e estou curioso de saber de que forma.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 8, 2012 às 11:00 am

    Daniel, eu acho que é o favorito ao Oscar sim (o único concorrente à altura parece ser Hugo, que ainda não vi). E o filme tá longe de ser um porre. É divertido, agradável e fofo. Mas também unidimensional e cheio de truques banais. Acho até, aliás, que a trajetória dele em Cannes foi muito justa: impressionou jornalistas impressionáveis, provocou burburinho na mídia (o filme é, por si só, uma pauta bacana de cultura), mas saiu só com o prêmio de melhor ator.

    E cara, acho que dá pra ser cáustico num blog que quase ninguém lê ;)

    Henrique (quanto tempo, meu velho!): o Hugo também tá me deixando ansioso. E, homenagem ao cinema por homenagem ao cinema, um filme como Ed Wood me agrada bem mais que O Artista: ali existe um cineasta, um olhar, e isso me interessa muito mais que um punhado de sacadinhas divertidas.

    Daniel disse:
    fevereiro 8, 2012 às 3:23 pm

    Tiago, eu não falei que vc às vezes é cáustico pejorativamente !! Pelo contrário, gosto muito do seu sarcasmo, a leitura fica mais agradável, divertida.

    Bem, não vi O Artista, só posso falar baseado no que eu leio. Me parece uma ousadia pouco comum à Academia dar o prêmio a um filme assim. Outro filme com menos chances ainda (acho que próximas de zero) é Arvore da Vida. Só a indicação já é uma surpresa.

    Não vi Os Descendentes…eu sei que vc não se empolgou com o filme, mas não seria um filme com mais cara de “oscarizável” (de novo: baseando-me apenas no que eu li)?

    Ah,sim, e Ed Wood é belíssimo, possivelmente o melhor filme do Tim Burton.

    Yasmin disse:
    fevereiro 8, 2012 às 3:39 pm

    Preguiça de ver esse filme, me parece uma reciclagem mesmo de um Cantando na Chuva – esse eu adoro.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 8, 2012 às 3:42 pm

    Parece ousadia, Daniel, mas assista ao filme e você vai notar que ele é MUITO acessível. Um Oscar pra ele não seria nada estranho, nesse sentido. Acho que Os Descendentes tá perdendo força, sei não…

    É até cruel essa comparação, Yasmin. Cantando na Chuva é infinitamente melhor.

    Diego Maia disse:
    fevereiro 8, 2012 às 11:16 pm

    E se esse olhar fofo/risonho/positivo for o olhar do cineasta mesmo? (se ele fizer filmes fofinhos daqui em diante, já sabe)

    O Tim Burton é um pouco mais sarcástico, apesar de gostar do protagonista. Acho que isso explica porque você prefere Ed Wood, haha.

    Mas voltando: e se tudo for só questão de se identificar ou não com esse olhar do cineasta que você tanto procura?

    O Artista não me parece dirigido no automático (até mesmo porque o Hazanavicius assina o roteiro também), mas traz embutida, sim, uma visão mais simples – não simplista – do que foi essa transição para o cinema falado. Pra mim, é um filme de um cara que claramente viu muitos filmes da época, estudou a fundo a mise-en-scene deles e usou a fórmula daqueles anos para contar uma história que veio DEPOIS deles. (tem mais de uma ideia legal aí)

    E tenho dúvidas sobre o quão acessível esse filme é: você sabe bem que fora das salas “de arte” que eu e você frequentamos é preciso avisar que ele é mudo e em PB para não matar o público de susto.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 8, 2012 às 11:45 pm

    Um comentário por vez, Diegão:

    “E se esse olhar fofo/risonho/positivo for o olhar do cineasta mesmo? (se ele fizer filmes fofinhos daqui em diante, já sabe)”

    O problema é que não vejo olhar algum. Essa atmosfera fofa/risonha/positiva do filme é, pra mim, uma fórmula banal que o cineasta aplica. Já vi vários filmes com esse “mood”. Continuo sem saber o que o cineasta pensa sobre o mundo, o cinema, a vida etc. Só consigo ver o maneirismo, não o olhar. Talvez ele siga fazendo filmes exatamente como este e eu continue não sabendo exatamente quem ele é e o que ele pensa sobre as coisas.

    “E se tudo for só questão de se identificar ou não com esse olhar do cineasta que você tanto procura?”

    Quando vejo um filme do Cameron Crowe, por exemplo, sei que estou vendo um filme do Cameron Crowe. Tem um olhar ali, por mais positivo/fofo/babaca. Não estou à procura de olhares que combinem com a minha percepção de mundo/cinema. Só acho que na arte o olhar, o ponto de vista, é essencial. Talvez haja um olhar em O Artista, mas não consigo percebê-lo. A culpa pode ser minha. Mas não consigo, e afirmo isso sinceramente.

    “Pra mim, é um filme de um cara que claramente viu muitos filmes da época, estudou a fundo a mise-en-scene deles e usou a fórmula daqueles anos para contar uma história que veio DEPOIS deles. (tem mais de uma ideia legal aí)”

    Então: taí uma ideia que, em minha opinião, é superficial e gira simplesmente em torno de uma brincadeira formal.

    “E tenho dúvidas sobre o quão acessível esse filme é”

    Não é tão acessível quanto, sei lá, Transformers. Mas acho que é acessível sim, bem agradável e pop. A trama é de uma simplicidade total. Não vejo dificuldades.

    Diego Maia disse:
    fevereiro 9, 2012 às 12:06 am

    Você não é parâmetro pra indústria, Tiagão. Nem eu.

    (ah, sim, me fale de um filme indicado ao Oscar que não seja “acessível”?)

    O Cameron Crowe imprime “olhares” (quais? Essa discussão tá se esvaziando…) aos filmes dele, mas isso nunca os torna melhores ou piores (torna? Pra mim não). Se a gente sabe o que é o tal “olhar do Cameron Crowe” e o cara tá lá, fazendo filmes como se ainda olhasse de 1996, quando é que isso deixa de ser atraente, interessante, motivo pra se gostar de um filme e vira… maneirismo? Ou muleta pra preguiça, como os últimos filmes dele parecem ser?

    É uma discussão que gira em falso se os argumentos se escoram apenas nela. No fim das contas, voltamos ao papo de autoralidade. Zzz.

    E vejo mais de uma ideia interessante em O Artista, mas aí deve ser boa vontade minha

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 9, 2012 às 12:19 am

    Não sou parâmetro pra indústria, verdade. E todos os filmes indicados ao Oscar são acessíveis, certo (se bem que Árvore da Vida…)

    Acho que você entende o que eu digo, Diego, mas não concorda. Normal. É o seu ponto de vista. Neste blog, só estou tentando deixar claro (até pra mim mesmo) algumas respostas pra perguntas que eu considero importantes: o que me atrai no cinema? O que valorizo num filme? O que, pra mim, importa? Sinceramente: este blog não é um guia do Leonard Maltin, e seria sacal pegar cada filme e comentar se ele funcionaria para o vovô, para a tia ou para a irmãzinha, se ele é eficiente, se faz rir ou faz chorar. Sei lá, não me vejo fazendo isto aqui. Não sei qual seria o propósito.

    Diego Maia disse:
    fevereiro 9, 2012 às 12:23 am

    Não tô falando do seu blog, Tiago. Para com essa baixo-estima blogueira aí.

    Diego Maia disse:
    fevereiro 9, 2012 às 12:25 am

    “Baixa auto-estima”

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 9, 2012 às 12:26 am

    Que isso, adoro meu blog! (mentira)

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 9, 2012 às 12:46 am

    Tá, mas antes de fechar meus argumentos chatos, vou voltar ao seu comentário sobre o “olhar de Crowe” (dá nome de livro, ó), porque acho que tem coisa interessante aí.

    Vejo assim: o “olhar” (vou ficar colocando a palavra entre aspas pra deixar claro que não a estou usando no sentido literal) de um artista (seja ele Crowe ou quem for) não vai ficar estático, igual para sempre. Espero que não fique. O artista muda, é claro, ele amadurece (ou não), ele cresce, ele experimenta situações, e ele depura a própria arte, talvez (ou não, ele a transforma, ele a contradiz, ele frustra, ele se dana, ele nos decepciona, ou decide fazer sempre a mesma coisa, vá saber). O artista tem liberdade pra fazer o que bem entender. Quando falo em “olhares”, estou tentando comunicar algo muito mais subjetivo do que simplesmente uma ideia de “autoralidade”. O “olhar” tem mais a ver com um temperamento, uma forma particular de notar as coisas, um traço pessoal, um ponto de vista que pode oscilar de filme pra filme, de momento pra momento. O que me interessa é ver como esse temperamento aparece na tela, porque é só quando esse temperamento aparece que eu posso conversar com o filme. E quando noto que é tudo muito óbvio e banal e apelativo e meio inócuo (como, pra mim, acontece em O Artista), e não consigo identificar o que existe de particular no filme, fico desinteressado e começo a achar muito chato.

    Resumindo, acho que é por aí. E, pra deixar claro mais uma vez, estou falando apenas sobre a forma como EU vejo o cinema, não estou querendo cagar uma regra geral e mandar todo mundo pensar do mesmo jeito.

    Ailton Monteiro disse:
    fevereiro 9, 2012 às 1:47 am

    Bacana o teu texto, Tiago. Funciona melhor quando escrevemos livremente, falando com sinceridade e tal. E uma polemicazinha é bom. Mesmo usando de tanta acidez. Hehehe Interessante o lance de cobrar o olhar do cineasta. Mas a gente sabe tão pouco desse diretor francês…

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 9, 2012 às 1:53 am

    Eis o fantástico mundo dos blogs, Ailton, hehe.

    Pois é, acho que toda essa discussão abstrata vai ficar um pouco mais clara quando o Hazana… (como é mesmo o nome dele? haha) se estabelecer em festivais e fizer mais uns três filmes. Vamos acompanhar.

    Pedro Primo disse:
    fevereiro 9, 2012 às 2:40 am

    Eu acho essa discussão essencial, mesmo pra quem não fica atento ao tal “olhar do diretor”. Mas vou te falar que, pelo menos nesse meu início de cinefilia, eu acabo me interessando muito pouco por diretores que encaram a história como somente uma história.

    Falta, pra trocar essa palavra “olhar”, um comentário sobre o que aconteceu com os personagens e sobre o próprio cinema (já que o filme faz uma homenagem).

    Tá pra nascer filme que homenageie o cinema de forma mais sagaz do que Blow Out do De Palma.

    Diego Maia disse:
    fevereiro 9, 2012 às 10:36 am

    Como o Ailton disse, a gente ainda conhece muito pouco do cara. Não sei se dá pra cravar “falta olhar” assim, com tanta facilidade. Eu pelo menos não vi as comédias de espionagem do Agente 117 que ele dirigiu (estreladas pelo Dujardin também), mas elas parecem todas ter essa mesma leveza e otimismo bobo do Artista.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 9, 2012 às 10:47 am

    Concordo, Pedro. Não vejo no filme um comentário, um ponto de vista, uma observação pessoal sobre o cinema, mas uma explanação simplezinha sobre a transição do mudo pro falado. ‘Blow Out’ é um dos tantos exemplos de filmes com pontos de vista fortes – felizmente, eles estão aí aos montes.

    Diego, estou falando sobre o olhar do cara dentro deste filme específico. Não estou comparando um filme com outro, até porque ainda não dá pra fazer isso. Mas sim: se ele seguir fazendo filmes como este, vou chegar à conclusão de que ele tem um olhar otimista/bobo/vazio que não me interessa muito.

    cine | A invenção de Hugo Cabret « superoito.com disse:
    fevereiro 12, 2012 às 7:57 pm

    […] sólido de Scorsese (que não se deixa levar por generalizações) com o discurso tatibitate de O Artista – mas fica para a próxima. O que embasbaca neste filme é o domínio técnico e estilístico de […]

    […] indicando que o Nolan seria um diretor dessa segunda categoria. Também ia pegar uns elementos dessa resenha do Superoito sobre o O Artista e argumentar que o os filmes do Nolan sempre foram filmes de […]

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