Dia: janeiro 6, 2012

♪ | Let’s Go Eat the Factory | Guided by Voices

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O novo do Guided By Voices não é só mais um entre os 567.985 discos que a banda gravou. Talvez seja um dos mais estimulantes desde 1996, por dois motivos: em primeiro lugar, porque reúne a formação que gravou alguns dos melhores álbuns dos anos 90 (entre eles, Bee Thousand e Alien Lanes); e, em segundo, porque a banda encena a própria juventude, usando métodos antigos, que ela havia abandonado naturalmente. Por exemplo: as músicas foram registradas em várias “locações” (garagens, sótãos, gravadores antiquados) para que soassem diferentes umas das outras, e sem polimento, como se nascidas de uma espécie de jorro de criação. É como se, digamos, Todd Haynes decidisse filmar, em 2012, um filme rascante como Poison. Faria sentido? Ou não faria?

Numa entrevista para a Uncut, Tobin Sprout comentou que o disco novo é “muito diferente” daqueles antigos porque “somos pessoas diferentes”. Resumiu de forma exemplar por que este disco me parece tão revelador. Ele mostra, pra começar, que as microcanções toscas (e ocasionalmente lindas) de Rob Pollard soam mais alienígenas hoje do que soavam em 1995 — e não porque o compositor tenha mudado muito; o contexto é que se transformou. E que, em parte do tempo, ele tenta adaptar ao formato “old-school” uma sensibilidade pop que ele depurou em discos (menores, para o fã mais enfezado) como Isolation Drills: daí a existência de faixas “profissionais” como The Unsinkable Fats Domino e We Won’t Apologize for the Human Race, que parecem entrar em conflito com o desenho do disco. E Tobin Sprout… Bem, esse está envelhecendo graciosamente.

É um disco autoreferente, movido por um estranho desejo de refazer percursos que já foram traçados e que já não interessam a quase ninguém. No mais, as minhas preferidas (God Loves You à frente de todas) funcionam como audiocursos para o que mais me entusiasmava no lo-fi dos anos 90: canções vazias em quase tudo, e ainda assim (não me pergunte como) singulares.

Décimo sexto disco do Guided By Voices. 21 faixas (em 41 minutos), com produção da própria banda. Lançamento Guided By Voices Inc. B

cine | O homem que mudou o jogo

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Moneyball não é um filme de beiseball (um tema que, sinceramente, não me interessa), mas sobre inovação em empresas. Daria um bom material para palestras de departamentos de Recursos Humanos: temos aqui a história de dois homens que criaram um método para que times não tão grandes — e sem muito dinheiro — vençam jogos importantes. Entre outras dicas de administração, a trama mostra que: 1. Muitas das inovações profundas não produzem resultados imediatos e claros, o que pode ser frustrante para os inovadores e que 2. No fim das contas, os poderosos vão acabar se apropriando das invenções para manter uma antiga hierarquia de poder.

Eu, que não vejo filmes para engolir lições singelas de empreendedorismo, acharia muito banal se este longa de Bennett Miller (diretor de Capote) se contentasse com aquele velho mandamento dos telefilmes edificantes: mostre-me um caso real para que eu aprenda algo com ele. Felizmente, não é só isso. Também é o perfil de um homem, o gerente esportivo interpretado por Brad Pitt — um sujeito turrão, que confia absolutamente nas próprias convicções e tem tino (e coragem) para rechaçar o Grande Esquema (Administrativo) das Coisas.

É um herói com certas angústias. Ele tem uma filha adolescente, e quer ser um exemplo para a menina. Ao mesmo tempo, tenta obsessivamente fazer algo importante, significativo (de preferência, ganhar o título da competição principal de beiseball). Diante desse personagem bidimensional, o roteiro achata todos os coadjuvantes. Até o assistente de Pitt, o nerd interpretado por Jonah Hill, só parece servir para escorar o todo-poderoso, e me parece um tipo funcional na trama (e aí acho que o filme erra feio, já que o personagem de Jonah é o inventor principal da fórmula que Pitt usa para selecionar jogadores e ganhar jogos).

Quando não está tentando nos comover, o filme sugere uma discussão sobre a perda de espontaneidade nas competições esportivas, que se tornam cada vez mais racionais, técnicas, balizadas por esquemas matemáticos. Bennett não tem uma posição clara sobre o tema: às vezes dá a impressão de que torce para que o esporte permaneça imprevisível (apesar de figuras como o personagem de Pitt), mas está sempre ao lado do protagonista do filme, que, nos créditos finais, aparece como uma espécie de pioneiro injustiçado.

A própria estrutura do longa não privilegia reflexão alguma: o diretor quer explicar o caso direitinho (que é interessante, mas eu preferiria ter visto um documentário sobre o assunto) e partir correndo para o abraço (as cenas de catarse). O roteiro, escrito por Aaron Sorkin (A Rede Social) e Steven Zaillian (A Lista de Schindler), parece ele próprio construído por um software — um esquema matemático — que seleciona os trechos mais eficientes de outros sucessos. É curioso: o filme defende o inventor que “mudou o jogo”; mas ele próprio, o filme, também pode servir como um ótimo argumento para quem sai a favor de um esporte (e de um cinema) menos pragmático e mais falível.

(Moneyball, 2011) De Bennett Miller. Com Brad Pitt, Jonah Hill e Robin Wright. 133min. C