cine | Cavalo de Guerra

Postado em Atualizado em

Na cena de Munique que mais me incomoda, um soldado israelense se encontra com o inimigo — um combatente árabe — num prédio em ruínas. O clima entre eles é de trégua: naquele momento, naquele lugar, no maravilhoso mundo das licenças poéticas (resumindo: no cinema de Spielberg), judeus e muçulmanos têm a chance de conviver em paz. Let’s Stay Together, de Al Green, é a música que vai na trilha sonora.

A sequência toda deve durar três, quatro minutos dentro de um filme de três horas de duração — mas ela resume muitos dos problemas que vejo no diretor: o jeito como infantiliza questões complicadas, recorrendo a encenações redundantes, fáceis, for dummies. Não basta filmar um encontro lírico entre um israelense e um árabe: a cena virá sublinhada com Let’s Stay Together (de preferência, com uma fotografia que dê preferência ao contraluz).

Acho que por isso acredito Spielberg se movimenta com mais naturalidade em filmes infantojuvenis. É o caso de Cavalo de Guerra, um conto de guerra para crianças que pode ser “lido” como um daqueles livrinhos coloridos cujas ilustrações reiteram o conteúdo dos parágrafos. É longo (duas horas e meia), inflado (como se espera de um filme do diretor). E, ao pé da letra, espetacular: há pelo menos três cenas em que um grupo numeroso de figurantes faz plateia para uma ação que envolve o cavalo-herói (numa delas, o animal aprende a trabalhar no campo; em outra, o bicho é leiloado etc).

Lembro de uma entrevista do Sam Mendes em que o diretor de Beleza Americana falava sobre um conselho que recebeu de Spielberg: faça de cada uma das cenas a melhor do filme.

Em Cavalo de Guerra, Spielberg está apenas seguindo o próprio conselho: “engrandece” cada cena, até as menores (uma conversa de família, no quintal da fazenda, é filmada sob um céu azul-berrante), nivelando a narrativa numa escala de grandiosidade que, admito, me cansa. As cenas são todas muito bonitas e bem fotografadas — como acontecia na primeira metade de Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, o diretor acena o tempo inteiro para um cinema narrativo de brechó, cuidadosamente antiquado —, ainda que o acúmulo desses momentos-Oscar, acompanhados de uma trilha incessante de John Williams, prenda a trama pelo pescoço, sufocando-a.

De qualquer forma, Spielberg está em casa, sempre muito confortável dentro de um rancho spielberguiano: quando a cor é de conto de fadas, as fantasias adolescentes do diretor parecem até fazer sentido; compro todas sem muitos problemas. A cena que mostra um bate-papo entre um soldado inglês e um combatente alemão, ambos comovidos pelo sofrimento do cavalo mágico —não me irrita tanto quanto a sequência-irmã de Munique (porque, aqui, é a fantasia que se impõe). E, se o plano final já rende muitas comparações a John Ford (e me desculpem, mas acho de uma obviedade sofrível, ainda que linda toda-vida), o tom de fábula otimista, sinceramente bem intencionada, me lembra alguma coisa de Capra.

É, baixem a guarda!, um Especial de Natal da Sessão da Tarde — e que vai ficar ainda mais adorável quando acompanhado de uma dublagem bem cafona.

(War Horse, 2011) De Steven Spielberg. Com Jeremy Irvine, Emily Watson e David Thewlis. 146min. B

8 comentários em “cine | Cavalo de Guerra

    Adalberto disse:
    janeiro 9, 2012 às 10:53 pm

    A dublagem brasileira para filmes é a melhor do mundo, Tiago.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 9, 2012 às 11:08 pm

    Não duvido, Adalberto

    Pedro Primo disse:
    janeiro 10, 2012 às 3:27 am

    Qual melhor Spielberg pra você? Por essa lógica fiquei com a impressão de ser A.I. Que deve ser meu favorito também – apesar de ter certeza de que o Kubrick faria um filme muito melhor.

    Rafael disse:
    janeiro 10, 2012 às 4:23 am

    O do Tiago eu não sei, mas o meu com certeza é Tubarão.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 10, 2012 às 7:57 am

    Meu preferido é AI, mas também gosto muito dos primeiros: Encurralado e Tubarão.

    Felipe Queiroz disse:
    janeiro 10, 2012 às 11:46 pm

    Ave, Tiago, sofri demais com esse filme. Insuportável do começo ao fim, não me aguentei da cadeira. Já não bastava um cavalo ser protagonista, ainda tenho que ver um melodrama sem fim. A cena dos soldados eu até aguentei, mas depois que um começou a fazer piadinha com o outro foi de mais. O final pra mim soou mais como uma breguice do que homenagem. Por mais que você encare como um filme de fantasia e tal, pra mim não funcionou. Sem contar na atuação do menino, pior que a cavalo. Acho que foi o pior do Spielberg que já vi.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 11, 2012 às 11:45 am

    Detestei o trailer, Felipe. Mas o filme acabou me surpreendendo, até porque acho que o Spielberg não tem a capacidade de falar de temas muito mais complexos que esse aí.

    cine | As Aventuras de Tintim « superoito.com disse:
    janeiro 17, 2012 às 12:23 pm

    […] (e deixe-me tirar esse elefante da sala), uma aventura correta. Aposto que muitos dos detratores de Cavalo de Guerra — o outro Spielberg da temporada, mais derramado e kitsch — vão encontrar o passatempo […]

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s