cine | O espião que sabia demais

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Recomendo que, antes de entrar no cinema, o caro leitor precavido deste blog leia a sinopse completa deste filme — e por sinopse completa eu digo: o início, o fim e o meio da trama. Melhor ainda seria procurar um exemplar do livro de John le Carré que deu origem a este longa-metragem. Pode parecer um conselho estúpido — e, acredite, detesto os estraga-surpresas —, mas, no caso, ele faz muito sentido, acredite: quem se preocupar demais com o fio desta narrativa vai acabar subestimando as bordas deste filme — e é o que ele tem de melhor.

Isto é: a elegância críptica, esfumaçada, a kind of dark blue, como Tomas Alfredson (do estupendo Deixe Ela Entrar) entra nos lares dos agentes de Carré. Os personagens, velhos especialistas em arapongagem internacional, parecem encarnar o estágio em que o serviço de inteligência britânico se encontrava no início dos anos 70 (era, digamos, um móvel pomposo e antigo e imponente, mas largado no canto da sala). O cineasta impõe uma postura distanciada que dá ao filme um ar bolorento, pesado, e transmite uma sensação de agonia, de Guerra Fria, até para aqueles que (como eu) se perdem na trama.

O roteiro, para nossa sorte, mantém graciosamente o tipo de diálogo que encontraríamos num bom livro britânico. “I am seriously underfucked”, diz a senhora gorducha, tentando se engraçar com o herói da trama. Um protagonista que, aliás, parece caminhar pelo filme como uma alma penada, sem demonstrar muito espanto com as reviravoltas descobertas (sempre suavemente) enquanto tenta identificar o traidor que, lá do topo do serviço secreto inglês, vaza informações para os soviéticos. Alfredson conduz essa caça com paciência infinita, indo e vindo no tempo sempre que necessário, e criando lacunas enervantes nos momentos da narrativa que (se este fosse um filme de Sherlock Holmes) nos explicariam didaticamente algo importante sobre esta bloody mess.

Em resumo: o filme (perdoe o trocadilho terrível) não me deixou entrar. Mas, lá de fora, ele me pareceu admirável. Alfredson está no comando, com firmeza, sabotando a paleta de cores, o ritmo e o temperamento de um filme-de-produtor (um dos produtores, note a responsa, é o próprio Carré). E é sempre bonito quando um bom cineasta nos mostra que, às vezes, esse tipo de coisa acontece.

(Tinker Tailor Soldier Spy, 2011) De Tomas Alfredson. Com Gary Oldman, Colin Firth e Tom Hardy. B+

7 comentários em “cine | O espião que sabia demais

    Marcus Pessoa disse:
    janeiro 15, 2012 às 2:26 am

    Acho que, depois de alguma dificuldade inicial, dá para seguir o fio da história, mesmo deixando-se arrebatar pela performance incrível do Gary Oldman, que domina cada cena mesmo às vezes sem dizer uma palavra.

    Mas só seguir a história não adianta. Motivações de alguns dos personagens ainda parecem obscuras. Acredito que uma segunda vista (que pretendo fazer esta semana) devem aclarar melhor as coisas — e tornar o filme ainda mais prazeroso.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 15, 2012 às 9:44 am

    Gary Oldman tá genial mesmo, verdade.

    Agora, sobre as confusões da trama: entrei no cinema sem saber muito sobre o filme, penei pra acompanhar a trama mas, no fim, ela me pareceu fazer sentido. Daí resolvi ler a sinopse completa e notei que não tem furo ou incoerências no roteiro, mas muitas lacunas talvez propositais, e que eu teria aproveitado mais a sessão se tivesse lido esse texto (ou o livro) previamente. Mas se isso é um problema no filme? Talvez sim. Não acredito que o objetivo de uma produção desse porte seja o de alienar o espectador. Por outro lado, é raro encontrar um filme comercial que exige esse tanto de atenção do público. Na sessão em que vi, rolaram algumas desistências, algumas pessoas reclamaram etc. Por mim, tudo bem. No entanto, fiquei com a vontade de ver de novo, já conhecendo a trama completa.

    Filipe Furtado disse:
    janeiro 15, 2012 às 12:14 pm

    Estava curioso para ver reações de quem não leu o livro justamente pela forma meio obtusa com que a trama é apresentada (algo que o livro faz e o filme por questrões de compreensão intensifica).

    Discordo que seje um filme de produtor (ou que a presença de LeCarré signifiue muita coisa), até uma adapração bem fiel aos eventos do livro, mas em termos de tom e enfasês é um olhar bem próprio sobre o material.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 15, 2012 às 12:17 pm

    Bacana saber disso, Filipe, porque não li o livro. Mas é um projeto pessoal do Alfredson? O roteiro não é dele, tem um monte de produtor, é caro, o Carré tá lá… Tenho que ler mais sobre o assunto, não sei.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 15, 2012 às 12:29 pm

    Bem, fui pesquisar: o projeto começou com o Peter Morgan, depois a produtora Working Title contratou o Alfredson. Então é filme de produtor sim, só que concordo que o diretor conseguiu se apropriar disso e impor o olhar dele – foi o que eu tentei dizer no post.

    Thaís disse:
    janeiro 16, 2012 às 4:44 am

    Ratifico os comentários sobre Gary Oldman. Ele está sensacional! A “elegância críptica” que você menciona é uma das qualidades que me fez gostar desse filme. Acredito que a forma como a narrativa é sutilmente desenvolvida faz dele um dos melhores filmes sobre espionagem que já vi. Admito que terei de assistir de novo para pegar uns detalhes que deixei escapar… ninguém é perfeito.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 16, 2012 às 3:57 pm

    Também vou tentar ver de novo, Thaís.

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