cine | Millennium – Os homens que não amavam as mulheres

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Os livros da série Millennium são best sellers que não provocam repulsa em quem diz detestar best sellers: ainda que vendam o tipo de conteúdo “pulp” que predomina nas prateleiras de thrillers, eles são escritos com uma prosa clara, sem excesso de lugares comuns, por vezes até elegante (o autor, Stieg Larsson, era um repórter de prestígio na Europa) e, portanto, mais respeitável que os garranchos de um, digamos, Dan Brown.

E mais: na trama, que atualiza alguns métodos herdados de Agatha Christie e Arthur Conan Doyle, o personagem principal, um jornalista ético e combativo, é um mascote que o escritor cria para criticar a cobertura econômica chapa-branca que a imprensa europeia geralmente pratica. Esse tipo honesto acaba por investigar casos de abusos contra mulheres. Temas importantes, que incluem a trilogia na categoria de obra-literária-para-resenhas-em-revistas-semanais.

O aspecto mais atraente e “vendável” dos livros, no entanto, é bem outro: a relação de amizade/parceria/paixão entre esse herói da mídia investigativa e uma hacker arredia, ambígua e superesperta, que todo jornalista gostaria de ter como assistente.

Podemos ler a trilogia de, pelo menos, três formas: são love stories, thrillers de mistério e dramas sociais (o primeiro livro chega a listar estatísticas sobre crimes contra mulheres suecas). É o acúmulo dessas intenções que, creio eu, faz dele um produto com potencial para fazer a conexão entre o leitor de um Philip Roth e aquele que deseja apenas experimentar as sensações de uma “junk fiction”: medo, aflição, diversão.

Explico tudo isso para que vocês entendam por que vejo como muito apropriada a escolha de David Fincher para dirigir a adaptação norte-americana do primeiro livro da série: ele é um dos poucos cineastas que seriam capazes de transferir para o cinema não apenas a trama de Larsson, mas todo esse “crossover” pop comercial. Cá está: um diretor respeitável, de prosa fluente e “legível”, cravando os dentes num produto de entretenimento, e estampando nele uma certa grife.

O filme sueco não tem (nem seria capaz de ter) esse grau de afinidade com os originais. Fincher é, até por obrigações que são comuns a esse tipo de projeto, “fiel” à trama (e, nesse aspecto, antes que me perguntem, o filme a segue até excessivamente), mas o que me impressiona é como ele, talvez inconscientemente, consegue adaptar por completo o tom do livro: faz um thriller “respeitável”, com uma caligrafia fluente, sobre um punhado de intrigas de folhetim.

É possível pensar em muitas ligações entre este filme e elementos que são recorrentes na obra de Fincher: a personagem da hacker Lisbeth Salander, por exemplo, é a nova sócia em um clube de solitários e “outsiders” que já incluía Ellen Ripley (Alien 3), o serial killer de Seven, o herói masoquista de Clube da Luta e Mark Zuckerberg (A Rede Social). Outra tentação é criar uma comparação entre a investigação inconclusa, lacunar, de Zodíaco e o excesso de explicações e “conclusões” de Millennium. Mas prefiro encarar este filme como um “blockbuster” de Fincher, à la O Quarto do Pânico, em que as habilidades técnicas do diretor se tornam mais decisivas que o olhar criativo do autor.

Exatamente como o livro, aliás, o filme usa a aptidão narrativa e um espírito bem jornalístico (de denunciar abusos, maus tratos) para justificar cenas que, numa produção menos sofisticada, seriam interpretadas simplesmente como exercícios de sadismo e grosseria. Fincher às vezes se diverte (na sequência de abertura, no clímax, quando usa Enya como música-tema para um assassino), às vezes se limita a fazer o trabalho da maneira mais correta possível. Preserva, ainda assim, uma das boas provocações do livro: a misoginia europeia sobreviveu ao fim do nazismo, e hoje se esconde nos apartamentos de cidadãos aparentemente responsáveis e bondosos.

Um dos meus problemas com o livro é que ele parece-me irregular, começando bem e terminando não tão bem. Nas últimas páginas, o livro me deixa com a impressão de que Larsson está se apressando para encerrar a trama e resolver todos os enigmas à tempo de pegar uma sessão de cinema às nove da noite. A adaptação de Fincher é tão, hum, respeitosa que preserva uma sensação que, para mim, se tornou incômoda: a de que o enredo “pulp” se deixa inflar por uma quantidade exagerada de assuntos, personagens e intenções, resolvendo o imbróglio sem muita perspicácia ou paciência. Digamos que seja um defeito de fabricação — do tipo que, num projeto desta natureza, um cineasta prático como Fincher não tem autorização nem ânimo para consertar.

(The Girl with the Dragon Tattoo, EUA, 2011). De David Fincher. Com Rooney Mara, Daniel Craig e Christopher Plummer. 158min. B

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3 comentários em “cine | Millennium – Os homens que não amavam as mulheres

    Daniel disse:
    fevereiro 6, 2012 às 12:00 am

    Assisti hoje, mas devo confessar que perdi os primeiros 15 ou 20 minutos.

    Mas acho que entendo o que vc quer dizer e mesmo sem ter lido o livro, faz sentido. A impressão é que há mais nomes e personagens do que a trama requer, pra se desenvolver.

    Há pelo menos 3 histórias em paralelo: os problemas pessoais/profissionais de Lisbeth e Mikael e o mistério que eles investigam, pra não citar a relação entre eles.

    Então, depois que o mistério é revelado, os últimos 20 minutos ou meia-hora, que resolvem as outras histórias, me deram aquela estranha impressão de que o filme já terminou e tudo aquilo é secundário.

    Mas acho que a mão do Fincher mantém a coisa funcionando. Talvez esse excesso de explicações se deva ao fato de que esses temas vão ser retomados nos 2 próximos filmes da trilogia (será?). No final, a experiência como um todo valeu a pena.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 6, 2012 às 11:08 am

    Daniel, e o interessante é que os 20 minutos finais do filme são tão apressados como as 100 últimas páginas do livro.

    Thaís disse:
    fevereiro 8, 2012 às 1:31 am

    Não li o livro e gostei bastante do filme. Sou fã de carteirinha do Fincher, então sou meio suspeita. :S Mesmo não entrando com peso nessa fase de premiações americanas, esse filme é melhor do que muito do está aí sendo ovacionado. Pelo menos dos filmes que já vi até agora (Os descendentes, Histórias cruzadas…). A temporada está bem mais ou menos ou sou eu ficando chata? Não sei…

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