[michel laub]

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1.
O diagnóstico do Alzheimer é feito em várias etapas. Primeiro é uma consulta simples, o médico pergunta sobre os lapsos de memória do paciente, se ele fuma e bebe, se toma remédios, se teve alguma doença grave e fez algum tratamento ou cirurgia nos últimos anos. O médico ouve os batimentos cardíacos, mede a pressão, pede exames clínicos de orientação e linguagem, e em seguida uma tomografia, e também uma ressonância magnética, e também uma dosagem de hormônios da tireoide, e também de cálcio e fósforo e vitamina B, e também recomenda o PET Scan e o SPECT, uma série de procedimentos para excluir outras causas para os lapsos, como o estresse, a demência, a arteriosclerose, a depressão e o tumor.

24.
Primeiro o meu pai deixou o assunto o mais próximo possível de uma rotina doméstica, e tenho até a impressão de que ele se empenhou para que a minha mãe continuasse lidando com isso como se nada houvesse acontecido, um esforço para continuar reproduzindo diante dela as manias costumeiras, e cada vez que eu telefonava ela dizia que ele continuava do mesmo jeito, os resmungos, a louça e as calças, o programa de rádio de manhã. Era como se ela e eu nos convencêssemos de que meu pai ainda era o mesmo, uma espécie de licença renovada a cada telefonema. Passou a ser comum ele repetir a pergunta que fez dois minutos antes, e dar dinheiro em excesso à faxineira ou ao porteiro, e mudar de humor no meio de uma conversa, mas parecia ainda estar longe a tarde de inverno em que ele surpreenderia a minha mãe, um gesto nunca antes visto, uma palavra que em quarenta anos de casamento ela nunca tinha ouvido da boca dele, uma novidade que anuncia uma sequência ainda mais acelerada de mudanças, meu pai perdendo um pouco do que qualquer um de nós reconheceria como algo único dele, e uma manhã ele acorda sem saber o nome de uma cidade, e na outra se um animal voa ou nada ou se arrasta, e numa terceira a marca do próprio carro e como se usa o acelerador e o freio, e de repente ele não sabe há quantos anos está casado com a minha mãe, e nessa tarde de inverno tomando chá e distraída com o relógio de parede que marca cinco horas ela percebe que ele não faz ideia de quem é e do que está fazendo ali.

[trechos do livro Diário da Queda, de Michel Laub]

Um comentário em “[michel laub]

    Alê Marucci disse:
    janeiro 2, 2012 às 4:35 pm

    Quero ler esse livro.

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