Dia: fevereiro 2, 2012

cine | J. Edgar

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Entrei no cinema um tanto confuso sobre a trajetória de John Edgar Hoover, e, sorte a minha, saí ainda mais perdido. Bottom line: esta cinebio não tem utilidade didática para quem procura a verdadeira verdade, interpretada com parcimônia, sobre o homem que dirigiu o FBI por quase 50 anos. Até porque guardar segredos escaborosos, criar mentiras sobre a própria biografia e retocar a história da América eram algumas das especialidades de um personagem que nunca será desvendado. Felizmente, Clint Eastwood e o roteirista Dustin Lance Black (de Milk) nem tentam encontrar uma explicação definitiva para um tipo tão contraditório. Não: eles explicitam as ambiguidades do homem ao obscurecê-lo num retrato ocre, bem turvo (sob camadas assustadoras de maquiagem, indeed), que aglomerar fatos, boatos, reconstituição histórica, especulações e licenças poéticas.

Quem era J. Edgar? Acredito que, ao fim do filme, seja mais fácil comentar sobre quem ele não era. O roteiro de Black divide a trama em dois tempos que, apesar de entrecortados por flashbacks e paralelismos de montagem, às vezes não se completam. O Edgar jovem e idealista contrasta com uma figura pública recalcada e paranoica, que prepara dossiês para ameaçar presidentes e permanecer no poder. Mas, se esse jogo entre épocas (os anos 20/30 e a década de 60) nos informa sobre as transformações da América, ele também nos ilude — já que, a uma certa altura da trama, descobrimos que todo aquele filme-de-época correto (e por vezes maçante, desinteressante) sobre a formação de Edgar foi “maquiado” pelo próprio personagem, que distorcia informações para inventar versões oficiosas sobre a própria vida. Incapaz de identificar os limites entre lenda e fato, resta ao filme oscilar entre um extremo e outro, mostrando aquilo que se sabe (e, principalmente, a imagem que o mundo criou) sobre Hoover.

Essa liberdade de interpretação (mas, perceba a armadilha: filmada com uma lente sóbria e até serena, nada escandalosa) dá carta branca para que se invada a vida particular do personagem e se imagine hipóteses sobre a sua sexualidade — ele era um gay enrustido, segundo Black — e sobre as relações de confiança, a portas muito bem fechadas, com a mãe e os assistentes. Ainda que, ao fim da projeção, seja muito simples desgostar de Hoover — a interpretação de Leonardo DiCaprio, no tom exato, é até antipática —, mais complicado é compreender as motivações do homem. Clint não vai tão fundo (e acredito que seria impossível chegar lá), mas toma partido: o personagem está sob sombras e máscaras; e são elas (as sombras e as máscaras) que de alguma forma o definem.

(EUA, 2011). De Clint Eastwood. Com Leonardo DiCaprio, Armie Hammer e Naomi Watts. 137min. A

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