Dia: janeiro 14, 2012

cine | O espião que sabia demais

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Recomendo que, antes de entrar no cinema, o caro leitor precavido deste blog leia a sinopse completa deste filme — e por sinopse completa eu digo: o início, o fim e o meio da trama. Melhor ainda seria procurar um exemplar do livro de John le Carré que deu origem a este longa-metragem. Pode parecer um conselho estúpido — e, acredite, detesto os estraga-surpresas —, mas, no caso, ele faz muito sentido, acredite: quem se preocupar demais com o fio desta narrativa vai acabar subestimando as bordas deste filme — e é o que ele tem de melhor.

Isto é: a elegância críptica, esfumaçada, a kind of dark blue, como Tomas Alfredson (do estupendo Deixe Ela Entrar) entra nos lares dos agentes de Carré. Os personagens, velhos especialistas em arapongagem internacional, parecem encarnar o estágio em que o serviço de inteligência britânico se encontrava no início dos anos 70 (era, digamos, um móvel pomposo e antigo e imponente, mas largado no canto da sala). O cineasta impõe uma postura distanciada que dá ao filme um ar bolorento, pesado, e transmite uma sensação de agonia, de Guerra Fria, até para aqueles que (como eu) se perdem na trama.

O roteiro, para nossa sorte, mantém graciosamente o tipo de diálogo que encontraríamos num bom livro britânico. “I am seriously underfucked”, diz a senhora gorducha, tentando se engraçar com o herói da trama. Um protagonista que, aliás, parece caminhar pelo filme como uma alma penada, sem demonstrar muito espanto com as reviravoltas descobertas (sempre suavemente) enquanto tenta identificar o traidor que, lá do topo do serviço secreto inglês, vaza informações para os soviéticos. Alfredson conduz essa caça com paciência infinita, indo e vindo no tempo sempre que necessário, e criando lacunas enervantes nos momentos da narrativa que (se este fosse um filme de Sherlock Holmes) nos explicariam didaticamente algo importante sobre esta bloody mess.

Em resumo: o filme (perdoe o trocadilho terrível) não me deixou entrar. Mas, lá de fora, ele me pareceu admirável. Alfredson está no comando, com firmeza, sabotando a paleta de cores, o ritmo e o temperamento de um filme-de-produtor (um dos produtores, note a responsa, é o próprio Carré). E é sempre bonito quando um bom cineasta nos mostra que, às vezes, esse tipo de coisa acontece.

(Tinker Tailor Soldier Spy, 2011) De Tomas Alfredson. Com Gary Oldman, Colin Firth e Tom Hardy. B+

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top 100 | Os filmes da minha vida (13)

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Ainda que ninguém tenha organizado marchas ou atos de protesto ou (quem sabe) churrascos contra a interrupção deste ranking, ele está de volta, cheio de amor pra dar, com mais dois filmes pra lá de astonishing, pra ver (de preferência) antes de morrer.

Deu preguiça de postar a lista dos longas que apareceram aqui em edições anteriores, mas prometo que vou estar cumprindo esta demanda no próximo experiente. Até mais.

076 | O Pântano | La Ciénaga | Lucrecia Martel | 2001

O cotidiano desta família de classe média na cidadezinha de Salta, na Argentina, tem incríveis semelhanças com algumas cenas da minha infância suburbana no Rio de Janeiro, quando também ficávamos todos estirados à beira da piscina suja enquanto as crianças quase sofriam terríveis acidentes domésticos. O Pântano, obviamente, não é só isso. É, antes, o ponto de vista de uma cineasta capaz de, com alguns movimentos de câmera, enquadrar a crônica familiar numa espécie de moldura surrealista – o que complica, lindamente, qualquer interpretação sociológica do filme.

075 | O Fim de um Longo Dia | The Long Day Closes | Terence Davies | 1992

Um filme sobre lembranças de infância que (só pra não fugir do tom ultrapessoal do parágrafo acima) diz muito a respeito da minha adolescência, que também foi tomada por um fog de solidão (num cenário mais ensolarado, no entanto). O cinema era a minha companhia, às vezes minha única companhia, daí que acredito compreender o que passa no imaginário do personagem principal, Bud. Quando assisti ao filme pela primeira vez, numa fita VHS, não consegui perceber o que havia de encantador nele. Mas, sem que eu me esforçasse, ele foi ficando na minha memória, se instalando feito um halo – até se tornar um retrato borrado do meu passado.