♪ | Patience (After Sebald) | The Caretaker

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No livro Os anéis de Saturno, de 1995, o escritor alemão W.G Sebald narra as lembranças de um homem que está internado em um hospital, imóvel, preso a uma cama. A condição física do personagem determina o tom do texto: enquanto relata a caminhada que fez em East Anglia, na região leste da Inglaterra, o narrador oscila entre a tentativa de engaiolar memórias e o desalento provocado pela degradação do próprio corpo. A viagem mental do protagonista se torna, por isso, uma história de escapismo — e, por fim, uma ilusão trágica.

O cineasta Grant Gee, de documentários como Meeting People is Easy (do Radiohead) e Joy Division, entendeu que não seria possível acenar para esse romance de uma maneira direta — a trama, afinal, nada mais é do que um delírio. Ainda não vi o filme, mas a trilha sonora do doc Patience (After Sebald) indica, ao menos, que ele saiu à procura de sons que comunicassem algo sobre o estranho fluxo de pensamentos do narrador/escritor – o longa remonta o trajeto que o próprio Sebald fez e, em seguida, recriou no livro. Nada mais coerente, portanto, que convidar Leyland Kirby para compor a música do filme — no The Caretaker, o músico também tenta sonorizar processos cerebrais, recriando com samplers, ruídos, ecos e outros efeitos desconcertantes o jeito desconexo como a nossa mente engatilha as lembranças.

Uma das referências principais do Caretaker é a cena de baile do filme O Iluminado — que resume a atmosfera de nostalgia fantasmagórica que encontramos em discos como An Empty Bliss Beyond this World, um dos meus preferidos do ano passado. Mas ninguém que o conhece acharia absurdo se Kirby confesasse que o livro de Sebald também o influenciou. A música do compositor parece, ela própria, existir num estado em as sensações se tornam confusas, como cartas embaralhadas. Uma faixa do Caretaker pode provocar, a um só tempo, a impressão de ser profundamente melancólica, delicada e assustadora. É o que acontece quando estamos sonhando: perdemos o controle da atividade mental.

A trilha de Patience, escrita antes de An Empty Bliss, simula esse transe sentimental de uma forma muito direta, até (digamos) óbvia, e talvez por isso não me perturbe tanto quanto o álbum anterior do Caretaker. Praticamente todas as faixas são formadas por duas camadas: samplers melodiosos de piano (Schubert, 1927) sobrepostos a uma neblina de distorção, que soa como o ruído enervante de uma rádio fora de sintonia. Está descrita, nesse puzzle sonoro, a agonia do narrador, que vai catar as boas memórias no fundo de uma espécie de lodo existencial. Como costuma acontecer, os títulos das faixas de Kirby nos guiam como lanternas: uma delas atende por (brr) In the Deep and Dark Hours of the Night.

O disco não provoca o espanto de An Empty Bliss Beyond this World, que criava um jogo impressionante de repetições e surpresas dentro de cada faixa. Mas talvez devamos nos contentar com o fato (formidável) de que, aqui, Kirby preferiu simplesmente estudar o livro de Sebald. E, como se arrematasse apenas um trabalho encomendado, ele nos transporta novamente a um ambiente abstrato, insólito, indescritível, lindo e horrível, que a arte tem o poder de alcançar.

Disco do The Caretaker. 12 faixas, com produção de Leyland Kirby. Lançamento History Always Favours the Winners. B+

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